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sábado, 3 de novembro de 2012

Compra-se uma identidade


Quando se pensam fenômenos sociais amplos, como guerras entre países, luta entre católicos e protestantes no Reino Unido e movimentos separatistas como do país Basco, pode-se facilmente submergir as questões relativas a motivações pessoais e subjetivas em uma constelação histórica geral, de forma a se perder de vista o quanto estas últimas podem, sim, fornecer elementos explicativos da dinâmica social macro. Para falar sobre isso de forma mais persuasiva, é interessante analisar modos de comportamento que admitam planos diferentes de sua realização, desde aqueles mais estritamente individuais até os que envolvam movimentos supra-nacionais. Através disso não se quer, entretanto, encontrar uma resposta para a delicada e, aparentemente, insolúvel questão do quanto se pode falar de uma dinâmica subjetiva que possua princípios não completamente determináveis pelo movimento social e cultural em que sua amplitude maior. — Um desses temas que me parecem mais fecundos é o da construção de alguma forma ou plano de identidade, seja ela de gênero, religiosa, política, racial etc.


Toda forma de identidade supõe um processo de unificação, o que inclui a tarefa contínua de abstrair das diferenças, multiplicidades e desvios em relação a algo que represente uma unidade. É necessário sempre e mais uma vez realizar o investimento afetivo ao redor de modelos, valores e ideias capazes de gerar a percepção de certa coerência, estabilidade, a fim de que a reflexão sobre si mesmo apresente um direcionamento minimamente estável. Isso é significativo, entre outras coisas, em virtude do fato de que a ideia de progresso, embora inclua necessariamente o princípio de mudança, no caso para melhor, também necessita de uma dinâmica valorativa algo linear, contínua, uma vez que mudanças mais radicais tendem a ser traduzidas como dispersão, como divergência de rotas, e não propriamente como acréscimo, característico do progresso, seja ele quantitativo ou qualitativo.

Toda identidade, assim, contém sempre algo da ordem de um “prêmio”, uma conquista, a que se associa inevitavelmente alguma forma de insegurança, devido ao fato de que ela constantemente está sujeita a seu enfraquecimento, relativização e mesmo ruptura. Embora isso possa ser atribuído a todas as formas de identidade, há diferenças significativas entre elas. Quando falamos de uma identidade nacional, por exemplo, os esforços individuais tendem a ser diluídos no âmbito das representações governamentais, quando a unidade em jogo é ameaçada por imigrantes, por exemplo. Quero enfocar aqui um caso de identidade que depende essencialmente de uma opção individual, de uma escolha realizada em algum momento da vida, e não por uma condição social ou biológica já estabelecida. Tenho em vista a identidade religiosa e a sexual, sendo que hoje falarei da primeira, e na próxima semana, da segunda.

Considerando o cristianismo, em suas diversas ramificações, como a católica, protestante, evangélica, espírita e outras, não há dúvida de que a fé constitui um ingrediente fundamental da identidade religiosa de cada um de seus seguidores, apesar das diferenças de cada visão doutrinária. Embora seja um assunto altamente complexo, objeto de inumeráveis estudos sob diferente perspectivas, tanto teológicas quanto de ciências humanas e de filosofia, creio que um elemento fundamental é aceito amplamente, a saber, que a fé somente existe na medida em que há espaço para dúvida. Quando temos um conhecimento suficientemente estabelecido, com demonstração clara de sua validade, nossa convicção dificilmente invocará uma atitude de fé como seu fundamento. Considerando um âmbito não religioso: um pai pode perfeitamente dizer que tem fé na recuperação da saúde de um filho que se acidentou gravemente. Isso faz sentido porque, embora haja indícios nessa direção, eles não são prova de uma recuperação dada como certa, de tal forma que existe espaço para um investimento afetivo na ideia da saúde do filho. Por outro lado, não faz nenhum sentido dizer que eu tenho fé na minha própria existência, uma vez que ela me é indubitavelmente clara, não havendo espaço para eu duvidar dela, e assim em relação a tudo que é objeto de conhecimento indubitável.

Considerando esses 2 aspectos, não é difícil concluir que não somente a construção, mas a própria continuidade de nossa identidade religiosa adquire um valor cada vez mais expressivo ao longo do tempo, resultado que é de um investimento afetivo grande e continuado. Se a todo instante podemos tomar a vida, o amor, as amizades e os atos de bondade como indícios da existência de um ser supremo e perfeito, por outro lado as também inumeráveis fontes de desigualdade, sofrimento, violência, pobreza e injustiça exigem uma renovação constante desta vontade de crer para além de tais vicissitudes. Se, apesar destes elementos negativos, a fé permanece ou até mesmo é sentida como mais forte ou renovada, isso tanto mais é — ou pode ser — vivido como fonte de orgulho, de satisfação para si mesmo.

Ora, que tudo isto seja motivo para um gozo íntimo em relação aos caminhos e descaminhos de nossos afetos, ao dialogarmos com as possibilidades de interpretação e explicação do mundo, é passível de várias formas de crítica, segundo alguma perspectiva filosófica, psicanalítica e outras, bem como de valorização, através dos preceitos e princípios religiosos e teológicos. Há que se considerar, também, por outro lado, o quanto todo o complexo afetivo que gravita ao redor da fé tende não só a se reforçar com o vínculo comunitário, mas até mesmo precisar dele. A sustentação de uma fé por si mesmo, independente de tudo e de todos, sem uma espécie de confirmação pela atitude semelhante por parte de outrem, com certeza é a experiência de milhares ou milhões de pessoas no mundo, mas as formas comunitárias da experiência religiosa são no mínimo um indício bastante forte de que se trata de algo intrínseco a ela.

Considerando, ainda, o quanto o teor doutrinário das diversas formas do cristianismo sempre se funda na ideia de amor ao próximo, de caridade, de benevolência, vemos que a identidade religiosa cristã congrega, em grau elevado, investimentos afetivos que tendem a convergir para um reforço do valor que damos à nossa própria pessoa.

A partir de todo esse cenário, não é difícil interpretar a venda de indulgência por parte da igreja católica pelo menos até o advento da reforma protestante, bem como a forma com que milhões de pessoas são exploradas financeiramente por algumas das igrejas evangélicas — cujos bispos e pastores demonstram uma ganância e consequente enriquecimento avassaladores. Abaixo da superfície mais visível da compra de um lugar no céu ou de ajuda ao fortalecimento da instituição, podemos discernir a tentativa de pagar por uma forma concreta, prática, de se confirmar uma identidade religiosa que, ao longo do tempo, tende a se tornar extremamente “cara” em termos afetivos, mas cujo valor, agora traduzido em termos financeiros, tende a perder algo de seu peso gravitacional subjetivo. A valorização financeira significaria, sob essa ótica, uma espécie de exteriorização material, não-imediatamente ligada às vicissitudes do afeto, do valor que se agrega à própria pessoa, ou seja, sem o ônus decorrente da incerteza emotiva que sempre marca o âmbito ambíguo e multifacetado dos sentimentos. “No fim das contas”, para muitas pessoas, quanto mais se despende financeiramente com um vínculo espiritual, mais se torna palpável, tangível, o sucesso do que se investe, de forma dolorosa, para ultrapassar as incertezas que não apenas se ligam à fé, mas são sua condição de possibilidade.




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