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sábado, 19 de maio de 2012

O problema de uma ecologia humana



Quando se mesclam categorias tipicamente relacionadas às ciências naturais ao universo do comportamento, dos valores e dos desejos, propriamente sociais e, portanto, culturalmente determinados, tradições tipicamente humanistas tendem a demonstrar uma reserva muito grande. Não é difícil perceber o motivo: o risco de uma naturalização ideológica do âmbito cultural. Essa mescla, entretanto, foi cada vez mais favorecida e tomada como necessária. A crescente preocupação com os problemas ambientais colocaram na ordem do dia conceber um vínculo com o ambiente não apenas antrópico, mas também natural, de modo a favorecer formas de vida pautadas por uma racionalidade não-predatória, que se apropria de recursos levando em conta a capacidade de regeneração da natureza, contribuindo não apenas para a subsistência das gerações futuras, mas fundamentalmente incidindo nos modos com que a sociedade, tanto no âmbito micro, individual, quanto coletivo, concebem suas motivações e princípios de vida e de con-vivência. 


A ecologia sempre foi tomada como uma ciência dirigida às relações de um determinado ser vivo com seu meio ambiente, levando em conta os processos de relações que tanto contribuem quanto dificultam e até mesmo impedem sua subsistência. Em contraste com o âmbito cultural humano, a relação ecológica é marcada pela heteronomia das relações totais perante cada ser. Nenhum animal regula e/ou institui os princípios nos quais sua atividade de caça e proteção ocorre. Diferentemente, a realidade cultura humana é de tal ordem constituída que os princípios que regulam o funcionamento social, por mais que se situem na objetividade jurídica, por exemplo, são sempre passíveis de mudança, questionamento e re-instauração mediadas por processos dialógicos e democráticos, a depender do grau de abertura e universalização de acesso à cidadania.

Nesse contexto, a ideia de uma “ecologia humana” pode parecer estranha, e, dependendo do modo como é concebida, ser facilmente acusada de ideologia, ao forçar a passagem das vicissitudes valorativas da cultura pelos canais deterministas naturais. De fato, a pior maneira de configurar tal conceito me parece o de uma concepção do universo dos valores e do comportamento humanos calcada em princípios naturais, biológicos para o agir. Em vez de focalizar as vicissitudes da constituição subjetiva calcada pela apropriação reflexiva de si em virtude da assimilação in- e consciente dos valores culturais, o universo das ações fica perigosamente sujeito a princípios de constituição genética das leis que regulam o funcionamento biológico. Naturalmente, há diversos pesquisadores que se dedicam a tal tipo de pesquisa, tendo seus argumentos próprios a partir de suas pesquisas, de modo que não é o caso aqui de analisar especificamente este aspecto.

No outro extremo, entre os tipos de soluções para a acoplagem dos dois âmbitos em questão, está o de considerar apenas o modo como cada indivíduo se relaciona com a natureza, e então a problemática pode se reduzir drasticamente, focalizando apenas as necessidades de ar puro, alimentação, exercícios físicos, possibilidade de deslocamento no espaço etc. Teríamos, então, não propriamente uma ecologia humana, mas sim uma ecologia de um “ser vivo” específico, de modo que a difícil problemática das escolhas culturais dos alimentos, do modo de se satisfazer com o espaço e de obter prazer com o próprio corpo etc., caso fosse seriamente considerada, poderia levar a uma tal complexidade que tornaria muito incerto esse é viável a circunscrição de um objeto de estudo próprio, que não se diluísse e agregasse uma quantidade virtualmente infinita de outros discursos, como sociologia, psicologia social, antropologia, geografia etc.

As possibilidades de análise, assim, vão desde considerações bastante restritas à conexão do ser vivo humano com fontes de satisfação de carências biológicas até uma consideração multidisciplinar que acaba perdendo de vista completamente sua especificidade. A concepção que me parece mais interessante é a de Edgar Morin, que toma a ecologia humana como necessariamente ligada à natural, de modo a propor uma eco-antropo-sócio-logia. Para o autor, os princípios ecológicos que são vistos na natureza podem ser articulados no âmbito humano devido à imbricação necessária dos agrupamentos sociais e as dependências para com todo o complexo natural que os circunda. Em vez de uma naturalização forçada da cultura ou uma diluição do problema em considerações típicas das ciências humanas em geral, tem-se agora princípios de análise que almejam transitar entre a autonomia subjetiva para determinar o sentido das ações e a heteronomia dos processos tanto sociais quanto naturais que pesam sobre cada indivíduo e grupo social. Tais ideias estão presentes no livro O método, vol. 2. A vida da vida. Dentre os diversos argumentos, o que indubitavelmente nos parece o melhor e mais central é exatamente o princípio programático de articular os âmbitos da auto-determinação e dos fatores objetivos e externos ao princípio subjetivo/individual, que é o que abordaremos agora, ao mesmo tempo em que o criticamos em seguida.

As sociedades humanas não têm uma eco-organização em sentido literal, e o comando a partir de cima pelo Estado não é suficiente para explicar a dinâmica social. Há diversos elementos de concorrência, antagonismo, acentrismo/policentrismo, que se justapõem ao direcionamento jurídico/político, formando uma rede de complementaridade bastante afim aos princípios ecológicos da natureza, em que a espontaneidade própria da ação humana tem se haver com e é determinada em alguma medida pela rede impessoal das relações entre empresas, classes, sindicatos, agremiações etc.

É na diferença entre o espaço rural e o urbano que a ideia de uma ecologia humana se afirma com mais clareza. A tecnosfera, apesar de lidar com elementos naturais, como água, ar, terra etc., é propriamente caracterizada pela produção de elementos artificiais. Nas megalópoles, devido à concentração populacional, as diversas atividades humanas são bastante múltiplas, variadas e atritam entre si de forma vertiginosa, mas, ao mesmo tempo, obedecem a um fluxo, a um ritmo e a uma dinâmica legíveis a partir de constantes e variáveis sistematizáveis, podendo-se falar de uma eco-sócio-auto-determinação da vida humana. Diz Morin: “toda a sociedade comporta a sua própria dimensão ecológica. Toda a vida humana comporta a sua eco-inscrição e sua eco-determinação. Toda vida humana é, simultaneamente, eco-sócio-auto-determinada.” Isso significa, entre outras coisas, que não se pode falar apenas de uma auto-determinação subjetiva, fundada em arbítrio e vontade, como tampouco se poderia reduzir as constantes da vida social à dinâmica circular da ecologia natural. Deve-se sempre pensar em planos de interseção, recobrimento e interferência entre estes dois polos: do arbítrio subjetivo e da circularidade objetiva natural e social.

Tal perspectiva, que contém diversos outros aspectos, tanto anteriores, para sua fundamentação, quanto posteriores, de sua aplicação, demonstra a leitura que o autor faz da ideia de um pensamento complexo, que evita tanto a hipótese holística de uma totalidade previamente dada, tal como no princípio de uma inter-relação vital/energética de todos os seres entre si, bem como um pensamento meramente analítico, tal como ocorre nas ciências especializadas, em que os diversos fenômenos são traduzidos em virtude de sua compreensibilidade a partir de um ou mais paradigmas caracterizados por serem razoavelmente homogêneos. Na medida em que percebe uma organização de conjunto no objeto de estudo, essa perspectiva pretende localizar esta unidade, não como sistema, mas sim como uma organização cuja inteligibilidade é dada pela confluência de diversos saberes.

Tal como disse acima, esta me parece a melhor aposta para se conceber uma ecologia humana que evite a tradução do cultural em questões de ordem biológica, bem como da diluição do problema na multiplicidade de ciências sociais. Por outro lado, a perspectiva de Morin fundamentada em uma perspectiva essencialmente “operativa”, da subjetividade, o que não quer dizer behaviorista. Sua concepção do eu, ou do ego, a instância nuclear de auto-concepção e que impele às ações é essencialmente a de uma unidade computacional, de um processamento de elementos externos que afluem para este núcleo de comando, de modo a interagir com o meio e as demandas que lhe são realizadas. De um ponto de vista psicanalítico, a crítica que coloco, embora não tenha aqui o suficiente espaço para fundamentar mais propriamente, é a da ausência da difícil problemática da contradição dos desejos como mola propulsora do modo como o sujeito se compromete com e ao mesmo tempo recusa sua implicação inevitável nos compromissos relativos ao meio ambiente natural e social. Todo o programa de uma ciência ecológica que coloca em jogo a consciência ecológica, que faz com que a divisão fato/valor seja altamente problematizada, tal como vemos na abordagem de Morin, é de fato interessante, mas deveria incluir como um de seus ingredientes de questionamento crítico o quanto a própria ideia de valor é corroída por dentro, na medida em que o ímpeto desiderativo do sujeito é muito menos coerente do que a já pouco coerente idéia de valor. Parece-me que a ideia geral de uma ecologia humana pode ser, sim, válida, mas deve ser pensada como nutrida por um questionamento subjetivo íntimo/interno que faz com que a conexão entre subjetivo e objetivo deva ser lida também na conexão entre o arbitrário e o que é anterior a todo arbítrio consciente, fundamento de todo estabelecimento de valor, de modo a torná-lo altamente questionável em sua estabilidade: os movimentos de contradição do próprio desejo na conexão com a necessidade de lida com a natureza e de resposta às demandas sociais. Para colocar em termos metafóricos, deveríamos focar em uma espécie de princípio anti-ecológico que corrói por dentro e em sua base, a conexão multi-estratificada dos vínculos entre sujeito, natureza e coletividade. Nesse sentido, a complexidade da ciência deveria ser, ela mesma, submetida a um princípio de complexidade anterior às alternativas que se coloca em jogo nesses planos de realidade.

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