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sábado, 10 de novembro de 2012

Solução inadmissível


Uma das tarefas mais importantes para as ciências e filosofias preocupadas com os fenômenos sociais é o combate às formas de discriminação e violência contra grupos e partes da sociedade distintas do núcleo formado pelos homens brancos e de classe média/alta. Nessa direção, quero hoje falar do preconceito e hostilidade em relação aos homossexuais.

De um ponto de vista psicanalítico, o conceito mais usado, e de fato significativo, quando se diz da hostilidade em relação aos homossexuais, é o de projeção. A ideia é bastante clara, e talvez por isso mesmo rejeitada, pelo fato de parecer por demais esquemática. De acordo com tal princípio, o homofóbico é aquele que tenta combater, na figura do outro, aqueles desejos e fantasias homossexuais in- e conscientes para os quais não consegue dar suficiente resolução em seu próprio desejo. Nesse sentido, quanto maior a violência, maior a dificuldade interna, emocional, psíquica, de elaboração das tensões ligadas ao desejo e à própria identidade sexual. É como se o outro realizasse, ao assumir de forma explícita seu desejo homossexual, uma fantasia que se esforça por vir à tona de forma mais enfática, mas é sistematicamente recusada, de forma tensa, não resolvida, não bem elaborada.

Eu concordo integralmente com esta perspectiva. O fato de ela ser por demais clara e até mesmo esquemática não me parece de forma alguma um argumento válido contra ela. A clareza de sua formulação não implica que seja algo artificial ou forçado em termos de resolução conceitual, teórica, para o que está em jogo. Tal como Freud já havia dito, existe uma enorme diferença entre o modo como temos consciência de um princípio psíquico de nossa constituição, como o saber que alcançamos através do trabalho analítico, e a efetividade deste conhecimento para fazer com que um determinado sintoma angustiante, por exemplo, seja desfeito. Nesse sentido, a clareza de um ponto de vista conceitual não corresponde, de maneira alguma, à que poderia existir na vivência psíquica in- e consciente dos desejos. Haverá sempre uma rede intrincada de elementos bastante singulares, individuais, compreensíveis apenas a partir de formas idiossincráticas de nossa relação com o mundo, de modo que qualquer princípio explicativo mais geral deverá ser sempre traduzido pela particularidade com que ele é vivenciado.

A dimensão projetiva do desejo é de uma importância que dificilmente se pode superestimar. O trânsito entre o dentro e o fora do âmbito psíquico, que a paranoia e diversas formas de psicose demonstram de modo extremo, existe também como elemento do psiquismo dito normal, estando em atuação bastante forte no sonhos e em todas as fantasias sexuais. Quanto mais estimulante, excitante, uma determinada cena, mais podemos dizer que temos diante de nós imagens que colocam em ação de forma tensa/tensionada partes integrantes de nossa própria constituição psíquica inconsciente. Tal como Freud disse repetidas vezes, o sofrimento psíquico, bem como suas manifestações perversas como violência contra o outro, provêm da mesma fonte que aquilo que nos dá prazer e provoca nosso gozo, a saber, nossas fantasias inconscientes. Nesse sentido, a série estímulo-excitação-prazer-gozo proviria de contradições e tensionamentos dos diversos elementos constituintes de nosso psiquismo sexual inconsciente que, do mesmo modo, mas de forma não resolvida, podem desaguar na homofobia.

De acordo com essa perspectiva, portanto, a discriminação dos homossexuais seria fruto da projeção não apenas de um desejo inconsciente, mas também da concretização de uma forma de resolver as tensões psíquicas altamente problemática para a tarefa de manutenção de uma identidade sexual coesa. O homossexual realizaria uma mistura por demais indigesta dos elementos feminino e masculino presentes em toda a constituição psíquica, trazendo para a superfície do desejo, de forma unificada, o que deveria, sob a ótica de uma moral heterossexual, manter-se separado e trafegando apenas no âmbito diáfano e “pouco sério” das fantasias. Creio que seja isto o que subjaz à ideia, representativa de um ímpeto bastante cínico de tolerância, de que estaria “tudo bem” com a atitude homossexual, desde que ela se restringisse à intimidade “entre quatro paredes”. De forma análoga a como muito das neuroses provêm da tentativa sistemática de negar, recalcar e distorcer desejos inconscientes, essa tolerância cínica homofóbica desvela o que está debaixo dela mesma, a saber, o fato de que a escolha homossexual lhe é obscena, deve ser retirada de cena, tal como a etimologia dessa palavra indica — e ela o deve ser pelo fato de trazer à tona formas de assumir e unificar elementos de nossa sexualidade incompatíveis com o que se está normalmente disposto a aceitar/assumir/admitir.

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