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sexta-feira, 27 de julho de 2012

Fora dos trilhos

Dois conceitos, interligados, são bastante úteis para a análise crítica do consumo e da cultura de massa: a erotização e a estetização da vida cotidiana, particularmente no nosso vínculo com os objetos e as mercadorias culturais. O que está em jogo é uma espécie de colonização do cotidiano por um excesso de elaboração imagética a serviço de fantasias eróticas, sensuais, de glamour, sofisticação, requinte, preciosismo de formas etc. Não se trata, propriamente, no que concerne à dimensão estética, de um investimento reflexivamente construído de beleza, uma vez que este sempre pôde existir de forma saudável e progressista, e jamais deixará de ser possível. Trata-se, na verdade, de uma espécie de condensação de determinados aspectos, faces, cores, rebuscamentos etc., que tornam certo objeto especialmente destacado em relação a tudo mais. Nesse sentido, é perfeitamente possível que alguém deixe de investir na beleza do ambiente onde mora, mas dê toda a importância estética a um determinado objeto, como um celular, um carro etc. Apesar de este fenômeno ser bastante presente, disseminado pelo modo com que a cultura de massa vende produtos pelo seu design, esta não é a única forma de se pensar um modo com que a estética oferece um parâmetro às nossas formas de vida possíveis.

Monet - Pôr do sol no Parlamento
Claude Monet, famoso impressionista francês, disse que, ao pintar um quadro, é necessário aproveitar os “acidentes felizes”, ou seja, é preciso incorporar como elementos da composição pictórica os desvios, erros nas pinceladas, objetos mal colocados, equilíbrios rompidos etc. Todo o quadro tende a ganhar em vivacidade e riqueza visual na medida em que absorve, de forma inteligente, o que contraria não apenas o projeto inicial, ou seja, a intenção de quem pinta, quanto também a unidade e coerência que vai sendo construída aos poucos. Uma radicalização deste princípio pode ser vista quando, diante de um quadro que esteja bom, mas que não possua suficiente interesse pictórico, seja apenas bem-feito mas nada especial, fazemos algo deliberadamente ruim, feio, “errado”, que estrague tudo o que se fez até então. No processo de digestão, de metabolização desse aspecto negativo, é possível que surja algo com muito mais vivacidade e interesse estético. Outro procedimento, um exercício, caminha nessa mesma direção, quando nos propomos a fazer um desenho ou pintar um quadro propositalmente feio: não inacabado ou mal feito, mas sim o contrário do que é esteticamente valioso. É interessante perceber o quanto as pessoas ficam desconcertadas diante dessa tarefa, uma vez que ela parece ser um total contra-senso. Depois de tentar fazer desenhos e quadros bonitos durante certo tempo, causa surpresa quando se percebe que o desenho “feio” ficou bem mais interessante, esteticamente mais valioso do que os outros.

Em todos esses casos, está muito claro que o valor estético da obra surge, muitas vezes, pelo modo com que fazemos dialogar nossa intenção com aquilo que a contraria. A beleza, na medida em que se enriquece, não apenas é uma harmonia de elementos contrários, mas é mediada por aquilo que rompe ideais de harmonização previamente estabelecidos. Seu interesse é proporcional ao modo com que esses polos contrários entram em tensão um com o outro, tendem a se repelir. Muito do talento artístico consistirá em fazer com que esse tensionamento cresça substancialmente sem se destruir, evitando uma espécie de absurdo pictórico.

De forma análoga, podemos falar em uma constrição ideológica do real a se conformar com nossas expectativas e concepções prévias, que tendem a engessar possibilidades atuais e futuras, canalizando-as em formas de vida já previamente aceitas. É evidente que há inumeráveis formas de negatividade e divergências do real que devem ser superadas, assimiladas como algo a se evitar, mas eu diria que em outra enorme quantidade de vezes evita-se algo não porque é ruim, mas porque é divergente, distoante em relação àquele trilho que já foi pisado e repisado e ao qual nos conformamos por inércia. Nesses casos, eu considero realmente patológico o prazer que se alcança em reafirmar continuamente o valor de concepções prévias, através da percepção de que se mantêm válidas como guias para a experiência. Em contraste com essa racionalização afunilada do real, é preciso insistir em um leque maior de vias intuitivas de conexão com a realidade. Trata-se de ter certo olhar artístico para o modo com que diversos equívocos, desarmonias, acidentes e formas de negatividade não simplesmente contradizem nossas perspectivas previamente traçadas, podendo conferir-lhes uma riqueza que dificilmente poderiam alcançar por si mesmas.

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Um comentário:

Anônimo disse...

Verlaine querido, gostei muito da sua abordagem. Gde abraço e saudades. Val