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sábado, 17 de novembro de 2012

Humor inquietante


O estudo do indivíduo de classe média me parece revelador dos processos de subjetivação e de socialização de uma forma bastante interessante, em virtude do fato de que essa camada da população, embora longe de uma circunstância ideal, não se encontra, todavia, sob as condições precárias da classe baixa, como também não sob um éthos próprio da riqueza afluente, com tudo o que esta última implica, como por exemplo uma mentalidade própria de quem participa do exercício do poder concentrado. Nesse sentido, algumas questões referentes ao vínculo entre indivíduo e sociedade me parecem especialmente boas para serem dirigidas àquela porção intermediária no âmbito sócio-econômico. Um desses aspectos refere-se ao humor.

Desde muito tempo me causa estranheza a excessiva seriedade com que as pessoas se tratam reciprocamente, a constante sisudez com que se caminha em locais que inspiram na verdade um modo mais descontraído de ser, como numa praça, num shopping center, num clube, e até mesmo em uma festa. Embora eu sempre tenha gostado de dar aula com humor, sempre esbarrei com a típica dificuldade de várias turmas serem refratárias a um estado de espírito mais aberto. Uma vez que várias circunstâncias humorísticas se repetem pelas diversas classes, sempre me foi possível comparar as reações dos alunos, de modo que percebo claramente quando o senso de humor da turma é muito pouco propício a brincadeiras, ironias e descontrações. Embora, obviamente, haja muitas pessoas com uma boa disposição para rir, para se entregar a este estado de espírito que ironiza a própria vida, a avaliação que faço, em geral, é de uma falta de senso de humor. — As considerações que se seguem, obviamente, não visam abordar todas das faces do humor, pois, entre outras coisas, seus objetos determinam sentidos e dinâmicas peculiares, tal como procurei mostrar, por exemplo, em relação ao humor político, em outra postagem. Minha intenção aqui é focar dois aspectos mais específicos.

“Fulano é uma pessoa séria”. Esta frase, como bem sabemos, admite uma leitura dupla, tanto no sentido de alguém comprometido com o trabalho, responsável e diligente, quanto também que não brinca, é sisudo, não é dado a piadas e outras formas de senso de humor. É preciso certo esforço de expressão linguística para se dizer que um determinado profissional tem um bom senso de humor, gosta de agir com leveza e ironias saudáveis ao exercer sua função, e ao mesmo tempo é um profissional responsável, comprometido com que faz etc. A palavra “seriedade” faz convergir, assim, tanto o antônimo de desleixo e negligência, quanto de senso de humor, e isso não por acaso.

O humor, o riso, o próprio sorriso é marcado por uma ambiguidade difícil de ser domesticada em suas diversas circunstâncias. De um lado, indica uma abertura, uma disposição de leveza e de trânsito “permissivo” com o mundo, certa habilidade para driblar a armadura lógica e racional da realidade, o que inclui a renúncia a um centramento objetivo para com as coisas. Como todo humor envolve certa ironia, uma distorção do que se diz, um flerte com a desrazão, a atitude de bom humor demanda a suspensão desta típica mentalidade cotidiana de se servir das coisas como meios para outras, fazendo com que o sentido de nossa relação com a realidade, naquele momento, se restringia à produção desse próprio estado de espírito, e não de algo além, que se poderia alcançar com o manuseio “sério” de um determinado assunto, ideia etc. Tratar alguma coisa com humor parece, em vários momentos, suspender essa busca pela produção de algo com mais valor, o que gera facilmente a percepção de certo desperdício de atenção. Devido a todos esses aspectos, pode-se dizer que o humor tenha algo de essencialmente feminino, marcado por esta abertura descentrada para com a unificação racional da realidade.

O outro lado daquela antinomia indica o caráter escapista, astucioso e de má-fé que o riso pode demonstrar em várias circunstâncias. Não é difícil perceber quando alguém quer se furtar às consequências ruins de determinada argumentação fazendo uma piadinha que quebra toda a atmosfera, e de tal forma que muitas vezes a insistência na necessidade de se continuar falando seriamente é vista como obsessiva e pouco razoável. Nesse momento, o humor pode ser comparado a uma espécie de névoa lançada para obscurecer o olhar para a realidade, de tal forma que nos contentemos com o que pode ser visualizado a poucos centímetros de nós, através deste fluxo circular e denso das ironias. Cada um já experimentou diversos momentos em que se “substitui” um determinado saber, proposta, ideia ou opinião pelo modo com que o prazer do riso é chamado a participar da interlocução. Essa via astuciosa de escapar do compromisso com realidade através do riso é favorecida pela aparência de elevação sublime perante a mesquinharia da seriedade do mundo, de tal forma que o ônus, em um diálogo, fica transferido para quem demanda um engajamento objetivo com a realidade.

Eu diria que essas duas faces do riso — a abertura feminina ao mundo e a astúcia escapista da objetividade — constituem motivos fortes para gerar aquela condição permanente de sisudez e de aversão geral ao humor. Trata-se de uma postura defensiva perante uma face feminina de nossa atitude cotidiana, bem como para com essas possibilidades de sermos ludibriados. Disso resulta um cultivo masculinizado deste centramento sóbrio para afirmar obsessivamente nossos objetivos, nossa própria pessoa, nosso posicionamento perante a objetividade do mundo, nosso saber — além de garantir uma via de aproveitamento de todo o tempo que parece escoar de forma perigosa para o desperdício.


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