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sábado, 11 de agosto de 2012

A lascívia nossa de cada dia

A sexualidade, quando posta à venda em imagens, é uma mercadoria especialmente potente, devido ao fato de que o desejo sexual não apenas se renova, surge, indefinidamente, quanto exprime de forma eloquente e enfática, no âmbito mais superficial de nossa consciência, a emergência de contradições e impossibilidades de sua resolução. Em virtude disso, cada imagem pornográfica tenderá a resolver, com seu glamour, brilho, cor e movimento, determinadas tensões psíquicas vividas na experiência com o corpo próprio e alheio. Tal resolução, entretanto, é multiplamente falsa, em virtude do fato de não apenas ser apenas uma imagem, quanto também de se situar como um objeto inequívoco, inquestionavelmente sedutor. De forma análoga a como Adorno diz que a música de cultura de massa “ouve” em lugar do consumidor, pois ela é pré-digerida, contendo todos os roteiros e indicações precisas de como deve ser usufruída, a imagem pornográfica “substitui” o próprio desejo. É como ela desejasse a si mesma e vendesse ao consumidor a satisfação de participar de modo vicário neste universo, que gira ao redor de sua própria eloquência sexual, lascivo e pornográfico.

As coisas se complicam especialmente, e de modo interessante, quando estamos diante de uma sexualidade vendida, não pela prostituta ou um garoto de programa, mas também não no plano da mera imagem fotográfica ou televisiva. Foi o caso de uma campanha de uma fábrica de roupas íntimas femininas que contratou modelos e garotas que participam de programas de televisão para desfilarem vestidas apenas com lingeries extremamente sensuais e provocantes. Naturalmente, tudo se transforma em espetáculo imagético, e portanto pornográfico, quando é divulgado por imagens e vídeos na Internet, ainda mais quando se considera que muito do impacto da performance é já concebido deliberadamente para se disseminar através do afluxo exorbitante de fotógrafos e camera-men que vão acompanhando todas as garotas durante o percurso. Quero comentar, entretanto, a campanha em sua realidade primeira, ou seja, através do desfile de garotas seminuas em uma grande avenida de São Paulo.

Edgar Morin chamou nossa atenção para o fato de que 90% ou mais das capas de revista, tanto masculinas quanto femininas, são ocupadas por imagens de mulheres. A mulher é o objeto de consumo predileto tanto dos homens quanto das mulheres. Ela se presta muito bem a equacionar, de forma dinâmica, não estática, complexos bastante significativos de identidade e diferença. Nessa lascívia por assim dizer aberrante de modelos desfilando seminuas no centro de São Paulo, é especialmente clara a ambiguidade presente no desejo de ter um corpo como aqueles, isso no duplo sentido do termo “possuir”, significando tanto apossar-se de, servir-se de, quanto também de tê-lo como o seu próprio. Em ambos os casos, tem-se este movimento de apropriação salivante de um espécime cuja intensidade sexual cresce na proporção da audácia de dessacralizar o corpo, tornando-o um objeto profano exposto à luz de uma tarde de trabalho como outra qualquer. A lingerie, que, não devemos esquecer, é o que deve ser comprado, é retirada de seu local por assim dizer “sagrado” da intimidade conjugal, e deverá ser adquirida como passaporte para os processos de identificação e apropriação transgressiva de um corpo reduzido em sua lascívia como um puro objeto.

Poderíamos falar bastante mais coisas no sentido de criticar essa falsificação aberrante do processo redutor da sublimidade sexual a um objeto-suporte-de-significações-sexuais. Creio, entretanto, que as análises dos teóricos que me parecem mais representativos da crítica ao universo do consumo e da cultura de massa, a saber, Adorno, Baudrillard e Edgar Morin, pecam em larga medida por unilateralidade. Tais autores insistem na denúncia contínua deste movimento de falsificação, deixando em segundo, terceiro ou quarto planos (ou na verdade nem mesmo considerando, como me parece o caso de Adorno), o quanto este aspecto deve ser pensado como fornecendo um acesso a uma verdade do desejo, a princípios de subjetivação inelimináveis, por mais que tentemos formular uma ideia utópica de veracidade do vínculo entre sujeito e objeto.

A primeira pergunta que levanto é: o que faz com que essa profanação do corpo possa vender as roupas íntimas? A tatuagem do nome da fábrica no corpo das garotas mostra claramente a associação direta entre o brilho massivo do sexual e o objeto a ser comprado, mas aquele a ser consumido, propriamente, é o modo com que esse corpo-reduzido-a-objeto condensa a impossibilidade de nos identificarmos com a dimensão estrangeira de nossa corporeidade em relação aos princípios de nossa dignidade pessoal. Essa lascívia herética ao meio-dia é, na verdade, índice de uma impossibilidade, instituída pelo recalque, do quanto queremos nos ver livres de nós mesmos no acesso prostituído a um corpo que tanto mais excita quanto menos nossa repressão permite. Em outras palavras, o corpo, nesse desfile libidinoso sob o olhar extasiado dos motoristas, é prostituído como cultura, faz convergir em curto-circuito a dignidade pessoal, que se conserva na medida em que se é apenas espectador, e a concretude desavergonhada de um corpo tão vívido quanto serelepe e sapeca, como índice de uma verdade arcaica, infantil de toda sexualidade.

A segunda pergunta é: e quem não compra esses produtos? Qual o significado da recusa dessa oferta de prostituição culturalizada de um corpo-como-sexo? Ela se situa no mesmo plano de quem aceita a oferta, mas apenas de forma negativa, confirmando a insistência de valores que deverão ser sempre quebrados com a oferta de uma lascívia consumida homeopaticamente. Esta prostituição do corpo como espetáculo sempre viverá do olhar enrubescido daqueles que se recusam a transitar para fora da sublimidade de sua dignificação pessoal. Comprando ou se indignando, todos sempre consumirão, em gotas, o aspecto transgressivo de uma sexualidade demoníaca, corrosiva aos padrões mais nobres de toda cultura.

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