Um espaço de discussão sobre Filosofia, Psicanálise, Arte, Política, Crítica cultural e Atualidades.

sábado, 30 de junho de 2012

Entre o dicionário e a arte

O princípio de correção política, mais referido como o “politicamente correto”, surgiu nos Estados Unidos durante a década de 70 como um movimento cultural que visava a defesa de grupos tradicionalmente sujeitos à exclusão social, política e econômica, como os negros, homossexuais, minorias étnicas etc. Embora a ideia de uma ação politicamente adequada possa ser concebida, e posteriormente o foi realmente, como ligada a toda estruturação da sociedade, este movimento se referiu mais propriamente à correção da linguagem, do discurso e suas manifestações em diversas áreas. Meu comentário se dirige propriamente a essa sua dimensão originária, pois sua ampliação para outros campos de atuação demandaria um volume de reflexões por demais extenso, mas pretendo, de fato, abordar esses outros aspectos em ocasiões futuras.

Quando se está diante de um princípio geral, seja de ação ou de conhecimento, a problemática de suas aplicação envolve sempre questões relativas à mediação entre o âmbito mais geral, universal, e os casos específicos, particulares, concretos. Tal como já se tornou uma reflexão clássica na filosofia, se pretendemos elucidar uma regra geral através de uma outra regra para facilitar sua aplicação, fica bastante claro que esta segunda regra poderia, por hipótese, permanecer ainda abstrata, necessitando de uma outra especificação, ou até mais de uma, para se aproximar dos casos a serem compreendidos ou das formas de agir. Diante de uma multiplicidade indefinida de circunstâncias que variam não apenas em um mesmo contexto, mas também ao longo do tempo, recorrer a regras para especificar princípios mais abstratos é não apenas dispendioso, como também se mostra limitado, pois em algum momento a conexão entre o princípio geral e o caso particular deverá ser feita de forma direta, ou melhor, mediada não por regras ou princípios auxiliares, mas pela própria capacidade subjetiva de interpretar os casos concretos a partir de um princípio muitas vezes genérico demais.

Na tarefa de realizar essa mediação, a pergunta pela propriedade do vínculo entre o universal e o particular pode se dirigir fundamentalmente a dois campos: o da pessoa que julga e da própria regra geral. No primeiro caso, questiona-se a habilidade de quem aplica o princípio, ou seja, sua capacidade de fazer uma boa leitura de fatos à luz de conceitos genéricos, ou agir bem, no tempo certo, segundo a forma apropriada etc. No segundo caso, está em jogo o quanto o próprio princípio a ser empregado e/ou seguido é suficientemente claro, pertinente ao contexto, capaz de gerar interpretações ou atos coerentes e uma série de outros qualificadores/critérios. O resultado final, então, pode ser bom ou ruim dependendo tanto da habilidade de julgar/agir, enquanto também do princípio que norteia a interpretação/atuação. Ora, toda o enorme debate que se fez em relação ao politicamente correto deve levar em conta essas vicissitudes do vínculo entre o universal e particular. Pode este princípio especificar casos em que sua aplicação é claramente bem realizada? Suas motivações correspondem a perspectivas culturais progressistas e legítimas de um ponto de vista de construção de uma cultura mais humanizada, mais democrática e de valorização dos princípios de justiça social? — No outro extremo, como aporte crítico: ele abre margem para aplicações francamente inadequadas? Pode induzir leituras irrealistas de fatos e ações ? — ou seja, pode levar a perspectivas discrepantes em relação às vicissitudes da construção humanamente histórica do real?

De meu ponto de vista, a correção política está fundada numa perspectiva progressista, que caminha na direção de favorecer ideais de justiça social, de reconhecimento de condições de exclusão e de violência, contribuindo para formas mais avançadas de diálogo e de interação lingüisticamente mediadas. Parece-me irrefutável que diversas formas de relações de poder violentas (pois nem todas o são) se perpetuam nos usos da linguagem, produzindo recortes do real que induzem concepções de mundo criticáveis. É evidente que as palavras carregam conotações políticas, sociais, econômicas etc., de modo que valores ideológicos claramente legíveis como tais são por assim dizer “contrabandeados” no suposto fluxo espontâneo da comunicação. Infinitos são os exemplos para isso. Se uma notícia de jornal diz que um terrorista cometeu um atentado contra um grupo de pessoas, ou se o mesmo fato fosse narrado como um militante do partido X produziu um ato violento, temos duas leituras do mesmo fato diferentes em termos de pré-julgamento na própria designação do agente. Em vários casos semelhantes, temos designações pejorativas, ou seja, que induzem previamente uma forma negativa de aceitação ou recusa do predicado do que será dito em relação ao sujeito. De um ponto de vista bastante geral, eu diria que o princípio de correção política da linguagem pretende atuar conscientemente nestes mecanismos de sedimentação e “contrabando” de cargas ideológicas e de relações de poder no uso que se faz das palavras.

Em termos de aplicação mais geral e corrente deste princípio, parece muito claro que há momentos em que ela se realiza de forma consistente. Em vez de dizer “vagas para deficientes físicos”, parece-me bem mais adequado dizer “vagas para portadores de necessidades especiais”. A primeira expressão é francamente veiculadora de uma noção de exclusão social, exprimindo no âmbito lingüístico aquilo que as pessoas já sentem e vivenciam de forma dolorosa na vida real. Não se trata de “camuflar” ou dissimular a realidade concreta da condição física, mas sim de dar a tais pessoas a oportunidade de serem nomeadas não segundo o critério de sua insuficiência motora, mas sim pela diferença com que demandam formas de acesso e movimentação em espaços públicos. Outro exemplo, já clássico, é o do uso da palavra “american” para designar quem nasce nos Estados Unidos, quando me parece claro que o adjetivo, em português, “estadunidense” é francamente mais apropriado, pois não concede apenas a um país uma designação que na verdade é coletiva, pois, embora não haja América como designação de um continente, cada uma das três, do norte, central e do sul, são uma América.

Por mais que a intenção geral seja correta e progressista (o que, claro, ainda está em jogo) e haja aplicações boas, o princípio não contém uma clareza e especificação que lhe garantam sempre uma boa aplicação, nem que o tornem imune — e na verdade muito pelo contrário — a usos francamente inapropriados. Como exemplo de uma aplicação que pode ser discutida, consideremos o caso de uma campanha ecológica em uma escola de ensino médio em que um cartaz contém os seguintes dizeres: “Vamos cuidar de nosso planeta, antes que ele fique negro”. É muito evidente que ninguém patenteou a palavra “negro” para que seja usada apenas como designação de uma raça, mas parece-me francamente inadequado seu uso como qualificador de uma condição ecológica catastrófica, dadas as ressonâncias históricas de exclusão social daquela parte da população. Demandaria uma análise por demais extensa a investigação de casos específicos em que o princípio de correção política da linguagem é ruim. Quero aqui apenas focalizar dois exemplos paradigmáticos, que ilustram dois princípios gerais que caminham no sentido de negar a validade da noção de politicamente correto: o dicionário e as obras de arte.

Um promotor de justiça do estado de Minas Gerais entrou com uma ação contra a editora do dicionário Houaiss, alegando que a publicação apresentava significados claramente pejorativos para a palavra “cigano”, denegrindo a imagem de membros dessa sociedade. Tal como já foi bastante comentado e manifesto pela própria editora em sua defesa, o dicionário não tem a função de expurgar da linguagem os usos pejorativas, difamantes e agressivos do idioma, mas apenas documentá-los. Parece-me muito claro que todas as pessoas, tanto brasileiras quanto estrangeiras que ainda estão aprendendo nosso idioma, necessitam conhecer tais usos, pois, se não fosse pelo conhecimento, para até mesmo tomar consciência de que está sendo alvo de uma agressão. E parece bastante frágil uma possível alegação de que não documentar o uso de significados pejorativos da linguagem contenha um efeito indutor no sentido de fazer com que percam força ao longo do tempo, principalmente pelo fato de que tais usos parecem francamente independentes de seu registro no dicionário, sendo este bastante posterior ao modo como tais significados são inseridos na comunicação lingüística. Em termos gerais, eu diria que o dicionário está aquém dos compromissos ético-políticos do uso da linguagem, tendo a função precípua de nos informar sobre os mecanismos lingüísticos nas cenas de interação comunicativa.

O escritor norte-americano Mark Twain teve obras suas modificadas, em que se trocou a palavra nigger, pois é considerada pejorativa. De forma semelhante, obras do escritor Montero Lobato foram alvos de crítica, pois fazem um uso literário de expressões consideradas também politicamente incorretas. Nesses e em outros casos semelhantes, o princípio de correção política tem um uso francamente inadequado, pois o significado da articulação imagética e imaginária de elementos de nossa realidade social pelas artes, de modo simétrico ao do dicionário, está além das vicissitudes dos compromissos ético-políticos. Uma obra, na medida em que se coloca como ficção, como tendo seu sentido numa determinada forma de aglutinação lúdica de diversos estratos vividos no âmbito da realidade social, não deveria ser avaliada pelo modo como responde aos compromissos morais, religiosos, políticos, cognitivos etc., mas sim por sua excelência em criar um novo contexto em que os vínculos entre cada um de seus elementos fazem-nos alcançar uma significação sui generis no âmbito estético. Embora essa temática seja muito mais ampla do que o horizonte do politicamente correto, pode-se dizer que a arte sempre produzirá rupturas em relação ao significados dos elementos de nossa realidade atual, e na medida em que sua qualidade é aceita de forma significativa, os diversos mecanismos estéticos dessa ruptura, como ironias, dissimulações, deslocamentos, etc., fazem com que a obra seja drasticamente empobrecida ao ser avaliada segundo critérios de compromisso de adequação moral, política, cognitiva etc.

Desse modo, creio que o princípio de correção política possui um fundamento cultural e político louvável, apresenta casos em que sua aplicação é plenamente justificável, mas ao mesmo tempo pode degenerar para um desejo obsessivo de expurgo da linguagem das vicissitudes de nossa lida com a cultura. Apesar deste seu emprego inadequado, não creio que ele deva ser rejeitado em sua totalidade, pois, como disse inicialmente, a linguagem produz, sim, uma perpetuação de relações de poder que se sedimentam historicamente no modo como a comunicação é feita. Não se trata de simplesmente anular todos os caminhos e descaminhos que a história das relações humanas trilharam até agora, mas compreender que o modo como tomamos certas expressões como aceitáveis também faz parte da história, pois nós não apenas a assistimos e a registramos, mas também a fazemos, dando-lhe novos direcionamentos, que servirão de elo propulsor para o modo como as gerações futuras compreenderão a si mesmas.

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segunda-feira, 25 de junho de 2012

Política do desejo

A assim denominada marcha das vadias (tradução um tanto “desajeitada” de slutwalk) é uma manifestação que me parece significativa de um desejo de uma nova expressão e vivência do desejo — no caso, feminino —, não apenas no âmbito individual, na conscientização das vicissitudes de fantasias e de suas censuras, mas fundamentalmente nos modos como a visualidade do sexual e da produção do desejo do outro são vividas no âmbito ético-político. De forma análoga à parada gay, a vivência pública de conflitos desiderativos (= de desejo) é trazida à tona como uma “pauta” de reivindicações de reconhecimento de sua legitimidade como “ingrediente” cotidiano das trocas diversas, desde a dos olhares nos espaços urbanos, às da intimidade sexual consumada. Nesse arco de possibilidades de intercâmbio sexual-afetivo e de suas imagens/símbolos/signos, quer-se evidenciar o quanto o feminino situa-se no núcleo vertiginoso da ambigüidade que caracteriza o sexual: ao mesmo tempo fortemente desejado e repelido; ao mesmo tempo índice de uma carência inextinguível, como também de ansiedade, angústia e vergonha.

Nas diversas formas em que tal a ambivalência se faz sentir, a dimensão ativa do desejo feminino coloca frente a frente uma moralidade publicamente instituída de uma sociedade patriarcal machista e um objeto de desejo que quer se firmar publicamente como sujeito do desejar, com todas as peculiaridades com que a feminilidade se constitui em cada cultura e sociedade. Trata-se, em termos gerais, de questionar uma espécie de monopólio do desejo masculino, em que este se arroga o direito de afirmação ostensiva, explícita e insistente, sem pagar o preço da vergonha de se assumir como em falta, carente, necessitado do outro. Nessa política do desejo, o feminino precisa se haver com limites mais delicados para as formas de sua manifestação, particularmente quando as estratégias de sedução caminham no sentido de realçar tensões internas do desejo masculino. Estas últimas adquirem modos e graus infinitamente variáveis, mas podem ser exemplificadas com uma situação típica, em que um homem se coloca sempre de forma bastante impetuosa sexualmente perante as mulheres, mas, ao se defrontar com uma que demonstra um ímpeto igual ou maior, recua e pode perfeitamente se sentir acuado, colocado em xeque, devido ao modo com que sua exclusividade como sujeito do desejo é ameaçada. — É preciso, naturalmente, levar em conta as vicissitudes destas trocas sexuais, pois excessos e atitudes obsessivamente impetuosas são algo que tangenciam facilmente o patológico, tanto por um lado quanto por outro. O que importa aqui, entretanto, é ilustrar este princípio de uma ética sexual que retira tendencialmente da mulher o papel ativo no modo com que seu desejo é exercido. Em outras palavras, reivindica-se o reconhecimento da legitimidade da dimensão masculina do desejo feminino, que tem como correlato, por sua vez, a dimensão feminina do desejo masculino.

Os rituais em algumas sociedades africanas de mutilação genital feminina são uma prova incontestável da necessidade que tais organizações patriarcais sentem de, ao reduzirem a mulher apenas a um objeto de desejo, purificar este núcleo do que constitui o sujeito do desejar, restringindo-o ao universo masculino. A partir de um complexo intrincado de relações de identificação e diferença (sobre que já falamos em outra postagem), esses rituais bárbaros parecem dizer, pela boca do homem: “A mulher que há em mim não pode gozar”. O ser-feminino deve tendencialmente se reduzir a um objeto de busca, posse e proteção, de modo a suavizar ao máximo as tensões inerentes ao modo com que o estranho gozo desse outro constitui um componente inalienável do complexo fantasístico que anima por dentro a dinâmica sexual. Assim, quanto maior a evidência da voz ativa do desejo feminino, mais difícil parece ser a manutenção da consciência não-contraditória do desejo masculino, que se vê então forçado a uma “negociação” interna e externa com uma duplicidade sua por demais estranha e incompreensível. Claro está que quanto mais reconhecida é a legitimidade feminina do desejar, quanto mais esta sua “masculinidade” se afirme, tanto menor é a facilidade de a mulher ser reduzida a um objeto de posse, exclusividade. A percepção do homem de ser legitimamente objeto de desejo demanda um posicionamento em sua concepção de identidade sexual que pode facilmente ser difícil de equacionar, uma vez que sem alguma forma de empatia com esse olhar de quem me deseja, não parece haver suficiente espaço para a assimilação progressista, plástica e madura do que a mulher pode demandar. Além disso, tanto mais se torna difícil tomar o prazer da satisfação da mulher como seiva do próprio gozo.

Por outro lado, é muito evidente que relações de poder somente se perpetuam quando as diversas partes compartilham de princípios de pensamento e conduta, e não apenas uma delas. Esse machismo do monopólio do desejo sexual somente vigora devido ao fato de que não apenas os homens recusam às mulheres certo “valor” quando estas demonstram de forma mais explícita uma posição sexualmente mais ativa, mas elas próprias compartilham em larga medida deste princípio. Parece-me inegável que a clássica descrição da mulher como “O belo animal narcísico” — que se regozija na produção do desejo masculino e da admiração/inveja do olhar feminino, satisfazendo-se em larga medida no modo como é capaz de “manipular” as trocas de olhares e iniciativas — é também devedor de certo machismo quando toda essa mise-en-scène substitui, assume o lugar de, uma manifestação mais direta de desejo pelo outro. Em diversos momentos o gozo de ser um “troféu” para aquele suficientemente capaz de conquista parece uma simbolização, um deslocamento, que, ao longo do tempo, pode assumir certa exclusividade, fazendo com que vivências mais concretas e, em tese, mais satisfatórias fiquem em segundo, terceiro e quarto planos.

Se tais reflexões têm validade, então a slutwalk tem seu sentido muito além da reivindicação de se mostrar em sua exuberância feminina sem com isso dar ao outro o direito de violência, pois toca em um ponto nevrálgico da construção das identidades sexuais, em que o obscurecimento da voz ativa do desejo feminino demonstra, como sintoma, as fragilidades internas do universo da sexualidade.

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sexta-feira, 15 de junho de 2012

Mas que seja infinito...

Na crítica que se costuma fazer ao culto narcisista do próprio corpo, tal como este se fez presente nas últimas décadas, tornou-se quase lugar-comum apontar para o contraste muito claro com o papel que a corporeidade assumia nas doutrinas cristãs, particularmente na era pré-moderna. Em vez de ser um mero receptáculo para uma alma cujos valores eram infinitamente mais elevados, temos agora um objeto de uma série de rituais tomados não apenas como obsessivos, mas também altamente ilusórios, que transformam nossa forma física em objeto de devoção quase religiosa. Nesse cenário, quero ressaltar especialmente a crítica que se dirige ao que seria uma ilusão de todo esse investimento narcísico, fundada na idéia de que, ao contrário dos valores mais elevados não apenas da alma imortal — como também da cultura em suas formas mais nobres, a saber: arte, ciência, filosofia e religião —, o corpo está sujeito às vicissitudes da natureza, por sua vulnerabilidade às doenças e, obviamente, à inevitabilidade da passagem do tempo, ou seja, à velhice. Dessa perspectiva, o prazer com nossa dimensão somática seria tão frágil e efêmero como tudo aquilo que é da ordem da natureza biológica. — De meu ponto de vista, este argumento é essencialmente inválido.

Inicialmente, é preciso dizer que virtualmente qualquer coisa pode ser objeto de consumo, no sentido que Jean Baudrillard conferiu a esse termo, ou seja, em que algum objeto é valorizado, não por suas características e propriedades concretas, não por seu modo peculiar com que responde a um desejo simbolicamente estruturado, mas sim pelo fato de ser mero suporte, um signo, de diversos outros significados por demais abstratos e pouco definidos, como status, jovialidade, alegria, feminilidade etc. Na medida em que é consumido, o corpo, como todos os outros objetos, perde muito de sua substancialidade, tornando-se, de fato, fonte de um prazer tão vazio quanto, no final das contas, decepcionante. Em virtude dos efeitos da passagem do tempo, temos o consumo exacerbado não apenas de produtos como cremes de beleza e rituais de promoção da saúde em geral, mas de todo um imaginário da corporeidade como alvo de ações específicas de sua manutenção, dirigidas a aspectos artificialmente construídos e sedimentados em virtude das ofertas de bens e serviços no mercado.

Toda essa crítica da atitude consumista, entretanto, além de poder ser aplicada a qualquer tipo de objeto, não dá suporte ao argumento que apontei inicialmente. O ponto de apoio mais significativo deste não é propriamente o esvaziamento do objeto de desejo como apenas um signo de outra coisa, mas sim a impossibilidade concreta de o corpo manter-se como um objeto de desejo significativo, em virtude de sua fragilidade tanto presente quanto ao longo do tempo. Essa é uma diferença fundamental, devido ao fato de que a crítica do corpo como objeto de consumo deixa em aberto claramente a possibilidade de que ele seja alvo de um investimento afetivo mais concreto, simbolicamente refletido e consciente, gerando uma satisfação por aquilo que pode nos oferecer concretamente por sua beleza, vigor e saúde, e não apenas por nos proporcionar status ou pertencimento a um grupo social que compartilha alguma idiossincrasia. Essa distinção entre consumir e se apropriar concretamente de um objeto, na verdade, pode ser dita em relação a virtualmente qualquer coisa. Alguém pode perfeitamente comer um sanduíche da rede McDonald’s tendo como motivação mais substantiva o prazer que sente com seu sabor, sem dar a menor importância ao modo com que tais produtos são propagandeados, ou seja, pela veiculação ostensiva de um modo jovial, alegremente festivo e, sobretudo, conectado ao universo da cultura norte-americana.

Aquele argumento inicial, ao contrário dessa abertura a uma possibilidade concreta de apreciação do corpo, toma o desejo em relação a este como algo ilusório em virtude da dimensão concreta de efemeridade de seu objeto. Dito de forma bem direta e sucinta: uma vez que seu objeto é frágil e finito, logo o desejo é ilusório e tende à decepção. — Em contraste com isso, eu digo: a vida é efêmera, e isso não a torna menos desejável. A juventude e a beleza cristalina da pele, a força e robustez dos músculos, a agilidade dos reflexos, tal como a lucidez do raciocínio também marcam momentos de nossa existência, não nos acompanham indefinidamente do nascimento à morte, e também não são menos dignos de nossa afeição e investimento afetivo. Para que a satisfação de nosso desejo seja substantiva, duradoura e “verdadeira”, não é necessário que seu objeto garanta, factualmente, um suporte material indestrutível, “eterno” ou algo semelhante. Necessário é que em cada momento de nossa existência perdure a sobriedade com que percebemos não apenas sua mutação em suas vicissitudes, mas também tenhamos em mente que muito do vigor da própria vida consiste nos seus ciclos que se alternam indefinidamente. Que se tenha apenas uma infância, apenas um período de adolescência, que a maturidade de nossos juízos alcance um ápice para inapelavelmente dirigir-se à senilidade é um índice do que a vida precisa para nutrir a si mesma. Não faria sentido fantasiar que vivêssemos mil anos para amadurecermos “muito mais” nossa perspectiva de mundo. A realidade de que temos um ciclo bem menor do que esse deve nos instruir, na verdade, a perceber o quanto é parte substancial de nossos desejos o fato de que nossas satisfações são momentâneas.

Cada fase, período e momento da vida solicita um determinado tipo de investimento que pode ser — e eu diria que inevitavelmente o será em alguma medida — insípido, ridículo e mesmo incompreensível da perspectiva de outro. Paixões ardentes em relacionamentos momentâneos e sem compromisso podem ter perfeitamente todo o apelo para alguém em uma época da vida, sem que isso necessariamente resulte em decepção e arrependimento quando, posteriormente, esta mesma pessoa passe a cultivar o gosto por relacionamentos estáveis e com profunda cumplicidade mútua. Da mesma forma, toda a exuberância corporal pode ser, sim, objeto de um desejo significativo sem se mesclar a nenhuma desilusão, conquanto seja usufruída como um ingrediente da mutabilidade indefinida do viver. O que torna ilusório o desejo não é a efemeridade de seu objeto, mas sim a fantasia metafísica de um prazer lastreado por algo que transcenda a efemeridade da vida.

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sexta-feira, 8 de junho de 2012

Homo pulsionalis

O ser humano possui instinto de sobrevivência? A mulher possui instinto maternal? - Antes de responder a estas questões, é interessante analisar os termos em que são colocadas. Creio que esteja bastante claro, para a nossa compreensão comum, o que a palavra “instinto” signifique em ambos os casos: um impulso, dado por natureza, que nos levaria a agir de uma determinada maneira. Se assumimos, por exemplo, que as mulheres possuem um instinto maternal, então isso tem consequências muito significativas em nossa avaliação ética e cultural do posicionamento daquelas que dizem não possuir nenhuma vontade de ter filhos. Essa recusa significaria, então, uma espécie de desvio, negação, recusa de algo que nos é dado pela própria natureza. Do mesmo modo em relação à primeira pergunta, a opção pelo suicídio seria também uma contradição do que seria natural em nós.

Embora a ideia de um comportamento instintivo nos seres humanos seja altamente questionável, para o caso dos animais é menos problemática, embora também ainda sujeita a questionamentos. O instinto aparece de forma bastante enfática nos insetos e nas aves, em que percebemos o quanto inumeráveis ações, como acasalamento, alimentação, agressão, defesa, cuidados com os filhotes etc., são realizadas de forma tão uniforme entre todos os membros da espécie, com tão poucas variações e ainda sem a necessidade de nenhum aprendizado específico, que somos levados a dizer que está em jogo a ação de um impulso que não apenas leva a praticar tais ações, mas também determina biologicamente a forma com que elas serão realizadas. O albatroz, por exemplo, não possui apenas um impulso vago para se acasalar, que poderia ser “satisfeito” de infinitas formas, mas sim um ímpeto determinado para realizar uma série de ações de movimentos que configuram um ritual bastante preciso, passível de ser estudado em centenas de casos, em que sobressai infinitamente mais a homogeneidade do que as pequenas diferenças entre os casos. De forma semelhante, as abelhas não possuem apenas um impulso gregário, para se juntarem em uma sociedade, mas sim uma determinação para viverem em uma comunidade com papéis rigidamente estabelecidos, em que funções muito bem delineadas são cumpridas rigorosamente ao longo do tempo.

A dificuldade em relação ao instinto nos animais começa quando percebemos que alguns, especialmente os primatas, praticam ações não apenas organizadas de forma tão rigidamente instintiva, mas sim demonstrando o emprego de certa inteligência com um grau de abstração muitas vezes surpreendente. A consequência é que se podem perceber modos de agir com alguma individualização, distinguindo os membros de uma espécie devido ao modo como cada um soluciona certo problema que lhe é colocado. Além disso, muitas vezes percebemos que uma ação claramente fixada instintivamente admite variação ocasional, como é o caso de cadelas que rejeitam alguns filhotes, deixando-os morrer. A este último caso, podemos responder que não se trataria propriamente de um desvio do instinto, mas sim uma variação determinada por ele, de tal maneira que podemos fazer uma leitura estatística para perceber a frequência desse abandono dos filhotes, diferenciando as raças, a idade da cadela quando isto acontece etc. Assim, perceberíamos que este suposto desvio em relação à regularidade do instinto maternal é também regular e, podemos concluir, também determinado por natureza.

Ligado ao primeiro aspecto do comportamento instintivo nos animais está a capacidade maior ou menor de ele ser condicionado, influenciado pelo meio ambiente, seja por adestramento, seja pelas próprias condições naturais. Existem animais muito facilmente adestráveis, como o chimpanzé, e outros muito dificilmente, como é o gato doméstico. Podemos dizer que o instinto apresenta graus bastante diferentes de maleabilidade, ou seja, de capacidade de ser modelado, moldado, pelo meio ambiente. Apesar de todas essas e outras complicações, podemos dizer que o instinto seria aquele impulso de natureza que já conforma e direciona um ímpeto para agir, de modo a fazer com que ações sejam determinadas de forma homogênea entre todos os membros de uma raça ou espécie. Isso não significa dizer que ele precise determinar todo o leque de ações de alguns animais, como é o caso que citamos dos primatas, em que vemos os membros de uma espécie, os bonobos, agirem com um grau surpreendente de diferenças individuais perante certas situações-problema.

Voltando ao início de nosso texto, perguntamos mais uma vez: o ser humano possui algum instinto? A partir do que lemos em toda a obra de S. Freud, a resposta é não. Na língua alemã temos também a palavra Instinkt, que o autor nunca empregou para qualificar o ímpeto que leva o ser humano a agir, mas sim a palavra de origem germânica Trieb. Apenas algumas vezes em que emprega Instinkt, Freud a relaciona apenas aos animais, e, embora diga que haja alguns aspectos do inconsciente humano análogos ao instinto dos animais, sempre emprega Trieb em sua teoria sobre o psiquismo humano.

Embora seja um assunto altamente complexo, que envolve uma parte fundamental de toda a teoria psicanalítica, podemos dizer que, ao contrário de Instinkt, Trieb aponta para um impulso que não determina um objeto da realidade que já esteja conformado biologicamente, não especifica um modo de agir homogêneo entre os membros da espécie. Não se trata apenas de um instinto muito maleável, mas sim de um impulso calcado em fantasias inconscientes e que não determina de antemão nenhum objeto ou modo específico de se relacionar com ele. Essa ideia possui antecedentes significativos, como esta surpreendente passagem do texto Pedagogia, de Kant, no final do século XVIII:

O ser humano é a única criatura que precisa ser educada. (...) Um animal age inteiramente por instinto. (...) Os seres humanos, entretanto, precisam de sua própria razão. Eles não têm instinto e precisam fazer, por si mesmos, o plano de seu comportamento. Mas porque eles não são imediatamente capazes de fazer isso, pois nasceram imaturos, isso deve ser feito por outros.

Retornando mais uma vez ao começo de nosso texto, dizemos que não possuímos instinto de sobrevivência, mas sim que escolhemos continuar vivendo a cada instante, por que damos valor à vida em virtude de uma complexa rede de fatores culturais que se sedimentam singularmente em nós. Quando um piloto camicase dá vida pela própria pátria, ou alguém morre para salvar uma outra pessoa, ou diz que a vida não faz sentido e se suicida, nesses e em outros vários casos, não se tem propriamente a negação de um instinto, mas a realização de uma escolha que está tanto além da natureza quanto a que fazemos o tempo todo de continuar vivendo. De forma análoga, o desejo de ser mãe não exprime um instinto natural, mas é fruto de uma escolha decorrente do modo como cada mulher assimila, individualmente, patrões e modelos de feminilidade em cada cultura. Assim, com exceção de uns poucos atos que vemos os recém-nascidos praticarem de forma bastante homogênea, como agarrar o dedo de alguém, poder nadar nos primeiros meses de vida, e o próprio ato de sucção do leite, podemos dizer que o ser humano é desprovido de comportamento instintivo. Ao falarmos sobre isso na obra de Freud, qual seria, então, a melhor tradução para Trieb?

De saída, nos vem à mente: “Pode ser muita coisa, exceto instinto”. O grande problema é que a tradução inglesa feita por James Strachey escolheu extamente instinct para traduzir Trieb, e a versão brasileira publicada pela editora imago que tomou essa tradução inglesa como referência, também optou por instinto. Em inglês, deixou-se de lado uma opção bem melhor: “drive”, e em português, teríamos dois candidatos “naturais”: impulso e ímpeto. Ambos não são bons, pelo fato de que o instinto também é um impulso, bem como um ímpeto, e existe a palavra Impuls em alemão, e ímpeto é reservado para traduzir Drang em alguns momentos. Seguindo a tradução francesa, a prática psicanalítica brasileira optou pelo neologismo pulsão, aproveitando-se do radical presente nas palavras impulsão e compulsão, e que possui o sentido de uma força pulsante, que impele os seres humanos a desejar, sentir, pensar e agir, sem que haja um direcionamento biologicamente predeterminado.

Durante várias décadas, as leituras dos textos de Freud em português obrigaram a um esforço mental de substituir a palavra instinto por pulsão (bem como em vários outros momentos, trocando repressão por recalque, catexia por investimento e outros). Recentemente, a editora Cia. das letras começou a publicar uma nova edição das obras completas de Freud em português, feita por Paulo César de Souza, que traduziu, e muito bem, diversas obras de Nietzsche. Qual não foi nossa enorme surpresa quando percebemos que a opção para traduzir Trieb ainda foi exatamente a palavra instinto!!! Lamentavelmente, depois de esperar décadas para termos a obra completa de Freud traduzida segundo uma opção terminológica francamente mais adequada, o leitor brasileiro ainda terá que se contentar com essa estratégia bastante prejudicial de ler sempre uma palavra substituindo-a mentalmente por outra. Não se trata, entretanto, apenas de uma impropriedade de leitura, pois, como disse Freud, quando se usa uma palavra errada para um conceito certo, mais de dois terços do conceito são perdidos. Assim, quem não tem uma leitura e crítica prévias acerca da impropriedade da palavra instinto, muito lamentavelmente tenderá a responder “sim” às duas primeiras perguntas que levantamos no início desse texto. (Felizmente, temos alguns textos de Freud em outras edições em que se optou por pulsão em vez de instinto, mas não se trata de edição da obra completa.)

Essa diferença terminológica, na medida em que aponta para uma distinção conceitual de suma importância, acarreta diversas implicações teóricas bastante significativas. Uma delas, de que voltaremos a falar em outras ocasiões, diz respeito ao fato de que toda a construção da cultura — que se costuma fundamentar na idéia de um homo sapiens, ou seja, de um ser humano que raciocina e fala — pode ser referida a algo até mesmo mais fundamental, à própria estrutura mais íntima do desejo humano: a pulsão. Uma vez que o instinto animal, como muito bem diz Henry Bergson, solda, conecta firmemente a dimensão cognitiva e prática, fazendo com que a percepção de um objeto já inclua um modo específico de agir em relação a ele, tem-se um total enrijecimento do modo de reagir ao mundo que virtualmente impede toda a flexibilidade e fluência que o processo de raciocínio ganhou na espécie humana. Se assim é, então a estrutura pulsional, com sua maleabilidade virtualmente infinita na relação com os objetos de desejo possíveis na realidade, está na base de nossa capacidade de produzir cultura. Desse modo, que tal uma “pequena” alteração de nomenclatura científica? — Homo pulsionalis.

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sexta-feira, 1 de junho de 2012

Admirável mundo estranho

Theodor Adorno disse que uma das características fundamentais da arte moderna é o fato de ela se colocar de forma crítico-negativa perante a racionalidade do âmbito econômico, cognitivo, político e da vida cotidiana em geral. Em virtude disso, ela sempre será vista como estranha ao mundo de nossa experiência pré- e extra-estética. Por outro lado, diversos pesquisadores e estudiosos, entusiasmados e cientes da importância cultural da arte moderna como algo novo, cujo significado para a compreensão de nosso modo de existência é bastante expressivo, tendem a ganhar tal intimidade com a lógica de constituição das obras, com a obstinada tarefa crítica que cada uma se põe ao que já se sedimentou na tradição e com diversas outras características bastante peculiares, que eles podem facilmente perder de vista o quanto é fundamental à arte a percepção de seu estranhamento, suas diferenças e sua distância perante nosso olhar cotidiano. Em outras palavras, o excesso de intimidade e valorização da arte moderna criaria um prejuízo em relação a ela. Em virtude disso, a outra parte desse paradoxo é a que a recepção comum das obras contemporâneas, que somente vê nelas um absurdo, algo sem sentido e estranho ainda preserva esta verdade sobre a experiência estética moderna.



Creio que essa idéia de Adorno se aplique, com as devidas diferenças, ao significado do trabalho de uma terapia psicanalítica em relação à vida de quem procura um analista, tendo ou não em vista sintomas neuróticos mais claramente especificáveis. Das diversas formas com que a crítica à psicanálise se manifesta, algumas se dirigem não propriamente ao questionamento de sua validade ou verdade, mas sim a uma possível conseqüência de um tratamento bem sucedido, a saber: tendo investigado a fundo suas motivações inconscientes e, assim, chegado a uma compreensão mais transparente possível do que está na base não apenas de distúrbios neuróticos, mas também das formas de desejo já vivenciados de forma satisfatória, a conseqüência poderia ser uma significativa desmotivação, uma apatia e falta de ímpeto para realizar diversas ações. O raciocínio é bastante claro: uma vez que muito do sofrimento histérico e da ação obsessiva provém, segundo a própria psicanálise, do desconhecimento de desejos e censuras inconscientes, que extraem sua força do fato de agirem, por assim dizer, no escuro, de forma análoga o ímpeto de alcançar grandes realizações e de apostar em relacionamentos afetivos, por exemplo, seria bastante prejudicado na proporção da clareza que temos sobre nossas motivações inconscientes. Seguindo este raciocínio, um artista diria: qual o sentido de me dedicar a ensaios extenuantes e estudos detalhados de composição musical, pesquisas intrincadas sobre o problema do estilo e da história da música para construir uma grande obra musical se, no fundo, o que está em jogo é mais uma das inumeráveis formas com que meus desejos inconscientes emergem na superfície da consciência? Com base nesse mesmo argumento, pode-se argumentar em relação aos mestres do passado, de modo que se diria de grandes pensadores e artistas, como Kant, Hegel, Beethoven e o próprio Freud: teriam eles produzido uma obra tão grandiosa se não fossem movidos por desejos recalcados e, portanto, desconhecidos em grande medida?

Minha resposta não é apenas afirmativa. Não digo que aquela seja simplesmente uma percepção errônea da psicanálise, pois creio que se trata de um perigo real, que acompanha o trabalho analítico como uma sombra ineliminável. A suposta cura pela psicanálise envolve uma trama altamente complexa de desejos e resistências, entre cujos objetos se inclui a própria saúde psíquica, e de forma análoga a como uma fantasia sádica sexual inconsciente pode se exprimir de forma bastante diversa e contraditória, também o desejo de cura, de saúde psíquica, está sujeito a dificuldades igualmente intrincadas. A neurose tem, como uma de suas várias peculiaridades, a vivência de um estranhamento/alienação perante si mesmo. Essa estranheza, entretanto, é um índice de que toda tentativa de reflexão sobre si está tingida, contaminada, pelos conteúdos inconscientes em relação aos quais se pretende assumir uma posição, por assim dizer, “objetiva”. No outro extremo, a suposta desmotivação de quem passou por análise seria uma outra forma de sintoma, em que certa segurança cognitiva perante os próprios desejos retira de cena o caráter enigmático do real, tanto psíquico quanto do mundo, ofuscando-nos para algo essencial em relação a nossos objetos de desejo.

Todo sintoma neurótico é, de fato, uma verdade subjetiva, individual, que exprime o modo com que desejos, censuras e investimentos inconscientes encontraram uma resolução, mesmo que sofrida, ao longo do tempo. Esta verdade não é recoberta, simplesmente traduzida e muito menos substituída pela verdade analítica. A “mesma” atitude resignada que muitos demonstram perante seus sintomas neuróticos, ao dizerem, por exemplo, “eu sou assim”, pode ser vista, de certa forma, nessa leitura que o analisado faz de si ao dizer: “esse empreendimento artístico/científico/político é, em sua essência, manifestação de meu narcisismo”. Em ambos os casos temos uma verdade que se presta ao encobrimento de uma outra verdade, de forma semelhante a como Freud diz que há lembranças encobridoras, pois ao mesmo tempo resgatam algo do passado, mas escondem aspectos, significados e eventos de suma importância. Nesse sentido, podemos falar de uma verdade que, em sua evidência primeira, ofusca-nos para uma verdade em um segundo plano, em que o estranho (Unheimliche) do desejo inconsciente, tal como disse Freud em um famoso texto, pode se mesclar e ser a transformação de algo íntimo, familiar (heimlich).

As fronteiras daquilo cuja intimidade é tão grande que se transforma em algo esotérico para nós mesmos, apenas compreensível na intimidade lúgubre e profunda de uma intuição indizível — tais limites são por demais permeáveis à incapacidade de sustentar um trânsito progressista de uma aventura cognitiva de si mesmo. Cedo se pode traduzir e, conseqüentemente neutralizar, o estranho em sua alteridade apaziguada como um objeto de desejo transformado em objeto de conhecimento. Em vez de o processo analítico encaminhar-se rumo a uma vivificação de nosso senso de que o que nutre o desejo cohabita na mesma extensão com que nos permitimos uma intimidade descompromissada com as ondas revoltas de nossas fantasias, pode-se produzir uma espécie de prisma luminoso invertido, em que as infinitas franjas e matizes cromáticos se “resolvem” na luminosidade coesa e unitária do que contém todas as cores — o branco —, mas que não apresenta nenhuma.

Esse perigo de uma neutralização do vivido como um eminente objeto de conhecimento, por outro lado, não é exclusivo da psicanálise. Creio que a filosofia e as ciências humanas em geral correm sempre o risco de nos transportar para planos cada vez mais distantes subjetivamente daquilo que é tomado como uma subjugação feroz e violenta à forças de constituição e manutenção da realidade. Esse porto seguro atingido pela via da reflexão crítica deve, uma vez mais, exercer sua atividade, só que agora sobre seu próprio procedimento, sobre o fosso que cava perante as vicissitudes do objeto que foi criticado. De forma análoga a como Freud dizia que a transferência afetiva entre paciente e analista é uma condição indispensável para o trabalho, mas, ao final, pode se mostrar como algo sintomático, e que portanto deve ser superado, eu diria que o distanciamento abstrato de processos reflexivos radicais perante seu objeto deve se tornar ele mesmo um novo objeto de crítica, de análise, de rememoração e de mais trabalho analítico.

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