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sexta-feira, 5 de outubro de 2012

Maduros, pero no mucho


Juntamente com o cultivo do corpo, através da prática sistemática de exercícios físicos, esportes e uma série de regimes alimentares específicos, tal como se tornou pronunciado nas últimas décadas do século XX, ouviu-se falar pejorativamente, e ainda se ouve, da “geração saúde”. Tomada como uma espécie de poética da existência, pautada por regras claramente dirigidas para favorecer a robustez corporal, com sua correlata sensação de bem-estar própria de uma condição saudável, tal atitude desde sempre pôde ser criticada através de vários argumentos e pontos de vista, desde a posição típica da aristocracia do espírito, que considera como algo raso de sentido conferir importância exacerbada ao corpo e sua beleza, até uma visão cotidiana bastante difundida de que se trata de uma espécie de infantilismo. Nesse último caso, aquela postura saudável seria índice de certa obsessividade em evitar quaisquer prazeres supostamente prejudiciais, mesmo que não sejam tão significativos nos malefícios que causam. Meu objetivo hoje é comentar esse último tipo de crítica.

Embora seja um truísmo, isto é, algo já reconhecidamente aceito como verdadeiro, não custa muito repetir que qualquer atitude, quando praticada de forma excessiva, insistente e rígida pode ser tomada como obsessiva, e, assim, patológica. O que me parece significativo em relação às críticas à postura de uma vida saudável em geral — como por exemplo a programática evitação de alimentos gordurosos, a constância na prática de exercícios físicos, a preocupação com horários regulares de sono etc. — é que o limiar que caracteriza o obsessivo é por demais baixo. Quero dizer com isso que basta muitas vezes apenas uma manifestação singular de uma preferência por algum tipo de alimento ou postura tipicamente dirigida para uma vida saudável, para se receber uma observação crítica no sentido de que praticamos algo não apenas excessivo, mas também infantil, como se uma atitude pontual já nos caracterizasse como uma pessoa preocupada em comer e fazer “tudo o que precisamos para crescer fortes e saudáveis”.

Nas discussões da última década em relação aos espaços em que se deveriam permitir e proibir o fumo, o colunista da Folha de São Paulo J Pereira Coutinho criticou explicitamente a postura da prefeitura de Paris de proibir o uso de qualquer substância fumígera em seus cafés. Considerando a secular tradição dos cafés parisienses, com todo o seu charme, cantado em verso e prosa, o autor tachou de infantilismo não apenas essa quanto todas as outras medidas semelhantes como promovendo uma assepsia infantilizada de nosso espaço público, invocando a velha ideia de ingerência do Estado na vida dos cidadãos, como se estes precisassem de um direcionamento paterno por, supostamente, não poderem discernir o que é bom para si mesmo, para além dos prejuízos que toda relação de prazer com o mundo parece possuir. Não quero tratar aqui dessa problemática da tutela do Estado sobre as escolhas individuais, mas tão apenas somente apontar mais uma vez essa ideia de que a preocupação com a saúde, em detrimento de alguns prazeres que envolvem prejuízos à saúde é índice de infantilidade.

Nesse contexto, o conceito de maturidade subjacente a tais críticas parece consistir na posição daquele que “não tem medo” de pequenos prejuízos acarretados por alguma espécie de prazer, tomando-os como inerentes a um risco calculado na “aventura da vida”. Em vez de uma atenção dirigida à saúde corporal, o foco seria uma saúde do espírito, que tende a se elevar acima das vicissitudes por assim dizer “comezinhas”, não significativas, dos prejuízos eventualmente causados por cigarro, álcool, falta de exercício físico, alguma gordura dos alimentos, etc. Nesse sentido, a preocupação com uma sistemática forma saudável de viver seria sintoma de uma revivência, por si mesmo, da voz materna e paterna que primava pela preocupação com a saúde, justificada não apenas pela falta de maturidade das crianças, mas também por sua fragilidade corporal, fisiológica.

Mais uma vez, digo que é perfeitamente possível haver excesso para ambos os lados, tanto para uma obsessividade com a saúde, quanto com o seu desleixo. Mas repito que o limiar de tolerância para com uma vida saudável, antes de considerá-la obsessiva, parece-me muito baixo. E isso, de meu ponto de vista, é algo a ser tomado como sintomático, como expressão de um significado de nossa relação com o mundo atua através de nosso posicionamento, sem que tenhamos consciência de seu sentido mais profundo.

A minha perspectiva é que existe uma inversão entre os conceitos de infantilidade e maturidade. O que, de certo ponto de vista, pode ser tomado facilmente como índice de maturidade, a saber, a não preocupação com os “pequenos” prejuízos à saúde decorrentes de horários de sono irregulares sedentarismo etc., esconde, na verdade, certo grau de infantilismo (sem que isto queira dizer necessariamente algo patológico). Em vez de tal despreocupação significar uma postura forte, robusta, para além dessas vicissitudes mesquinhas para o nosso complexo fisiológico, creio que sejam índice de um gosto específico, direcionado ao que chamo de pequenas doses de transgressão. Noutras palavras, em vez de uma atitude de, por exemplo, não se preocupar em comer uma comida natural ser determinada apenas de forma negativa, como não importando para a contabilidade geral dos prazeres e seus riscos, creio que ela seja alvo de uma determinação positiva, praticada por ter um sentido nela mesma. Em vez de alguém comer carnes gordurosas em um churrasco por que considera que isto não é suficientemente prejudicial, eu diria a que está em jogo o desejo de comer algo minimamente prejudicial.

O que seria índice de uma robustez e elevação de espírito em relação a um infantil cuidado com o corpo demonstra, na verdade, em muitos casos, um gozo inconsciente com pequenas travessuras, afrontas e peraltices em relação a tudo aquilo que relembra em nós, hoje, o que sempre ouvimos durante a infância. Tal como cada um de nós experimentou sempre um gozo de fazer travessuras simplesmente por contrariar uma proibição materna ou paterna, esse descrédito apressado, com um limiar baixo de tolerância, para com as atitudes de uma vida saudável me parece índice de um retorno deste gozo infantil de afrontar a lei familiar. Como nós, depois de crescidos, não temos mais esta voz a nos obrigar de forma externa a ter uma vida saudável, nós a interiorizamos e continuamos a praticar nossas travessuras com nossos pequenos atos de transgressão a tudo que incorpora esta lei incrustrada em nós de forma arcaica. Tal como antes, continua-se a ter este pequeno prazer de romper limites dados pelo outro, só que agora esses limites são dados pelo nosso bom senso, sistematicamente transgredido em nome de uma suposta saúde viril e arrojada do espírito.



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2 comentários:

Rick Gonçalves disse...

Professor, nesse sentido gostaria de saber qual seria o limite para a plasticidade das teorias freudianas. Elas parecem ser tão maleáveis que acabam por parecer teorias-coringas, capazes de justificar pontos de vista opostos.

Verlaine Freitas disse...

Caro Rick, creio q todas as teorias de ciências humanas são suficiente indeterminadas em termos de delineamento dos princípios de sua pretendida objetividade, de modo q um Nietzsche, por exemplo, q foi absolutamente ácido contra religiões, especialmente o cristianismo, foi lido favoravelmente por Copplestone, q era um padre, e por C. Türcke, q foi seminarista e é teólogo. Já vi usos de Marx por autores liberais e por assim em diante. O fenômeno humano é muito complexo demais para q qqr teoria seja suficientemente imune a usos pouco previsíveis para seu autor.