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sábado, 22 de dezembro de 2012

Repressão e recalque


O texto O mal-estar na civilização, de Freud, é bastante significativo no panorama das ciências humanas no século XX, tendo se tornado uma referência conceitual importante para vários autores na filosofia e na sociologia. Ele contém, de fato, conceitos pertinentes para a análise de fenômenos culturais contemporâneos. Seu princípio teórico mais amplo, entretanto, não se nutre especialmente das descobertas de seu autor no âmbito psicanalítico. Tal como Freud mesmo reconhece, o tom geral do livro ressoa conceitos e temas já conhecidos do público, como a concepção política de Thomas Hobbes e a filosofia moral de Nietzsche. A temática que indica de forma mais clara a pouca especificidade psicanalítica do texto me parece ser a desconsideração da diferença entre repressão e recalque, com um deslocamento de foco nitidamente em direção à primeira. Este problema foi, por assim dizer, amplificado, devido ao fato de que tal indistinção teórica se refletiu em diversas abordagens e apropriações filosóficas do texto freudiano, como em Adorno, Horkheimer, Foucault e de forma especialmente clara em Herbert Marcuse. Considerando que a primeira tradução das obras completas de Freud para o português, depois terem caído em domínio público, feita por Paulo César de Souza, optou por usar a palavra “repressão” em vez de “recalque” e “supressão” em vez de “repressão”, essa temática se mostra significativa atualmente.

Comecemos pelo conceito de repressão, uma vez que este pode ser interpretado sem necessariamente empregarmos conceitos psicanalíticos em sentido estrito. De acordo com a leitura que proponho, quando se focaliza o ato de reprimir, o que está em jogo, mais propriamente falando, é o quanto uma determinada força é exercida sobre uma outra, tornando-a inoperante, imperceptível, enfraquecida, colocando-a fora de circulação etc. Trata-se de uma forma de negação de um desejo, de uma fantasia, de um ímpeto, de uma necessidade, sem em que entre em jogo — e isso é fundamental para a distinção perante o recalque — se ou como a força repressora se qualifica, se determina, se conforma em virtude desse embate. Só está em questão o exercício de uma força sobre a outra, e não o quanto ou como elas se influenciam reciprocamente, “dialogam” entre si para entrar em uma espécie de acordo. — Não é difícil concluir que a repressão é medida mais propriamente em termos quantitativos, e não qualitativos, de modo a se dizer de menos ou mais repressão, e não de uma repressão melhor ou pior.

Em contraste direto com tais características, o recalque é marcado essencialmente pelo que a psicanálise descreveu e qualificou em seu horizonte teórico e clínico como solução de compromisso. Nesse sentido, recalcar não significa apenas negar, enfraquecer ou anular um determinado impulso (desejo ou fantasia), mas sim estabelecer um conflito, fazendo com que ambas as forças sejam marcadas reciprocamente, gerando um acordo entre elas, em que, por mais que se possa dizer da preponderância de uma, o resultado exprime o embate entre elas. (Há que se notar, também, que este conflito admite uma pluralidade de forças, e não apenas duas.) Considerando que cada uma dessas forças significa a busca de um prazer, da afirmação de um ímpeto volitivo, tem-se que o recalque sempre será fruto de uma dupla satisfação: tanto da força recalcante quanto do impulso recalcado.

A esta primeira diferenciação se somam outras, dentre as quais vou me limitar a apenas algumas, por assim dizer menos técnicas em termos psicanalíticos.

Ligado ao aspecto unidirecional da repressão está o fato de que esta pode ser descrita tanto no âmbito in- quanto consciente, e, além disso, não apenas do sujeito em relação a si mesmo, mas de uma pessoa em relação a outros ou da sociedade em relação a cada um de seus membros. Cabe perfeitamente falar de repressão policial, de um regime político repressivo, de uma autoridade paterna repressora etc. No âmbito individual, podemos dizer claramente que reprimimos nossos desejos em relação ao que consideramos imoral, ruim, inadequado, impróprio etc. No âmbito inconsciente, Freud se referia à repressão de afetos, como um dos efeitos do próprio recalque.

Diferente desta gama de aplicações da repressão, o recalcamento sempre ocorre de forma inconsciente, segundo uma lógica e em virtude de mecanismos que operam abaixo do limiar de nossa consciência, e isso de forma necessária como tal. (Uma das tarefas do tratamento analítico consiste propriamente em fornecer um grau de consciência maior para todo este complexo de fatores.) O recalcamento está na base da estruturação psíquica, fazendo com que o próprio ego seja uma espécie de consequência de um conflito de forças gerado de forma bastante originária, inicial, na constituição subjetiva. Em função disso, pode-se dizer que o recalque opera de forma subterrânea, fazendo com que todos os atos de consciência sejam devedores do modo com que um conflito mais fundamental se resolve, de forma melhor ou pior, com um grau e forma de liberdade menos ou mais claramente percebida como tal. Em virtude disso, não se pode dizer com propriedade que um pai recalca o filho, mas sim que o filho desenvolva certa forma de recalque em virtude do modo com que recebe o complexo de ações e sentimentos paternos (além de outros fatores, obviamente). Assim, pode-se falar de uma hiperatividade ou de vício no trabalho como frutos de recalque, uma vez que este não qualifica apenas uma inibição, como é o caso de alguém que, por exemplo, não consegue falar em público. Em termos gerais, em todos os casos em que encontramos um grau de compulsão significativo, podemos dizer que o recalque não encontra uma solução por assim dizer satisfatória psiquicamente, momento em que dizemos que o conflito é de tal ordem e assumiu certa conformação que gerou um enrijecimento dos ímpetos pulsionais que são a base do que nos move psiquicamente.

Fazendo uma série de abstrações, podemos dizer que, em geral, a teoria freudiana até 1920 forneceu bem mais apoios para se delinear o recalque como este núcleo conflituoso inconsciente do psiquismo, ao redor do qual gravitam todos os elementos de caráter, personalidade, valores, sentimentos etc., que nos qualificam como seres humanos socialmente formados. A partir da publicação de Para além do princípio de prazer, seguida do reforço do texto O ego e o id (ou O eu e o isso, numa tradução mais “atual”), temos uma polarização entre impulsos biológicos, ou mesmo cosmológicos, como as pulsões de vida e de morte, por um lado, e a esfera sócio-cultural de outro, culminando na perspectiva exposta em O mal-estar da civilização, que compreende a relação entre indivíduo e sociedade fundamentalmente pelo conceito de repressão. Em vez de Freud direcionar seus esforços no sentido de fazer progredir nossa compreensão da dinâmica íntima/interna/inconsciente do conflito presente no recalque, passou a focar a relação entre um indivíduo nutrido de impulsos fundamentais que entram em choque com uma série de normas e padrões sociais, sejam eles éticos em sentido estrito, ou religiosos, profissionais, cognitivos etc. Desse modo, a dimensão vertiginosa do conflito inconsciente perdeu a sua especificidade e importância como algo intra-subjetivo, cedendo lugar a uma exterioridade do conflito entre o desejo individual e a limitação societária. — Este desdobramento tardio da psicanálise, que — concordamos com Jean Laplanche — significou um grave retrocesso da teoria freudiana, serviu de base para a apropriação filosófica de Freud realizada por Adorno e Marcuse. No caso deste último, a leitura teve um forte viés de apelo político a uma revolução perante uma sociedade repressora.


4 comentários:

Daniel de Augustinis Silva disse...

Verlaine, esse texto é muito bom. Ele está publicado em alguma revista acadêmica?

Verlaine Freitas disse...

Obrigado pelo retorno, Daniel. Utilizei esse texto como parte de um capítulo de livro sobre Foucault e a psicanálise. Você pode acessá-lo no link: www.verlaine.pro.br/txt/foucaut-metacritica.pdf

Daniel de Augustinis Silva disse...

Olá, obrigado pela pronta resposta. Imaginei que era mesmo um engajamento com a crítica à hipótese repressiva do HS1.
Em relação ao artigo, tentei acessar o link, mas recebi uma mensagem de erro.

Verlaine Freitas disse...

Daniel, havia um erro na digitação do nome do Foucault no endereço da página; o correto é: www.verlaine.pro.br/txt/foucault-metacritica.pdf