Um espaço de discussão sobre Filosofia, Psicanálise, Arte, Política, Crítica cultural e Atualidades.

sábado, 29 de setembro de 2012

O excesso do desejo


O lançamento do novo modelo do iPhone 5 da Apple repetiu uma cena já ocorrida em lançamentos anteriores, com dezenas de pessoas em filas na porta de lojas em Nova York, que se formaram uma semana (!) antes do começo das vendas do aparelho. Não havia apenas compradores, pois muitos estavam ali apenas para vender o lugar para outrem, ou para revender o produto com alguma margem de lucro. Apesar disso, ainda assim é impressionante que tenha havido muitas pessoas em tais circunstâncias para adquirir um novo modelo de celular. Só que não se trata apenas de um esforço impressionante para ter acesso a um produto, uma vez que este será comercializado normalmente, assim que demanda e a oferta se equilibrarem. Desse modo, várias pessoas dormiram por dias em uma fila, não para comprar um novo celular, mas sim para tê-lo mais cedo, para não terem que esperar, digamos, mais duas semanas. Isso já mostra que, independente das características técnicas peculiares deste novo lançamento, a disposição obsessiva de várias pessoas por ter o aparelho demanda uma explicação em virtude da ausência completa de razoabilidade.

Minha abordagem não dirá respeito propriamente ao fenômeno do consumo, mas sim especificamente àquilo que pode fundamentar essa atitude típica de idolatria de um objeto que, em si mesmo, está muito longe de justificar todo o esforço despendido.

A perspectiva que mais imediatamente se oferece a nós parece ser que estamos diante de uma carência, de uma falta, de um vazio profundos, demandando um sentido, um significado, e até mesmo uma razão de ser para a vida, tomados como alcançáveis através da posse de um aparelho que concentra todo um brilho tecnológico e de comunhão planetária ao redor da marca mais valiosa no planeta. Essa forma de compreensão pensa o desejo essencialmente como uma demanda de algo que o preencha, sem que isso possa ser feito de forma definitiva por nenhum objeto. A um desejo marcado pelo vazio e pela indefinição em suas infinitas associações de objetos parciais passados, corresponderiam outros tantos objetos atuais perfeitamente vazios em sua significatividade mais substantiva, cuja aparência pode conter um apelo tão forte quanto é indefinida, indeterminada, a carência que lhes corresponde.

Não se pode negar que esta forma de abordagem é boa para descrever a realidade em jogo, pois até mesmo as próprias pessoas a que nos referimos podem, de alguma maneira, falar de si mesmas como carecendo de um objeto significativo da realidade cultural de nossos dias. Diante de um questionamento crítico de suas atitudes, que as levasse a refletir, não propriamente sobre o objeto, mas sobre seu próprio movimento afetivo, sobre o que sentem propriamente pela presença ou ausência de um tal objeto, creio que elas poderiam, com algum esforço, definir a si mesmas como necessitando de algo a mais do que os simples objetos da vida cotidiana. Embora fosse muito difícil justificar atitudes extremas como as da permanência na fila através do novo tamanho da tela e da velocidade do processador daquele celular (que são as únicas diferenças específicas frente às versões anteriores), o foco orientado para si mesmo poderia aproximar-se dessa ideia de que as pessoas se sentiriam mais “preenchidas” com a posse de tal aparelho.

De meu ponto de vista, essa perspectiva é melhor em termos descritivos do que explicativos. Ela parece elevar a um princípio geral, supostamente capaz de elucidar um fundamento da conexão entre sujeito e objeto, o que se situaria, na verdade, na superfície de nossa relação com o objetos, captável por nossa própria visitada consciente. — Uma vez que a crítica minimamente satisfatória a esta forma de abordagem demandaria muito mais argumentação do que é viável apresentar aqui, passo a apresentar uma outra perspectiva, que na verdade se coloca de forma simétrica em relação a ela.

Em vez de tomar o desejo como marcado pela falta, podemos, seguindo colocações de Jean Laplanche, dizer que ele se caracteriza por um excesso, por um transbordamento, por uma hipertrofia de afetos que demandam alguma forma de escoamento, de descarga, para serem suficientemente apaziguados. Em vez de um vazio a ser preenchido, temos algo hiper-saturado, que demanda vias para sua metabolização, de modo a caber nesse diminuto espaço de nossa própria subjetividade. Teríamos, assim, não uma acoplagem de um objeto que promete um significado para um sujeito que dele carece por sua incompletude, mas sim um objeto que, seja como for caracterizado objetivamente, sirva para fazer com que um oceano de cargas afetivas encontre um canal suficiente para serem escoadas.

É preciso conceder que ambas as perspectivas, no plano descritivo, podem ter a mesma validade, uma vez que em ambos os casos temos um descompasso entre a oferta de satisfação do objeto e aquilo que é demandado pelo desejo. De um ponto de vista dinâmico, ou seja, que aborda as forças e fatores que impelem à constituição do desejo, entretanto, elas são substancialmente diferentes. O desejo tomado como excesso é visto como fruto de uma rede de contradições, fantasias e investimentos afetivos ligados a uma história pessoal, de forma que no âmbito inconsciente uma quantidade virtualmente infinita de cargas afetivas ocupa um espaço psíquico por demais homogêneo e restrito para comportar uma gama tão grande de elementos divergentes, heteróclitos, díspares.

Para tornar essa perspectiva mais intuitiva, ligada à atitude dos consumidores, podemos dizer que aquilo que os move, aquém de sua percepção como carentes de um significado, é a necessidade de se dar, de se entregar a uma espécie de adoração, de idolatria de um objeto. Trata-se da necessidade, não de se completar, mas de se satisfazer pelo modo com que uma enorme energia psíquica é gasta pela devoção incondicional a um objeto de desejo. Aquelas pessoas estão dispendendo muito de si, rebaixando-se, humilhando-se, de modo a confirmar, com seu ato “heróico”, o valor que elas mesmas querem que o iPhone 5 tenha. Elas trabalham, produzem, investem na construção do valor que, ilusoriamente, tomam como presente no próprio aparelho. Ajudam a construir, com uma parcela de seu próprio ser, toda a dignidade que projetam como residente em algo que lhes é externo.

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sexta-feira, 21 de setembro de 2012

Ensaio sobre a saudade


Ouve-se dizer em várias circunstâncias que a palavra “saudade” não tem correspondente único em outros idiomas, devendo ser substituída por alguma expressão explicativa. Independente de isso ser verdade ou não, parece-me bastante interessante refletir sobre a diferença entre o sentir saudade, falta e nostalgia.

Sentir a falta de alguém que perdemos parece limitar-se ao quanto se sofre pela ausência, exprimindo a dor de um outro marcado pela distância. A falta diria mais respeito a uma incompletude, uma espécie de vazio deixado no presente por algo do passado. Por maior que seja a riqueza da imagem guardada na lembrança, esse sentir falta é essencialmente delineado pelo quanto se retirou de nós algo que nos preenchia, sem que com isso se instaure um novo modo de nos assenhorarmos da relação entre o preenchimento pretérito e o vazio do presente. Este último é marcado essencialmente como algo negativo, insuficiente e precário.

A nostalgia, por sua vez, envolve certa positividade, no sentido de um querer viver em outro tempo, de uma constante projeção de si em um passado que insiste em se substituir ao presente. Poderia ser caracterizada, no limite, como um vício, como uma dívida que cobramos do passado, devendo ser paga sistematicamente com o que a imaginação é capaz de fornecer, e as imagens concretas, como fotos, vídeos, desenhos etc, são capazes de cristalizar no âmbito da percepção. Trata-se, como a etimologia da palavra já indica (nostos = retorno), um eterno voltar-se para onde não mais se habita, um constante refluir para um plano de realidade que se sobrepõe ao do cotidiano. De forma análoga a como o sentir falta delineia o presente somente com as cores da negatividade, a nostalgia o faz em relação ao passado com todo o brilho de um encantamento que se tenta agarrar pelas débeis mãos da memória.

A saudade, por sua vez, teria algo da falta e algo da nostalgia, sem se confundir com nenhuma. Trata-se de um movimento de alma que se preenche pelo modo com que o passado se afirma como um ponto de fuga de presença. Não se trata propriamente da virtualidade do que outrora foi real, mas sim de um modo de ser sui generis, em que passado e presente decidem não ser totalmente distintos, mas também não se resolvem por uma substituição pela imagem, seja ela ficcional ou representada concretamente. Ela vive precisamente deste equilíbrio não totalmente resolvido entre ausência e presença. A isso não se deve qualificar como um menos de realidade, como uma deficiência de ser, mas, ao contrário, pela força com que insiste em não decidir, não cindir o plano do real entre um passado de que se lamenta e o presente de que se queira fugir. Em vez de um retorno impossível a este passado sobre o que se chora, ou um presente sempre soterrado pelas recordações, este movimento anímico se realiza ao se sedimentar nas sucessivas elaborações da diferença e identidade entre o que preenche e o que esvazia nosso desejo.

É especialmente difícil definir esta equalização entre passado e presente na saudade, devido ao fato de ser algo essencialmente intuitivo, lastreado por uma emoção que robustece a si mesma no momento em que modela para si uma imagem, composta de elementos muito heterogêneos, uma mescla da imagem que se recorda, do vazio que se sente e desejo que nos alimenta. Trata-se de produzir um significado pela força da confluência desses fatores, em um movimento também marcado pela indefinição entre o voluntário e o impositivo. Assim, o grande paradoxo da saudade é o de não se perder na indefinição de seu movimento, colhendo da multiplicidade de seus elementos o impulso necessário para criar um novo sentido além deles.

Etimologicamente, “saudade” deriva de “solidão”, e isso, ao que me parece, indica muito mais do que uma ausência de companhia como definidor da primeira. Sugere que ela é nutrida pelo modo com que nossa presença se demanda condensar o que não mais faz parte do horizonte de nossos passos, nem do alcance do movimento das mãos. Como se sabe, a solidão não exclui milhares de companhias, ela não é superada ou contradita pela presença, mas pelo modo, pela qualidade, pelo tipo de presença de outrem, bem como por nossa disposição em relação a ela. Saudade, entretanto, não se limita a este seu núcleo originário, acentuando este ímpeto afetivo interno de transitar para além do vazio de ser si mesmo.

Este impulso producente da saudade, entretanto, pode conhecer uma curiosa, talvez pueril, patologia: a de se sentir saudade daquilo que nunca ocorreu. Seria fácil dizer que se sente falta, hoje, de algo que deveria ter ocorrido no passado — mas não saudade propriamente. Esta última se liga à consciência íntima do que de fato existiu; mas no momento em que este não teve existência, ele começa a se definir, de forma produtiva, pelo núcleo faltoso do desejo. Trata-se do fruto de um “comércio” com o real possível e o real impossível, e nessa troca a moeda que usamos ganha certa autonomia, um valor próprio, deixando de ser afiançada pelo nosso senso de realidade. Nesse intercâmbio, perdem-se os limites do que se pode realmente comprar com os esforços de realização do desejo, momento em que o que era apenas desejável ganha uma concretude como valor devido no passado, a se resgatar, mesmo que com ônus, no presente — e então a saudade se aproxima perigosamente deste eterno retorno nostálgico.

Com essas poucas linhas, entretanto, não se pretendeu definir a saudade. Não se tratou aqui de domesticar seu ímpeto produtivo e transiente pela matriz precária de nossos parcos vocábulos, mas tão-somente de traduzir sua indefinição, evitando reduzi-la à negatividade da falta ou à projeção nostálgica e impositiva do passado.


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sábado, 15 de setembro de 2012

Por um novo pluralismo democrático

Em uma postagem anterior, critiquei a estratégia de falar do âmbito macro, social, a partir de um movimento analógico com o âmbito micro, seja ele individual ou de pequenos grupos. Isso não significa, por outro lado, negar que diversas formas de experiências culturais, econômicas, políticas, pedagógicas etc., em um âmbito restrito, possam servir de modelo para construção de um horizonte bem mais amplo. Quero hoje comentar uma experiência de democratização do espaço público no âmbito da universidade que me parece significativa como modelo para se pensar correlações entre o indivíduo e o espaço público/político mais ampliado.

Todos nós sabemos o quanto é difícil haver uma democracia direta, em que todos os cidadãos ou participantes de um mesmo espaço em comum são regularmente chamados a contribuir ativamente no processo de deliberação. Em um país de dimensões continentais como o Brasil, soa bastante utópico imaginar votações periódicas sobre questões de interesse nacional. No âmbito de uma comunidade universitária, particularmente de uma instituição pública, entretanto, em que temos de 2000 a 5000 pessoas, seria de se esperar que algum mecanismo de favorecimento e estímulo nesse sentido fosse freqüente. Isso, entretanto, não é o caso, nem mesmo no âmbito de cada Unidade universitária, que agrega cerca de 200 ou 300 professores, em que a proximidade e o relativo pequeno número de docentes sugere uma maior facilidade do viés de democratização pluralista. Seria muito oportuno que tais Unidades realizassem assembléias periodicamente, para discutir não propriamente assuntos da administração “cotidiana”, mas princípios e problemas mais gerais, estruturadores da vida acadêmica.

Diante da extrema necessidade de refletir acerca dos destinos da universidade quando da greve que envolveu mais de 90% das universidades públicas brasileiras a partir de abril de 2012, seria de se esperar que as assembléias deliberativas, tanto no âmbito de cada Unidade quanto de toda a comunidade universitária, tivessem uma expressiva participação. Os relatos do que ocorreu em geral no país, entretanto, demonstram o contrário, noticiando auditórios extremamente vazios, muitas vezes com menos de 10% do total de docentes.

Diante dessa realidade, propus e organizei, junto com duas colegas, um sistema de votação eletrônica no âmbito da Unidade em que a trabalho (a FAFICH, Faculdade de Filosofia e Ciências Humanas, da UFMG), em que cada pessoa se posicionou sobre a participação da UFMG no movimento grevista, bem como sobre a possibilidade da saída unilateral da greve por parte da Unidade.

Nas discussões acerca da legitimidade da consulta eletrônica, muitos se posicionaram contra, argumentando que se trata de um voto “preguiçoso”, podendo ser negligente e desinformado, uma vez que não seria mediado pela as discussões, não apenas informativas, mas de contraste de opiniões, próprias da assembléia. O principal ponto deste posicionamento parece o de que, quando se vota em casa, diante do computador, perde-se a valiosa oportunidade de se mudar de opinião em decorrência das argumentações levantadas durante o debate presencial. É como se cada voto espelhasse não o movimento político global da comunidade, mas sim posições por assim dizer “atomizadas”, individualistas, podendo cada voto refletir tão-somente um posicionamento político já previamente estabelecido, baseado em informações dispersas e muitas vezes incompletas através dos meios de comunicação.

É inegável que a densidade política de uma assembléia é insubstituível na oportunidade que apresenta para a formação de consensos, de perspectivas e de concepções de mundo construídas através da palavra vivamente proferida. Ouvir e ser ouvido na troca de argumentos a serem expostos e respondidos em um mesmo espaço, de fato, é uma experiência dialógica de política enriquecedora. Todo esse valor, entretanto, deve ser olhado considerando, ao mesmo tempo, a realidade material de que falei acima, ou seja, o fato de que muito poucas pessoas se dispõem a participar deste cenário. Por mais que um instrumento político seja louvável em termos de princípio, sua validade concreta dependerá sempre do que vemos atualmente acontecer, para que nossa avaliação da vida política não se perca em uma visão idealizada. Tendo em vista o baixo percentual de participação dos docentes nas assembléias, a insistência na exclusividade deste mecanismo como meio de tomada de decisão me parece fruto de uma concepção por demais aristocrática da política, e isso não no sentido depreciativo de um oligopólio, ou seja, de um governo de poucos, auto-designados, mas sim porque se aferra à excelência do embate presencial, desconsiderando o quanto tal excelência fica por demais comprometida pela auto-exclusão da maioria dos membros da comunidade.

Ao contrário do que os críticos da consulta eletrônica dizem, ela não precisa se restringir ao momento do voto, pois pode ser antecedida por uma longa e enriquecedora discussão no próprio meio virtual. Tal como o espaço dos blogs demonstra, é perfeitamente possível comentar uma proposta inicial, responder a diversos comentários, não apenas linearmente, mas em qualquer ordem que se queira, e isso pelo tempo que se julgar necessário. Cada uma dessas participações, de forma vantajosa em relação às assembléias, pode se dar de forma refletida, informada cuidadosamente pela leitura de matérias relacionadas ao tema. Trata-se de um mecanismo passível de uma série de aperfeiçoamentos, em virtude de experiências ao longo do tempo. Além disso, não se pretende exclusividade para a plataforma virtual, uma vez que ela deverá ser sempre precedida por alguma discussão no espaço de deliberação dos órgãos colegiados, em que se decidem quais assuntos serão levados à consulta eletrônica, em quais termos eles serão tratados etc.

Parece-me inquestionável que o resultado da consulta eletrônica que propus foi bastante expressivo, uma vez que mais de 60% dos docentes da Unidade votaram, o que representa mais do dobro dos que estiveram presentes na assembléia presencial que teve o maior quórum — na verdade foi maior do que a quantidade de docentes na assembléia geral que decidiu pela própria participação da UFMG na greve! Essa ampliação horizontal do número de participantes, do meu ponto de vista, não é índice de uma vantagem apenas numérica, pois, somando-se a possibilidade do diálogo no próprio âmbito virtual, chega-se à conclusão do quanto é necessário uma nova forma de estímulo e favorecimento da participação individual no espaço de discussão e de deliberação sobre os interesses em comum. Quando se pensa sobre os mecanismos de condução da política, não se pode fechar os olhos à disposição subjetiva, ao afeto, a toda carga de elementos motivacionais que nós, indivíduos contemporâneos, cultivamos — para o bem ou para o mal — ao longo de nossa história recente. Seria desejável que nossa disposição afetiva, em termos de conjunto dos atores políticos, incluísse o prazer do embate vivo da palavra no espaço de uma assembléia, mas me parece um idealismo obstinado e teimoso desconsiderar o que a realidade diz de forma inequívoca na direção contrária a isso. O que é “bom” na vida política não pode ser apenas qualificado pela excelência por princípio de um mecanismo em detrimento do espaço ampliado de inclusão participativa dos indivíduos. A experiência micro dessa participação em uma consulta eletrônica no âmbito da universidade me parece muito valiosa como um modelo a ser aperfeiçoado, enriquecido e posto em prática em âmbitos políticos cada vez maiores.




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sexta-feira, 7 de setembro de 2012

Pseudo-revolta

A necessidade de refletir sobre o que e como fazer coloca-se de formas bem diferentes para a ação individual e a situada no âmbito de um grupo. Tal como já no tempo de Freud se distinguia uma psicologia voltada para o sujeito quando decide agir independente dos outros e quando sua ação tem ressonância social, continua de grande interesse investigar a racionalidade de ações que, mesmo vinculadas a uma deliberação individual, somente fazem sentido porque se conectam às de milhares ou milhões de outras pessoas. Quero hoje comentar um fenômeno de psicologia social que sempre me intrigou por seu caráter primário, até mesmo pueril, dependendo do modo como é justificado e da circunstância em que aparece. Trata-se da campanha ou apologia do voto nulo nas eleições de cargos públicos.

Em meio a alguns argumentos que, embora já me pareciam equivocados, demonstravam alguma sensatez, chamou-me a atenção um especialmente ingênuo e simplório, e que exatamente por isso me surpreendeu ao vê-lo empregado por várias pessoas. Com algumas variações, o que se diz, essencialmente, é que, diante da evidente falta de bons candidatos, bem como dos vários casos de corrupção em todos os âmbitos políticos, o voto nulo seria um modo de a população demonstrar de forma enérgica seu descontentamento em geral com política. Levando em conta o impacto e a dimensão social do agir, se todas as pessoas aderissem a este lema, “eles”, os políticos, “teriam que fazer alguma coisa”, reconhecer essa insatisfação generalizada dos eleitores e possivelmente comportar-se de outro modo, propor candidatos realmente bons, ou algum outro tipo de rearranjo político mais substancial e eficaz do que aquele que vigora atualmente.

O que salta aos olhos imediatamente é o infantilismo dessa ideia, pois institui uma entidade capaz de tomar uma resolução cujo princípio motivacional se situe para além dos conflitos de interesse de todos os cidadãos. A atitude generalizada de recusa do voto, supostamente, levaria à emergência de uma consciência de que, afinal de contas, alguém, seja ele ou ela quem for, reconheceria que o modelo político atual deve ser abolido. A radical ingenuidade pueril projeta uma típica instância paterna, surgida por uma espécie de revolta filial e caracterizada por um reconhecimento de uma dignidade que se sente sistematicamente negligenciada, esquecida. Apela-se para um “eles” como instância decisória que teria um poder para-político, situado além das vicissitudes mesquinhas dos inumeráveis interesses que sempre estão em jogo na vida política.

Outro aspecto pueril daquele argumento é sua tentativa de fazer do vício uma virtude, da fraqueza uma força. Diante do fato de que a política se mostra, em larga medida, como um lodaçal de transações funestas e que permanecem impunes, a recusa, a negação de um vínculo positivo com ela acaba por adquirir uma conotação afirmativa. De forma análoga a como o “eles” é projetado como especialmente decisivo em sua elevação para além do plano de embate dos interesses, a negação de escolher um candidato ganha um peso pela sublimidade com que ataca a todos candidatos de uma vez só, deixando de se tingir pelas cores sombrias do espectro político. Quer-se ganhar força política ao se isentar do exercício construtivo, mas particular, minúsculo, de um voto em um candidato, para tomar parte, de forma idealizada, em uma consciência supostamente purificada da mesquinharia política e constituída por uma mentalidade que supostamente é compartilhada por milhões de pessoas. A abstenção no voto nulo ganha a aparência de universal, emblemática, simbólica, algo como uma revolta “definitiva” contra a mesquinharia própria dos conflitos dos interesses particulares.

A dimensão pueril dessa projeção paterna do “eles” fica ainda mais evidente pela total falta de senso de realidade quanto às possibilidades de intervenção no espaço público/político. Por mais que haja votos nulos em uma eleição, é muito evidente que sempre haverá uma quantidade necessária para se elegerem candidatos para todos cargos, não apenas do executivo, mas também do legislativo em todas as instâncias. É evidente que esta projeção de uma solidariedade da população, através do sentimento de revolta a se cristalizar em uma recusa definitiva do político, abstrai não apenas do desejo de grande parcela da população em eleger representantes com os quais possui suficiente familiaridade e confiança, como também do fato de que muitos candidatos que se elegem com base em favores e compras de voto menos ou mais caracterizáveis como tal. É muito evidente que se alguém possui um candidato em quem confia de forma mais substantiva, não deixará de votar nele em virtude de um suposto movimento supra pessoal de negação da política, devido ao fato de que nunca está certo o grau de adesão a essa proposta. Essa incerteza não deve ser tributada apenas à que existe sempre quando se tenta prever o comportamento de milhares ou milhões de pessoas, mas sim ao fato de que a proposta de votar nulo não constrói absolutamente nada no espaço público/político. A abstenção ou o voto nulo significam tão-somente a assinatura de uma procuração para que os outros votantes escolham os candidatos por conta própria, fazendo com que o peso de cada voto válido seja maior. Como é muito evidente que a prática da compra de voto sempre existiu e sempre existirá um alguma medida à sombra da lei, quanto mais votos nulos, mais barato fica eleger-se. Isso significa que essa atitude de recusa da política implica, em termos reais e concretos, no fortalecimento da eficácia da compra do voto. 

Essa perspectiva do voto nulo demonstra uma falta de amadurecimento da consciência política de uma parte da população, que ainda pensa soluções eficazes somente quando são fruto de uma decisão em bloco, “definitiva”, que rompa com mão forte a inércia dos descaminhos de nossa vida societária. Em contraste, a política solicita uma consciência do quanto o espaço público precisa ser construído gradualmente, atravessando caminhos que incorporam retrocessos, recaídas, barreiras momentaneamente intransponíveis etc. Por mais que os candidatos em uma eleição pareçam completamente idênticos quanto ao mérito político, sempre tomarei isso como apenas aparência, de tal forma que invariavelmente seremos solicitados ao trabalho muitas vezes pouco motivador de perceber diferenças onde parece reinar apenas mais do mesmo.

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sábado, 1 de setembro de 2012

Falsificação instrutiva


Em sua Ética a Nicômaco, Aristóteles forneceu a primeira grande exposição sistemática do conceito de felicidade como o objetivo último de todo ser humano. Tendo criticado as ideias de que ela consistiria no usufruto de prazeres sensíveis, da honra e do dinheiro, procurou concebê-la como ligada à completude de uma vida racionalmente pautada pelo exercício das virtudes, entre as quais incluía a coragem, a prudência, a justa admiração pelo sucesso alheio etc. Pelo menos a partir da idade moderna essa perspectiva de uma meta racionalmente estipulada para ser feliz sofreu sucessivos golpes, como, por exemplo, em Kant, que dizia que a felicidade é somente um ideal da imaginação, delineável apenas de forma bastante contingente, ou seja, variável, sem um sentido unívoco. Apesar dessa variabilidade, o filósofo alemão igualmente afirmava que é indubitavelmente certo que cada ser humano busque a própria felicidade, sendo tão-somente seu conteúdo colocado em dúvida.

O que salta aos olhos imediatamente como problemático na ideia de ser feliz é seu delineamento, já presente na concepção aristotélica, de algo completo, inteiro. Desde criança todos nós já somos ensinados que não existe felicidade, mas tão-somente instantes prazerosos, satisfações parciais — como diríamos usando uma expressão psicanalítica —, às quais se sucedem tristezas, angústias, tédio, etc., tornando a felicidade, como algo completo, apenas uma fantasia sem correspondência na realidade. Nesse sentido, a impossibilidade de alcançá-la residiria essencialmente no fato de que objetivamente não temos meios para chegar até ela, bem como para estender indefinidamente nosso estado de satisfação com as condições em que vivemos. A partir da crítica de Lacan ao conceito de felicidade em Aristóteles, esta não seria alcançável, tal como se mostra na demanda das pessoas ao procurarem a terapia analítica, não apenas devido à impossibilidade de seu delineamento racional, mas por que o sujeito não é capaz de conceber de forma integral um bem para si. Nesse sentido, nosso desejo seria por demais obscuro, móvel, instável e múltiplo para permitir a concepção de um complexo de objetos capaz de proporcionar o que a ideia de felicidade parece conter.

Minha perspectiva tende a radicalizar este último princípio, no sentido de dizer que a condição de ser feliz é não apenas equivocada em sua pretensão de completude, mas enganosa porque falsifica — de forma instrutiva — algo inerente a toda demanda de satisfação. A obscuridade do desejo deve ser aprofundada no sentido de incluir contradições profundas em relação aos desejos passíveis de se converterem em prazeres em nosso contato com os objetos. Indo direto ao ponto, eu diria que a felicidade seria insuportável. Seu delineamento de algo integral é em si mesmo contraditório, em virtude do fato de que essa inteireza contraria frontalmente um oceano de tensões profundamente arraigadas no desejo, que fazem com que este somente tenha sentido devido ao não se realizar integralmente. Quando disse pouco acima que a concepção de completude da felicidade é instrutiva em sua falsificação do desejo, quis me referir precisamente ao modo com que nos mostra uma verdade sobre o desejo ao estampar, no âmbito consciente, uma inversão de princípios motivacionais inerentes a toda demanda de prazer nos seres humanos.

Tal como a prática psicanalítica se acostumou a obter verdades através de mecanismos de inversão, cristalizados nos conteúdos manifestos dos sintomas e dos sonhos, a insistência no “eu quero é ser feliz” é índice de uma verdade mais incompreensível — porque subjetivamente inassimilável — de uma raiz “masoquista” — e isso não em um sentido patológico — de toda busca do prazer. Tal como escrevi em outro texto deste blog, essas considerações nos levam a dizer que o desejo se configura como mais satisfatório do que o próprio prazer obtido por sua realização. Este preenchimento dado pelo excesso subjetivo próprio do desejar como tal pode, ao longo das transformações e vicissitudes históricas do sujeito, conferir muito mais sentido e reforço motivacional para perseverar em nossa identidade do que a pluralidade prismática das satisfações laboriosamente arrancadas de nossa existência. Retire-se todo o caldo de incertezas, descompassos e contradições dos desejos em relação aos objetos, e o que se obtém nessa subtração é um vazio budista da negação abstrata do mundo, e não seu oposto, igualmente falso, da plenitude da satisfação.

A ênfase da sociedade de consumo na ideia de ser feliz só é possível em sua repetição infinitamente renovada em diversas imagens pelo fato de que é falsa. Apenas devido ao fato de que nós necessitamos de formas astuciosas de negar as contradições que nutrem o desejo é que os objetos podem ter um apelo tão fantástico, como substratos quase mágicos de uma felicidade tão abrangente quanto mentirosa em nossa economia psíquica. De igual modo, encontram seu lugar nessa necessidade de falsificação os diversos livros de auto-ajuda que pretendem instituir um caminho bem sucedido de realizações, desde modos comezinhos e diários de assunção das próprias fraquezas, até princípios bem orquestrados de alcançar o sucesso. Entre a perdição das incertezas por se navegar na areia movediça das opiniões pouco e mal instruídas, por um lado, e a astúcia bem arquitetada de alcançar a estabilidade emocional tomada como pressuposto de uma vida bem vivida, somos suficientemente ensinados a dissimular princípios de nossos desejos muito pouco digeríveis sob nosso ponto de vista consciente/cultural/social. É necessário articular um outro discurso para o desejo, que não se prenda aos termos em que esta última polaridade institui a entrada e a saída de um labirinto marcado pela redundância, pela insistência em uma busca de algo que, na verdade, não está inscrito em nosso desejo.

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