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sexta-feira, 6 de julho de 2012

Vicio de percepção

Toda crítica cultural preocupada com princípios da integração dos indivíduos na sociedade precisa se haver, em algum momento, com a difícil questão dos critérios e parâmetros do que deva ser considerado patológico ou normal/sadio. Ao longo de seus escritos, Freud forneceu definições gerais, tanto para a dimensão patológica, quanto para a da normalidade/saúde psíquica. Uma delas, talvez a mais conhecida e por isso mesmo bastante comentada, sendo também alvo de muitas críticas, é a de que a saúde psíquica consistiria na capacidade de amar, trabalhar e ser feliz. Quero aqui abordar apenas este último aspecto, a partir de uma perspectiva mais específica, a saber, um fator bastante frequente nos quadros de sintomatologia das neuroses: uma visão de mundo pessimista ou, por assim dizer, entristecida ou também derrotista.

Comecemos por uma colocação adversativa, através da constatação do quanto é impressionante a insistência com que a sociedade de consumo convida-nos a sermos felizes, a gozarmos e experimentarmos prazeres de toda a ordem, vendendo-nos não apenas bens e serviços que garantam esse suposto bem-estar, como também atitudes e valores conectados com o usufruto de tais oportunidades. Diante disso, a ideia de Freud de que a saúde psíquica consistiria na capacidade de ser feliz pode facilmente ser criticada — como de fato o foi por autores da escola de Frankfurt, como Adorno e Horkheimer —, pelo fato de subjugar os indivíduos, no âmbito da teoria, àquilo que já são incessantemente bombardeados em seu cotidiano. É como se a psicanálise reprovasse os indivíduos por não aceitarem e compartilharem o que lhes é oferecido como meios para a felicidade. Tal crítica, entretanto, desconsidera um elemento fundamental: a capacidade de ser feliz de que fala Freud não necessariamente precisa ser lida como adequação a parâmetros culturalmente estabelecidos do que signifique “aproveitar a vida”, nem tampouco se funda em uma concepção de felicidade tal como estamos acostumados a pensar desde Aristóteles, ou seja, como um conjunto pleno de contentamento e satisfações. Na verdade, esta oferta incessante de “produtos para sua felicidade” é bem propriamente um índice de que a ideia de Freud está correta.

Jean Baudrillard, em sua Sociedade de consumo, disse que esse convite reiterado para ser feliz demonstra que o prazer não é um componente da atitude do consumo. Os indivíduos que consomem teriam muito mais como sentido de sua atividade a participação em um universo de troca de significados abstratos através dos objetos consumidos, bem como trabalhariam para confirmar a validade dos mesmos valores que eles “compram”, de tal forma que o consumo é mais uma força produtiva do que de usufruto, em sentido mais estrito. Embora essa perspectiva me pareça válida e muito frutífera, quero aproveitar dela apenas a indicação do quanto a positividade dos signos de bem-estar testemunha o seu oposto, ou seja, a ausência de prazer, sua desconsideração — o que interpretamos, de uma perspectiva psicanalítica, dizendo que tais signos têm em vista uma insuficiência psiquicamente legível da capacidade de contentamento e satisfação com as oportunidades objetivamente existentes na realidade.

Uma das dificuldades mais perceptíveis nesta problemática do prazer/satisfação/felicidade é a evidência com que a circunstância objetiva de vida exerce influência constante para percepção de si de cada pessoa. Como a todo momento se está sujeito às vicissitudes das condições materiais da vida, parece difícil estabelecer um princípio de compreensão geral da capacidade de ser feliz, tal como está nas formulações freudianas, independente do mundo exterior. Essa independência, entretanto, pode ser pensada de duas maneiras: por concebermos o desejo como tendo uma dinâmica e um princípio de estruturação tal que, sem considerarmos as circunstâncias concretas de vida, poderíamos detectar uma espécie de tendência sintomática para a uma visão pessimista e insatisfeita; e por ser pensada também como um princípio prático, de ação, no sentido de que a felicidade ou a satisfação com objetos de desejo seria determinada por nossa capacidade de nos tornarmos independentes dessas condições objetivas. Em relação a este último aspecto, o próprio Freud, no Mal-estar da civilização, se detém na análise de estratégias possíveis de evitar o sofrimento, tais como a arte, a religião e a fantasia/imaginação. Impossível não lembrar das atitudes apregoadas pelo budismo e por várias outras tendências religiosas favorecendo renúncia, abnegação, despojamento e diversos outros modos de negação do desejo em relação aos objetos da realidade. Em que pesem as inumeráveis diferenças entre as doutrinas, seu denominador comum é a percepção menos ou mais clara de que a soma de todas as circunstâncias objetivas da vida faz com que todos seus objetos sejam ilusórios e, consequentemente, deceptivos para o desejo, que se torna assim, então, fonte de sofrimento reiterado. A expressão filosófica mais enfática disso é, inegavelmente, a que se lê em Schopenhauer.

O que temos em vista é um aspecto do problema, que toca não propriamente na (im)possibilidade objetiva de equacionar o próprio desejo de tal forma que nossa satisfação possa não ser afetada pela conexão dúbia, incerta e frágil com objetos de desejo possíveis, mas sim em um princípio constitutivo de todo desejar em geral, que faz com que a incapacidade de ser feliz ou de obter satisfação significativa ao longo do tempo derive de uma disposição subjetiva específica para tomar os objetos de desejo como insatisfatórios, precários, insuficientes etc. Tal disposição pode ser falada de muitas formas, mas quero aqui abordá-la de forma mais restrita, considerando um vício de percepção dos objetos impulsionado por fatores desiderativos inconscientes.

A partir de conceitos da estética de Kant, podemos dizer que toda percepção é interessada, pois está sujeita às vicissitudes de nossas inclinações, que abrange nossos desejos, sentimentos e necessidades. Nietzsche dizia que todo perceber é mentiroso, pois sempre fazemos uma seleção e um recorte no que percebemos, na medida em que conferimos ênfase em determinados aspectos e descartamos outros. Adorno e Horkheimer diziam que todo perceber é projetar, pois o objeto final percebido será sempre resultado do modo como nós devolvemos ao mundo mais do que recebemos dele, uma vez que temos que sintetizar e modelar os dados recebidos através de nossas faculdades e poderes cognitivos. Estes e outros argumentos filosóficos nos demonstram de forma clara o quanto nossa percepção implica sempre um fator de seletividade e condicionamento. O tempo todo optamos, consciente e inconscientemente, por perceber as coisas da forma como fazemos — o que não significa dizer que nossa perspectiva crie, produza toda a realidade. Se isso é válido já no âmbito da ação cognitiva de perceber as formas, cores e texturas dos objetos, com muito mais razão ainda o é no modo como lhes conferimos importância, valor e significado para nosso prazer, contentamento e satisfação.

Embora toda percepção seja seletiva, condicionada e condicionante, entretanto nem toda ela necessariamente precisa ser dita como viciada. Tal como dizemos que um dado de seis faces pode estar viciado, no sentido de conter um peso de chumbo que o faz tender a parar com o número 6 voltado para cima, podemos dizer que “antes” mesmo de entrarmos em contato com os objetos de desejo na realidade (isso não apenas ou propriamente no sentido cronológico), é possível haver uma tendência “sintomática” de conferir muito mais importância e peso na determinação de nosso estado subjetivo àquilo que é ruim, insuficiente, precário, mal feito, impreciso etc. em cada momento, objeto e realidade. Desconsiderando as circunstâncias objetivas de privação, dor e infortúnios que podem ser extremos, é muito evidente que sempre haverá uma enorme quantidade de fatores (bons e ruins) que influenciam o nosso estado de contentamento, de modo que esta visão pessimista tipicamente neurótica de que fala Freud, a partir dessas considerações, teria como um de seus fatores o ímpeto de sistematicamente acentuar, enfatizar e prestar atenção a toda sorte de elementos negativos do real. É difícil exagerar o quão insistentemente o estado de espírito de insatisfação pessimista provém muito mais desse vício de nossa percepção do que de um desfavorecimento por assim dizer objetivo por parte de algo na realidade. Naturalmente, não é viável e nem mesmo possível estabelecer um princípio geral para se medir a influência desta predeterminação de nosso (des)contentamento, pois a constelação de fatores envolvidos em cada caso é infinitamente variável. Além disso, embora seja possível dizer em geral do que motiva este vício de percepção (que já abordamos de um determinado ponto de vista em outra postagem), é necessário uma reflexão não apenas pontual, de cada relação com os objetos em um determinado momento, como também uma análise das motivações inconscientes individuais, e a terapia analítica nos parece um caminho que, embora com todos os problemas advindos da demanda pessoal e da viabilidade objetiva em cada caso, deve ser percorrido.

Voltando à questão do sentido dos signos de felicidade no consumo, podemos dizer que eles extraem muito de sua força do fato de sua estrutura “contornar” esse vício perceptivo, purificando-se de diversos aspectos ambíguos e mesmo contraditórios. Sua idealização, assim, presta um “serviço” à estrutura neurótica de seus consumidores, vendendo objetos cujo brilho e glamour resolvem no jogo de imagens, luzes e cores o que permanece não resolvido na raiz do desejo.

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3 comentários:

Daniel Grandinetti disse...

Ótimo! Agora, escreva sobre o contrário: O vício de sempre ver a vida com otimismo e entusiasmo; o vício de se buscar na esperança (esperança = atitude de quem sempre espera) e não na realização (realizar = tornar real) o sentido da vida; o vício de se cultivar o riso fácil e, principalmente, o vício de se julgar com reprovação todos os que apresentam atitude divergente dessa, ou seria melhor dizer a FOBIA de quem apresenta atitude diferente dessa?

Verlaine Freitas disse...

Caro Daniel, obrigado pelo comentário. De fato, pode-se falar no oposto do vício pessimista, bem como nessa eterna esperança de realizar, sem nunca fazê-lo, além do "riso fácil" como você diz. Pretendo abordar essa temática mais à frente.

Daniel Grandinetti disse...

Verlaine, um contraponto existencialista à abordagem psicanalista:

http://www.facebook.com/cotidianoepsicologia/posts/167163873407586

Abraço.