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sábado, 20 de outubro de 2012

Corpo e ritual

Tal como demonstra do por estudos de antropologia cultural do século XX e também por reflexões filosóficas, como de autores da escola de Frankfurt, as muitas formas de pensamento mitológico praticadas pela civilizações ao longo da história possuem importantes características em comum. Uma delas é o fato de que cada ritual religioso, mágico, mítico, procura reafirmar um significado profundo do real através da invocação de forças poderosas, provenientes de seres sobrenaturais. Cada complexo de ações deverá instaurar, no momento presente, no âmbito da vida cotidiana, um vínculo com aquilo que garante a permanência da vida, do movimento, da natureza, de tudo o que a realidade tem de válido, quanto também do que a poderia colocar em xeque, mas é necessário para que uma ordem geral do mundo permaneça.

Salta aos olhos o quanto essa necessidade de afirmação de um significado mais profundo contém sempre o sentido de uma transição, de uma passagem, de instauração de um significado em um outro âmbito, em um outro tempo, que precisa ser conectado íntima e visceralmente com uma determinada ordem. Exemplos disso são os rituais de iniciação das meninas na vida adulta quando da menstruação, dos jovens para a prática guerreira ao saírem da infância, dos anciãos ao se tornarem membros da elite dirigente, da invocação de uma nova estação das chuvas, do apelo aos deuses para uma nova estação de fertilidade da terra etc. Nesse sentido, a ritualização significaria sempre estabelecer uma ponte, um nexo, alguma forma de transitividade de forças e significações entre planos, de modo a que ambas as realidades se tornem mais vivas, fortes, e assim aquele substrato mais profundo do real pode se reafirmar sempre de novo e mais uma vez.

Apesar de as culturas ocidentais da Europa e das Américas serem definidas por uma forma de racionalização que as afasta das concepções míticas, é evidente que ainda se notam diversos aspectos ritualísticos da vida cotidiana, para além daqueles mais literalmente praticados como tal no âmbito religioso. As inúmeras festas instituídas periodicamente, como de aniversário, do carnaval, de comemorações de determinados eventos, bem como diversos afazeres cotidianos e todo o processo reiterado de organização do trabalho caracterizam uma forma ritualística de manutenção de um significado da vida que ressoa um desejo de continuidade de uma ordem existente.

Nesse cenário, quero ressaltar a enorme importância do corpo, que funciona como uma espécie de plataforma de suporte para uma quantidade indefinida de mecanismos ritualísticos, isso não apenas pelo fato de sempre estarmos presentes, de uma forma ou de outra, em algum complexo de ação de um ritual, mas pelo fato de ele sempre já ser algo transitivo, como uma ponte entre a interioridade de nosso ser, de nossa consciência, e a realidade externa, o mundo das coisas e das pessoas. Em diversos momentos essa sua condição de via de passagem entre o que pensamos e o que queremos que exista na realidade se torna especialmente significativa. Disso resulta em grande medida uma série de ações obsessivamente dirigidas à manutenção da saúde, não pelo cultivo sistemático de uma vida saudável, mas pela adesão a determinados mecanismos tomados de forma não-crítica como válidos, tais como complexos de vitaminas, regimes alimentares exóticos e “artificiais”, além de uma infindável busca por uma beleza corporal alcançada através de práticas especificamente dirigidas para a modelagem e embelezamento do corpo, como bronzeamento artificial, uso de uma enorme quantidade de cremes, loções, xampus etc.

Importa observar que essa ritualização do corpo, na verdade, retira de cena sua especificidade, seu valor próprio, transformando-o em mero agente desqualificado, tendencialmente reduzido a veículo de manutenção de significados compartilhados socialmente. Por mais que seja o objeto de atenção em cada caso, o sentido do prazer com este complexo ritualístico de ações tende a se concentrar no status e na promoção social que se pretende alcançar.

O outro lado da moeda é o quanto o corpo também é negligenciado, mas agora pelo fato de que sua dimensão transitiva entre a consciência e o mundo não entra em jogo de forma alguma. Nesses momentos, o que efetivamente entra no cálculo econômico de nossos investimentos e sua rentabilidade de resultados é tão-somente uma correlação simples entre o que se estabelece como objetivo, e o que é alcançado concretamente com as ações. Tome-se como exemplo paradigmático todas as profissões que se concentram em práticas intelectuais, de leitura, pesquisa e produção de textos. Tenho a nítida impressão que o prazer com a produção teórica, científica, jurídica e outras resume-se à excelência dos resultados. Parece-me quase nonsense perguntar pelo quanto existe de satisfação corporal na própria atitude de ler, escrever e pesquisar. Creio que o mais perto que normalmente se chega de uma reflexão como esta é a preocupação de não causar prejuízo ao corpo, seja devido a algum problema de coluna advindo de uma postura errada ao sentar ou do excesso de tempo que se passa sem nenhum movimento expressivo. Isso significa que a atenção se concentra eminentemente em evitar prejuízo, e não em se obter um prazer com a própria atividade. Uma vez que esta, dirigida “totalmente” para algo abstrato, que é o conhecimento, a teoria, uma peça jurídica etc., parece um tanto “ridículo” questionar pelo prazer físico dessa atividade. Que o corpo “não atrapalhe”, por assim dizer, ou que ele não seja prejudicado, já parece absorver tudo o que lhe seja devido em termos de atenção.

Não é meu objetivo aqui indicar modos e estratégias específicas com que o corpo possa ser efetivamente alvo de atenção e fonte de prazer nessas atividades intelectuais, pois creio que isto diz respeito a um complexo de opções individuais e de “estilo” de vida, que deve se nutrir da criatividade pessoal. Restrinjo-me a apontar o princípio geral do quanto as formas de ritualização de nosso contato com o mundo esquecem o “valor próprio” da corporeidade, seja ao tomá-la como um substrato desqualificado de ações com fins de promoção social, seja por submergi-la nessa relação de curto-circuito entre o que se pretende do mundo e os resultados concretos de nossas ações. É mister dirigir o olhar com muito mais cuidado e investimento afetivo nesta porção intermediária do real, entre a profundidade de nossas ideias e a exterioridade objetiva do mundo.



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Um comentário:

Daniel Grandinetti disse...

Esta postagem parece demais com os textos de Jung. Todas as temáticas que você pincelou aqui constituem o material central trabalhado por ele durante sua vida. Talvez você, como estudioso de psicanálise, nunca tenha se interessado ou até alimente alguns preconceitos contra Jung. Mas, pelo que li aqui, acho que você se interessaria muito pelas obras dele.