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sábado, 26 de maio de 2012

Ambiguidade moral


Uma das idéias de Freud que me parecem mais subversivas, no sentido de desestabilizar discursos ideológicos tanto à esquerda quanto à direita, é a de que a origem dos ideais mais elevados e nobres da cultura, quanto as ações mais abjetas e reprováveis é a mesma, a saber, os conteúdos inconscientes, que são fundamento de toda a subjetividade. Essa idéia contém um potencial crítico de todo discurso mais supostamente estruturado em direção a um otimismo dialético de ultrapassagem das vicissitudes desiderativas em direção a um patamar cognitivo e cultural elevado, bem como de uma perspectiva por assim dizer derrotista, em que o sofrimento, a miséria e as relações de poder calcadas na violência são vistas como intrínsecas à natureza humana, de modo a darem suporte a uma postura resignada, bem como pragmática.


Hyeronimus Bosch
Se essa idéia de Freud está certa, consequências podem ser tiradas em diversos âmbitos de crítica cultural, desde princípios epistemológicos mais gerais, até a consideração de projetos políticos mais específicos. Nesse panorama, a dimensão mais significativa me parece ser a ética, no sentido de mais diretamente afetada por este princípio de um ambiguidade dilacerante no valor que podemos conferir à energia psíquica que nos move a desejar e recusar os objetos. É fundamental a ideia de ausência de um ponto de ancoragem anterior à lógica historicamente estruturada dos desejos para o estabelecimento de parâmetros de valor, seja através da recorrência a planos de uma energia vital, seja a projetos racionais calcados em uma suposta moralidade inscrita na razão humana. Além disso, ela coloca em xeque substancialmente algum desígnio divino, religioso, que permitisse pensar numa espécie de natureza humana ou de essência da moralidade anterior às vicissitudes do modo como lidamos com nossos desejos.

Como tudo que é ambíguo parece nos colocar uma tarefa muitas vezes desesperadora, devido à dificuldade de estabelecer uma cisão de identidade clara, esta não-resolução desiderativa das formas culturais elevadas e baixas incomoda profundamente, devido ao fato de que o tempo todo estamos sujeitos a mesclar, confundir e mesmo inverter o valor que estamos dispostos a atribuir a determinado projeto de vida, político e de cultura em geral. Fica sempre mais tensa a perspectiva de como avaliar uma determinada realidade cultural, caso assumamos que seu impulso pode também mover ações cujo resultado se coloca em um extremo oposto de valoração moral. Lendo a moral kantiana, Adorno disse que nunca podemos ter certeza do valor moral de nossas ações, assumindo como correta a ideia de que a nossa intenção consciente de agir eticamente pode mesclar-se a ímpetos de ordem imoral, egoístas, de vaidade e de amor-próprio que colocam em cheque a moralidade da ação. Este princípio de incerteza moral, de meu ponto de vista, apesar de sua aparente concordância com a ambiguidade de que fala Freud, contém, na verdade, um princípio de sua justificação que contraria essa idéia psicanalítica.

A aparência de concordância provém, de forma clara, do fato de que nos retira a segurança da qualificação moral do agir. Isso, entretanto, caminha no sentido de exacerbar a dúvida a tal ponto que a moralidade vai coincidir o com o esvaziamento abstrato de uma ideia de que possamos negar, contrariar e superar toda e qualquer particularidade, e somente assim, em um plano ideal, nossa ação seria plenamente ética. Esse princípio de incerteza moral, por assim dizer, contém uma determinação essencialmente negativa do que é antitético como resultado de nosso desejo ao agir. A ação ética, como vários críticos de Kant já apontaram, não somente não deve ficar no plano das intenções, como também deve mesclar em sua determinação mais íntima o quanto o gozo com o mal está inextricavelmente ligado ao ímpeto para agir segundo valores éticos. Não somente não temos certeza de se nossa ação é ética, em decorrência da mescla de elementos alheios ao agir moral, mas, fundamentalmente, o próprio ímpeto para a ação ética pode servir a princípios estruturantes do desejo que se aliam de forma clara, sob o ponto de vista analítico, ao que consideramos oposto a tal elevação moral.

Se, como disse Freud, o processo analítico consiste em um trabalho arqueológico de escavação da estrutura psíquica, a dimensão ética deve ser vista como constantes sobreposições de camadas de fantasias e ideais valorativos não apenas confusos e indiscerníveis sob um princípio valorativo ético, como também “perigosamente” intercambiáveis. Sob qual princípio, a partir de qual postura ideológica e com base em qual fundamento valorativo iremos qualificar a dimensão ética de uma determinada ação — isso fica, de acordo com esta argumentação, bastante devedor da necessidade de equacionar dimensões contraditórias do desejo. Como essa contradição, de um ponto de vista psicanalítico, não apenas é substancialmente profunda, mas anterior a toda possibilidade de perspectiva ética consciente, pois a própria concepção de cisão valorativa é devedora dela, logo até mesmo a ideia de um estética da existência, de uma concepção “plástica” da vida humana é colocada em xeque, em virtude do fato de que esta deverá ser formada não apenas como uma matéria que admite formas infinitamente distintas, mas é movida por uma lógica intrínseca fundamentada em um equilíbrio instável de pólos opostos. — Esse tema de uma inadequação do conceito de uma “plástica” moral dos seres humanos será tema de postagens em breve.

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