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sexta-feira, 20 de julho de 2012

A ficção do real

Freud disse que uma das coisas em comum entre a arte, o devaneio e a brincadeira infantil é a dimensão lúdica, de um jogo com a realidade. Embora nos três casos o sujeito possa se ver implicado seriamente em sua atividade, existe o distanciamento perante o real em sua dimensão primeira, colocando diversos de seus elementos em um outro plano em que adquirem significado muito próprio, seja devido ao fato de responderem a um desejo inconsciente, como tematicamente é considerado no devaneio, quanto por instituírem leis com uma validade sui generis, própria, como no caso de um jogo. O âmbito estético também participa dessa recolocação em segundo grau de formas de vida e de realidade, e a partir da produção técnica de imagens, começando de forma paradigmática com a fotografia, sendo impulsionada fortemente pelo cinema, chegou-se a um nível jamais imaginável anteriormente com a manipulação digital, em que se tornaram completamente imprecisas as fronteiras entre o real-ele-mesmo e a ficção do que é produzido, retocado, suprimido, acrescentado, distorcido.

Albagreen - Eduardo Kac
Em relação à fotografia, um meio técnico pioneiro,  é inegável que as reflexões de Walter Benjamin, independente de sua validade, são bastante representativas do significado desse percurso tecnológico, que ainda, obviamente, conhecerá vários capítulos de que não podemos suspeitar. Dos diversos pontos temáticos em jogo, quero me deter na questão relativa ao contraste entre a obra de arte tradicional e a produzida pelos meios técnicos. Benjamin contrasta a presença única das primeiras, que caracterizaria uma espécie de aura para elas, e a reprodução mecânica/técnica, que retiraria esta dimensão de culto de um objeto ou apresentação única, substituindo-o pelo valor de apresentação.

Em uma passagem de seu famoso texto A obra de arte na era de sua reprodutibilidade técnica, Benjamin se referia de forma crítica e talvez irônica ao procedimento de um cineasta que, não satisfeito com uma cena representada por um ator, poderia esperar um momento em que pudesse flagrá-lo reagindo espontaneamente no ambiente de filmagem. Isso demonstraria a total perda de comprometimento com o material estético, na medida em que faz mesclar de forma indiscriminada materiais provenientes de diversos âmbitos, desconsiderando ou, na realidade, “driblando” a incapacidade do ator de passar no teste incessantemente colocado a ele pela câmera.

Algo dessa recepção desiludida perante o meio técnico pode ser visto ecoando na percepção que se tem das potencialidades de transformação de fotografias digitais, agora acessíveis ao grande público através dos programas de edição de imagens. No cinema, com a presença cada vez maior da computação gráfica nas produções, é difícil escapar ao sentimento de decepção quando se sabe que algumas vezes um personagem caminhava extasiado em cenários magníficos que, na verdade, eram tão-somente um estúdio vazio com paredes e piso verdes, de tal forma que toda a paisagem e demais elementos fixos e móveis foram acrescentados por computador (este é o caso, por exemplo, de quase todas as cenas de Alice no país das maravilhas, dirigido por Tim Burton).

O que todos esses elementos nos mostram é que o objeto da arte não é a realidade, nem mesmo o jogo com ela, mas sim o nosso próprio senso de realidade, em que vigora nosso prazer de nos aproximarmos e distanciarmos dela, de tal forma que haveria um sentido constituinte de toda experiência estética nutrido pelo questionamento de tal vínculo. Entre a leveza da ficção irônica acerca do que é concreto/abstrato e o peso de como que vivemos o real historicamente sedimentado, temos uma polarização que cada vez mais toma um passo atrás de si mesma, abarcando seus próprios procedimentos como objeto a ser negado pela transposição lúdica em novos planos e níveis de realidade. Como costuma acontecer em toda polarização que envolve senso do real, pode-se, por um lado, insistir na consciência crítica aguda de concepções profundas e inafiançáveis do real — como é o caso na arte avançada — ou, por outro lado, permanecer e se refestelar no rebatimento descompromissado dos signos, imagens e símbolos, descarnando-os de suas quaisquer arestas que impliquem prejuízo à gratuidade — o que se dá na cultura de massa em geral.

Entre a sublimidade da crítica iconoclasta, que extrai da promiscuidade estética com a realidade um nosso desconforto de não mais sabermos o que é permitido subtrair ao real e o que podemos inocular nele (penso especialmente na obra de Eduardo Kac, Alba Green, de um coelho vivo que se tornou fosforescente devido a uma substância injetada nele - foto acima); e o cinismo nonchalant da cultura de massa, que vende, entre outras coisas, conformismo ao real pelo modo como este é substituído pelo glamour de uma felicidade de esquecer o sofrimento — entre tais polos temos inegáveis formas de aglutinar e separar real, ficção e sua crítica.

Rembrandt - Aula de anatomia
Tornou-se consensual na crítica de arte e na estética contemporânea dizer que a arte moderna teria uma primazia em relação à tradicional pelo fato de trabalhar com aquilo que há de mais essencial em cada uma das artes. Na pintura, por exemplo, em vez de se “misturar” certa teatralidade narrativa à dimensão pictórica, tal como pode ser visto em quadros do período barroco, por exemplo, temos agora a pura visualidade bidimensional das cores, linhas e gestos, como no expressionismo abstrato. Como se a arte, tomando a si mesma como tema, refletindo sobre o seu próprio fazer, perdesse certa ingenuidade vinculada a apoios externos àquilo que lhe é mais substantivo, tornando-se, então, mais enfática.

Kandinsky - Círculos
Se isso é válido para esses momentos de abstração, que também podem ser falado mutatis mutandis para a música, a poesia e literatura, também o é para este jogo irônico e muitas vezes cínico da polaridade entre real e ficção nas artes atuais, pois o que este movimento atual das artes demonstra é que o “tema” subjacente a toda intenção mais consciente das artes é a ambiguidade não resolvida de nosso desejo de distanciamento e aproximação perante a realidade. Está em jogo o modo como participamos de porções do real, ao mesmo tempo em que suspendemos essa identificação, tomando uma posição descentrada perante nossa própria visada. Inegável que se trata de um movimento sempre instável, irônico, cínico e “desavergonhado”, que também resvala para uma puerilidade sem fronteiras, quando, na cultura de massa, os planos de realidade são vividos com uma proximidade pornográfica em relação a nossas fantasias mais íntimas e arcaicas. — De que forma e com que intensidade nós nos dispomos a esse trânsito?

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