Uma das
tarefas mais importantes para as ciências e filosofias preocupadas com os
fenômenos sociais é o combate às formas de discriminação e violência contra
grupos e partes da sociedade distintas do núcleo formado pelos homens brancos e
de classe média/alta. Nessa direção, quero hoje falar do preconceito e
hostilidade em relação aos homossexuais.
De um
ponto de vista psicanalítico, o conceito mais usado, e de fato significativo,
quando se diz da hostilidade em relação aos homossexuais, é o de projeção.
A ideia é bastante clara, e talvez por isso mesmo rejeitada, pelo fato de
parecer por demais esquemática. De acordo com tal princípio, o homofóbico é
aquele que tenta combater, na figura do outro, aqueles desejos e fantasias homossexuais
in- e conscientes para os quais não consegue dar suficiente resolução em seu
próprio desejo. Nesse sentido, quanto maior a violência, maior a dificuldade
interna, emocional, psíquica, de elaboração das tensões ligadas ao desejo e à
própria identidade sexual. É como se o outro realizasse, ao assumir de forma
explícita seu desejo homossexual, uma fantasia que se esforça por vir à tona de
forma mais enfática, mas é sistematicamente recusada, de forma tensa, não
resolvida, não bem elaborada.
Eu
concordo integralmente com esta perspectiva. O fato de ela ser por demais clara
e até mesmo esquemática não me parece de forma alguma um argumento válido
contra ela. A clareza de sua formulação não implica que seja algo artificial ou
forçado em termos de resolução conceitual, teórica, para o que está em jogo.
Tal como Freud já havia dito, existe uma enorme diferença entre o modo como
temos consciência de um princípio psíquico de nossa constituição, como o saber
que alcançamos através do trabalho analítico, e a efetividade deste
conhecimento para fazer com que um determinado sintoma angustiante, por
exemplo, seja desfeito. Nesse sentido, a clareza de um ponto de vista
conceitual não corresponde, de maneira alguma, à que poderia existir na
vivência psíquica in- e consciente dos desejos. Haverá sempre uma rede
intrincada de elementos bastante singulares, individuais, compreensíveis apenas
a partir de formas idiossincráticas de nossa relação com o mundo, de modo que
qualquer princípio explicativo mais geral deverá ser sempre traduzido pela
particularidade com que ele é vivenciado.
A
dimensão projetiva do desejo é de uma importância que dificilmente se pode
superestimar. O trânsito entre o dentro e o fora do âmbito psíquico, que a
paranoia e diversas formas de psicose demonstram de modo extremo, existe também
como elemento do psiquismo dito normal, estando em atuação bastante forte no
sonhos e em todas as fantasias sexuais. Quanto mais estimulante, excitante, uma
determinada cena, mais podemos dizer que temos diante de nós imagens que
colocam em ação de forma tensa/tensionada partes integrantes de nossa própria
constituição psíquica inconsciente. Tal como Freud disse repetidas vezes, o
sofrimento psíquico, bem como suas manifestações perversas como violência
contra o outro, provêm da mesma fonte que aquilo que nos dá prazer e provoca
nosso gozo, a saber, nossas fantasias inconscientes. Nesse sentido, a série
estímulo-excitação-prazer-gozo proviria de contradições e tensionamentos dos
diversos elementos constituintes de nosso psiquismo sexual inconsciente que, do
mesmo modo, mas de forma não resolvida, podem desaguar na homofobia.
De
acordo com essa perspectiva, portanto, a discriminação dos homossexuais seria
fruto da projeção não apenas de um desejo inconsciente, mas também da
concretização de uma forma de resolver as tensões psíquicas altamente
problemática para a tarefa de manutenção de uma identidade sexual coesa. O
homossexual realizaria uma mistura por demais indigesta dos elementos feminino
e masculino presentes em toda a constituição psíquica, trazendo para a
superfície do desejo, de forma unificada, o que deveria, sob a ótica de uma
moral heterossexual, manter-se separado e trafegando apenas no âmbito diáfano e
“pouco sério” das fantasias. Creio que seja isto o que subjaz à ideia,
representativa de um ímpeto bastante cínico de tolerância, de que estaria “tudo
bem” com a atitude homossexual, desde que ela se restringisse à intimidade “entre
quatro paredes”. De forma análoga a como muito das neuroses provêm da tentativa
sistemática de negar, recalcar e distorcer desejos inconscientes, essa
tolerância cínica homofóbica desvela o que está debaixo dela mesma, a saber, o
fato de que a escolha homossexual lhe é obscena, deve ser retirada de
cena, tal como a etimologia dessa palavra indica — e ela o deve ser pelo fato
de trazer à tona formas de assumir e unificar elementos de nossa sexualidade
incompatíveis com o que se está normalmente disposto a aceitar/assumir/admitir.
Se você
gostou dessa postagem,
compartilhe
em seu mural no Facebook;

Nenhum comentário:
Postar um comentário