Um espaço de discussão sobre Filosofia, Psicanálise, Arte, Política, Crítica cultural e Atualidades.

sábado, 27 de outubro de 2012

Um projeto sempre renovado


Todas as formas de organização social, apesar de suas infinitas diferenças, possuem sempre um grau expressivo de inércia, ou seja, possuem uma tendência de manter indefinidamente diversas formas de sua estruturação, que se reproduzem ao longo do tempo, apesar das transformações de maior ou menor intensidade. Tal como Michel Foucault e outros teóricos de esquerda mostraram abundantemente, as relações de poder adquirem formas de manifestação que se ramificam por todo o corpo social, abrangendo as relações de gênero, familiares, religiosas, além das que são usualmente expressas nesses termos, como na política e na economia. Por mais que haja vontade política para combater de forma estrutural as consequências de tais relações, como o desemprego, o analfabetismo, a miséria etc., diversos aspectos da realidade social demandam uma intervenção pontual, específica, orientada por um princípio racionalmente concebido de correção de injustiças sociais. Deu-se o nome de ação afirmativa a esse tipo de intervenção.

A justificativa empregada para este mecanismo de correção, no âmbito jurídico, das distorções da vida social, econômica e cultural baseia-se na diferença entre a democracia meramente formal e a material. Que a lei garanta uma igualdade de todos perante o ordenamento jurídico não significa que todos tenham, concretamente, as mesmas oportunidades de aproveitamento do espaço da cidadania. As condições econômicas e sociais em que cada pessoa nasce e atravessa sua infância e juventude podem minar completamente as possibilidades de desenvolvimento de suas capacidades intelectuais, seus talentos e suas aptidões. Além disso, o peso da rejeição social através de preconceitos e discriminações de toda a ordem induzem um desfavorecimento causador de profundo desnível nessa suposta igualdade perante a lei. Desse modo, se queremos que, de fato, concretamente, as pessoas tenham igualdade perante a lei, é necessário tratar de forma desigual aqueles que, concretamente, já o são, no âmbito da orquestração social, econômica, religiosa, profissional etc.

Esta argumentação me parece realmente válida. Seu valor consiste em que a formalidade da lei, a ideia abstrata de democracia como de uma igualdade de todos para enfrentar o mercado de trabalho, as oportunidades de acesso à riqueza etc., pode servir muito bem de camuflagem para o desejo de manutenção dos privilégios que se acumulam ao longo do tempo, e que fazem com que a igualdade de oportunidades se torne cada vez menos real. Uma igualdade abstrata e não é democrática, mas sim totalitária, impositiva. Isso configura claramente um exemplo de ideologia, na medida em que um determinado interesse, um desejo de manutenção de relações de poder é camuflado, dissimulado, por detrás de uma evidência cristalina de um princípio universal, qual seja, de igualdade formal de todos perante as leis e normas que regulam a sociedade.

Estratégias como esta, de se protegerem interesses por detrás de princípios abstratos, fazem-se presentes em diversas circunstâncias, principalmente quando alguma dinâmica social é avaliada numericamente, como a produção científica, de pesquisa, de ações sociais etc. Muitos valores são criados, bem como distorções são cometidas, sistematicamente, mas se tornam invisíveis aos olhos daqueles que só leem o real a partir da planície dos conceitos, dos princípios gerais e dos números. Estes planos abstratos, normalmente, estão pacificados, pois estão acima ou abaixo das vicissitudes com que a experiência humana se traduz como sofrimento, dor, desejo, ansiedade e uma série de outros motivos e consequências de nossa presença no mundo, não traduzíveis pela universalidade comunicativa que a lógica, o número e as leis se arrogam ter.

A ação afirmativa é uma explicitação do quanto a dinâmica multifacetada da realidade social necessita ser compreendida e sofrer intervenção pontual, específica, particular, ao longo do tempo. Ela é resultado da assunção de que a realidade humana sempre carece de uma intervenção para que ela atualize um princípio mais geral do que as das leis e princípios, a saber, a ideia de que o ser humano é sempre fruto de um processo contínuo diz recolocação em jogo do que é necessário para se construir um espaço de justiça comum. Trata-se de reconhecer a necessidade de corrigir, sempre e de novo, os rumos que o projeto comum de vida alcança devido ao modo com que as diferenças sociais se fazem valer a cada instante. Isso não significa que se deva abdicar de princípios universais, mas sim a constatação de que sua verdade deve ser sempre medida pelo modo com que eles produzem uma realidade que não é transparente em sua formulação abstrata. Por fim, há que se reconhecer, também, que não é simplesmente devido à intenção de corrigir distorções que se garante a validade de qualquer ação afirmativa. Tal como comentei em outra postagem, o princípio de correção política da linguagem, quando aplicado em âmbitos inadequados, como do dicionário e das obras de arte, produz distorções relativas ao modo com que, em determinados aspectos, se está aquém e/ou além da necessidade de intervir nas vicissitudes da vida.



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sábado, 20 de outubro de 2012

Corpo e ritual

Tal como demonstra do por estudos de antropologia cultural do século XX e também por reflexões filosóficas, como de autores da escola de Frankfurt, as muitas formas de pensamento mitológico praticadas pela civilizações ao longo da história possuem importantes características em comum. Uma delas é o fato de que cada ritual religioso, mágico, mítico, procura reafirmar um significado profundo do real através da invocação de forças poderosas, provenientes de seres sobrenaturais. Cada complexo de ações deverá instaurar, no momento presente, no âmbito da vida cotidiana, um vínculo com aquilo que garante a permanência da vida, do movimento, da natureza, de tudo o que a realidade tem de válido, quanto também do que a poderia colocar em xeque, mas é necessário para que uma ordem geral do mundo permaneça.

Salta aos olhos o quanto essa necessidade de afirmação de um significado mais profundo contém sempre o sentido de uma transição, de uma passagem, de instauração de um significado em um outro âmbito, em um outro tempo, que precisa ser conectado íntima e visceralmente com uma determinada ordem. Exemplos disso são os rituais de iniciação das meninas na vida adulta quando da menstruação, dos jovens para a prática guerreira ao saírem da infância, dos anciãos ao se tornarem membros da elite dirigente, da invocação de uma nova estação das chuvas, do apelo aos deuses para uma nova estação de fertilidade da terra etc. Nesse sentido, a ritualização significaria sempre estabelecer uma ponte, um nexo, alguma forma de transitividade de forças e significações entre planos, de modo a que ambas as realidades se tornem mais vivas, fortes, e assim aquele substrato mais profundo do real pode se reafirmar sempre de novo e mais uma vez.

Apesar de as culturas ocidentais da Europa e das Américas serem definidas por uma forma de racionalização que as afasta das concepções míticas, é evidente que ainda se notam diversos aspectos ritualísticos da vida cotidiana, para além daqueles mais literalmente praticados como tal no âmbito religioso. As inúmeras festas instituídas periodicamente, como de aniversário, do carnaval, de comemorações de determinados eventos, bem como diversos afazeres cotidianos e todo o processo reiterado de organização do trabalho caracterizam uma forma ritualística de manutenção de um significado da vida que ressoa um desejo de continuidade de uma ordem existente.

Nesse cenário, quero ressaltar a enorme importância do corpo, que funciona como uma espécie de plataforma de suporte para uma quantidade indefinida de mecanismos ritualísticos, isso não apenas pelo fato de sempre estarmos presentes, de uma forma ou de outra, em algum complexo de ação de um ritual, mas pelo fato de ele sempre já ser algo transitivo, como uma ponte entre a interioridade de nosso ser, de nossa consciência, e a realidade externa, o mundo das coisas e das pessoas. Em diversos momentos essa sua condição de via de passagem entre o que pensamos e o que queremos que exista na realidade se torna especialmente significativa. Disso resulta em grande medida uma série de ações obsessivamente dirigidas à manutenção da saúde, não pelo cultivo sistemático de uma vida saudável, mas pela adesão a determinados mecanismos tomados de forma não-crítica como válidos, tais como complexos de vitaminas, regimes alimentares exóticos e “artificiais”, além de uma infindável busca por uma beleza corporal alcançada através de práticas especificamente dirigidas para a modelagem e embelezamento do corpo, como bronzeamento artificial, uso de uma enorme quantidade de cremes, loções, xampus etc.

Importa observar que essa ritualização do corpo, na verdade, retira de cena sua especificidade, seu valor próprio, transformando-o em mero agente desqualificado, tendencialmente reduzido a veículo de manutenção de significados compartilhados socialmente. Por mais que seja o objeto de atenção em cada caso, o sentido do prazer com este complexo ritualístico de ações tende a se concentrar no status e na promoção social que se pretende alcançar.

O outro lado da moeda é o quanto o corpo também é negligenciado, mas agora pelo fato de que sua dimensão transitiva entre a consciência e o mundo não entra em jogo de forma alguma. Nesses momentos, o que efetivamente entra no cálculo econômico de nossos investimentos e sua rentabilidade de resultados é tão-somente uma correlação simples entre o que se estabelece como objetivo, e o que é alcançado concretamente com as ações. Tome-se como exemplo paradigmático todas as profissões que se concentram em práticas intelectuais, de leitura, pesquisa e produção de textos. Tenho a nítida impressão que o prazer com a produção teórica, científica, jurídica e outras resume-se à excelência dos resultados. Parece-me quase nonsense perguntar pelo quanto existe de satisfação corporal na própria atitude de ler, escrever e pesquisar. Creio que o mais perto que normalmente se chega de uma reflexão como esta é a preocupação de não causar prejuízo ao corpo, seja devido a algum problema de coluna advindo de uma postura errada ao sentar ou do excesso de tempo que se passa sem nenhum movimento expressivo. Isso significa que a atenção se concentra eminentemente em evitar prejuízo, e não em se obter um prazer com a própria atividade. Uma vez que esta, dirigida “totalmente” para algo abstrato, que é o conhecimento, a teoria, uma peça jurídica etc., parece um tanto “ridículo” questionar pelo prazer físico dessa atividade. Que o corpo “não atrapalhe”, por assim dizer, ou que ele não seja prejudicado, já parece absorver tudo o que lhe seja devido em termos de atenção.

Não é meu objetivo aqui indicar modos e estratégias específicas com que o corpo possa ser efetivamente alvo de atenção e fonte de prazer nessas atividades intelectuais, pois creio que isto diz respeito a um complexo de opções individuais e de “estilo” de vida, que deve se nutrir da criatividade pessoal. Restrinjo-me a apontar o princípio geral do quanto as formas de ritualização de nosso contato com o mundo esquecem o “valor próprio” da corporeidade, seja ao tomá-la como um substrato desqualificado de ações com fins de promoção social, seja por submergi-la nessa relação de curto-circuito entre o que se pretende do mundo e os resultados concretos de nossas ações. É mister dirigir o olhar com muito mais cuidado e investimento afetivo nesta porção intermediária do real, entre a profundidade de nossas ideias e a exterioridade objetiva do mundo.



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sábado, 13 de outubro de 2012

Para definir a esquerda


Os conceitos de esquerda e direita política encontram diversos fatores que tornam seu delineamento bastante difícil. Além da evidente pluralidade de elementos constituintes de toda a dinâmica de orquestração social, econômica, cultural, religiosa etc., as divergências e contradições nos interesses em jogo sempre exigem readequações contínuas nos direcionamentos políticos dos grupos que se sucedem no poder. O exemplo mais claro disso, nas últimas décadas, é o modo com que partidos historicamente associados a movimentos sociais, como de operários, trabalhadores sem terra, grupos raciais oprimidos etc., foram obrigados a realizar ações que aproximam sua linha de atuação a setores tipicamente de direita, como banqueiros, o grande empresariado e o capital internacional. É interessante notar que, diante de tais tendências, não apenas se questiona a coerência ideológica de certos partidos, mas a própria legitimidade de se pretender definir o que é ser de esquerda e de direita.

Trata-se de um debate bastante complexo, e que pode ser abordado sobre o um viés mais estritamente concernido às ciências sociais, ou mais abstrato e filosófico. Quero hoje apontar apenas um dos fatores ligados à tarefa de definição da esquerda política, visando contribuir ao debate através da colocação de um princípio geral de equacionamento do que pode ser usado para tal definição.

Eu diria que um pilar forte do que define a esquerda é a tarefa de contrariar linhas iniciais de manutenção de relações de poder excludentes e sua consequente acumulação de renda, geração de setores sociais marginalizados, desconsideração de direitos fundamentais de cidadania, de reconhecimento social, público e cultural etc. Nesse cenário, quero ressaltar a necessidade do foco se dirigir não apenas a políticas pontuais de distribuição de renda ou de asseguramento de certos direitos, mas sim de ações orquestradas de modo a romper uma lógica ligada a todos esses mecanismos de acumulação de poder em suas diversas faces. Isso me parece extremamente importante, em virtude da necessidade de se distinguirem políticas tipicamente populistas, que querem remediar situações precárias no contexto do capitalismo, e as de esquerda em sentido mais próprio, cuja linha de ação queira intervir de forma mais substantiva na inércia com que as formas de relações de poder se perpetuam, reproduzindo-se com uma força realmente difícil de ser rompida.

Ocorre que, em virtude dessa necessidade de negar o estado de coisas atual, a esquerda sempre poderá ser vista como perigosamente reativa, em vez de progressista, uma vez que estratégias de defesa perante a realidade de concentração de renda e poder — que se sedimentou ao longo de séculos e mesmo milênios — podem facilmente soar como “artificiais”. A esquerda pode ser sempre estigmatizada como concernida a ações afirmativas, tal como o politicamente correto em suas faces mais inadequadas, que tentaria negar uma suposta “verdade” incrustada no modo como os seres humanos “são”.

Embora toda estrutura social de poder seja construída, fruto da vontade in- e consciente dos seres humanos, por outro lado sua pretensa naturalização, sua transformação em “segunda natureza”, faz com que qualquer tentativa orquestrada de contrariar tal linha inercial possa parecer “barroca”, “artificial”, “reativa”. Não que haja um suposto núcleo essencialmente “de direita”, incrustrado nas relações sociais, mas sim a consideração de que a esquerda “sempre” se definirá pela contrariedade de um fluxo histórico em que se sedimentam relações de poder caoticamente reguladas, para além — ou aquém — da racionalidade representativa de qualquer utopia de humanização das relações intersubjetivas, seja em escala familiar ou planetária.

Devido ao fato de ser definida por tal processo de correção da dinâmica inercial das relações de poder, a esquerda está essencialmente marcada pela dimensão política num sentido mais próprio. Entendo isso no sentido de que ela demanda sempre uma organização política suficientemente orquestrada e racionalmente dirigida para articular os elementos, fatores e atores envolvidos no espaço público de decisões e de reivindicações. Não é de forma alguma acidental e contingente que o espectro político de direita, em sua vertente liberal, sempre privilegie a desregulamentação dos mercados e sempre apregoe, de uma forma ou de outra, um estado mínimo. Na sua vertente autoritária, como no caso do golpe de 64 no Brasil e outros na América latina em geral, embora o poder maciço do Estado tenha sido implantado com toda a virulência, na verdade, o que temos é apenas a manifestação, no outro extremo, também da negação da política, no sentido já clássico de que se atinge um limite para além do qual não há mais política em sentido minimamente aceitável, fazendo convergir em curto-circuito a deliberação descendente (“de cima para baixo”) e sua realização compulsória, forçada e violenta.

Diante disso, eu diria que é importante que os movimentos políticos de esquerda articulem seu ideário de atuação concreta em sintonia com um discurso suficientemente bem estruturado, de modo a demonstrar o quanto seu desejo de intervenção na realidade não apenas justifica mas demanda instituições robustas, de modo a interferir em e contrariar uma lógica nefasta de empobrecimento das relações humanas em suas inúmeras fáceis. É necessário demonstrar o quanto ações baseadas nos princípios de racionalização de determinados mecanismos econômicos, educacionais e outros não configuram (necessariamente) uma espécie de “violência” em relação àquilo que os seres humanos são em sua suposta espontaneidade, mas pelo contrário, trata-se de uma proposta pedagógica em sentido bastante amplo, de modo a se formarem valores e formas de conscientização do espaço em comum que caminhem no sentido de reconhecimento do direito de todos a uma vida digna.




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sexta-feira, 5 de outubro de 2012

Maduros, pero no mucho


Juntamente com o cultivo do corpo, através da prática sistemática de exercícios físicos, esportes e uma série de regimes alimentares específicos, tal como se tornou pronunciado nas últimas décadas do século XX, ouviu-se falar pejorativamente, e ainda se ouve, da “geração saúde”. Tomada como uma espécie de poética da existência, pautada por regras claramente dirigidas para favorecer a robustez corporal, com sua correlata sensação de bem-estar própria de uma condição saudável, tal atitude desde sempre pôde ser criticada através de vários argumentos e pontos de vista, desde a posição típica da aristocracia do espírito, que considera como algo raso de sentido conferir importância exacerbada ao corpo e sua beleza, até uma visão cotidiana bastante difundida de que se trata de uma espécie de infantilismo. Nesse último caso, aquela postura saudável seria índice de certa obsessividade em evitar quaisquer prazeres supostamente prejudiciais, mesmo que não sejam tão significativos nos malefícios que causam. Meu objetivo hoje é comentar esse último tipo de crítica.

Embora seja um truísmo, isto é, algo já reconhecidamente aceito como verdadeiro, não custa muito repetir que qualquer atitude, quando praticada de forma excessiva, insistente e rígida pode ser tomada como obsessiva, e, assim, patológica. O que me parece significativo em relação às críticas à postura de uma vida saudável em geral — como por exemplo a programática evitação de alimentos gordurosos, a constância na prática de exercícios físicos, a preocupação com horários regulares de sono etc. — é que o limiar que caracteriza o obsessivo é por demais baixo. Quero dizer com isso que basta muitas vezes apenas uma manifestação singular de uma preferência por algum tipo de alimento ou postura tipicamente dirigida para uma vida saudável, para se receber uma observação crítica no sentido de que praticamos algo não apenas excessivo, mas também infantil, como se uma atitude pontual já nos caracterizasse como uma pessoa preocupada em comer e fazer “tudo o que precisamos para crescer fortes e saudáveis”.

Nas discussões da última década em relação aos espaços em que se deveriam permitir e proibir o fumo, o colunista da Folha de São Paulo J Pereira Coutinho criticou explicitamente a postura da prefeitura de Paris de proibir o uso de qualquer substância fumígera em seus cafés. Considerando a secular tradição dos cafés parisienses, com todo o seu charme, cantado em verso e prosa, o autor tachou de infantilismo não apenas essa quanto todas as outras medidas semelhantes como promovendo uma assepsia infantilizada de nosso espaço público, invocando a velha ideia de ingerência do Estado na vida dos cidadãos, como se estes precisassem de um direcionamento paterno por, supostamente, não poderem discernir o que é bom para si mesmo, para além dos prejuízos que toda relação de prazer com o mundo parece possuir. Não quero tratar aqui dessa problemática da tutela do Estado sobre as escolhas individuais, mas tão apenas somente apontar mais uma vez essa ideia de que a preocupação com a saúde, em detrimento de alguns prazeres que envolvem prejuízos à saúde é índice de infantilidade.

Nesse contexto, o conceito de maturidade subjacente a tais críticas parece consistir na posição daquele que “não tem medo” de pequenos prejuízos acarretados por alguma espécie de prazer, tomando-os como inerentes a um risco calculado na “aventura da vida”. Em vez de uma atenção dirigida à saúde corporal, o foco seria uma saúde do espírito, que tende a se elevar acima das vicissitudes por assim dizer “comezinhas”, não significativas, dos prejuízos eventualmente causados por cigarro, álcool, falta de exercício físico, alguma gordura dos alimentos, etc. Nesse sentido, a preocupação com uma sistemática forma saudável de viver seria sintoma de uma revivência, por si mesmo, da voz materna e paterna que primava pela preocupação com a saúde, justificada não apenas pela falta de maturidade das crianças, mas também por sua fragilidade corporal, fisiológica.

Mais uma vez, digo que é perfeitamente possível haver excesso para ambos os lados, tanto para uma obsessividade com a saúde, quanto com o seu desleixo. Mas repito que o limiar de tolerância para com uma vida saudável, antes de considerá-la obsessiva, parece-me muito baixo. E isso, de meu ponto de vista, é algo a ser tomado como sintomático, como expressão de um significado de nossa relação com o mundo atua através de nosso posicionamento, sem que tenhamos consciência de seu sentido mais profundo.

A minha perspectiva é que existe uma inversão entre os conceitos de infantilidade e maturidade. O que, de certo ponto de vista, pode ser tomado facilmente como índice de maturidade, a saber, a não preocupação com os “pequenos” prejuízos à saúde decorrentes de horários de sono irregulares sedentarismo etc., esconde, na verdade, certo grau de infantilismo (sem que isto queira dizer necessariamente algo patológico). Em vez de tal despreocupação significar uma postura forte, robusta, para além dessas vicissitudes mesquinhas para o nosso complexo fisiológico, creio que sejam índice de um gosto específico, direcionado ao que chamo de pequenas doses de transgressão. Noutras palavras, em vez de uma atitude de, por exemplo, não se preocupar em comer uma comida natural ser determinada apenas de forma negativa, como não importando para a contabilidade geral dos prazeres e seus riscos, creio que ela seja alvo de uma determinação positiva, praticada por ter um sentido nela mesma. Em vez de alguém comer carnes gordurosas em um churrasco por que considera que isto não é suficientemente prejudicial, eu diria a que está em jogo o desejo de comer algo minimamente prejudicial.

O que seria índice de uma robustez e elevação de espírito em relação a um infantil cuidado com o corpo demonstra, na verdade, em muitos casos, um gozo inconsciente com pequenas travessuras, afrontas e peraltices em relação a tudo aquilo que relembra em nós, hoje, o que sempre ouvimos durante a infância. Tal como cada um de nós experimentou sempre um gozo de fazer travessuras simplesmente por contrariar uma proibição materna ou paterna, esse descrédito apressado, com um limiar baixo de tolerância, para com as atitudes de uma vida saudável me parece índice de um retorno deste gozo infantil de afrontar a lei familiar. Como nós, depois de crescidos, não temos mais esta voz a nos obrigar de forma externa a ter uma vida saudável, nós a interiorizamos e continuamos a praticar nossas travessuras com nossos pequenos atos de transgressão a tudo que incorpora esta lei incrustrada em nós de forma arcaica. Tal como antes, continua-se a ter este pequeno prazer de romper limites dados pelo outro, só que agora esses limites são dados pelo nosso bom senso, sistematicamente transgredido em nome de uma suposta saúde viril e arrojada do espírito.



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