Um espaço de discussão sobre Filosofia, Psicanálise, Arte, Política, Crítica cultural e Atualidades.

sexta-feira, 27 de julho de 2012

Fora dos trilhos

Dois conceitos, interligados, são bastante úteis para a análise crítica do consumo e da cultura de massa: a erotização e a estetização da vida cotidiana, particularmente no nosso vínculo com os objetos e as mercadorias culturais. O que está em jogo é uma espécie de colonização do cotidiano por um excesso de elaboração imagética a serviço de fantasias eróticas, sensuais, de glamour, sofisticação, requinte, preciosismo de formas etc. Não se trata, propriamente, no que concerne à dimensão estética, de um investimento reflexivamente construído de beleza, uma vez que este sempre pôde existir de forma saudável e progressista, e jamais deixará de ser possível. Trata-se, na verdade, de uma espécie de condensação de determinados aspectos, faces, cores, rebuscamentos etc., que tornam certo objeto especialmente destacado em relação a tudo mais. Nesse sentido, é perfeitamente possível que alguém deixe de investir na beleza do ambiente onde mora, mas dê toda a importância estética a um determinado objeto, como um celular, um carro etc. Apesar de este fenômeno ser bastante presente, disseminado pelo modo com que a cultura de massa vende produtos pelo seu design, esta não é a única forma de se pensar um modo com que a estética oferece um parâmetro às nossas formas de vida possíveis.

Monet - Pôr do sol no Parlamento
Claude Monet, famoso impressionista francês, disse que, ao pintar um quadro, é necessário aproveitar os “acidentes felizes”, ou seja, é preciso incorporar como elementos da composição pictórica os desvios, erros nas pinceladas, objetos mal colocados, equilíbrios rompidos etc. Todo o quadro tende a ganhar em vivacidade e riqueza visual na medida em que absorve, de forma inteligente, o que contraria não apenas o projeto inicial, ou seja, a intenção de quem pinta, quanto também a unidade e coerência que vai sendo construída aos poucos. Uma radicalização deste princípio pode ser vista quando, diante de um quadro que esteja bom, mas que não possua suficiente interesse pictórico, seja apenas bem-feito mas nada especial, fazemos algo deliberadamente ruim, feio, “errado”, que estrague tudo o que se fez até então. No processo de digestão, de metabolização desse aspecto negativo, é possível que surja algo com muito mais vivacidade e interesse estético. Outro procedimento, um exercício, caminha nessa mesma direção, quando nos propomos a fazer um desenho ou pintar um quadro propositalmente feio: não inacabado ou mal feito, mas sim o contrário do que é esteticamente valioso. É interessante perceber o quanto as pessoas ficam desconcertadas diante dessa tarefa, uma vez que ela parece ser um total contra-senso. Depois de tentar fazer desenhos e quadros bonitos durante certo tempo, causa surpresa quando se percebe que o desenho “feio” ficou bem mais interessante, esteticamente mais valioso do que os outros.

Em todos esses casos, está muito claro que o valor estético da obra surge, muitas vezes, pelo modo com que fazemos dialogar nossa intenção com aquilo que a contraria. A beleza, na medida em que se enriquece, não apenas é uma harmonia de elementos contrários, mas é mediada por aquilo que rompe ideais de harmonização previamente estabelecidos. Seu interesse é proporcional ao modo com que esses polos contrários entram em tensão um com o outro, tendem a se repelir. Muito do talento artístico consistirá em fazer com que esse tensionamento cresça substancialmente sem se destruir, evitando uma espécie de absurdo pictórico.

De forma análoga, podemos falar em uma constrição ideológica do real a se conformar com nossas expectativas e concepções prévias, que tendem a engessar possibilidades atuais e futuras, canalizando-as em formas de vida já previamente aceitas. É evidente que há inumeráveis formas de negatividade e divergências do real que devem ser superadas, assimiladas como algo a se evitar, mas eu diria que em outra enorme quantidade de vezes evita-se algo não porque é ruim, mas porque é divergente, distoante em relação àquele trilho que já foi pisado e repisado e ao qual nos conformamos por inércia. Nesses casos, eu considero realmente patológico o prazer que se alcança em reafirmar continuamente o valor de concepções prévias, através da percepção de que se mantêm válidas como guias para a experiência. Em contraste com essa racionalização afunilada do real, é preciso insistir em um leque maior de vias intuitivas de conexão com a realidade. Trata-se de ter certo olhar artístico para o modo com que diversos equívocos, desarmonias, acidentes e formas de negatividade não simplesmente contradizem nossas perspectivas previamente traçadas, podendo conferir-lhes uma riqueza que dificilmente poderiam alcançar por si mesmas.

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sexta-feira, 20 de julho de 2012

A ficção do real

Freud disse que uma das coisas em comum entre a arte, o devaneio e a brincadeira infantil é a dimensão lúdica, de um jogo com a realidade. Embora nos três casos o sujeito possa se ver implicado seriamente em sua atividade, existe o distanciamento perante o real em sua dimensão primeira, colocando diversos de seus elementos em um outro plano em que adquirem significado muito próprio, seja devido ao fato de responderem a um desejo inconsciente, como tematicamente é considerado no devaneio, quanto por instituírem leis com uma validade sui generis, própria, como no caso de um jogo. O âmbito estético também participa dessa recolocação em segundo grau de formas de vida e de realidade, e a partir da produção técnica de imagens, começando de forma paradigmática com a fotografia, sendo impulsionada fortemente pelo cinema, chegou-se a um nível jamais imaginável anteriormente com a manipulação digital, em que se tornaram completamente imprecisas as fronteiras entre o real-ele-mesmo e a ficção do que é produzido, retocado, suprimido, acrescentado, distorcido.

Albagreen - Eduardo Kac
Em relação à fotografia, um meio técnico pioneiro,  é inegável que as reflexões de Walter Benjamin, independente de sua validade, são bastante representativas do significado desse percurso tecnológico, que ainda, obviamente, conhecerá vários capítulos de que não podemos suspeitar. Dos diversos pontos temáticos em jogo, quero me deter na questão relativa ao contraste entre a obra de arte tradicional e a produzida pelos meios técnicos. Benjamin contrasta a presença única das primeiras, que caracterizaria uma espécie de aura para elas, e a reprodução mecânica/técnica, que retiraria esta dimensão de culto de um objeto ou apresentação única, substituindo-o pelo valor de apresentação.

Em uma passagem de seu famoso texto A obra de arte na era de sua reprodutibilidade técnica, Benjamin se referia de forma crítica e talvez irônica ao procedimento de um cineasta que, não satisfeito com uma cena representada por um ator, poderia esperar um momento em que pudesse flagrá-lo reagindo espontaneamente no ambiente de filmagem. Isso demonstraria a total perda de comprometimento com o material estético, na medida em que faz mesclar de forma indiscriminada materiais provenientes de diversos âmbitos, desconsiderando ou, na realidade, “driblando” a incapacidade do ator de passar no teste incessantemente colocado a ele pela câmera.

Algo dessa recepção desiludida perante o meio técnico pode ser visto ecoando na percepção que se tem das potencialidades de transformação de fotografias digitais, agora acessíveis ao grande público através dos programas de edição de imagens. No cinema, com a presença cada vez maior da computação gráfica nas produções, é difícil escapar ao sentimento de decepção quando se sabe que algumas vezes um personagem caminhava extasiado em cenários magníficos que, na verdade, eram tão-somente um estúdio vazio com paredes e piso verdes, de tal forma que toda a paisagem e demais elementos fixos e móveis foram acrescentados por computador (este é o caso, por exemplo, de quase todas as cenas de Alice no país das maravilhas, dirigido por Tim Burton).

O que todos esses elementos nos mostram é que o objeto da arte não é a realidade, nem mesmo o jogo com ela, mas sim o nosso próprio senso de realidade, em que vigora nosso prazer de nos aproximarmos e distanciarmos dela, de tal forma que haveria um sentido constituinte de toda experiência estética nutrido pelo questionamento de tal vínculo. Entre a leveza da ficção irônica acerca do que é concreto/abstrato e o peso de como que vivemos o real historicamente sedimentado, temos uma polarização que cada vez mais toma um passo atrás de si mesma, abarcando seus próprios procedimentos como objeto a ser negado pela transposição lúdica em novos planos e níveis de realidade. Como costuma acontecer em toda polarização que envolve senso do real, pode-se, por um lado, insistir na consciência crítica aguda de concepções profundas e inafiançáveis do real — como é o caso na arte avançada — ou, por outro lado, permanecer e se refestelar no rebatimento descompromissado dos signos, imagens e símbolos, descarnando-os de suas quaisquer arestas que impliquem prejuízo à gratuidade — o que se dá na cultura de massa em geral.

Entre a sublimidade da crítica iconoclasta, que extrai da promiscuidade estética com a realidade um nosso desconforto de não mais sabermos o que é permitido subtrair ao real e o que podemos inocular nele (penso especialmente na obra de Eduardo Kac, Alba Green, de um coelho vivo que se tornou fosforescente devido a uma substância injetada nele - foto acima); e o cinismo nonchalant da cultura de massa, que vende, entre outras coisas, conformismo ao real pelo modo como este é substituído pelo glamour de uma felicidade de esquecer o sofrimento — entre tais polos temos inegáveis formas de aglutinar e separar real, ficção e sua crítica.

Rembrandt - Aula de anatomia
Tornou-se consensual na crítica de arte e na estética contemporânea dizer que a arte moderna teria uma primazia em relação à tradicional pelo fato de trabalhar com aquilo que há de mais essencial em cada uma das artes. Na pintura, por exemplo, em vez de se “misturar” certa teatralidade narrativa à dimensão pictórica, tal como pode ser visto em quadros do período barroco, por exemplo, temos agora a pura visualidade bidimensional das cores, linhas e gestos, como no expressionismo abstrato. Como se a arte, tomando a si mesma como tema, refletindo sobre o seu próprio fazer, perdesse certa ingenuidade vinculada a apoios externos àquilo que lhe é mais substantivo, tornando-se, então, mais enfática.

Kandinsky - Círculos
Se isso é válido para esses momentos de abstração, que também podem ser falado mutatis mutandis para a música, a poesia e literatura, também o é para este jogo irônico e muitas vezes cínico da polaridade entre real e ficção nas artes atuais, pois o que este movimento atual das artes demonstra é que o “tema” subjacente a toda intenção mais consciente das artes é a ambiguidade não resolvida de nosso desejo de distanciamento e aproximação perante a realidade. Está em jogo o modo como participamos de porções do real, ao mesmo tempo em que suspendemos essa identificação, tomando uma posição descentrada perante nossa própria visada. Inegável que se trata de um movimento sempre instável, irônico, cínico e “desavergonhado”, que também resvala para uma puerilidade sem fronteiras, quando, na cultura de massa, os planos de realidade são vividos com uma proximidade pornográfica em relação a nossas fantasias mais íntimas e arcaicas. — De que forma e com que intensidade nós nos dispomos a esse trânsito?

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sexta-feira, 13 de julho de 2012

Evidências ofuscantes

“A pobreza real é um mito”, escreveu  Jean Baudrillard em 1965. É uma frase paradoxal, em virtude de, aparentemente, não apenas negar a realidade da pobreza, como minimizar sua importância. Na verdade, trata-se de uma ideia bastante fecunda, e que tem grande importância para as discussões sobre o pensamento da esquerda atualmente, que se defronta sempre com as dificuldades inerentes à imbricação entre os problemas econômicos, a articulação de diversas instâncias políticas e também os fatores ligados aos modos de subjetivação que se configuram nas estruturas familiares, na cultura de massa, nas trajetórias de formação escolar etc. Neste panorama, recolocar a pobreza no centro do debate sobre o que caracteriza a progressividade política é de especial importância, dentre outros motivos, para evitar certo engessamento dos discursos e do modo como as questões são levantadas na tarefa de enfrentamento do ideário liberal-conservador.

Que algo seja um mito não significa ser uma ficção, algo apenas imaginário que destoa em relação ao modo como constatamos e asseguramos a verdade de um dado real. O que está em jogo é menos o critério cognitivo de uma constatação da existência de algo, do que a perspectiva propriamente crítica do valor que certa formulação contém para o modo como estamos dispostos a agir, desejar e pensar a realidade, em virtude de uma ideia cujo poder gravitacional é tão grande, que ofusca formas sutis, nuançadas e mais “dialéticas” de sua avaliação. Nesse sentido, que algo seja mitificado não significa que o discurso sobre ele falsifique algum aspecto de sua realidade concreta, mas sim a atribuição de certo conjunto de valores e modos de sua abordagem, que transformam-no em fonte de uma evidência que tende a virtualmente solapar as vias de instauração de um pensamento suficientemente crítico sobre o valor que ele tem para nossa compreensão de mundo.

A verificação continuada do estado de pobreza, de forma surpreendente, pode servir muito bem a um ideário liberal capitalista de manutenção de esforços obsessivos para aumentar a produção, destravar mecanismos caóticos e vampirescos de mercado financeiro e uma série de outros suportes de uma plataforma ligada à ideia obsessiva de que é preciso produzir cada vez mais. A realidade concreta da pobreza é produzida como uma imagem cuja evidência é forte o suficiente para compelir a uma interpretação forçada da importância de acumulação indefinida de bens e serviços. Tão forte é a evidência de que a pobreza existe, tão forte é, segundo este receituário economicista, a urgência do acúmulo de elementos concretos, factualmente verificáveis, capazes de combater a miséria, a saber, as mercadorias. Temos uma polarização cuja clareza dissimula, na verdade, uma série de mediações retiradas de cena precisamente pelo modo com que os dois extremos, pobreza e acúmulo de mercadorias, parecem se conectar em uma fórmula mágica de progresso. Trata-se de um curto-circuito, cuja força de persuasão se dá na aparente clareza com que esses dois pares de opostos se conectam. É precisamente esta claridade que nos ofusca para os matizes que permeiam o modo com que a superfície da carência e da abundância de mercadorias é vivida em um sentido mais profundo.

É instrutiva uma analogia que se pode fazer entre este uso ideológico dos signos de pobreza para favorecer uma política do crescimento pelo crescimento e formas neuróticas de denegação de fundamentos mais profundos de nossos desejos. Para o indivíduo, pode ser — eu diria que normalmente o é — mais confortável ou mais viável em termos de sua economia psíquica gastar todas as suas forças lutando obstinadamente contra sintomas neuróticos aprisionadores e angustiantes do que enfrentar um processo de crítica analiticamente orientada sobre suas motivações inconscientes. A visibilidade do sintoma, como uma insônia ou dificuldade de falar em público, por exemplo, fornece, nesse quadro de patologia psíquica, uma espécie de inimigo cuja visibilidade é um tanto reconfortante, fazendo toda a vida gravitar ao redor dele. Pode-se pensar no extremo de se perder toda uma vida neste embate de D. Quixote contra fantasmas visíveis de um sofrimento impulsionado por contradições desiderativas mais profundas. Questionar frontalmente estas últimas, em contraste com a obstinação de enfrentamento dos sintomas, supõe certa consistência psíquica, ou robustez do desejo de autoconhecimento, de modo a enfrentar a dor da possível perda de consistência da própria identidade. A análise, assim, seria mais contundente e “ameaçadora”, do que as próprias vicissitudes do embate “encarniçado” com o sofrimento perceptível na realidade cotidiana. Além disso, a disposição para permanecer no âmbito aparente dos sintomas se nutre de certo senso narcisista de não esmorecer, de combater de forma aguerrida essas manifestações do sofrimento.

Na articulação ideológica entre princípios de orquestração política e as constrições econômicas provenientes do modo como os agentes econômicos travam batalha por seus interesses, deve-se prestar atenção no modo com que o sintoma “pobreza real”, congrega de forma semelhante todos os esforços em combatê-la no mesmo plano em que ela se dá, a saber, na superfície mais evidente de um corpo social cuja profundidade e estrutura interna são negligenciadas. Das inumeráveis forças que estruturam este complexo social, uma delas consiste exatamente nos modos com que a própria pobreza é um resultado não apenas inevitável, mas produzido como tal para a manutenção da ideologia do crescimento como acúmulo de bens e serviços. Trata-se de um discurso ideológico fundado na glorificação de paradigmas quantitativos em detrimento de um ponto de vista qualitativo, mais ligado às formas de interação dos indivíduos e de sua capacidade de reflexão sobre suas ações e valores. Não é por acaso, e na verdade uma consequência das mais claras, o quanto o produto interno bruto (PIB) é tomado obsessivamente como um termômetro da saúde econômica de um país, desconsiderando outros fatores mais “horizontais” de mensuração do progresso, mesmo que ainda no âmbito quantitativo, como é o caso o nível de distribuição de renda, grau de escolarização, índice de desenvolvimento humano, preservação de condições ambientais sustentáveis etc.

Diante disso, é sempre imprescindível questionar, na busca por melhores condições de vida, tanto no âmbito individual quanto coletivo: de que forma e com quais fantasmas estamos combatendo com nossa lança de D. Quixote?

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sexta-feira, 6 de julho de 2012

Vicio de percepção

Toda crítica cultural preocupada com princípios da integração dos indivíduos na sociedade precisa se haver, em algum momento, com a difícil questão dos critérios e parâmetros do que deva ser considerado patológico ou normal/sadio. Ao longo de seus escritos, Freud forneceu definições gerais, tanto para a dimensão patológica, quanto para a da normalidade/saúde psíquica. Uma delas, talvez a mais conhecida e por isso mesmo bastante comentada, sendo também alvo de muitas críticas, é a de que a saúde psíquica consistiria na capacidade de amar, trabalhar e ser feliz. Quero aqui abordar apenas este último aspecto, a partir de uma perspectiva mais específica, a saber, um fator bastante frequente nos quadros de sintomatologia das neuroses: uma visão de mundo pessimista ou, por assim dizer, entristecida ou também derrotista.

Comecemos por uma colocação adversativa, através da constatação do quanto é impressionante a insistência com que a sociedade de consumo convida-nos a sermos felizes, a gozarmos e experimentarmos prazeres de toda a ordem, vendendo-nos não apenas bens e serviços que garantam esse suposto bem-estar, como também atitudes e valores conectados com o usufruto de tais oportunidades. Diante disso, a ideia de Freud de que a saúde psíquica consistiria na capacidade de ser feliz pode facilmente ser criticada — como de fato o foi por autores da escola de Frankfurt, como Adorno e Horkheimer —, pelo fato de subjugar os indivíduos, no âmbito da teoria, àquilo que já são incessantemente bombardeados em seu cotidiano. É como se a psicanálise reprovasse os indivíduos por não aceitarem e compartilharem o que lhes é oferecido como meios para a felicidade. Tal crítica, entretanto, desconsidera um elemento fundamental: a capacidade de ser feliz de que fala Freud não necessariamente precisa ser lida como adequação a parâmetros culturalmente estabelecidos do que signifique “aproveitar a vida”, nem tampouco se funda em uma concepção de felicidade tal como estamos acostumados a pensar desde Aristóteles, ou seja, como um conjunto pleno de contentamento e satisfações. Na verdade, esta oferta incessante de “produtos para sua felicidade” é bem propriamente um índice de que a ideia de Freud está correta.

Jean Baudrillard, em sua Sociedade de consumo, disse que esse convite reiterado para ser feliz demonstra que o prazer não é um componente da atitude do consumo. Os indivíduos que consomem teriam muito mais como sentido de sua atividade a participação em um universo de troca de significados abstratos através dos objetos consumidos, bem como trabalhariam para confirmar a validade dos mesmos valores que eles “compram”, de tal forma que o consumo é mais uma força produtiva do que de usufruto, em sentido mais estrito. Embora essa perspectiva me pareça válida e muito frutífera, quero aproveitar dela apenas a indicação do quanto a positividade dos signos de bem-estar testemunha o seu oposto, ou seja, a ausência de prazer, sua desconsideração — o que interpretamos, de uma perspectiva psicanalítica, dizendo que tais signos têm em vista uma insuficiência psiquicamente legível da capacidade de contentamento e satisfação com as oportunidades objetivamente existentes na realidade.

Uma das dificuldades mais perceptíveis nesta problemática do prazer/satisfação/felicidade é a evidência com que a circunstância objetiva de vida exerce influência constante para percepção de si de cada pessoa. Como a todo momento se está sujeito às vicissitudes das condições materiais da vida, parece difícil estabelecer um princípio de compreensão geral da capacidade de ser feliz, tal como está nas formulações freudianas, independente do mundo exterior. Essa independência, entretanto, pode ser pensada de duas maneiras: por concebermos o desejo como tendo uma dinâmica e um princípio de estruturação tal que, sem considerarmos as circunstâncias concretas de vida, poderíamos detectar uma espécie de tendência sintomática para a uma visão pessimista e insatisfeita; e por ser pensada também como um princípio prático, de ação, no sentido de que a felicidade ou a satisfação com objetos de desejo seria determinada por nossa capacidade de nos tornarmos independentes dessas condições objetivas. Em relação a este último aspecto, o próprio Freud, no Mal-estar da civilização, se detém na análise de estratégias possíveis de evitar o sofrimento, tais como a arte, a religião e a fantasia/imaginação. Impossível não lembrar das atitudes apregoadas pelo budismo e por várias outras tendências religiosas favorecendo renúncia, abnegação, despojamento e diversos outros modos de negação do desejo em relação aos objetos da realidade. Em que pesem as inumeráveis diferenças entre as doutrinas, seu denominador comum é a percepção menos ou mais clara de que a soma de todas as circunstâncias objetivas da vida faz com que todos seus objetos sejam ilusórios e, consequentemente, deceptivos para o desejo, que se torna assim, então, fonte de sofrimento reiterado. A expressão filosófica mais enfática disso é, inegavelmente, a que se lê em Schopenhauer.

O que temos em vista é um aspecto do problema, que toca não propriamente na (im)possibilidade objetiva de equacionar o próprio desejo de tal forma que nossa satisfação possa não ser afetada pela conexão dúbia, incerta e frágil com objetos de desejo possíveis, mas sim em um princípio constitutivo de todo desejar em geral, que faz com que a incapacidade de ser feliz ou de obter satisfação significativa ao longo do tempo derive de uma disposição subjetiva específica para tomar os objetos de desejo como insatisfatórios, precários, insuficientes etc. Tal disposição pode ser falada de muitas formas, mas quero aqui abordá-la de forma mais restrita, considerando um vício de percepção dos objetos impulsionado por fatores desiderativos inconscientes.

A partir de conceitos da estética de Kant, podemos dizer que toda percepção é interessada, pois está sujeita às vicissitudes de nossas inclinações, que abrange nossos desejos, sentimentos e necessidades. Nietzsche dizia que todo perceber é mentiroso, pois sempre fazemos uma seleção e um recorte no que percebemos, na medida em que conferimos ênfase em determinados aspectos e descartamos outros. Adorno e Horkheimer diziam que todo perceber é projetar, pois o objeto final percebido será sempre resultado do modo como nós devolvemos ao mundo mais do que recebemos dele, uma vez que temos que sintetizar e modelar os dados recebidos através de nossas faculdades e poderes cognitivos. Estes e outros argumentos filosóficos nos demonstram de forma clara o quanto nossa percepção implica sempre um fator de seletividade e condicionamento. O tempo todo optamos, consciente e inconscientemente, por perceber as coisas da forma como fazemos — o que não significa dizer que nossa perspectiva crie, produza toda a realidade. Se isso é válido já no âmbito da ação cognitiva de perceber as formas, cores e texturas dos objetos, com muito mais razão ainda o é no modo como lhes conferimos importância, valor e significado para nosso prazer, contentamento e satisfação.

Embora toda percepção seja seletiva, condicionada e condicionante, entretanto nem toda ela necessariamente precisa ser dita como viciada. Tal como dizemos que um dado de seis faces pode estar viciado, no sentido de conter um peso de chumbo que o faz tender a parar com o número 6 voltado para cima, podemos dizer que “antes” mesmo de entrarmos em contato com os objetos de desejo na realidade (isso não apenas ou propriamente no sentido cronológico), é possível haver uma tendência “sintomática” de conferir muito mais importância e peso na determinação de nosso estado subjetivo àquilo que é ruim, insuficiente, precário, mal feito, impreciso etc. em cada momento, objeto e realidade. Desconsiderando as circunstâncias objetivas de privação, dor e infortúnios que podem ser extremos, é muito evidente que sempre haverá uma enorme quantidade de fatores (bons e ruins) que influenciam o nosso estado de contentamento, de modo que esta visão pessimista tipicamente neurótica de que fala Freud, a partir dessas considerações, teria como um de seus fatores o ímpeto de sistematicamente acentuar, enfatizar e prestar atenção a toda sorte de elementos negativos do real. É difícil exagerar o quão insistentemente o estado de espírito de insatisfação pessimista provém muito mais desse vício de nossa percepção do que de um desfavorecimento por assim dizer objetivo por parte de algo na realidade. Naturalmente, não é viável e nem mesmo possível estabelecer um princípio geral para se medir a influência desta predeterminação de nosso (des)contentamento, pois a constelação de fatores envolvidos em cada caso é infinitamente variável. Além disso, embora seja possível dizer em geral do que motiva este vício de percepção (que já abordamos de um determinado ponto de vista em outra postagem), é necessário uma reflexão não apenas pontual, de cada relação com os objetos em um determinado momento, como também uma análise das motivações inconscientes individuais, e a terapia analítica nos parece um caminho que, embora com todos os problemas advindos da demanda pessoal e da viabilidade objetiva em cada caso, deve ser percorrido.

Voltando à questão do sentido dos signos de felicidade no consumo, podemos dizer que eles extraem muito de sua força do fato de sua estrutura “contornar” esse vício perceptivo, purificando-se de diversos aspectos ambíguos e mesmo contraditórios. Sua idealização, assim, presta um “serviço” à estrutura neurótica de seus consumidores, vendendo objetos cujo brilho e glamour resolvem no jogo de imagens, luzes e cores o que permanece não resolvido na raiz do desejo.

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