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sexta-feira, 7 de setembro de 2012

Pseudo-revolta

A necessidade de refletir sobre o que e como fazer coloca-se de formas bem diferentes para a ação individual e a situada no âmbito de um grupo. Tal como já no tempo de Freud se distinguia uma psicologia voltada para o sujeito quando decide agir independente dos outros e quando sua ação tem ressonância social, continua de grande interesse investigar a racionalidade de ações que, mesmo vinculadas a uma deliberação individual, somente fazem sentido porque se conectam às de milhares ou milhões de outras pessoas. Quero hoje comentar um fenômeno de psicologia social que sempre me intrigou por seu caráter primário, até mesmo pueril, dependendo do modo como é justificado e da circunstância em que aparece. Trata-se da campanha ou apologia do voto nulo nas eleições de cargos públicos.

Em meio a alguns argumentos que, embora já me pareciam equivocados, demonstravam alguma sensatez, chamou-me a atenção um especialmente ingênuo e simplório, e que exatamente por isso me surpreendeu ao vê-lo empregado por várias pessoas. Com algumas variações, o que se diz, essencialmente, é que, diante da evidente falta de bons candidatos, bem como dos vários casos de corrupção em todos os âmbitos políticos, o voto nulo seria um modo de a população demonstrar de forma enérgica seu descontentamento em geral com política. Levando em conta o impacto e a dimensão social do agir, se todas as pessoas aderissem a este lema, “eles”, os políticos, “teriam que fazer alguma coisa”, reconhecer essa insatisfação generalizada dos eleitores e possivelmente comportar-se de outro modo, propor candidatos realmente bons, ou algum outro tipo de rearranjo político mais substancial e eficaz do que aquele que vigora atualmente.

O que salta aos olhos imediatamente é o infantilismo dessa ideia, pois institui uma entidade capaz de tomar uma resolução cujo princípio motivacional se situe para além dos conflitos de interesse de todos os cidadãos. A atitude generalizada de recusa do voto, supostamente, levaria à emergência de uma consciência de que, afinal de contas, alguém, seja ele ou ela quem for, reconheceria que o modelo político atual deve ser abolido. A radical ingenuidade pueril projeta uma típica instância paterna, surgida por uma espécie de revolta filial e caracterizada por um reconhecimento de uma dignidade que se sente sistematicamente negligenciada, esquecida. Apela-se para um “eles” como instância decisória que teria um poder para-político, situado além das vicissitudes mesquinhas dos inumeráveis interesses que sempre estão em jogo na vida política.

Outro aspecto pueril daquele argumento é sua tentativa de fazer do vício uma virtude, da fraqueza uma força. Diante do fato de que a política se mostra, em larga medida, como um lodaçal de transações funestas e que permanecem impunes, a recusa, a negação de um vínculo positivo com ela acaba por adquirir uma conotação afirmativa. De forma análoga a como o “eles” é projetado como especialmente decisivo em sua elevação para além do plano de embate dos interesses, a negação de escolher um candidato ganha um peso pela sublimidade com que ataca a todos candidatos de uma vez só, deixando de se tingir pelas cores sombrias do espectro político. Quer-se ganhar força política ao se isentar do exercício construtivo, mas particular, minúsculo, de um voto em um candidato, para tomar parte, de forma idealizada, em uma consciência supostamente purificada da mesquinharia política e constituída por uma mentalidade que supostamente é compartilhada por milhões de pessoas. A abstenção no voto nulo ganha a aparência de universal, emblemática, simbólica, algo como uma revolta “definitiva” contra a mesquinharia própria dos conflitos dos interesses particulares.

A dimensão pueril dessa projeção paterna do “eles” fica ainda mais evidente pela total falta de senso de realidade quanto às possibilidades de intervenção no espaço público/político. Por mais que haja votos nulos em uma eleição, é muito evidente que sempre haverá uma quantidade necessária para se elegerem candidatos para todos cargos, não apenas do executivo, mas também do legislativo em todas as instâncias. É evidente que esta projeção de uma solidariedade da população, através do sentimento de revolta a se cristalizar em uma recusa definitiva do político, abstrai não apenas do desejo de grande parcela da população em eleger representantes com os quais possui suficiente familiaridade e confiança, como também do fato de que muitos candidatos que se elegem com base em favores e compras de voto menos ou mais caracterizáveis como tal. É muito evidente que se alguém possui um candidato em quem confia de forma mais substantiva, não deixará de votar nele em virtude de um suposto movimento supra pessoal de negação da política, devido ao fato de que nunca está certo o grau de adesão a essa proposta. Essa incerteza não deve ser tributada apenas à que existe sempre quando se tenta prever o comportamento de milhares ou milhões de pessoas, mas sim ao fato de que a proposta de votar nulo não constrói absolutamente nada no espaço público/político. A abstenção ou o voto nulo significam tão-somente a assinatura de uma procuração para que os outros votantes escolham os candidatos por conta própria, fazendo com que o peso de cada voto válido seja maior. Como é muito evidente que a prática da compra de voto sempre existiu e sempre existirá um alguma medida à sombra da lei, quanto mais votos nulos, mais barato fica eleger-se. Isso significa que essa atitude de recusa da política implica, em termos reais e concretos, no fortalecimento da eficácia da compra do voto. 

Essa perspectiva do voto nulo demonstra uma falta de amadurecimento da consciência política de uma parte da população, que ainda pensa soluções eficazes somente quando são fruto de uma decisão em bloco, “definitiva”, que rompa com mão forte a inércia dos descaminhos de nossa vida societária. Em contraste, a política solicita uma consciência do quanto o espaço público precisa ser construído gradualmente, atravessando caminhos que incorporam retrocessos, recaídas, barreiras momentaneamente intransponíveis etc. Por mais que os candidatos em uma eleição pareçam completamente idênticos quanto ao mérito político, sempre tomarei isso como apenas aparência, de tal forma que invariavelmente seremos solicitados ao trabalho muitas vezes pouco motivador de perceber diferenças onde parece reinar apenas mais do mesmo.

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8 comentários:

Anônimo disse...

Belo e corajoso texto, Verlaine! Um dos melhores do blog. Abraço.

Anônimo disse...

Ops. Comentário acima foi meu.
Rodrigo Cássio

Cleiton Rezende disse...

Para a psicanálise, até o que não cabe, cabe!

Verlaine Freitas disse...

Obrigado, Cássio, pelo retorno. Um abraço.

Verlaine Freitas disse...

Caro Cleiton, não entendi como essa ideia se relaciona ao que escrevi na postagem. Gostaria que você esclarecesse o que vc pensa com tal frase.

Cleiton Rezende disse...

Prezado Verlaine, de Norte ao Sul de seu texto, “elementos”, ou seja, palavras e frases que pertencem, ou melhor, são vistos “a rodo” nos textos psicanalíticos podem ser amplamente constatados. Por exemplo: “A radical ingenuidade pueril PROJETA uma típica INSTÂNCIA PATERNA, surgida por uma espécie de revolta filial e caracterizada por um reconhecimento de uma dignidade que se sente sistematicamente negligenciada, esquecida”. Esse fragmento, em particular, me fez recordar a palavra REPETIÇÃO, muito utilizada nos cursos e textos pelas pessoas que tem interesses em saber sobre o comportamento humano. Aqui, no caso, informações utilizadas de um eixo epistemológico, apenas.

Caminhando pela Medicina Psiquiátrica atual verificamos que a “nossa” mente pode ser classificada nas seguintes estruturas: A Neurótica, a Psicótica e a Perversa. E se não mudou desde que me graduei, os conceitos em que elas - as estruturas, ainda, são embasadas, pertencem ao pai da psicanálise, Freud. Sendo assim, a questão de sermos “castrados” ou não irá marcar o nosso psiquismo de forma a agirmos assim ou assado, de votarmos NULO ou no José ou Maria.

Isso sem falar nas questões edipianas. Para elas, eu vou utilizar de outro fragmento de seu texto, que diz, assim: “A abstenção no voto NULO ganha a aparência de universal, emblemática, SIMBÓLICA, algo como uma REVOLTA “definitiva” contra a mesquinharia própria dos conflitos dos interesses PARTICULARES”.

Enfim, deixando de lado a rivalidade entre filhos e pais e estes com aqueles, quando escrevi que, “o que não cabe, cabe”, na verdade, utilizando os referidos conceitos, TUDO cabe. Tudo é justificado. Tudo deriva da estrutura do psiquismo do individuo. E o que é pior (ou melhor), é fazermos algumas coisas que não sabemos o porquê fizemos ou fazemos. Seguindo essa linha de pensamento, repito: Tudo cabe. E, até o que não cabe, cabe.

Abraços.

ps. Pseudo-revolta, não cabe.

Verlaine Freitas disse...

Caro Cleiton, sua observação no primeiro parágrafo de que meu texto está repleto de conceitos psicanalíticos encontrados "a rodo" em outros textos me parece por demais pejorativa, uma vez que quando se faz uma abordagem psicanalítica de um fenômeno cultural, evidentemente serão empregados conceitos presentes em outros textos que usam a mesma base teórica. Isso vale para qualquer outra perspectiva, seja ela de sociologia, antropologia etc. Cada teórico emprega os conceitos que sua opção metodológica lhe fornece.
O restante do seu texto usa um argumento bastante difundido, muito usado contra a psicanálise, a saber, de que ela pretende explicar tudo a partir de alguns conceitos fundamentais. É inegável que diversos psicanalistas produziram interpretações de mundo reducionistas, e eu incluiria até mesmo o próprio Freud entre eles. Isso, entretanto, não é exclusivo da psicanálise, pois diversas outras formas de fazer teoria incorrem neste erro, como a semiótica, o marxismo, filosofia analítica, positivismo etc. Em meu texto, empreguei conceitos psicanalítico de forma "genérica", que não pretendem propriamente "explicar" o voto nulo, mas sim fazer uma interpretação de seu significado no âmbito social. Não me parece que meu texto tenha procurado uma compreensão reducionista dessa atitude política. Particularmente, não fiz nenhuma associação de tipo clichê, ao associar conceito de castração e voto nulo, por exemplo, que você menciona em seu comentário. Na verdade, os conceitos psicanalíticos que entreguei referem-se a poucos elementos nucleares da teoria psicanalítica, e mesmo quando o faço, não necessito de referências conceituais mais propriamente típicas, pois "instância paterna", por exemplo, é um conceito empregado por várias outras correntes na psicologia.

Cleiton Rezende disse...

É questionável a sua resposta, caro Verlaine. O que eu escrevi não tem uma carga depreciativa tampouco grosseira. Uma idéia, inclusive, confirmada por você em certo momento de sua resposta quando escreve sobre o reducionismo etc. O que lhe apresentei como réplica (e que foi solicitada por você, não se esqueça), surgiu de uma leitura crítica, devidamente fundamentada (como devem ser todas as leituras e comentários filosóficos) e com uma pitada de humor. Relaxa e abraços a rodo.