Um espaço de discussão sobre Filosofia, Psicanálise, Arte, Política, Crítica cultural e Atualidades.

sexta-feira, 17 de agosto de 2012

Virtudes e vícios da abstração

Durante quatro anos lecionei em uma faculdade, em que ouvi muitas vezes, nas conversas entre os professores durante o intervalo de aula, uma queixa que se repetia bastante, com poucas variações: que os alunos não sabiam pensar abstratamente. O problema apontado era o de ser sempre necessário aplicar, ilustrar e exemplificar diversos conceitos, hipóteses e argumentos. O raciocínio exposto na aula precisava sistematicamente deixar seu típico grau de abstração para se tornar mais palpável, perceptível como um ingrediente da vida prática. — Nesse embate entre a demanda das turmas e dos professores, creio que ambos os lados têm e não têm razão.

A reclamação dos professores de fato se justifica. O pensamento abstrato é de suma importância para se perceberem relações mais gerais, amplas e aplicáveis a uma quantidade virtualmente infinita de casos. Conceitos e descrições mais próximas da realidade, mais práticas ou mais específicas, embora tenham mais chance de eficácia na lida com circunstâncias concretas, perdem o valor como uma visão macro de tendências e qualidades somente perceptíveis com um grau de abstração bastante alto. Tal como se diz que um bosque pode se esconder por trás de suas árvores, muito da verdade de fatos e realidades socialmente vividas somente transparece nesse olhar de sobrevoo, em que as diferenças e especificidades de cada caso precisam ser abstraídas para que se perceba uma dinâmica global.

Essa vantagem da abstração, entretanto, não se dá apenas como mais útil e melhor para entender certos aspectos do real. Ela se concretiza, de forma bastante enfática, na vida profissional de cada um. Se tomarmos as diversas ocupações em uma determinada área de atuação, como na construção de um edifício, no sistema judiciário ou em um hospital, veremos que quanto mais a função necessita apenas de intervenção direta caso a caso, quanto mais ela se liga à especificidade da atuação com o objeto, menos a sociedade tende a valorizar financeiramente tal atividade. No outro extremo, quanto mais a função se caracteriza por princípios mais abstratos de abordagem da realidade, quanto mais é necessário conceber o objeto não apenas em sua totalidade, mas também sua inserção em um âmbito maior, pensado a partir de generalizações, tanto mais valorizado financeiramente é o profissional. No exemplo da construção de um prédio, temos, em ordem crescente de abstração, as funções de um servente, de um pedreiro, do mestre-de-obras, do técnico em edificações, e do engenheiro/arquiteto, e é evidente que a remuneração cresce nesse mesmo sentido.

Não quero dizer com isso que tal divisão salarial seja justa, legítima. Não se trata de dar a razão a essa discrepância de valorização financeira da capacidade de pensar abstratamente, mas sim de lhe dar uma descrição clara acerca do que ocorre de fato, independente de isso ser de direito, ou seja, justificado. Em diversas circunstâncias a capacidade de abstração sempre será valorizada, em virtude, entre outras coisas, da dificuldade de ser alcançada. É preciso ver, por outro lado, que embora possamos dizer que há uma capacidade inerente a cada um para a prática de um pensamento abstrato (“talento”), é também evidente a possibilidade a cada de um melhorar, aperfeiçoar, expandir sua habilidade com abstrações. O exercício intelectual sempre poderá favorecer essa melhoria. Para que cada um se sinta motivado a tal exercício, entretanto, é necessário, antes de qualquer empenho concreto, essa percepção clara de que se trata de uma habilidade que tem um enorme valor social, isso considerado não apenas em termos mais filosóficos ou de concepção de mundo, mas em sentido bastante concreto, a saber, do retorno material, econômico, do trabalho.

Porém, como disse acima, a demanda dos alunos pela concretização dos princípios teóricos mais abstratos é também legítima. Creio que seja inegável que muitos teóricos dissimulam sua incompreensão da teoria por trás da obscuridade das abstrações conceituais. A habilidade de lida com tais conceitos muitas vezes fornece um anteparo potente contra uma incompreensão do modo com que o conceito se liga ao real, e não apenas a outros conceitos. Nesse sentido, muitos discursos teóricos indicam claramente o quanto se compreendeu o que o livro diz, mas não o que se entende da realidade a partir do que se leu. Nesse sentido, eu costumo pensar o seguinte: por mais abstrato que uma concepção teórica seja, eu não a compreendi suficientemente bem se não consigo aproximá-la de forma satisfatória na realidade.

Em uma de suas diversas manifestações críticas sobre a filosofia, Freud a comparou à psicose, devido ao fato de o típico tratado sistemático de grandes filósofos ser construído de forma radicalmente especulativa, desconectada das vicissitudes reais de constituição da realidade humana. Embora essa crítica seja imprópria e exagerada para grande parte das concepções filosóficas, parece-me acertada como um princípio geral de análise aplicável em maior ou menor grau. Em diversos momentos parece haver uma separação “esquizofrênica” entre o mundo de ideias auto-suficientes, cristalinas em seu rigor lógico, por um lado, e a realidade vivida em todas suas contradições, impasses, incompletudes etc, por outro. Tal como a própria palavra “esquizofrenia” diz, tem-se um pensamento cindido, quebrado, de tal forma que há uma polarização não mediada entre dois extremos. (Vou me abster de dar exemplos de teorias que me parecem bastante apropriadamente qualificadas a partir dessa ideia, pois isto demandaria uma quantidade de argumentos por demais extensa.)

Nessa relação entre a necessidade de pensar abstratamente e a de não se perder no deserto das abstrações auto-suficientes dos conceitos, a solução não caminha no sentido de um meio-termo, mas sim da necessidade de perceber o modo como construímos uma perspectiva de conexão com a realidade através de etapas de mediações entre o conhecimento e o real. A abstração deve ser vista como resultado de um processo historicamente sedimentado de exercício do poder de correlação de infinitos conceitos e formas de perceber a realidade. É preciso não esquecer de aspectos cruciais nessa construção mediada do pensamento abstrato, para que ele não fique cego perante aquilo que está em sua gênese. Tal como é fácil satisfazer-se com descrições pontuais e práticas da realidade, corre-se sempre o risco de ceder à sedução do caráter cristalino, coerente e homogêneo dos conceitos tal como impressos nos livros, por trás dos quais muitas vezes não se consegue vislumbrar sua razão de ser.

Se você gostou dessa postagem,
compartilhe em seu mural no Facebook.

Nenhum comentário: