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sábado, 13 de outubro de 2012

Para definir a esquerda


Os conceitos de esquerda e direita política encontram diversos fatores que tornam seu delineamento bastante difícil. Além da evidente pluralidade de elementos constituintes de toda a dinâmica de orquestração social, econômica, cultural, religiosa etc., as divergências e contradições nos interesses em jogo sempre exigem readequações contínuas nos direcionamentos políticos dos grupos que se sucedem no poder. O exemplo mais claro disso, nas últimas décadas, é o modo com que partidos historicamente associados a movimentos sociais, como de operários, trabalhadores sem terra, grupos raciais oprimidos etc., foram obrigados a realizar ações que aproximam sua linha de atuação a setores tipicamente de direita, como banqueiros, o grande empresariado e o capital internacional. É interessante notar que, diante de tais tendências, não apenas se questiona a coerência ideológica de certos partidos, mas a própria legitimidade de se pretender definir o que é ser de esquerda e de direita.

Trata-se de um debate bastante complexo, e que pode ser abordado sobre o um viés mais estritamente concernido às ciências sociais, ou mais abstrato e filosófico. Quero hoje apontar apenas um dos fatores ligados à tarefa de definição da esquerda política, visando contribuir ao debate através da colocação de um princípio geral de equacionamento do que pode ser usado para tal definição.

Eu diria que um pilar forte do que define a esquerda é a tarefa de contrariar linhas iniciais de manutenção de relações de poder excludentes e sua consequente acumulação de renda, geração de setores sociais marginalizados, desconsideração de direitos fundamentais de cidadania, de reconhecimento social, público e cultural etc. Nesse cenário, quero ressaltar a necessidade do foco se dirigir não apenas a políticas pontuais de distribuição de renda ou de asseguramento de certos direitos, mas sim de ações orquestradas de modo a romper uma lógica ligada a todos esses mecanismos de acumulação de poder em suas diversas faces. Isso me parece extremamente importante, em virtude da necessidade de se distinguirem políticas tipicamente populistas, que querem remediar situações precárias no contexto do capitalismo, e as de esquerda em sentido mais próprio, cuja linha de ação queira intervir de forma mais substantiva na inércia com que as formas de relações de poder se perpetuam, reproduzindo-se com uma força realmente difícil de ser rompida.

Ocorre que, em virtude dessa necessidade de negar o estado de coisas atual, a esquerda sempre poderá ser vista como perigosamente reativa, em vez de progressista, uma vez que estratégias de defesa perante a realidade de concentração de renda e poder — que se sedimentou ao longo de séculos e mesmo milênios — podem facilmente soar como “artificiais”. A esquerda pode ser sempre estigmatizada como concernida a ações afirmativas, tal como o politicamente correto em suas faces mais inadequadas, que tentaria negar uma suposta “verdade” incrustada no modo como os seres humanos “são”.

Embora toda estrutura social de poder seja construída, fruto da vontade in- e consciente dos seres humanos, por outro lado sua pretensa naturalização, sua transformação em “segunda natureza”, faz com que qualquer tentativa orquestrada de contrariar tal linha inercial possa parecer “barroca”, “artificial”, “reativa”. Não que haja um suposto núcleo essencialmente “de direita”, incrustrado nas relações sociais, mas sim a consideração de que a esquerda “sempre” se definirá pela contrariedade de um fluxo histórico em que se sedimentam relações de poder caoticamente reguladas, para além — ou aquém — da racionalidade representativa de qualquer utopia de humanização das relações intersubjetivas, seja em escala familiar ou planetária.

Devido ao fato de ser definida por tal processo de correção da dinâmica inercial das relações de poder, a esquerda está essencialmente marcada pela dimensão política num sentido mais próprio. Entendo isso no sentido de que ela demanda sempre uma organização política suficientemente orquestrada e racionalmente dirigida para articular os elementos, fatores e atores envolvidos no espaço público de decisões e de reivindicações. Não é de forma alguma acidental e contingente que o espectro político de direita, em sua vertente liberal, sempre privilegie a desregulamentação dos mercados e sempre apregoe, de uma forma ou de outra, um estado mínimo. Na sua vertente autoritária, como no caso do golpe de 64 no Brasil e outros na América latina em geral, embora o poder maciço do Estado tenha sido implantado com toda a virulência, na verdade, o que temos é apenas a manifestação, no outro extremo, também da negação da política, no sentido já clássico de que se atinge um limite para além do qual não há mais política em sentido minimamente aceitável, fazendo convergir em curto-circuito a deliberação descendente (“de cima para baixo”) e sua realização compulsória, forçada e violenta.

Diante disso, eu diria que é importante que os movimentos políticos de esquerda articulem seu ideário de atuação concreta em sintonia com um discurso suficientemente bem estruturado, de modo a demonstrar o quanto seu desejo de intervenção na realidade não apenas justifica mas demanda instituições robustas, de modo a interferir em e contrariar uma lógica nefasta de empobrecimento das relações humanas em suas inúmeras fáceis. É necessário demonstrar o quanto ações baseadas nos princípios de racionalização de determinados mecanismos econômicos, educacionais e outros não configuram (necessariamente) uma espécie de “violência” em relação àquilo que os seres humanos são em sua suposta espontaneidade, mas pelo contrário, trata-se de uma proposta pedagógica em sentido bastante amplo, de modo a se formarem valores e formas de conscientização do espaço em comum que caminhem no sentido de reconhecimento do direito de todos a uma vida digna.




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