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sábado, 29 de dezembro de 2012

Limites do humor


Na semana passada, terminei o texto anunciando um comentário crítico sobre a concepção de Marcuse sobre a repressão social, mas como já publiquei um texto relativo a este assunto (acessível nesse link), achei melhor falar sobre outro tema que me interessa, a partir de uma questão: o humor praticado profissionalmente está acima dos nossos compromissos morais, éticos, políticos ou jurídicos? Se não está, em quais deles se enquadra? — Essa questão se mostra relevante à medida que cresce o interesse pelo princípio de correção política, tanto no sentido de questionar sua validade, o quanto de defendê-lo. Nessa perspectiva, o que estaria em jogo é a pertinência de se colocar algum limite para o humorista. Seria esse limite dado apenas pela recusa do público, ao não mais frequentar indeterminado espetáculo? Caberia algum tipo de cobrança, mesmo que apenas através da exposição de opiniões nos meios de comunicação? Se tal cobrança é válida, isso significaria que devemos condenar, de alguma forma, o humor politicamente incorreto?

Compartilho da ideia de que todo o humor envolve alguma espécie de ruptura, de quebra das expectativas em diversos níveis, seja no plano do conhecimento, dos afetos, da moral, da lógica etc. Através de que mecanismo for, desde uma torta na cara até a montagem de um enredo complexo, a situação cômica deverá ser mediada por um choque em relação a uma normalidade prévia. O humor inteligente pode exercer este seu poder de ruptura em relação a modos de vida, de pensamento e de afetos bastante inerciais, até mesmo ossificados, de tal forma a permitir uma transparência em relação a substratos da vida que não teriam esse tipo de visibilidade através de outra forma de reflexão. A envolvência afetiva do riso contém um apelo que faz com que o insight adquirido criticamente em relação a um modo de vida possa obter, quando em uma constelação emocional propícia, um significado prático, concreto, que me parece no mínimo bastante interessante. Além disso, a própria disposição de compreender a realidade através do prisma da ironia, do desdobramento do real sobre si mesmo com sinal invertido, tudo isso me parece capaz de gerar uma compreensão crítica do mundo especialmente progressista e progressiva.

Essa caracterização do humor o aproxima da ciência e da arte, na medida em que os três atuam em situações-limite. O conhecimento científico trabalha sempre com problemas de fronteira, de modo a expandir o nosso saber sobre a natureza ou a vida humana. A arte, concebida como uma atividade original, envolve sempre o novo como um imperativo, de modo a negar e superar formas previamente estabelecidas de percepção imagética e imaginária de relacionamento do sujeito com o mundo. Todas essas três atividades podem perfeitamente exercer seu poder de negação e ruptura sem colidir de forma por demais perturbadora com expectativas morais, políticas, jurídicas etc. Ao mesmo tempo, é evidente que tanto a arte quanto a ciência somente obtêm o progresso que demonstraram até hoje pelo fato de não se submeterem a preceitos valorativos externos a seus critérios de excelência próprios. Quanto mais um cientista ou um artista tiver que prestar contas da dimensão política de seu trabalho, mais isto pode implicar uma perda de um avanço altamente desejável. Quem advoga pela inadequação do princípio de correção política para a atividade do humorista reivindica o mesmo tipo de licença que as outras duas formas culturais arrogam para si, e que já obtiveram, em diferentes graus e formas ao longo da história.

A justificativa mais específica dessa suposta autonomia do humor, que o aproxima da arte, mas de forma peculiar, é a correlação entre prazer e fantasia. Uma vez que o riso é imediatamente conectado ao prazer, e este sob a égide do jogo com imagens, não é difícil perceber o quanto a situação cômica consiste, muitas vezes, em uma assunção forte, ou mesmo violenta, de vivências íntimas vergonhosas ou pelo menos muito dificilmente apresentáveis publicamente. Assim, o humor pode se pôr como um legítimo porta-voz da assunção de fantasias no plano do jogo da imaginação, só que agora situado no espaço compartilhado socialmente. Tal como as comédias que tomam como objeto o cotidiano do casamento expõem publicamente os aspectos mesquinhos, bizarros e insuportáveis da vida a dois — sem que, ao mesmo tempo, nos vejamos ofendidos com isso —, muito de nosso preconceito contra outros povos, etnias, preferências sexuais etc. deveria obter “direito de passagem” pelo fato de trafegar naquela via possível de exposição imagética e lúdica na esfera coletiva. Tudo se passa como se a liberdade subjetiva expressa na ideia de “eu quero é ser feliz” fosse transposta para a de “eu quero é (fazer) rir”.

Por mais que, de fato, a ciência e a arte somente progridam pelo fato de não se submeterem a certos tipos de restrições prévias, isso não significa que o ganho de tal progresso justifique uma liberdade infinita com seus materiais. Como exemplo evidente, nenhum progresso realmente alcançável na produção de remédios legitimará o uso em cobaias humanas (se isso implicar sofrimento injustificado, risco de vida, mutilação física ou psíquica etc.). O experimento com seres humanos deve ser sempre feito dentro de limites eticamente muito bem delimitados. Da mesma forma, não é qualquer tipo de obra de arte que deva ser aceita como tal, caso envolva, por exemplo, o mesmo tipo de ônus que citei acima para a ciência. Assim, se tais limites são estipuláveis para essas duas formas culturais, é também justificado conceber algum tipo para o humor. A licença do humorista em relação a seu material não deve se infinita, pois a perda de nosso senso de integridade moral, por exemplo, torna injustificável o ganho que se obtém com esta ruptura irônica com normalidade da existência. Uma piada sarcástica que tome como objeto um paraplégico, por exemplo, mesmo que se mostre (por hipótese) verdadeiramente engraçada , não está justificada.

Esta argumentação pode parecer excessivamente baseada em uma espécie de “contabilidade cultural”, em que se ponderam ganhos e perdas, benefícios e prejuízos. Creio, entretanto, que no âmbito de nosso diálogo político, dos enfrentamentos na objetividade do espaço em comum, a circulação dos valores deve realmente obedecer a uma economia de nossos investimentos, sejam eles financeiros ou afetivos. Embora não haja como estabelecer uma mensuração matemática para os ônus e bônus de nossas apostas, recusas e empreendimentos, nosso senso crítico deve, sim, ser tomado como capaz de ponderar os bens culturais em suas distintas esferas de valoração. Há que se ter em mente, por outro lado, que apenas o exercício constante de nossos juízos pode nos fornecer um norteamento suficientemente preciso para a comparação entre realidades situadas nesses planos altamente heterogêneos.

Diante disso, eu diria que o humorista está de fato sujeito a limites no uso de seu material, particularmente quando envolva algum tipo de sarcasmo e agressividade em relação a indivíduos, grupos sociais, etnias etc. Como, entretanto, o nível de sarcasmo/agressividade é infinitamente variável, não me parece de forma alguma sensato estabelecer qualquer tipo de censura prévia para essa atividade. A crítica pública posterior, seja ela apenas ético-política (como textos veiculados pelos meios de comunicação ou manifestações de rua) ou jurídica, deve ser sempre encarada como legítima, não significando necessariamente isso que se costuma dizer como uma ditadura do politicamente correto — tanto não se tem essa ditadura de um lado, quanto não uma liberdade infinita, por outro.

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2 comentários:

Chafir disse...

Concordo bastante com a autonomia dada ao humor, ainda mais quando é inteligente, pertinente, etc. Mas já viu a onda de livrinhos que transbordam uma revolta contra o politicamente correto? Gosto do ponto de partida deles, mas acabam por se mostrarem um lixo, pois misturam o humor com Filosofia,transfiguram ciência, com trajetórias pessoais, no final das contas muito patéticas e asseguradas pelo Dr./Phd. A pergunta não seria: não é a banalização que reina? Quem vai saborear um bom humor? O humor não passa rapidamente de ironia saudável à justificação pessoal e banal? No limite dessas questões está o palco da fantasia e o palco da realidade, mas o que a gente decide, hoje em dia, é ficar na brincadeira. Brincamos de brincar com a brincadeira.

val disse...

O humor é economico (freud) que prestemos atençao nas verdades ditas sob a ingenuidade do humor.....