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sábado, 7 de abril de 2012

Vende-se cultura


A foto à direita mostra uma reprodução, de boa qualidade, com uma boa iluminação e com um tamanho significativo, de um quadro do famoso pintor estadunidense Jackson Pollock. Não haveria nada de especial, não fosse o fato de a gravura estar colocada em um banheiro de um shopping center. Como todo o esquema de revitalização do espaço foi feito por um profissional qualificado, podemos supor com segurança que a gravura foi escolhida por ser aquilo que é: uma reprodução de uma pintura abstrata feita por um artista reconhecido no século XX. (Naturalmente, o fato de que as cores e a textura das manchas combinam com o ambiente foi levado em conta.)

A foto à esquerda, por sua vez, mostra o famoso mictório enviado por Marcel Duchamp em 1917 a um concurso de arte nos Estados Unidos. O nome que está grafado a mão, R. Mutt, refere-se a um humorista da época. Como vários livros de arte já comentaram abundantemente, trata-se de um gesto altamente crítico de Duchamp a vários fundamentos da prática artística e de todo o universo de apreciação estética, envolvendo as instituições (galerias, museus, exposições) e a crítica de arte. Trata-se de uma “obra” que não vale por sua qualidade plástica, ou seja, por suas linhas, cores e volumes, mas sim pelos significados ligados à crítica cultural que exerce através de seu gesto de recusa do status quo do mundo da arte, para usar uma expressão célebre de Arthur Danto. Duchamp não apenas não enviou uma pintura feita por ele mesmo, como escolheu um objeto fabricado industrialmente, feio e associado a urina.

É fácil notar a simetria dos casos, pois, no primeiro, temos uma pintura típica de grandes galerias situada em um banheiro, enquanto o mictório, peça de um banheiro, passou a integrar uma galeria. Em ambos os casos, temos a questão da mudança de contexto, que faz um objeto trivial se tornar arte, e (a reprodução de) uma obra de arte se transformar em um objeto cujo significado se distancia do original, e é este último caso que gostaria de comentar hoje.

A crítica que me parece mais evidente é a de que se trata de uma banalização da arte séria, reduzindo-a a um mero objeto decorativo em um local pouco “nobre”, em que se passa rapidamente, estando em um centro de compras. Ela perderia seu “valor de culto”, seguindo uma expressão famosa de Walter Benjamin, sendo absorvida em pleno momento de distração, muito distante da atitude contemplativa, mais longa e concentrada, típica da visita a uma galeria ou museu. Theodor Adorno diria que se trata de uma regressão de nossa percepção estética, em que a arte é forçada a se igualar aos objetos da realidade cotidiana e a que passamos a conferir tanta importância quanto o preço que nos cobram para vê-la. Jean Baudrillard diria que ela não chega a perder a sua qualidade como arte propriamente dita, mas é tomada como signo de erudição, digerida como mais um veículo de “culturalização”, quando a cultura é posta em segundo plano de existência, em que todos os objetos do grande centro comercial são amalgamados e vividos como suportes de significados alheios àquilo que cada um representa por si mesmo.

O que há de comum entre esses três autores é a consideração negativa do caráter mercantil da alta cultura, tornada homogênea aos demais produtos, em que impera o princípio capitalista de venda de objetos como suportes de significações agregadas pela publicidade, moda, tendências sociais etc. Nesse rebaixamento, a grande arte seria vivida como substituto para ela mesma, pois, em vez de os consumidores se dedicarem ao exercício reflexivo sobre seu significado, passariam a absorvê-la “aos pedaços”, como doses homeopáticas e sem significado expressivo, consistente. Trata-se do que Adorno chamou de semi-cultura (ou semi-formação), em que, em vez da ignorância, por um lado, ou do saber em sentido pleno, por outro, tem-se a mera satisfação de “fazer parte” do mundo da cultura, mas sem a mediação do esforço de sua aquisição elaborada.

De fato, temos uma aproximação que distancia, uma aquisição que empobrece, uma intimidade que nos torna estranhos à coisa. Em termos psicanalíticos, trata-se de um caso típico de solução de compromisso, em que se satisfazem, em um mesmo lance, dois desejos: o de participar da cultura erudita e o de se dispensar dela. O resultado é que esta última disposição pode ser satisfeita, mas agora com a enorme vantagem de uma menor consciência culpada ou senso de “inferioridade cultural”. Este seria o roteiro de grande parte do culto capitalista à personalidade, em que se evitam movimentos progressistas mais consistentes através de doses e signos de progresso, como é o caso em que a imagem pornográfica se coloca, em grande medida, no lugar da prática sexual efetiva.

Tendo a concordar com essa perspectiva, em termos gerais, mas creio que ela seja um tanto viciada por um consideração “descendente”, que considera a relação da alta cultura com a apropriação mercadológica de cima para baixo. Ela me parece levar excessivamente a uma visão por demais pessimista, uma vez que seu plano de fundo é quase sempre o de uma sistemática falsificação e empobrecimento da cultura. Creio que falte mais atenção ao que há de construtivo no distanciamento em relação a toda a base cultural sobre que se constitui a subjetividade. O princípio geral de análise daqueles autores parece convergir na acusação de que os aspectos mais substantivos e essenciais da cultura são diluídos em formas superficiais de apropriação. De meu ponto de vista, o fato de que uma boa reprodução de uma obra de arte moderna seja o objeto escolhido para ser comercializado contém não apenas esse índice negativo de expropriação da alta cultura, mas também uma indicação de certa “política do desejo”, que negocia com, elabora e constitui grande multiplicidade de formas em virtude de uma dinâmica sui generis. Esta deve ser vista como testemunhada pela — mesmo que incipiente —liberdade ou liberalidade com que diferentes signos são consumidos. Por mais que a atitude do consumo implique em alienação perante o que qualifica a cultura em sentido mais estrito (arte, ciência, filosofia, política), é preciso sempre colocar em jogo um princípio de compreensão que nos capacite a ver o quanto esse distanciamento se associa a um processo de subjetivação em que o gozo e o prazer com essa raiz mais objetiva das coisas cede lugar a uma apropriação como que em cascata de diversas formas de significado cultural, não se prendendo a nenhuma delas, e nem necessariamente se perdendo em meio a essa multiplicidade.

Não quero com isso, em hipótese alguma, negar que haja essa perda em alguma medida, devido ao movimento de flutuação indeterminada e sempre cambiante, impulsionada pelas tendências mercadológicas, especialmente ditadas pela moda. O que me parece extremamente importante é que essa semi-cultura não implica o desejo em sua totalidade, que ficaria reduzido a uma espécie de “semi-desejo”. Em outras palavras, a significação objetiva da depreciação mercadológica da alta cultura não nos permite deduzir uma expropriação dos desejos individuais. O otimismo cognitivo daquelas análises, em sua intenção de crítica cultural, acaba resultando em um pessimismo em relação ao que, na dimensão volitiva dos indivíduos, ultrapassa, excede, esse trilho conceitual traçado pela idéia de uma semi-cultura. — O outro lado da moeda é que, se prestarmos atenção de forma enfática a esta mobilidade dos desejos de apropriação sígnica da cultura, acabamos, por outro lado, por conferir mais “responsabilidade” a cada sujeito pelo fato de que se aprendeu a gozar com a oferta de alienação que a cultura sempre nos dá.

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