Os
etologistas — estudiosos do comportamento animal — trazem sempre novos indícios
de que não é apenas o ser humano aquele capaz de diversos tipos de ações que
pensávamos ser exclusivos de nossa espécie, tal como alguma forma de raciocínio
abstrato, algum tipo de organização social baseada em relações de poder, uso de
utensílios — não apenas para alcançar um fim imediato, mas também para compor
ferramentas mais complexas para, só então, alcançar determinado o objetivo —,
manifestações de sentimentos análogos aos humanos — como ciúme, compaixão,
tristeza —, ações que envolvem fingimento ou dissimulação, reconhecimento de
símbolos, formação de um vocabulário linguístico artificial, capacidade de
comunicação entre os membros da mesma espécie — tal como se supõe ser o caso de
golfinhos —, e outras formas de vínculo com a realidade que nos parecem
extrapolar de forma significativa e até surpreendente o âmbito puramente
biológico, por assim dizer da mera “natureza”. Não pretendo aqui “apostar” em
alguma característica de nossa espécie supostamente imbatível, incapaz de ser
alcançada por qualquer outra, mas tenho a convicção de que se trata de algo
verdadeiramente especial, de modo que, diferente de todas essas características
que listei, bem como outras mais, eu ficaria realmente muito surpreso que algum
experimento etológico suficientemente confiável sugerisse sua existência um
alguma espécie que não a nossa.
O que
me parece haver de comum entre todas aquelas atividades é que, para além de
suas grandes diferenças, dizem respeito a um determinado modo de agir e/ou
sentir que, mesmo que aliado à memória, tem seu sentido dado na relação “linear”
entre o animal e a realidade, sem que esteja envolvido o exercício, a
capacidade de retomar, de colocar em um foco de forma retrospectiva, o
princípio que deu sentido para a aquela ação. Não se trata apenas da ausência
de reflexão, mas de uma forma específica de realizá-la, uma vez que podemos
claramente supor que um chimpanzé reflita, de um modo ou de outro, quando é
colocado diante de um problema que demande a articulação de diversos objetos para
gerar um instrumento complexo, para, por exemplo, alcançar um alimento ou abrir
a porta de um cômodo. Trata-se, na verdade, de uma qualidade específica da
reflexão, no sentido de tomar como objeto do próprio pensamento aquilo que
impulsionou a ação no passado. A memória se dirige, nesse caso, não
especificamente a um evento , a uma circunstância, mas sim àquilo que a moveu
intrinsecamente. Além disso, é necessária a capacidade de comparar o
princípio volitivo passado e presente, de modo a, também, projetar um outro de
agora em diante, ou seja, para o futuro.
Uma das
contribuições mais valiosas da psicanálise é mostrar o quanto quaisquer
habilidades humanas devem ter seu exercício, sua excelência e sua capacidade de
melhorar ou definhar postos em questão pelo modo com que respondem a desejos,
fantasias, ímpetos pulsionais, traumas, complexos afetivos etc., de tal forma
que todas as reflexões de cunho cognitivo — que investiguem o exercício da
inteligência, da atenção, de um talento, de uma capacidade abstrata ou motora,
etc. — precisam ser lidas à luz dos complexos motivacionais que colocam tais
faculdades em movimento. Toda a dimensão operativa ou operacional de que o ser
humano é capaz deve ser vista como uma forma de fazer escoar uma energia
psíquica cuja raiz, tal como se pensa desde Freud, consiste em desejos
inconscientes. A partir desta premissa mais geral, muito da terapia analítica
vai consistir na tentativa de desfazer diversos nós que fazem tal energia
psíquica trafegar em um circuito por demais fechado, cujo fluxo não é
suficientemente maleável. A fim de recobrar a suficiente plasticidade deste
fluxo energético, é indispensável a colocação em perspectiva de grande
quantidade de elementos vivenciais, cuja constelação possa indicar um aprofundamento
de nossa visão do que subjaz à superfície operativa de nosso vínculo com a
realidade.
Embora
a ideia de cultura se associe a diversos objetos na realidade — como na
realidade histórica fundamental da agricultura, da capacidade de fazer a
natureza frutificar e nos fornecer algo diferente do que ela geraria por si
mesma —, a dimensão antropológica mais fundamental, nesse sentido, me parece
indubitavelmente a cultura, o cultivo, a contínua re-elaboração de nós mesmos.
Que o ser humano seja capaz de cultura, por si, mais uma vez, não diz muita
coisa, precisamente pelo fato de que outros animais praticam diversas formas de
cultivo, tanto de elementos materiais do meio ambiente, como até de certos
vínculos sociais, como nas lutas pelo poder em grupos de gorilas e outros
símios. Se podemos colocar nesses termos, então a trajetória indicativa de um
processo de humanização do próprio ser humano é pautado pelo esforço consciente
de tomar os princípios volitivos de nosso modo de ser, agir, pensar e sentir
como objeto de uma reflexão de tal forma estruturada que nos capacite
descortinar camadas mais profundas de nós mesmos.
Gostaria
de acrescentar apenas que essa abordagem não é definida por nenhuma perspectiva
de melhoramento ético. A humanização do próprio ser humano não me parece
comprometida se um tal processo reflexivo resulte em ações com conteúdo ético
questionável. Embora isto seja o assunto para outro texto, eu diria que o ser
humano não deve ser definido como constituído intrinsecamente por um bem, mas também
não por um mal. Tais qualificações éticas, segundo penso, não devem ser
atribuídas de forma por demais apressada ao ser humano como constituintes
fundamentais, originários, primeiros, de seu modo de ser, desejar, sentir etc.
Trata-se de algo que se sobrepõe à sua própria possibilidade de ser sujeito, ou
seja, como resultado, fruto, consequência das articulações específicas,
situadas histórica e socialmente, de nossos desejos.
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