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sexta-feira, 27 de abril de 2012

Protesto, desilusão e política


Nas eleições presidenciais francesas de 2002, chamou a atenção o fato impressionante de a extrema direita, com Jean-Marie Le Pen, ter chegado ao segundo turno. Dez anos depois, Marine Le Pen, filha de Jean-Marie, obtém uma votação até mesmo maior do que o pai, apesar de ter ficado em terceiro lugar. Embora não tenha sido uma surpresa, tendo em vista algumas previsões dos institutos de pesquisa, esse desempenho da Frente Nacional instiga a uma reflexão sobre o comportamento do eleitorado. As propostas deste partido, em sua maioria, são típicas das correntes políticas mais à direita: elevação e criação de barreiras protecionistas, xenofobia (com uma rejeição explícita aos islamitas, devido ao que a candidata chamou de uma “invasão muçulmana”) e retorno da pena de morte à legislação.

Creio que as análises possam tender a dois pólos. O primeiro seria assumir algo “óbvio”, mas que se pode retirar do foco de visão devido a alguma miopia intelectual, a saber, o fato de que muitos eleitores franceses são de fato racistas e xenófobos, e compactuam com a idéia de um fechamento das fronteiras do país, também no âmbito econômico (a candidata da Frente Nacional também propôs a saída da França da zona do euro). O que teria ocorrido, então, é uma coragem de boa parcela do eleitorado em falar mais alto, assumindo uma postura que em outras vezes não se exprimiu com clareza. Esta é a perspectiva de Vladimir Safatle, por exemplo, tal como falou em sua coluna da Folha de São Paulo de 24 de abril.

A segunda direção para a análise é a de considerar os votos de Le Pen como de protesto, particularmente contra a política de Sarkozy. Dada a crescente insatisfação com o posicionamento da França no cenário de crise econômica européia, os eleitores teriam votado em um candidato com quem não necessariamente se identificam, mas que representa uma negação e afronta a um projeto político em relação ao qual estão desapontados, desiludidos. Tal como ocorre em casos semelhantes, em que mais vale a negação de uma realidade política, e menos a afirmação de programas específicos, os eleitores teriam escolhido um candidato cujo posicionamento é tão extremo quanto a indignação perante os rumos do país.

Creio que ambas as perspectivas contemplem aspectos efetivamente existentes dessa realidade. De fato, é inegável que uma parcela do eleitorado se identifique com as posições racistas e isolacionistas da extrema-direita, bem como outra se compraza em apenas externar uma frustração para com um projeto político que já puderam experimentar durante vários anos. Por outro lado, penso que essa expressiva votação da extrema direita seja um sintoma deveras interessante de uma dinâmica da vida política, particularmente de inserção do indivíduo no âmbito macro da sociedade.

É muito evidente que este acontecimento deve ser entendido no contexto da enorme crise política que afeta toda a Europa. A questão reside em saber por que um quinto do eleitorado francês favoreceu, não propriamente uma uma corrente de direita, mas de extrema-direita.

De meu ponto de vista, existe algo em comum entre os vários tipos de voto-protesto (como o que o elegeu o palhaço Tiririca no Brasil, em que está em jogo a negação da política em sua face mais evidente) e esses crescimentos da extrema-direita, que possuem entre seus fundamentos a exclusão social e nacionalismo exacerbado. Em ambos os casos, a disposição para o engajamento em projetos progressistas e inclusivos cede espaço a uma relação verticalizada com a política, em que, por um lado, se aposta em medidas duras, imediatas e com um foco preciso, direcionado para aspectos da vida política situados mais na superfície, como é o caso da imigração, e, por outro, toma-se a instituição política em bloco, como algo que pesa e se impõe violentamente sobre o indivíduo, e a atitude do eleitor significaria um modo de cada um se excluir, se afastar desta trajetória opressiva.

Está muito claro que tanto o voto protesto típico quanto os dirigidos à extrema direita indicam o desejo de eliminar mediações construtivas, que tenham em vista mecanismos laboriosos de construção de soluções complexas e de médio/longo prazo. A questão reside em saber se haveria uma lógica mais substantiva no processo de integração política do indivíduo para além desejo de exprimir tendências políticas pouco “nobres” ou de simplesmente protestar contra tudo e todos, votando em uma campanha bizarra de um candidato sem absolutamente nenhum projeto político.

Os panoramas políticos que admitem grande diversidade de correntes nas eleições (ou seja, que não possuem a polarização drástica tal como nos EUA, entre democratas e republicanos) permitem fazer uma análise de uma típica disposição dos indivíduos em participar de forma construtiva, progressista e inclusiva no espaço público. A minha idéia é de que se deve prestar atenção ao modo como essa disposição é favorecida precisamente com a percepção de que as ações políticas governamentais podem, de fato, ser eficazes na construção de uma realidade social satisfatória, consistente e favorável a uma democracia não apenas formal, mas também de conteúdo. Eu diria que, apesar da existência de inumeráveis circunstâncias de exceção, nas épocas em que há a percepção de um progresso consistente por vias de decisões políticas, haveria por parte da população maior receptividade às propostas de tendências situadas mais à esquerda do espectro político, que privilegiam políticas sociais, de incentivo à distribuição de renda, de reconhecimento de direitos de minorias, de atenção ao meio ambiente, de recuperação do valor da força de trabalho em confronto com o capital etc. Embora programas políticos típicos da direita também se afirmem em momentos em que vigore a percepção de um progresso mais constante, e que correntes da esquerda se saiam mal nestes mesmos cenários, parece-me que esta típica guinada à direita em momentos de desilusão e de favorecimento da esquerda em épocas de progresso constituem uma manifestação que me parece reveladora de algo inerente à política enquanto tal. Cada indivíduo se sente mais motivado a participar da dimensão construtiva das mediações de projetos políticos inclusivos e de médio-longo prazo na medida em que a conexão entre a cúpula de poder e os assuntos que lhes dizem respeito mais diretamente se mostra mais viva, operante, eficaz.

Como exemplo de aplicação dessa idéia, eu digo que a eleição de Lula em 2002 só foi possível em virtude do quanto o projeto político e econômico de Fernando Henrique Cardoso mostrou-se eficaz para a estabilização econômica e recuperação do poder de compra das classes médias. É evidente que a reeleição de FHC em 98 se deveu ao desejo de continuidade de uma política específica, mas o que parece bastante significativo é o fato de o PT ter conseguido superar uma resistência histórica das classes médias em 2002. Para além da recusa a José Serra especificamente, creio que o princípio mais profundo do movimento político que propiciou a eleição de Lula foi a disposição em apostar em um projeto político construtivo em virtude do modo como o projeto anterior se mostrou eficaz em larga medida. Que o final do segundo mandato de Fernando Henrique Cardoso tenha elevado a insatisfação popular foi, de meu ponto de vista, um catalisador para a eleição de Lula. De um ponto de vista mais “profundo”, esta tornou-se possível em função do desejo de reafirmar o movimento de progresso político que ainda estava vivo na memória, devido aos efeitos da estabilização econômica. (Naturalmente, há vários outros aspectos envolvidos, como a deliberada posição conciliadora do programa de Lula em 2002, pouco carisma popular de José Serra etc. Minha análise quer apenas salientar o quanto a aposta em Lula teve como uma de suas condições, de fundo mais geral, a receptividade a um movimento progressista motivado pela percepção concreta de um progresso econômico fundado em decisões políticas.)

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