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sábado, 1 de setembro de 2012

Falsificação instrutiva


Em sua Ética a Nicômaco, Aristóteles forneceu a primeira grande exposição sistemática do conceito de felicidade como o objetivo último de todo ser humano. Tendo criticado as ideias de que ela consistiria no usufruto de prazeres sensíveis, da honra e do dinheiro, procurou concebê-la como ligada à completude de uma vida racionalmente pautada pelo exercício das virtudes, entre as quais incluía a coragem, a prudência, a justa admiração pelo sucesso alheio etc. Pelo menos a partir da idade moderna essa perspectiva de uma meta racionalmente estipulada para ser feliz sofreu sucessivos golpes, como, por exemplo, em Kant, que dizia que a felicidade é somente um ideal da imaginação, delineável apenas de forma bastante contingente, ou seja, variável, sem um sentido unívoco. Apesar dessa variabilidade, o filósofo alemão igualmente afirmava que é indubitavelmente certo que cada ser humano busque a própria felicidade, sendo tão-somente seu conteúdo colocado em dúvida.

O que salta aos olhos imediatamente como problemático na ideia de ser feliz é seu delineamento, já presente na concepção aristotélica, de algo completo, inteiro. Desde criança todos nós já somos ensinados que não existe felicidade, mas tão-somente instantes prazerosos, satisfações parciais — como diríamos usando uma expressão psicanalítica —, às quais se sucedem tristezas, angústias, tédio, etc., tornando a felicidade, como algo completo, apenas uma fantasia sem correspondência na realidade. Nesse sentido, a impossibilidade de alcançá-la residiria essencialmente no fato de que objetivamente não temos meios para chegar até ela, bem como para estender indefinidamente nosso estado de satisfação com as condições em que vivemos. A partir da crítica de Lacan ao conceito de felicidade em Aristóteles, esta não seria alcançável, tal como se mostra na demanda das pessoas ao procurarem a terapia analítica, não apenas devido à impossibilidade de seu delineamento racional, mas por que o sujeito não é capaz de conceber de forma integral um bem para si. Nesse sentido, nosso desejo seria por demais obscuro, móvel, instável e múltiplo para permitir a concepção de um complexo de objetos capaz de proporcionar o que a ideia de felicidade parece conter.

Minha perspectiva tende a radicalizar este último princípio, no sentido de dizer que a condição de ser feliz é não apenas equivocada em sua pretensão de completude, mas enganosa porque falsifica — de forma instrutiva — algo inerente a toda demanda de satisfação. A obscuridade do desejo deve ser aprofundada no sentido de incluir contradições profundas em relação aos desejos passíveis de se converterem em prazeres em nosso contato com os objetos. Indo direto ao ponto, eu diria que a felicidade seria insuportável. Seu delineamento de algo integral é em si mesmo contraditório, em virtude do fato de que essa inteireza contraria frontalmente um oceano de tensões profundamente arraigadas no desejo, que fazem com que este somente tenha sentido devido ao não se realizar integralmente. Quando disse pouco acima que a concepção de completude da felicidade é instrutiva em sua falsificação do desejo, quis me referir precisamente ao modo com que nos mostra uma verdade sobre o desejo ao estampar, no âmbito consciente, uma inversão de princípios motivacionais inerentes a toda demanda de prazer nos seres humanos.

Tal como a prática psicanalítica se acostumou a obter verdades através de mecanismos de inversão, cristalizados nos conteúdos manifestos dos sintomas e dos sonhos, a insistência no “eu quero é ser feliz” é índice de uma verdade mais incompreensível — porque subjetivamente inassimilável — de uma raiz “masoquista” — e isso não em um sentido patológico — de toda busca do prazer. Tal como escrevi em outro texto deste blog, essas considerações nos levam a dizer que o desejo se configura como mais satisfatório do que o próprio prazer obtido por sua realização. Este preenchimento dado pelo excesso subjetivo próprio do desejar como tal pode, ao longo das transformações e vicissitudes históricas do sujeito, conferir muito mais sentido e reforço motivacional para perseverar em nossa identidade do que a pluralidade prismática das satisfações laboriosamente arrancadas de nossa existência. Retire-se todo o caldo de incertezas, descompassos e contradições dos desejos em relação aos objetos, e o que se obtém nessa subtração é um vazio budista da negação abstrata do mundo, e não seu oposto, igualmente falso, da plenitude da satisfação.

A ênfase da sociedade de consumo na ideia de ser feliz só é possível em sua repetição infinitamente renovada em diversas imagens pelo fato de que é falsa. Apenas devido ao fato de que nós necessitamos de formas astuciosas de negar as contradições que nutrem o desejo é que os objetos podem ter um apelo tão fantástico, como substratos quase mágicos de uma felicidade tão abrangente quanto mentirosa em nossa economia psíquica. De igual modo, encontram seu lugar nessa necessidade de falsificação os diversos livros de auto-ajuda que pretendem instituir um caminho bem sucedido de realizações, desde modos comezinhos e diários de assunção das próprias fraquezas, até princípios bem orquestrados de alcançar o sucesso. Entre a perdição das incertezas por se navegar na areia movediça das opiniões pouco e mal instruídas, por um lado, e a astúcia bem arquitetada de alcançar a estabilidade emocional tomada como pressuposto de uma vida bem vivida, somos suficientemente ensinados a dissimular princípios de nossos desejos muito pouco digeríveis sob nosso ponto de vista consciente/cultural/social. É necessário articular um outro discurso para o desejo, que não se prenda aos termos em que esta última polaridade institui a entrada e a saída de um labirinto marcado pela redundância, pela insistência em uma busca de algo que, na verdade, não está inscrito em nosso desejo.

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3 comentários:

val guimaraes disse...

estava agorinha agoando meu jardim...tempo seco....seco...
constatei como é bom qdo chove. O cheiro de terra molhada, grama verde, mata brilhante......

lembrei-me também de como pedia p parar de chover em Janeiro.....como desejada dias secos.....

Maria Beatriz Versiani disse...

Pois então, muito bom o texto, Verlaine... a felicidade só pode ser apreendida por alguns pequenos instantes, assim mesmo, como chuvinha fina que logo seca...

Bruno Soares Jardim disse...

A felicidade como um estado constante e impertubável de saisfação é realmente impraticável e provavelmente intolerável. Acho que ao dissertar sobre a felicidade Aristóteles pensa menos nisso do que em um modo de vida que possa o máximo de satisfação possível. Penso que idéia seria a de que uma pessoa com uma poa disposição ou formação psíquica é mais capaz de gerenciar o que de satisfação pode realizar e desfrutar em sua vida. E isso de fato é possível: usar a razão ordenar os bens em um sistema de valores que serão perseguidos segundo sua ordem de importância.

Nesse sentido, a felicidade é parecida com a idéia de Bem de Platão, mais um horizonte para o qual caminhar, a direçõa norte ou uma instância onde as contradições se resolvem do que algo concreto.