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sábado, 29 de setembro de 2012

O excesso do desejo


O lançamento do novo modelo do iPhone 5 da Apple repetiu uma cena já ocorrida em lançamentos anteriores, com dezenas de pessoas em filas na porta de lojas em Nova York, que se formaram uma semana (!) antes do começo das vendas do aparelho. Não havia apenas compradores, pois muitos estavam ali apenas para vender o lugar para outrem, ou para revender o produto com alguma margem de lucro. Apesar disso, ainda assim é impressionante que tenha havido muitas pessoas em tais circunstâncias para adquirir um novo modelo de celular. Só que não se trata apenas de um esforço impressionante para ter acesso a um produto, uma vez que este será comercializado normalmente, assim que demanda e a oferta se equilibrarem. Desse modo, várias pessoas dormiram por dias em uma fila, não para comprar um novo celular, mas sim para tê-lo mais cedo, para não terem que esperar, digamos, mais duas semanas. Isso já mostra que, independente das características técnicas peculiares deste novo lançamento, a disposição obsessiva de várias pessoas por ter o aparelho demanda uma explicação em virtude da ausência completa de razoabilidade.

Minha abordagem não dirá respeito propriamente ao fenômeno do consumo, mas sim especificamente àquilo que pode fundamentar essa atitude típica de idolatria de um objeto que, em si mesmo, está muito longe de justificar todo o esforço despendido.

A perspectiva que mais imediatamente se oferece a nós parece ser que estamos diante de uma carência, de uma falta, de um vazio profundos, demandando um sentido, um significado, e até mesmo uma razão de ser para a vida, tomados como alcançáveis através da posse de um aparelho que concentra todo um brilho tecnológico e de comunhão planetária ao redor da marca mais valiosa no planeta. Essa forma de compreensão pensa o desejo essencialmente como uma demanda de algo que o preencha, sem que isso possa ser feito de forma definitiva por nenhum objeto. A um desejo marcado pelo vazio e pela indefinição em suas infinitas associações de objetos parciais passados, corresponderiam outros tantos objetos atuais perfeitamente vazios em sua significatividade mais substantiva, cuja aparência pode conter um apelo tão forte quanto é indefinida, indeterminada, a carência que lhes corresponde.

Não se pode negar que esta forma de abordagem é boa para descrever a realidade em jogo, pois até mesmo as próprias pessoas a que nos referimos podem, de alguma maneira, falar de si mesmas como carecendo de um objeto significativo da realidade cultural de nossos dias. Diante de um questionamento crítico de suas atitudes, que as levasse a refletir, não propriamente sobre o objeto, mas sobre seu próprio movimento afetivo, sobre o que sentem propriamente pela presença ou ausência de um tal objeto, creio que elas poderiam, com algum esforço, definir a si mesmas como necessitando de algo a mais do que os simples objetos da vida cotidiana. Embora fosse muito difícil justificar atitudes extremas como as da permanência na fila através do novo tamanho da tela e da velocidade do processador daquele celular (que são as únicas diferenças específicas frente às versões anteriores), o foco orientado para si mesmo poderia aproximar-se dessa ideia de que as pessoas se sentiriam mais “preenchidas” com a posse de tal aparelho.

De meu ponto de vista, essa perspectiva é melhor em termos descritivos do que explicativos. Ela parece elevar a um princípio geral, supostamente capaz de elucidar um fundamento da conexão entre sujeito e objeto, o que se situaria, na verdade, na superfície de nossa relação com o objetos, captável por nossa própria visitada consciente. — Uma vez que a crítica minimamente satisfatória a esta forma de abordagem demandaria muito mais argumentação do que é viável apresentar aqui, passo a apresentar uma outra perspectiva, que na verdade se coloca de forma simétrica em relação a ela.

Em vez de tomar o desejo como marcado pela falta, podemos, seguindo colocações de Jean Laplanche, dizer que ele se caracteriza por um excesso, por um transbordamento, por uma hipertrofia de afetos que demandam alguma forma de escoamento, de descarga, para serem suficientemente apaziguados. Em vez de um vazio a ser preenchido, temos algo hiper-saturado, que demanda vias para sua metabolização, de modo a caber nesse diminuto espaço de nossa própria subjetividade. Teríamos, assim, não uma acoplagem de um objeto que promete um significado para um sujeito que dele carece por sua incompletude, mas sim um objeto que, seja como for caracterizado objetivamente, sirva para fazer com que um oceano de cargas afetivas encontre um canal suficiente para serem escoadas.

É preciso conceder que ambas as perspectivas, no plano descritivo, podem ter a mesma validade, uma vez que em ambos os casos temos um descompasso entre a oferta de satisfação do objeto e aquilo que é demandado pelo desejo. De um ponto de vista dinâmico, ou seja, que aborda as forças e fatores que impelem à constituição do desejo, entretanto, elas são substancialmente diferentes. O desejo tomado como excesso é visto como fruto de uma rede de contradições, fantasias e investimentos afetivos ligados a uma história pessoal, de forma que no âmbito inconsciente uma quantidade virtualmente infinita de cargas afetivas ocupa um espaço psíquico por demais homogêneo e restrito para comportar uma gama tão grande de elementos divergentes, heteróclitos, díspares.

Para tornar essa perspectiva mais intuitiva, ligada à atitude dos consumidores, podemos dizer que aquilo que os move, aquém de sua percepção como carentes de um significado, é a necessidade de se dar, de se entregar a uma espécie de adoração, de idolatria de um objeto. Trata-se da necessidade, não de se completar, mas de se satisfazer pelo modo com que uma enorme energia psíquica é gasta pela devoção incondicional a um objeto de desejo. Aquelas pessoas estão dispendendo muito de si, rebaixando-se, humilhando-se, de modo a confirmar, com seu ato “heróico”, o valor que elas mesmas querem que o iPhone 5 tenha. Elas trabalham, produzem, investem na construção do valor que, ilusoriamente, tomam como presente no próprio aparelho. Ajudam a construir, com uma parcela de seu próprio ser, toda a dignidade que projetam como residente em algo que lhes é externo.

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