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sexta-feira, 8 de junho de 2012

Homo pulsionalis

O ser humano possui instinto de sobrevivência? A mulher possui instinto maternal? - Antes de responder a estas questões, é interessante analisar os termos em que são colocadas. Creio que esteja bastante claro, para a nossa compreensão comum, o que a palavra “instinto” signifique em ambos os casos: um impulso, dado por natureza, que nos levaria a agir de uma determinada maneira. Se assumimos, por exemplo, que as mulheres possuem um instinto maternal, então isso tem consequências muito significativas em nossa avaliação ética e cultural do posicionamento daquelas que dizem não possuir nenhuma vontade de ter filhos. Essa recusa significaria, então, uma espécie de desvio, negação, recusa de algo que nos é dado pela própria natureza. Do mesmo modo em relação à primeira pergunta, a opção pelo suicídio seria também uma contradição do que seria natural em nós.

Embora a ideia de um comportamento instintivo nos seres humanos seja altamente questionável, para o caso dos animais é menos problemática, embora também ainda sujeita a questionamentos. O instinto aparece de forma bastante enfática nos insetos e nas aves, em que percebemos o quanto inumeráveis ações, como acasalamento, alimentação, agressão, defesa, cuidados com os filhotes etc., são realizadas de forma tão uniforme entre todos os membros da espécie, com tão poucas variações e ainda sem a necessidade de nenhum aprendizado específico, que somos levados a dizer que está em jogo a ação de um impulso que não apenas leva a praticar tais ações, mas também determina biologicamente a forma com que elas serão realizadas. O albatroz, por exemplo, não possui apenas um impulso vago para se acasalar, que poderia ser “satisfeito” de infinitas formas, mas sim um ímpeto determinado para realizar uma série de ações de movimentos que configuram um ritual bastante preciso, passível de ser estudado em centenas de casos, em que sobressai infinitamente mais a homogeneidade do que as pequenas diferenças entre os casos. De forma semelhante, as abelhas não possuem apenas um impulso gregário, para se juntarem em uma sociedade, mas sim uma determinação para viverem em uma comunidade com papéis rigidamente estabelecidos, em que funções muito bem delineadas são cumpridas rigorosamente ao longo do tempo.

A dificuldade em relação ao instinto nos animais começa quando percebemos que alguns, especialmente os primatas, praticam ações não apenas organizadas de forma tão rigidamente instintiva, mas sim demonstrando o emprego de certa inteligência com um grau de abstração muitas vezes surpreendente. A consequência é que se podem perceber modos de agir com alguma individualização, distinguindo os membros de uma espécie devido ao modo como cada um soluciona certo problema que lhe é colocado. Além disso, muitas vezes percebemos que uma ação claramente fixada instintivamente admite variação ocasional, como é o caso de cadelas que rejeitam alguns filhotes, deixando-os morrer. A este último caso, podemos responder que não se trataria propriamente de um desvio do instinto, mas sim uma variação determinada por ele, de tal maneira que podemos fazer uma leitura estatística para perceber a frequência desse abandono dos filhotes, diferenciando as raças, a idade da cadela quando isto acontece etc. Assim, perceberíamos que este suposto desvio em relação à regularidade do instinto maternal é também regular e, podemos concluir, também determinado por natureza.

Ligado ao primeiro aspecto do comportamento instintivo nos animais está a capacidade maior ou menor de ele ser condicionado, influenciado pelo meio ambiente, seja por adestramento, seja pelas próprias condições naturais. Existem animais muito facilmente adestráveis, como o chimpanzé, e outros muito dificilmente, como é o gato doméstico. Podemos dizer que o instinto apresenta graus bastante diferentes de maleabilidade, ou seja, de capacidade de ser modelado, moldado, pelo meio ambiente. Apesar de todas essas e outras complicações, podemos dizer que o instinto seria aquele impulso de natureza que já conforma e direciona um ímpeto para agir, de modo a fazer com que ações sejam determinadas de forma homogênea entre todos os membros de uma raça ou espécie. Isso não significa dizer que ele precise determinar todo o leque de ações de alguns animais, como é o caso que citamos dos primatas, em que vemos os membros de uma espécie, os bonobos, agirem com um grau surpreendente de diferenças individuais perante certas situações-problema.

Voltando ao início de nosso texto, perguntamos mais uma vez: o ser humano possui algum instinto? A partir do que lemos em toda a obra de S. Freud, a resposta é não. Na língua alemã temos também a palavra Instinkt, que o autor nunca empregou para qualificar o ímpeto que leva o ser humano a agir, mas sim a palavra de origem germânica Trieb. Apenas algumas vezes em que emprega Instinkt, Freud a relaciona apenas aos animais, e, embora diga que haja alguns aspectos do inconsciente humano análogos ao instinto dos animais, sempre emprega Trieb em sua teoria sobre o psiquismo humano.

Embora seja um assunto altamente complexo, que envolve uma parte fundamental de toda a teoria psicanalítica, podemos dizer que, ao contrário de Instinkt, Trieb aponta para um impulso que não determina um objeto da realidade que já esteja conformado biologicamente, não especifica um modo de agir homogêneo entre os membros da espécie. Não se trata apenas de um instinto muito maleável, mas sim de um impulso calcado em fantasias inconscientes e que não determina de antemão nenhum objeto ou modo específico de se relacionar com ele. Essa ideia possui antecedentes significativos, como esta surpreendente passagem do texto Pedagogia, de Kant, no final do século XVIII:

O ser humano é a única criatura que precisa ser educada. (...) Um animal age inteiramente por instinto. (...) Os seres humanos, entretanto, precisam de sua própria razão. Eles não têm instinto e precisam fazer, por si mesmos, o plano de seu comportamento. Mas porque eles não são imediatamente capazes de fazer isso, pois nasceram imaturos, isso deve ser feito por outros.

Retornando mais uma vez ao começo de nosso texto, dizemos que não possuímos instinto de sobrevivência, mas sim que escolhemos continuar vivendo a cada instante, por que damos valor à vida em virtude de uma complexa rede de fatores culturais que se sedimentam singularmente em nós. Quando um piloto camicase dá vida pela própria pátria, ou alguém morre para salvar uma outra pessoa, ou diz que a vida não faz sentido e se suicida, nesses e em outros vários casos, não se tem propriamente a negação de um instinto, mas a realização de uma escolha que está tanto além da natureza quanto a que fazemos o tempo todo de continuar vivendo. De forma análoga, o desejo de ser mãe não exprime um instinto natural, mas é fruto de uma escolha decorrente do modo como cada mulher assimila, individualmente, patrões e modelos de feminilidade em cada cultura. Assim, com exceção de uns poucos atos que vemos os recém-nascidos praticarem de forma bastante homogênea, como agarrar o dedo de alguém, poder nadar nos primeiros meses de vida, e o próprio ato de sucção do leite, podemos dizer que o ser humano é desprovido de comportamento instintivo. Ao falarmos sobre isso na obra de Freud, qual seria, então, a melhor tradução para Trieb?

De saída, nos vem à mente: “Pode ser muita coisa, exceto instinto”. O grande problema é que a tradução inglesa feita por James Strachey escolheu extamente instinct para traduzir Trieb, e a versão brasileira publicada pela editora imago que tomou essa tradução inglesa como referência, também optou por instinto. Em inglês, deixou-se de lado uma opção bem melhor: “drive”, e em português, teríamos dois candidatos “naturais”: impulso e ímpeto. Ambos não são bons, pelo fato de que o instinto também é um impulso, bem como um ímpeto, e existe a palavra Impuls em alemão, e ímpeto é reservado para traduzir Drang em alguns momentos. Seguindo a tradução francesa, a prática psicanalítica brasileira optou pelo neologismo pulsão, aproveitando-se do radical presente nas palavras impulsão e compulsão, e que possui o sentido de uma força pulsante, que impele os seres humanos a desejar, sentir, pensar e agir, sem que haja um direcionamento biologicamente predeterminado.

Durante várias décadas, as leituras dos textos de Freud em português obrigaram a um esforço mental de substituir a palavra instinto por pulsão (bem como em vários outros momentos, trocando repressão por recalque, catexia por investimento e outros). Recentemente, a editora Cia. das letras começou a publicar uma nova edição das obras completas de Freud em português, feita por Paulo César de Souza, que traduziu, e muito bem, diversas obras de Nietzsche. Qual não foi nossa enorme surpresa quando percebemos que a opção para traduzir Trieb ainda foi exatamente a palavra instinto!!! Lamentavelmente, depois de esperar décadas para termos a obra completa de Freud traduzida segundo uma opção terminológica francamente mais adequada, o leitor brasileiro ainda terá que se contentar com essa estratégia bastante prejudicial de ler sempre uma palavra substituindo-a mentalmente por outra. Não se trata, entretanto, apenas de uma impropriedade de leitura, pois, como disse Freud, quando se usa uma palavra errada para um conceito certo, mais de dois terços do conceito são perdidos. Assim, quem não tem uma leitura e crítica prévias acerca da impropriedade da palavra instinto, muito lamentavelmente tenderá a responder “sim” às duas primeiras perguntas que levantamos no início desse texto. (Felizmente, temos alguns textos de Freud em outras edições em que se optou por pulsão em vez de instinto, mas não se trata de edição da obra completa.)

Essa diferença terminológica, na medida em que aponta para uma distinção conceitual de suma importância, acarreta diversas implicações teóricas bastante significativas. Uma delas, de que voltaremos a falar em outras ocasiões, diz respeito ao fato de que toda a construção da cultura — que se costuma fundamentar na idéia de um homo sapiens, ou seja, de um ser humano que raciocina e fala — pode ser referida a algo até mesmo mais fundamental, à própria estrutura mais íntima do desejo humano: a pulsão. Uma vez que o instinto animal, como muito bem diz Henry Bergson, solda, conecta firmemente a dimensão cognitiva e prática, fazendo com que a percepção de um objeto já inclua um modo específico de agir em relação a ele, tem-se um total enrijecimento do modo de reagir ao mundo que virtualmente impede toda a flexibilidade e fluência que o processo de raciocínio ganhou na espécie humana. Se assim é, então a estrutura pulsional, com sua maleabilidade virtualmente infinita na relação com os objetos de desejo possíveis na realidade, está na base de nossa capacidade de produzir cultura. Desse modo, que tal uma “pequena” alteração de nomenclatura científica? — Homo pulsionalis.

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