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sexta-feira, 1 de junho de 2012

Admirável mundo estranho

Theodor Adorno disse que uma das características fundamentais da arte moderna é o fato de ela se colocar de forma crítico-negativa perante a racionalidade do âmbito econômico, cognitivo, político e da vida cotidiana em geral. Em virtude disso, ela sempre será vista como estranha ao mundo de nossa experiência pré- e extra-estética. Por outro lado, diversos pesquisadores e estudiosos, entusiasmados e cientes da importância cultural da arte moderna como algo novo, cujo significado para a compreensão de nosso modo de existência é bastante expressivo, tendem a ganhar tal intimidade com a lógica de constituição das obras, com a obstinada tarefa crítica que cada uma se põe ao que já se sedimentou na tradição e com diversas outras características bastante peculiares, que eles podem facilmente perder de vista o quanto é fundamental à arte a percepção de seu estranhamento, suas diferenças e sua distância perante nosso olhar cotidiano. Em outras palavras, o excesso de intimidade e valorização da arte moderna criaria um prejuízo em relação a ela. Em virtude disso, a outra parte desse paradoxo é a que a recepção comum das obras contemporâneas, que somente vê nelas um absurdo, algo sem sentido e estranho ainda preserva esta verdade sobre a experiência estética moderna.



Creio que essa idéia de Adorno se aplique, com as devidas diferenças, ao significado do trabalho de uma terapia psicanalítica em relação à vida de quem procura um analista, tendo ou não em vista sintomas neuróticos mais claramente especificáveis. Das diversas formas com que a crítica à psicanálise se manifesta, algumas se dirigem não propriamente ao questionamento de sua validade ou verdade, mas sim a uma possível conseqüência de um tratamento bem sucedido, a saber: tendo investigado a fundo suas motivações inconscientes e, assim, chegado a uma compreensão mais transparente possível do que está na base não apenas de distúrbios neuróticos, mas também das formas de desejo já vivenciados de forma satisfatória, a conseqüência poderia ser uma significativa desmotivação, uma apatia e falta de ímpeto para realizar diversas ações. O raciocínio é bastante claro: uma vez que muito do sofrimento histérico e da ação obsessiva provém, segundo a própria psicanálise, do desconhecimento de desejos e censuras inconscientes, que extraem sua força do fato de agirem, por assim dizer, no escuro, de forma análoga o ímpeto de alcançar grandes realizações e de apostar em relacionamentos afetivos, por exemplo, seria bastante prejudicado na proporção da clareza que temos sobre nossas motivações inconscientes. Seguindo este raciocínio, um artista diria: qual o sentido de me dedicar a ensaios extenuantes e estudos detalhados de composição musical, pesquisas intrincadas sobre o problema do estilo e da história da música para construir uma grande obra musical se, no fundo, o que está em jogo é mais uma das inumeráveis formas com que meus desejos inconscientes emergem na superfície da consciência? Com base nesse mesmo argumento, pode-se argumentar em relação aos mestres do passado, de modo que se diria de grandes pensadores e artistas, como Kant, Hegel, Beethoven e o próprio Freud: teriam eles produzido uma obra tão grandiosa se não fossem movidos por desejos recalcados e, portanto, desconhecidos em grande medida?

Minha resposta não é apenas afirmativa. Não digo que aquela seja simplesmente uma percepção errônea da psicanálise, pois creio que se trata de um perigo real, que acompanha o trabalho analítico como uma sombra ineliminável. A suposta cura pela psicanálise envolve uma trama altamente complexa de desejos e resistências, entre cujos objetos se inclui a própria saúde psíquica, e de forma análoga a como uma fantasia sádica sexual inconsciente pode se exprimir de forma bastante diversa e contraditória, também o desejo de cura, de saúde psíquica, está sujeito a dificuldades igualmente intrincadas. A neurose tem, como uma de suas várias peculiaridades, a vivência de um estranhamento/alienação perante si mesmo. Essa estranheza, entretanto, é um índice de que toda tentativa de reflexão sobre si está tingida, contaminada, pelos conteúdos inconscientes em relação aos quais se pretende assumir uma posição, por assim dizer, “objetiva”. No outro extremo, a suposta desmotivação de quem passou por análise seria uma outra forma de sintoma, em que certa segurança cognitiva perante os próprios desejos retira de cena o caráter enigmático do real, tanto psíquico quanto do mundo, ofuscando-nos para algo essencial em relação a nossos objetos de desejo.

Todo sintoma neurótico é, de fato, uma verdade subjetiva, individual, que exprime o modo com que desejos, censuras e investimentos inconscientes encontraram uma resolução, mesmo que sofrida, ao longo do tempo. Esta verdade não é recoberta, simplesmente traduzida e muito menos substituída pela verdade analítica. A “mesma” atitude resignada que muitos demonstram perante seus sintomas neuróticos, ao dizerem, por exemplo, “eu sou assim”, pode ser vista, de certa forma, nessa leitura que o analisado faz de si ao dizer: “esse empreendimento artístico/científico/político é, em sua essência, manifestação de meu narcisismo”. Em ambos os casos temos uma verdade que se presta ao encobrimento de uma outra verdade, de forma semelhante a como Freud diz que há lembranças encobridoras, pois ao mesmo tempo resgatam algo do passado, mas escondem aspectos, significados e eventos de suma importância. Nesse sentido, podemos falar de uma verdade que, em sua evidência primeira, ofusca-nos para uma verdade em um segundo plano, em que o estranho (Unheimliche) do desejo inconsciente, tal como disse Freud em um famoso texto, pode se mesclar e ser a transformação de algo íntimo, familiar (heimlich).

As fronteiras daquilo cuja intimidade é tão grande que se transforma em algo esotérico para nós mesmos, apenas compreensível na intimidade lúgubre e profunda de uma intuição indizível — tais limites são por demais permeáveis à incapacidade de sustentar um trânsito progressista de uma aventura cognitiva de si mesmo. Cedo se pode traduzir e, conseqüentemente neutralizar, o estranho em sua alteridade apaziguada como um objeto de desejo transformado em objeto de conhecimento. Em vez de o processo analítico encaminhar-se rumo a uma vivificação de nosso senso de que o que nutre o desejo cohabita na mesma extensão com que nos permitimos uma intimidade descompromissada com as ondas revoltas de nossas fantasias, pode-se produzir uma espécie de prisma luminoso invertido, em que as infinitas franjas e matizes cromáticos se “resolvem” na luminosidade coesa e unitária do que contém todas as cores — o branco —, mas que não apresenta nenhuma.

Esse perigo de uma neutralização do vivido como um eminente objeto de conhecimento, por outro lado, não é exclusivo da psicanálise. Creio que a filosofia e as ciências humanas em geral correm sempre o risco de nos transportar para planos cada vez mais distantes subjetivamente daquilo que é tomado como uma subjugação feroz e violenta à forças de constituição e manutenção da realidade. Esse porto seguro atingido pela via da reflexão crítica deve, uma vez mais, exercer sua atividade, só que agora sobre seu próprio procedimento, sobre o fosso que cava perante as vicissitudes do objeto que foi criticado. De forma análoga a como Freud dizia que a transferência afetiva entre paciente e analista é uma condição indispensável para o trabalho, mas, ao final, pode se mostrar como algo sintomático, e que portanto deve ser superado, eu diria que o distanciamento abstrato de processos reflexivos radicais perante seu objeto deve se tornar ele mesmo um novo objeto de crítica, de análise, de rememoração e de mais trabalho analítico.

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Um comentário:

2d disse...

Tenho certeza de que, embora postado na sexta, esse texto foi pensado retroativamente por uma projeção futura do Verlaine, sentada no Café California do Diamond Mall no domingo. Hahaha. Parabéns pelo blog, Verlaine. Gosto muito dos seus textos.