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segunda-feira, 25 de junho de 2012

Política do desejo

A assim denominada marcha das vadias (tradução um tanto “desajeitada” de slutwalk) é uma manifestação que me parece significativa de um desejo de uma nova expressão e vivência do desejo — no caso, feminino —, não apenas no âmbito individual, na conscientização das vicissitudes de fantasias e de suas censuras, mas fundamentalmente nos modos como a visualidade do sexual e da produção do desejo do outro são vividas no âmbito ético-político. De forma análoga à parada gay, a vivência pública de conflitos desiderativos (= de desejo) é trazida à tona como uma “pauta” de reivindicações de reconhecimento de sua legitimidade como “ingrediente” cotidiano das trocas diversas, desde a dos olhares nos espaços urbanos, às da intimidade sexual consumada. Nesse arco de possibilidades de intercâmbio sexual-afetivo e de suas imagens/símbolos/signos, quer-se evidenciar o quanto o feminino situa-se no núcleo vertiginoso da ambigüidade que caracteriza o sexual: ao mesmo tempo fortemente desejado e repelido; ao mesmo tempo índice de uma carência inextinguível, como também de ansiedade, angústia e vergonha.

Nas diversas formas em que tal a ambivalência se faz sentir, a dimensão ativa do desejo feminino coloca frente a frente uma moralidade publicamente instituída de uma sociedade patriarcal machista e um objeto de desejo que quer se firmar publicamente como sujeito do desejar, com todas as peculiaridades com que a feminilidade se constitui em cada cultura e sociedade. Trata-se, em termos gerais, de questionar uma espécie de monopólio do desejo masculino, em que este se arroga o direito de afirmação ostensiva, explícita e insistente, sem pagar o preço da vergonha de se assumir como em falta, carente, necessitado do outro. Nessa política do desejo, o feminino precisa se haver com limites mais delicados para as formas de sua manifestação, particularmente quando as estratégias de sedução caminham no sentido de realçar tensões internas do desejo masculino. Estas últimas adquirem modos e graus infinitamente variáveis, mas podem ser exemplificadas com uma situação típica, em que um homem se coloca sempre de forma bastante impetuosa sexualmente perante as mulheres, mas, ao se defrontar com uma que demonstra um ímpeto igual ou maior, recua e pode perfeitamente se sentir acuado, colocado em xeque, devido ao modo com que sua exclusividade como sujeito do desejo é ameaçada. — É preciso, naturalmente, levar em conta as vicissitudes destas trocas sexuais, pois excessos e atitudes obsessivamente impetuosas são algo que tangenciam facilmente o patológico, tanto por um lado quanto por outro. O que importa aqui, entretanto, é ilustrar este princípio de uma ética sexual que retira tendencialmente da mulher o papel ativo no modo com que seu desejo é exercido. Em outras palavras, reivindica-se o reconhecimento da legitimidade da dimensão masculina do desejo feminino, que tem como correlato, por sua vez, a dimensão feminina do desejo masculino.

Os rituais em algumas sociedades africanas de mutilação genital feminina são uma prova incontestável da necessidade que tais organizações patriarcais sentem de, ao reduzirem a mulher apenas a um objeto de desejo, purificar este núcleo do que constitui o sujeito do desejar, restringindo-o ao universo masculino. A partir de um complexo intrincado de relações de identificação e diferença (sobre que já falamos em outra postagem), esses rituais bárbaros parecem dizer, pela boca do homem: “A mulher que há em mim não pode gozar”. O ser-feminino deve tendencialmente se reduzir a um objeto de busca, posse e proteção, de modo a suavizar ao máximo as tensões inerentes ao modo com que o estranho gozo desse outro constitui um componente inalienável do complexo fantasístico que anima por dentro a dinâmica sexual. Assim, quanto maior a evidência da voz ativa do desejo feminino, mais difícil parece ser a manutenção da consciência não-contraditória do desejo masculino, que se vê então forçado a uma “negociação” interna e externa com uma duplicidade sua por demais estranha e incompreensível. Claro está que quanto mais reconhecida é a legitimidade feminina do desejar, quanto mais esta sua “masculinidade” se afirme, tanto menor é a facilidade de a mulher ser reduzida a um objeto de posse, exclusividade. A percepção do homem de ser legitimamente objeto de desejo demanda um posicionamento em sua concepção de identidade sexual que pode facilmente ser difícil de equacionar, uma vez que sem alguma forma de empatia com esse olhar de quem me deseja, não parece haver suficiente espaço para a assimilação progressista, plástica e madura do que a mulher pode demandar. Além disso, tanto mais se torna difícil tomar o prazer da satisfação da mulher como seiva do próprio gozo.

Por outro lado, é muito evidente que relações de poder somente se perpetuam quando as diversas partes compartilham de princípios de pensamento e conduta, e não apenas uma delas. Esse machismo do monopólio do desejo sexual somente vigora devido ao fato de que não apenas os homens recusam às mulheres certo “valor” quando estas demonstram de forma mais explícita uma posição sexualmente mais ativa, mas elas próprias compartilham em larga medida deste princípio. Parece-me inegável que a clássica descrição da mulher como “O belo animal narcísico” — que se regozija na produção do desejo masculino e da admiração/inveja do olhar feminino, satisfazendo-se em larga medida no modo como é capaz de “manipular” as trocas de olhares e iniciativas — é também devedor de certo machismo quando toda essa mise-en-scène substitui, assume o lugar de, uma manifestação mais direta de desejo pelo outro. Em diversos momentos o gozo de ser um “troféu” para aquele suficientemente capaz de conquista parece uma simbolização, um deslocamento, que, ao longo do tempo, pode assumir certa exclusividade, fazendo com que vivências mais concretas e, em tese, mais satisfatórias fiquem em segundo, terceiro e quarto planos.

Se tais reflexões têm validade, então a slutwalk tem seu sentido muito além da reivindicação de se mostrar em sua exuberância feminina sem com isso dar ao outro o direito de violência, pois toca em um ponto nevrálgico da construção das identidades sexuais, em que o obscurecimento da voz ativa do desejo feminino demonstra, como sintoma, as fragilidades internas do universo da sexualidade.

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