Um espaço de discussão sobre Filosofia, Psicanálise, Arte, Política, Crítica cultural e Atualidades.

sexta-feira, 21 de setembro de 2012

Ensaio sobre a saudade


Ouve-se dizer em várias circunstâncias que a palavra “saudade” não tem correspondente único em outros idiomas, devendo ser substituída por alguma expressão explicativa. Independente de isso ser verdade ou não, parece-me bastante interessante refletir sobre a diferença entre o sentir saudade, falta e nostalgia.

Sentir a falta de alguém que perdemos parece limitar-se ao quanto se sofre pela ausência, exprimindo a dor de um outro marcado pela distância. A falta diria mais respeito a uma incompletude, uma espécie de vazio deixado no presente por algo do passado. Por maior que seja a riqueza da imagem guardada na lembrança, esse sentir falta é essencialmente delineado pelo quanto se retirou de nós algo que nos preenchia, sem que com isso se instaure um novo modo de nos assenhorarmos da relação entre o preenchimento pretérito e o vazio do presente. Este último é marcado essencialmente como algo negativo, insuficiente e precário.

A nostalgia, por sua vez, envolve certa positividade, no sentido de um querer viver em outro tempo, de uma constante projeção de si em um passado que insiste em se substituir ao presente. Poderia ser caracterizada, no limite, como um vício, como uma dívida que cobramos do passado, devendo ser paga sistematicamente com o que a imaginação é capaz de fornecer, e as imagens concretas, como fotos, vídeos, desenhos etc, são capazes de cristalizar no âmbito da percepção. Trata-se, como a etimologia da palavra já indica (nostos = retorno), um eterno voltar-se para onde não mais se habita, um constante refluir para um plano de realidade que se sobrepõe ao do cotidiano. De forma análoga a como o sentir falta delineia o presente somente com as cores da negatividade, a nostalgia o faz em relação ao passado com todo o brilho de um encantamento que se tenta agarrar pelas débeis mãos da memória.

A saudade, por sua vez, teria algo da falta e algo da nostalgia, sem se confundir com nenhuma. Trata-se de um movimento de alma que se preenche pelo modo com que o passado se afirma como um ponto de fuga de presença. Não se trata propriamente da virtualidade do que outrora foi real, mas sim de um modo de ser sui generis, em que passado e presente decidem não ser totalmente distintos, mas também não se resolvem por uma substituição pela imagem, seja ela ficcional ou representada concretamente. Ela vive precisamente deste equilíbrio não totalmente resolvido entre ausência e presença. A isso não se deve qualificar como um menos de realidade, como uma deficiência de ser, mas, ao contrário, pela força com que insiste em não decidir, não cindir o plano do real entre um passado de que se lamenta e o presente de que se queira fugir. Em vez de um retorno impossível a este passado sobre o que se chora, ou um presente sempre soterrado pelas recordações, este movimento anímico se realiza ao se sedimentar nas sucessivas elaborações da diferença e identidade entre o que preenche e o que esvazia nosso desejo.

É especialmente difícil definir esta equalização entre passado e presente na saudade, devido ao fato de ser algo essencialmente intuitivo, lastreado por uma emoção que robustece a si mesma no momento em que modela para si uma imagem, composta de elementos muito heterogêneos, uma mescla da imagem que se recorda, do vazio que se sente e desejo que nos alimenta. Trata-se de produzir um significado pela força da confluência desses fatores, em um movimento também marcado pela indefinição entre o voluntário e o impositivo. Assim, o grande paradoxo da saudade é o de não se perder na indefinição de seu movimento, colhendo da multiplicidade de seus elementos o impulso necessário para criar um novo sentido além deles.

Etimologicamente, “saudade” deriva de “solidão”, e isso, ao que me parece, indica muito mais do que uma ausência de companhia como definidor da primeira. Sugere que ela é nutrida pelo modo com que nossa presença se demanda condensar o que não mais faz parte do horizonte de nossos passos, nem do alcance do movimento das mãos. Como se sabe, a solidão não exclui milhares de companhias, ela não é superada ou contradita pela presença, mas pelo modo, pela qualidade, pelo tipo de presença de outrem, bem como por nossa disposição em relação a ela. Saudade, entretanto, não se limita a este seu núcleo originário, acentuando este ímpeto afetivo interno de transitar para além do vazio de ser si mesmo.

Este impulso producente da saudade, entretanto, pode conhecer uma curiosa, talvez pueril, patologia: a de se sentir saudade daquilo que nunca ocorreu. Seria fácil dizer que se sente falta, hoje, de algo que deveria ter ocorrido no passado — mas não saudade propriamente. Esta última se liga à consciência íntima do que de fato existiu; mas no momento em que este não teve existência, ele começa a se definir, de forma produtiva, pelo núcleo faltoso do desejo. Trata-se do fruto de um “comércio” com o real possível e o real impossível, e nessa troca a moeda que usamos ganha certa autonomia, um valor próprio, deixando de ser afiançada pelo nosso senso de realidade. Nesse intercâmbio, perdem-se os limites do que se pode realmente comprar com os esforços de realização do desejo, momento em que o que era apenas desejável ganha uma concretude como valor devido no passado, a se resgatar, mesmo que com ônus, no presente — e então a saudade se aproxima perigosamente deste eterno retorno nostálgico.

Com essas poucas linhas, entretanto, não se pretendeu definir a saudade. Não se tratou aqui de domesticar seu ímpeto produtivo e transiente pela matriz precária de nossos parcos vocábulos, mas tão-somente de traduzir sua indefinição, evitando reduzi-la à negatividade da falta ou à projeção nostálgica e impositiva do passado.


Se você gostou dessa postagem,
compartilhe em seu mural no Facebook

Nenhum comentário: