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sexta-feira, 30 de novembro de 2012

Amor, ideologia e verdade


Uma das muitas faces do saber compartilhadas por correntes filosóficas e psicanalíticas consiste na ideia de que há vários regimes de verdade, planos, níveis e estratégias de validade/validação de nosso discurso, tanto em relação a nós mesmos quanto ao mundo. Os diversos autores da escola de Frankfurt, por exemplo, insistem na necessidade da diferenciação entre a verdade factual, de descrição empírica da realidade, e o saber construído historicamente, já considerando a própria conformação histórica de nossos órgãos dos sentidos. Muita coisa pode ser tomada como verdadeira por ser um registro “fiel” no âmbito dos fatos, mas se prestar a uma mentira, a uma construção ideológica, ao sustentar uma concepção de mundo cuja força é tão grande que é capaz de produzir a própria realidade, que, então, passará a ser objeto de um discurso “verdadeiro”. Através do conceito de racionalização, Freud também inseriu o conceito de verdade em uma dinâmica do desejo mais abrangente, de tal forma que o caráter objetivo da verdade factual pode servir de apoio para legitimar fantasias e desejos inconscientes cuja lógica, força e conteúdos são por demais inassimiláveis em níveis psíquicos mais superficiais, próximos à consciência.

Creio que esta perspectiva crítica se aplique em múltiplos cenários, desde a inadequação radical dos desejos inconscientes perante nossas tentativas de dissimulá-los com verdades objetivas, até a postura filosófica macro de contestação da verdade científica, tendo em vista a lógica de manutenção de relações de poder do capitalismo no âmbito global. Um desses momentos intermediários, que gostaria de abordar hoje, é o das relações amorosas.

Todos nós sabemos que o amor necessita de um equilíbrio entre a busca de identificação e a assimilação de diferenças. Qualquer relacionamento afetivo minimamente prolongado mostra que ao lado do desejo de identificação, de compartilhamento de experiências em comum, vigora a tarefa incessante de reconhecer as diferenças do outro como contendo seu valor próprio, sua legitimidade, na exata medida em que se situam no âmbito do direito do outro ser isto mesmo, um outro. Dentro dos limites, individualmente vividos, da possibilidade de absorver as diferenças no círculo traçado pelo desejo de se reconhecer no outro, é mister atentar à necessidade de reconhecer a verdade do desejo e do modo de ser do outro como uma espécie de ideologia com a qual, dentro de certa estratégia amorosa, se deva construir uma “nova” verdade, só que situada em um outro plano.

É fácil idolatrar a verdade — principalmente as que se ligam ao que é externo à subjetividade. Infinitas são formas de fazer valer o desejo de permanência do real nas formas em que ele se solidificou através da atitude narcísica de se contentar com sua descrição. Por outro lado, a estratégia da suspeita, típica da psicanálise, que quer remeter a verdade do mundo a uma raiz mais profunda, do inconsciente, também pode servir a este movimento ideológico de adoração de uma verdade que desconhece ou negligencia a necessidade de produção de mediações vivenciais que valem precisamente pelo modo como que medeiam a intimidade profunda do psiquismo e a exterioridade do real.

Uma das características fascinantes do amor consiste nesta tensa indefinição entre uma interioridade “verdadeira” e “essencial” e a produção de significados e sentidos através do modo com que se estabelece esta ponte com a diferença do outro. Esta irresolução, pensada naquela perspectiva de planos distintos de verdade coloca o problema da identidade e da diferença em uma dinâmica que me parece bastante instrutiva — mesmo que não seja mais do que por ser oportunidade de introduzir uma dúvida mais producente do que uma verdade auto-satisfeita.

O núcleo da questão se mostra na maneira com que a afetação do modo de ser alheio por seu desejo convida a uma readequação de nós a nós mesmos. Trata-se de um convite, que, como tal, pode ser recusado, mas a ideia é que sua aceitação envolve a posição em diálogo do caráter dubitativo (de colocação em dúvida) da validação de verdades em vista de seu questionamento como a serviço de ideologias (pessoais ou mais amplas). Apesar de estranha e confusa, esta primeira colocação caminha bem no sentido do que se quer pensar aqui. O meu desejo pelo outro se define também pelo meu desejo em relação ao que eu sou, tanto por mim quanto por aquilo que o desejo do outro produz em meu modo de ser. Noutras palavras, quero gostar de mim pelo modo com que sou solicitado a ser na vinculação com outro. Mesmo que não aceitemos como um todo a ideia de persona, tal como Jung delineou (= as diversas máscaras que usamos para nos relacionarmos com os outros), algo dessa ideia pode ser mantido, mas acentuando-se a tensão entre o que impele a construção destas máscaras, a saber, o desejo do outro por mim e o quanto me agrada esta máscara que visto em virtude desta demanda. Na medida em que a cumplicidade com um outro entra definitivamente em jogo devido ao desejo de identificação, deve passar a ser meu “interesse” o deslocamento do outro perante si e a necessidade de sua máscara perante mim, bem como a recíproca, de tal forma que, no limite, posso gostar muito de alguém, fundamentalmente, pelo modo com que sou “compelido” a ser algo diferente do que sempre me definiu, mas, também, ao contrário, posso não gostar de um relacionamento, não “propriamente” pelo que o outro é, mas sim pelo que eu me vejo sendo nesse espaço intermediário das mediações, que constrói as identificações para além das diferenças.

Nesse palco das transferências afetivas, os deslocamentos entre verdade, máscara e ideologia constituem uma racionalidade muito própria, definida por seu teor convidativo a se entrar na dança continuamente. Temos um chamamento a que se participe de uma área nebulosa entre a verdade e a facilmente vista como barroca produção de compromissos com o império de nossas demandas caprichosas de vida. A suspeita do excessivo, do que é “over”, impregna este RSVP em virtude do fato de que o tempo todo a máscara do outro convida e instiga a que se use uma própria, e longe estamos da certeza do sentido, da validade e da consistência desta indumentária que usamos para frequentar este palco em comum. Se, como dissemos no início, o pensamento crítico desnuda a verdade como serviçal da mentira, o amor nos oferece uma verdade por detrás do que pode não ser mais do que um blefe do desejo, tanto meu quanto do outro.

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