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sexta-feira, 15 de junho de 2012

Mas que seja infinito...

Na crítica que se costuma fazer ao culto narcisista do próprio corpo, tal como este se fez presente nas últimas décadas, tornou-se quase lugar-comum apontar para o contraste muito claro com o papel que a corporeidade assumia nas doutrinas cristãs, particularmente na era pré-moderna. Em vez de ser um mero receptáculo para uma alma cujos valores eram infinitamente mais elevados, temos agora um objeto de uma série de rituais tomados não apenas como obsessivos, mas também altamente ilusórios, que transformam nossa forma física em objeto de devoção quase religiosa. Nesse cenário, quero ressaltar especialmente a crítica que se dirige ao que seria uma ilusão de todo esse investimento narcísico, fundada na idéia de que, ao contrário dos valores mais elevados não apenas da alma imortal — como também da cultura em suas formas mais nobres, a saber: arte, ciência, filosofia e religião —, o corpo está sujeito às vicissitudes da natureza, por sua vulnerabilidade às doenças e, obviamente, à inevitabilidade da passagem do tempo, ou seja, à velhice. Dessa perspectiva, o prazer com nossa dimensão somática seria tão frágil e efêmero como tudo aquilo que é da ordem da natureza biológica. — De meu ponto de vista, este argumento é essencialmente inválido.

Inicialmente, é preciso dizer que virtualmente qualquer coisa pode ser objeto de consumo, no sentido que Jean Baudrillard conferiu a esse termo, ou seja, em que algum objeto é valorizado, não por suas características e propriedades concretas, não por seu modo peculiar com que responde a um desejo simbolicamente estruturado, mas sim pelo fato de ser mero suporte, um signo, de diversos outros significados por demais abstratos e pouco definidos, como status, jovialidade, alegria, feminilidade etc. Na medida em que é consumido, o corpo, como todos os outros objetos, perde muito de sua substancialidade, tornando-se, de fato, fonte de um prazer tão vazio quanto, no final das contas, decepcionante. Em virtude dos efeitos da passagem do tempo, temos o consumo exacerbado não apenas de produtos como cremes de beleza e rituais de promoção da saúde em geral, mas de todo um imaginário da corporeidade como alvo de ações específicas de sua manutenção, dirigidas a aspectos artificialmente construídos e sedimentados em virtude das ofertas de bens e serviços no mercado.

Toda essa crítica da atitude consumista, entretanto, além de poder ser aplicada a qualquer tipo de objeto, não dá suporte ao argumento que apontei inicialmente. O ponto de apoio mais significativo deste não é propriamente o esvaziamento do objeto de desejo como apenas um signo de outra coisa, mas sim a impossibilidade concreta de o corpo manter-se como um objeto de desejo significativo, em virtude de sua fragilidade tanto presente quanto ao longo do tempo. Essa é uma diferença fundamental, devido ao fato de que a crítica do corpo como objeto de consumo deixa em aberto claramente a possibilidade de que ele seja alvo de um investimento afetivo mais concreto, simbolicamente refletido e consciente, gerando uma satisfação por aquilo que pode nos oferecer concretamente por sua beleza, vigor e saúde, e não apenas por nos proporcionar status ou pertencimento a um grupo social que compartilha alguma idiossincrasia. Essa distinção entre consumir e se apropriar concretamente de um objeto, na verdade, pode ser dita em relação a virtualmente qualquer coisa. Alguém pode perfeitamente comer um sanduíche da rede McDonald’s tendo como motivação mais substantiva o prazer que sente com seu sabor, sem dar a menor importância ao modo com que tais produtos são propagandeados, ou seja, pela veiculação ostensiva de um modo jovial, alegremente festivo e, sobretudo, conectado ao universo da cultura norte-americana.

Aquele argumento inicial, ao contrário dessa abertura a uma possibilidade concreta de apreciação do corpo, toma o desejo em relação a este como algo ilusório em virtude da dimensão concreta de efemeridade de seu objeto. Dito de forma bem direta e sucinta: uma vez que seu objeto é frágil e finito, logo o desejo é ilusório e tende à decepção. — Em contraste com isso, eu digo: a vida é efêmera, e isso não a torna menos desejável. A juventude e a beleza cristalina da pele, a força e robustez dos músculos, a agilidade dos reflexos, tal como a lucidez do raciocínio também marcam momentos de nossa existência, não nos acompanham indefinidamente do nascimento à morte, e também não são menos dignos de nossa afeição e investimento afetivo. Para que a satisfação de nosso desejo seja substantiva, duradoura e “verdadeira”, não é necessário que seu objeto garanta, factualmente, um suporte material indestrutível, “eterno” ou algo semelhante. Necessário é que em cada momento de nossa existência perdure a sobriedade com que percebemos não apenas sua mutação em suas vicissitudes, mas também tenhamos em mente que muito do vigor da própria vida consiste nos seus ciclos que se alternam indefinidamente. Que se tenha apenas uma infância, apenas um período de adolescência, que a maturidade de nossos juízos alcance um ápice para inapelavelmente dirigir-se à senilidade é um índice do que a vida precisa para nutrir a si mesma. Não faria sentido fantasiar que vivêssemos mil anos para amadurecermos “muito mais” nossa perspectiva de mundo. A realidade de que temos um ciclo bem menor do que esse deve nos instruir, na verdade, a perceber o quanto é parte substancial de nossos desejos o fato de que nossas satisfações são momentâneas.

Cada fase, período e momento da vida solicita um determinado tipo de investimento que pode ser — e eu diria que inevitavelmente o será em alguma medida — insípido, ridículo e mesmo incompreensível da perspectiva de outro. Paixões ardentes em relacionamentos momentâneos e sem compromisso podem ter perfeitamente todo o apelo para alguém em uma época da vida, sem que isso necessariamente resulte em decepção e arrependimento quando, posteriormente, esta mesma pessoa passe a cultivar o gosto por relacionamentos estáveis e com profunda cumplicidade mútua. Da mesma forma, toda a exuberância corporal pode ser, sim, objeto de um desejo significativo sem se mesclar a nenhuma desilusão, conquanto seja usufruída como um ingrediente da mutabilidade indefinida do viver. O que torna ilusório o desejo não é a efemeridade de seu objeto, mas sim a fantasia metafísica de um prazer lastreado por algo que transcenda a efemeridade da vida.

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3 comentários:

celia.musilli disse...

Belíssimo artigo sobre as questões do corpo na contemporaneidade, vou te enviar um e-mail, gostaria de reproduzi-lo.Um abço

Verlaine Freitas disse...

Fico muito contente q tenha gostado do texto, Celia. Fique à vontade para divulgá-lo. Um abraço.

Wagner disse...

Obviamente o Prof. Verlaine conhece um pequeno texto de Freud chamado "Sobre a Transitoriedade". Além de revelar uma faceta que poderíamos chamar de "bastante otimista" de Freud, sobretudo em tempos de guerra e morte, me chama atenção na narrativa o fato de suas considerações sobre o valor da transitoriedade não causarem qualquer impressão em seus interlocutores, no que Freud especula ser uma "antecipação de luto" própria daqueles "espíritos sensíveis" que o acompanhavam em sua caminhada. Pensamentos constantes sobre a transitoriedade podem interferir seriamente na fruição da beleza. No final não podemos subestimar o poder dessa ilusão envolvida na exigência de imortalidade.