Tal
como demonstra do por estudos de antropologia cultural do século XX e também
por reflexões filosóficas, como de autores da escola de Frankfurt, as muitas formas de
pensamento mitológico praticadas pela civilizações ao longo da história possuem
importantes características em comum. Uma delas é o fato de que cada ritual
religioso, mágico, mítico, procura reafirmar um significado profundo do real
através da invocação de forças poderosas, provenientes de seres sobrenaturais.
Cada complexo de ações deverá instaurar, no momento presente, no âmbito da vida
cotidiana, um vínculo com aquilo que garante a permanência da vida, do
movimento, da natureza, de tudo o que a realidade tem de válido, quanto também
do que a poderia colocar em xeque, mas é necessário para que uma ordem geral do
mundo permaneça.
Salta
aos olhos o quanto essa necessidade de afirmação de um significado mais
profundo contém sempre o sentido de uma transição, de uma passagem, de
instauração de um significado em um outro âmbito, em um outro tempo, que
precisa ser conectado íntima e visceralmente com uma determinada ordem.
Exemplos disso são os rituais de iniciação das meninas na vida adulta quando da
menstruação, dos jovens para a prática guerreira ao saírem da infância, dos
anciãos ao se tornarem membros da elite dirigente, da invocação de uma nova estação das
chuvas, do apelo aos deuses para uma nova estação de fertilidade da terra etc.
Nesse sentido, a ritualização significaria sempre estabelecer uma ponte, um
nexo, alguma forma de transitividade de forças e significações entre planos, de
modo a que ambas as realidades se tornem mais vivas, fortes, e assim aquele
substrato mais profundo do real pode se reafirmar sempre de novo e mais uma
vez.
Apesar
de as culturas ocidentais da Europa e das Américas serem definidas por uma
forma de racionalização que as afasta das concepções míticas, é evidente que
ainda se notam diversos aspectos ritualísticos da vida cotidiana, para além
daqueles mais literalmente praticados como tal no âmbito religioso. As inúmeras
festas instituídas periodicamente, como de aniversário, do carnaval, de
comemorações de determinados eventos, bem como diversos afazeres cotidianos e
todo o processo reiterado de organização do trabalho caracterizam uma forma ritualística
de manutenção de um significado da vida que ressoa um desejo de continuidade de
uma ordem existente.
Nesse
cenário, quero ressaltar a enorme importância do corpo, que funciona como uma
espécie de plataforma de suporte para uma quantidade indefinida de mecanismos
ritualísticos, isso não apenas pelo fato de sempre estarmos presentes, de uma
forma ou de outra, em algum complexo de ação de um ritual, mas pelo fato de ele
sempre já ser algo transitivo, como uma ponte entre a interioridade de nosso
ser, de nossa consciência, e a realidade externa, o mundo das coisas e das
pessoas. Em diversos momentos essa sua condição de via de passagem entre o que
pensamos e o que queremos que exista na realidade se torna especialmente
significativa. Disso resulta em grande medida uma série de ações obsessivamente
dirigidas à manutenção da saúde, não pelo cultivo sistemático de uma vida
saudável, mas pela adesão a determinados mecanismos tomados de forma
não-crítica como válidos, tais como complexos de vitaminas, regimes alimentares
exóticos e “artificiais”, além de uma infindável busca por uma beleza corporal
alcançada através de práticas especificamente dirigidas para a modelagem e
embelezamento do corpo, como bronzeamento artificial, uso de uma enorme
quantidade de cremes, loções, xampus etc.
Importa
observar que essa ritualização do corpo, na verdade, retira de cena sua
especificidade, seu valor próprio, transformando-o em mero agente
desqualificado, tendencialmente reduzido a veículo de manutenção de
significados compartilhados socialmente. Por mais que seja o objeto de atenção
em cada caso, o sentido do prazer com este complexo ritualístico de
ações tende a se concentrar no status e na promoção social que se pretende
alcançar.
O outro
lado da moeda é o quanto o corpo também é negligenciado, mas agora pelo fato de
que sua dimensão transitiva entre a consciência e o mundo não entra em jogo de
forma alguma. Nesses momentos, o que efetivamente entra no cálculo econômico de
nossos investimentos e sua rentabilidade de resultados é tão-somente uma
correlação simples entre o que se estabelece como objetivo, e o que é alcançado
concretamente com as ações. Tome-se como exemplo paradigmático todas as
profissões que se concentram em práticas intelectuais, de leitura, pesquisa e
produção de textos. Tenho a nítida impressão que o prazer com a produção
teórica, científica, jurídica e outras resume-se à excelência dos resultados.
Parece-me quase nonsense perguntar pelo quanto existe de satisfação
corporal na própria atitude de ler, escrever e pesquisar. Creio que o mais
perto que normalmente se chega de uma reflexão como esta é a preocupação de não
causar prejuízo ao corpo, seja devido a algum problema de coluna advindo de uma
postura errada ao sentar ou do excesso de tempo que se passa sem nenhum
movimento expressivo. Isso significa que a atenção se concentra eminentemente
em evitar prejuízo, e não em se obter um prazer com a própria
atividade. Uma vez que esta, dirigida “totalmente” para algo abstrato, que é o
conhecimento, a teoria, uma peça jurídica etc., parece um tanto “ridículo”
questionar pelo prazer físico dessa atividade. Que o corpo “não atrapalhe”, por
assim dizer, ou que ele não seja prejudicado, já parece absorver tudo o que lhe
seja devido em termos de atenção.
Não é
meu objetivo aqui indicar modos e estratégias específicas com que o corpo possa
ser efetivamente alvo de atenção e fonte de prazer nessas atividades
intelectuais, pois creio que isto diz respeito a um complexo de opções
individuais e de “estilo” de vida, que deve se nutrir da criatividade pessoal.
Restrinjo-me a apontar o princípio geral do quanto as formas de ritualização de
nosso contato com o mundo esquecem o “valor próprio” da corporeidade, seja ao
tomá-la como um substrato desqualificado de ações com fins de promoção social,
seja por submergi-la nessa relação de curto-circuito entre o que se pretende do
mundo e os resultados concretos de nossas ações. É mister dirigir o olhar com
muito mais cuidado e investimento afetivo nesta porção intermediária do real,
entre a profundidade de nossas ideias e a exterioridade objetiva do mundo.
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Um comentário:
Esta postagem parece demais com os textos de Jung. Todas as temáticas que você pincelou aqui constituem o material central trabalhado por ele durante sua vida. Talvez você, como estudioso de psicanálise, nunca tenha se interessado ou até alimente alguns preconceitos contra Jung. Mas, pelo que li aqui, acho que você se interessaria muito pelas obras dele.
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