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sexta-feira, 13 de julho de 2012

Evidências ofuscantes

“A pobreza real é um mito”, escreveu  Jean Baudrillard em 1965. É uma frase paradoxal, em virtude de, aparentemente, não apenas negar a realidade da pobreza, como minimizar sua importância. Na verdade, trata-se de uma ideia bastante fecunda, e que tem grande importância para as discussões sobre o pensamento da esquerda atualmente, que se defronta sempre com as dificuldades inerentes à imbricação entre os problemas econômicos, a articulação de diversas instâncias políticas e também os fatores ligados aos modos de subjetivação que se configuram nas estruturas familiares, na cultura de massa, nas trajetórias de formação escolar etc. Neste panorama, recolocar a pobreza no centro do debate sobre o que caracteriza a progressividade política é de especial importância, dentre outros motivos, para evitar certo engessamento dos discursos e do modo como as questões são levantadas na tarefa de enfrentamento do ideário liberal-conservador.

Que algo seja um mito não significa ser uma ficção, algo apenas imaginário que destoa em relação ao modo como constatamos e asseguramos a verdade de um dado real. O que está em jogo é menos o critério cognitivo de uma constatação da existência de algo, do que a perspectiva propriamente crítica do valor que certa formulação contém para o modo como estamos dispostos a agir, desejar e pensar a realidade, em virtude de uma ideia cujo poder gravitacional é tão grande, que ofusca formas sutis, nuançadas e mais “dialéticas” de sua avaliação. Nesse sentido, que algo seja mitificado não significa que o discurso sobre ele falsifique algum aspecto de sua realidade concreta, mas sim a atribuição de certo conjunto de valores e modos de sua abordagem, que transformam-no em fonte de uma evidência que tende a virtualmente solapar as vias de instauração de um pensamento suficientemente crítico sobre o valor que ele tem para nossa compreensão de mundo.

A verificação continuada do estado de pobreza, de forma surpreendente, pode servir muito bem a um ideário liberal capitalista de manutenção de esforços obsessivos para aumentar a produção, destravar mecanismos caóticos e vampirescos de mercado financeiro e uma série de outros suportes de uma plataforma ligada à ideia obsessiva de que é preciso produzir cada vez mais. A realidade concreta da pobreza é produzida como uma imagem cuja evidência é forte o suficiente para compelir a uma interpretação forçada da importância de acumulação indefinida de bens e serviços. Tão forte é a evidência de que a pobreza existe, tão forte é, segundo este receituário economicista, a urgência do acúmulo de elementos concretos, factualmente verificáveis, capazes de combater a miséria, a saber, as mercadorias. Temos uma polarização cuja clareza dissimula, na verdade, uma série de mediações retiradas de cena precisamente pelo modo com que os dois extremos, pobreza e acúmulo de mercadorias, parecem se conectar em uma fórmula mágica de progresso. Trata-se de um curto-circuito, cuja força de persuasão se dá na aparente clareza com que esses dois pares de opostos se conectam. É precisamente esta claridade que nos ofusca para os matizes que permeiam o modo com que a superfície da carência e da abundância de mercadorias é vivida em um sentido mais profundo.

É instrutiva uma analogia que se pode fazer entre este uso ideológico dos signos de pobreza para favorecer uma política do crescimento pelo crescimento e formas neuróticas de denegação de fundamentos mais profundos de nossos desejos. Para o indivíduo, pode ser — eu diria que normalmente o é — mais confortável ou mais viável em termos de sua economia psíquica gastar todas as suas forças lutando obstinadamente contra sintomas neuróticos aprisionadores e angustiantes do que enfrentar um processo de crítica analiticamente orientada sobre suas motivações inconscientes. A visibilidade do sintoma, como uma insônia ou dificuldade de falar em público, por exemplo, fornece, nesse quadro de patologia psíquica, uma espécie de inimigo cuja visibilidade é um tanto reconfortante, fazendo toda a vida gravitar ao redor dele. Pode-se pensar no extremo de se perder toda uma vida neste embate de D. Quixote contra fantasmas visíveis de um sofrimento impulsionado por contradições desiderativas mais profundas. Questionar frontalmente estas últimas, em contraste com a obstinação de enfrentamento dos sintomas, supõe certa consistência psíquica, ou robustez do desejo de autoconhecimento, de modo a enfrentar a dor da possível perda de consistência da própria identidade. A análise, assim, seria mais contundente e “ameaçadora”, do que as próprias vicissitudes do embate “encarniçado” com o sofrimento perceptível na realidade cotidiana. Além disso, a disposição para permanecer no âmbito aparente dos sintomas se nutre de certo senso narcisista de não esmorecer, de combater de forma aguerrida essas manifestações do sofrimento.

Na articulação ideológica entre princípios de orquestração política e as constrições econômicas provenientes do modo como os agentes econômicos travam batalha por seus interesses, deve-se prestar atenção no modo com que o sintoma “pobreza real”, congrega de forma semelhante todos os esforços em combatê-la no mesmo plano em que ela se dá, a saber, na superfície mais evidente de um corpo social cuja profundidade e estrutura interna são negligenciadas. Das inumeráveis forças que estruturam este complexo social, uma delas consiste exatamente nos modos com que a própria pobreza é um resultado não apenas inevitável, mas produzido como tal para a manutenção da ideologia do crescimento como acúmulo de bens e serviços. Trata-se de um discurso ideológico fundado na glorificação de paradigmas quantitativos em detrimento de um ponto de vista qualitativo, mais ligado às formas de interação dos indivíduos e de sua capacidade de reflexão sobre suas ações e valores. Não é por acaso, e na verdade uma consequência das mais claras, o quanto o produto interno bruto (PIB) é tomado obsessivamente como um termômetro da saúde econômica de um país, desconsiderando outros fatores mais “horizontais” de mensuração do progresso, mesmo que ainda no âmbito quantitativo, como é o caso o nível de distribuição de renda, grau de escolarização, índice de desenvolvimento humano, preservação de condições ambientais sustentáveis etc.

Diante disso, é sempre imprescindível questionar, na busca por melhores condições de vida, tanto no âmbito individual quanto coletivo: de que forma e com quais fantasmas estamos combatendo com nossa lança de D. Quixote?

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2 comentários:

Rodrigo Cássio disse...

Glauber Rocha, em 1971, a interpretarmos: "As vanguardas do pensamento não podem mais se dar ao sucesso inútil de responder à razão opressiva com a razão revolucionária. A revolução é a anti-razão que comunica as tensões e rebeliões do mais irracional de todos os fenômenos, que é a pobreza. Nenhuma estatística pode informar a sua dimensão."
Sempre muito bom passar por aqui, Verlaine. Quando é que o blog vai se tornar livro?
Um abraço,
Rodrigo Cássio

Verlaine Freitas disse...

Fico cada vez feliz por ver bons retornos seus, Rodrigo. Espero q nos próximos meses eu finalize a re-elaboração dos textos, e então possa publicar o livro.
Um abraço,
Verlaine