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sábado, 4 de agosto de 2012

Per analogiam

O uso de analogias na compreensão de fenômenos culturais é um recurso bastante tentador, pois transferimos a compreensibilidade satisfatória de um determinado campo para outro mais dificilmente assimilável. Esta transposição, este transporte, que está envolvido na própria palavra “metáfora” — que significa transporte em grego —, constitui um princípio de todo conhecimento que pretende alargar suas fronteiras. Tal como várias reflexões sobre o conhecimento científico demonstram, o que é novo, desconhecido, deve ser sempre falado a partir de alguma tradução no que já é seguramente assimilado. Dizer do que é novo por si mesmo, sem nenhuma correlação com o já sabido, pode significar apenas um processo de nomear, de designar, algo estranho, sem que se perceba propriamente uma explicação ou elucidação do objeto da pesquisa.

Por outro lado, é preciso sempre considerar os limites desse procedimento analógico. Nem tudo pode ser transportado de um objeto para o outro, demandando igual atenção ao que é e não é legítimo nessa correspondência, que exprime divergências, incompatibilidades, desajustes e até mesmo oposições. Na medida em que aumenta a complexidade dos objetos comparados, mais se corre o risco de se tornarem bastante imprecisas as fronteiras entre o que é e o que não é válido. Em virtude disso, é fácil concluir que o procedimento analógico é um campo bastante suscetível a subjetivismos, escolhas e manipulações arbitrárias dos elementos em jogo. Some-se a isto o fato de que muitas vezes, pela letra do texto, em sua expressão imediatamente visível, não se percebe uma demonstração clara de uma estratégia de analogia, demandando alguma análise ou interpretação para que se descubra essa característica.

Considerando este panorama, justifica-se uma especial atenção a todo procedimento argumentativo desse tipo, não somente de textos alheios, mas também próprios, de modo que o brilho eloquente do procedimento metafórico — que não por acaso é um veículo por excelência da literatura poética — não nos ofusque para o que é veiculado de forma enganosa — sem que isto implique má-fé, ou desejo de manipular a recepção do texto. O exemplo de comparação analógica que quero comentar hoje é o de tomar a cultura/civilização a partir da ideia de projeto, como se aquela fosse uma múltipla e extensa construção orientada por determinados fins.

Ao se contrapor às teorias do pós-modernismo, que apregoam a ideia, entre outras, de que vivemos uma situação cultural não mais compreensível a partir dos ideais iluministas de verdade, liberdade e autonomia, Habermas diz que a modernidade é um projeto inacabado. Não se trataria de um mundo além do moderno, mas tão-somente de novos desdobramentos do que está envolvido nos princípios que instituíram a modernidade. Está muito claro que se faz aí uma relação analógica entre o que concebemos como um projeto (com metas, objetivos, etapas, procedimentos etc.) e a extremamente complexa constelação de fatores sócio-culturais, políticos e econômicos, éticos e religiosos, que configuram a emergência do mundo moderno, em contraste com o clássico, medieval e renascentista. — Com base no que falamos acima, seria de se perguntar o quanto é legítima, pertinente, esta transposição do conceito de projeto para um âmbito tão radicalmente complexo quanto a conjuntura múltipla da civilização europeia da época iluminista. Vejamos outra formulação, próxima a essa de Habermas, e que será meu o objeto de investigação propriamente dito.

Tendo vivido de perto o extremo horror do genocídio do nazi-fascismo, bem como atento ao estado de pobreza e às condições precárias de sobrevivência em diversas partes do mundo, Theodor Adorno disse mais de uma vez que a cultura até agora fracassou. Tomando-a como uma promessa de liberdade perante o aprisionamento das condições precárias de vida quando se está exposto às adversidades da natureza, como as doenças, catástrofes climáticas, escassez de alimentos etc., o filósofo considera que o preço que a cultura cobra pela instauração de todos os benefícios civilizacionais é extremamente alto. De forma análoga a como as sociedades pré-históricas são pensadas como se defrontando constantemente com perigos e ameaças provenientes de animais e de condições adversas de clima, vivemos atualmente a insegurança constante nas grandes metrópoles, bem como sob o risco sempre presente de uma guerra nuclear. Se somarmos a isto o estado de alienação patente em manifestações extremamente pobres da indústria cultural — cuja influência nas mentalidades é cada vez mais abrangente no âmbito planetário —, a conclusão que se impõe, segundo o filósofo, é que tal promessa de liberdade e de humanização do próprio ser humano até agora fracassou.

O ponto de apoio para o movimento analógico em Adorno está muito claro: tal como os seres humanos, tanto individualmente quanto em grupo, fazem projetos com fins de melhoria de vida, de modo a que se possa avaliar seu sucesso ou fracasso, por que não tomar a instituição cultural em toda sua extensão planetária, que se ramifica pelas inumeráveis civilizações, como uma espécie de projeto de libertar os seres humanos da opressão não só da natureza, quanto também das rivalidades recíprocas? Parece, de fato, bastante pertinente, caso se concorde com o peso que Adorno confere ao que há de negativo no âmbito da civilização ocidental em contraste com os também evidentes progressos dos direitos humanos, da alfabetização, do conhecimento científico etc. O grande problema, entretanto, é que esta analogia transporta para o âmbito anônimo e radicalmente difuso da totalidade cultural do planeta um direcionamento prévio, uma espécie de finalidade inscrita essencialmente no processo civilizatório, de modo que a cultura é marcada pelo fracasso por não corresponder a este elemento finalístico considerado intrínseco por analogia. Trata-se de uma projeção de um âmbito micro em um outro macro, que imputa a todo o multifacetado processo civilizacional uma espécie de coerência finalística que, de meu ponto de vista, é enganosa.

Nesse transporte analógico, carrega-se para o âmbito planetário algo que é próprio apenas do registro micro, a saber, a possibilidade de censura, responsabilização e até culpa por não se realizar o que foi estabelecido como fim previamente. Eu diria que a cultura, até agora, nem fracassou nem obteve sucesso. Ela persegue fins difusos, às vezes mais, e às vezes menos claros dentro de horizontes culturais mais específicos, retrocede drasticamente como no regime nazista, avança substancialmente quando da instauração do voto universal para as mulheres nas nações ocidentais, permanece à deriva, por assim dizer estagnada, como no longo período da idade medieval etc. Em nenhum momento da história, seja passada, presente ou futura, caberá a ideia de sucesso ou fracasso, pois a civilização por assim dizer não prometeu nada ao seres humanos, uma vez que ela é resultado de um processo altamente conflituoso, contraditório e difuso, tal como são os próprios seres humanos.

Se me permitem uma analogia (e agora fazer essa solicitação é compreensível), do mesmo modo com que Freud disse que no âmbito inconsciente imperam conteúdos anteriores aos processos de recusa, condenação e valores de toda ordem (morais, religiosos etc.), neste âmbito radicalmente macro da cultura no âmbito planetário não seria pertinente este juízo que condena a cultura pelo fato de não ter ainda consumado um processo de libertação e de realização do ser humano. Se o inconsciente está aquém de todos os princípios valorativos, o movimento geral da cultura está além deles.

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