Um espaço de discussão sobre Filosofia, Psicanálise, Arte, Política, Crítica cultural e Atualidades.

sexta-feira, 25 de janeiro de 2013

Não há argumento contra um tiro de fuzil

Escrever ensaios curtos sobre realidades políticas é sempre muito difícil em virtude do fato de a extensão do texto solicitar um corte sempre muito drástico em relação ao objeto, que sempre conterá uma quantidade infinita de variáveis que precisam ser abstraídas, e muitas delas são de crucial importância, mas que só poderiam ser levadas em conta com uma extensão de argumentos bem maior. Apesar dessa dificuldade, creio que não se deva abdicar do desejo de falar brevemente sobre algum aspecto de determinada realidade histórica. Nesse sentido, gostaria de falar do conflito entre Israel e a Palestina, a partir de um princípio de análise que, a bem dizer, não é novo, mas que enseja reflexões que devem sempre ser retomadas.

Três são as dimensões que quero levar em conta: o caráter religioso do conflito, a franca superioridade militar de Israel e a realidade histórica do aumento sucessivo dos territórios palestinos ocupados desde a fundação do estado judaico. Há algo de comum entre eles que se mostra na dinâmica histórica não apenas do conflito, como também das narrativas sobre ele, na história que é contada e que inclui, também, as opiniões, as tomadas de posição política a favor ou contra um dos lados. Considerando a necessidade imperiosa de sempre, de novo e mais uma vez estabelecer um diálogo, ponderar o que seria de direito e portanto justo para cada um dos lados, todos aqueles três fatores parecem convergir, de uma maneira ou outra para algo que Theodor Adorno identificou como sintoma do capitalismo tardio: a ausência de mediações.

Na concepção adorniana — que na verdade não me parece válida em todos os seus momentos —, a situação do capitalismo de alta concentração de renda teria suprimido vertiginosamente a mediação da livre concorrência, de tal forma que a produção, circulação e o consumo das mercadorias ficariam menos sujeitos à complexa e intrincada área da oferta e da procura, mas sim cada vez mais a um movimento transnacional, balizado pela concentração de capital exorbitante no âmbito planetário. Uma outra aplicação dessa ideia seria a de que nos produtos de indústria cultural o espaço próprio da mediação individual do gosto, do juízo que se faz sobre a qualidade da obra, teria cedido lugar a uma conexão imediata entre o interesse de grandes corporações (como Hollywood, grandes gravadoras, redes de televisão etc.) e a necessidade de cada trabalhador de obter relaxamento e distração o mais mecânicos possíveis, de modo a poder voltar a trabalhar no dia seguinte. Em ambos os casos, uma série de mediações, de conexões, de modos de interpretar, re-conduzir e elaborar caminhos alternativos é sistematicamente reduzida ou mesmo suprimida.

Quero aplicar esta ideia a cada um dos 3 elementos que citei antes, começando pela dimensão religiosa. Para falar dela, uso um conceito da experiência estética que se tornou bastante significativo nas reflexões filosóficas do século XVIII: “sublime é aquilo em relação ao qual tudo mais é incomensuravelmente pequeno”; com essa definição, Kant codificou a sublimidade como algo que ultrapassa infinitamente as dimensões e o poder de resistência humanos. O céu estrelado, com suas inumeráveis estrelas que se desdobram em uma infinidade de galáxias é um exemplo de algo sublime, pois na tentativa de apreendermos esse cosmos como um todo, como uma unidade, nós sempre nos perdemos. A percepção do sublime é prazerosa, dentre outros motivos, exatamente porque faltam elos de conexão suficientes entre nós e este infinito que se descortina num abismo inapreensível. Diante desta enormidade que não podemos captar com nossas dimensões corpóreas, experimentamos uma espécie de estremecimento, um certo desprazer, em virtude da percepção de nossa pequenez. Por outro lado, segundo Kant, esta infinidade que nos escapa acaba sendo percebida como uma espécie de reflexo da infinidade de nossa própria razão, de nossa própria determinação como seres racionais. Este segundo momento é caracterizado por um prazer, mas que Kant chama de negativo, pelo fato de que é antecedido por um desprazer, ligado ao nosso fracasso em nos medirmos com aquilo que escapa a todas as medidas possíveis.

Não é difícil perceber o que essa descrição da experiência do sublime é perfeitamente afim ao espírito religioso. Muito do prazer, do êxtase, do enlevo espiritual consiste precisamente no fato de nos conectarmos com um ser que ultrapassa todas as medidas humanas e está muito além de nós, mas — e isso é de suma importância — não simplesmente é tomado como virando totalmente as costas para nós, permitindo algum tipo de proximidade. Tal conexão possível, entretanto, sempre dependerá de um salto cognitivo, de uma disposição pessoal de engajamento pela fé, pelos rituais de sacrifício, pela obediência a doutrinas etc. — Nesse sentido, o fato de que ambos os lados do conflito entre Israel e Palestina tomarem aquela terra como sagrada faz com que seu mérito, o princípio de justiça que norteia o discurso sobre ela, esteja ancorado fortemente em uma dimensão de mundo transcendente, que nega as mediações construtivas de aproximação em grau em relação a ela. Como pensar a disposição daquelas pessoas de "negociar" diplomaticamente partes de algo que tem seu sentido por sua unidade sagrada?

Em franco contraste com a sublimidade religiosa, temos a realidade nua e crua de que o estado de Israel, com poucos anos de sua existência reconhecida pela ONU em 1948, já pôde congregar um arsenal bélico dezenas de vezes superior ao dos palestinos. A cada nova expansão do território judaico, o que se vê é a afirmação de um poder de fogo incontestável, cuja lei estabelece de forma peremptória sua própria validade. Deve-se enfatizar, por outro lado, que esta última está para além do verdadeiro e do falso. Diante de um tiro de fuzil, qualquer argumento é reduzido à insignificância de um sopro de voz. Para que esta imposição ocorra, basta a mais remota manifestação de sobrevida da agressividade alheia. Tal como já se comentou à exaustão, os movimentos mais extremistas de ambos os lados do conflito se nutrem abundantemente da existência de seu correlato. A cada vez que um membro do Hamas vocifera contra a pura e simples existência do estado de Israel, os membros dos partidos de extrema-direita israelenses soltam um sorriso íntimo que dificilmente precisa ser ocultado. É exatamente disso que a direita israelense precisa: quanto mais evidência houver da negação do diálogo por parte do comando palestino, mais a crueza da força bruta bélica pode ser mobilizada. O espaço para ela é cavado precisamente onde a mediação do bom senso, da interlocução e dos princípios de diplomacia política se ausenta.

Intimamente conectado com esta superioridade bélica está a dinâmica histórica das conquistas territoriais israelenses. Ao longo do tempo, elas se colocam como realidades consumadas, em que a reversão se torna concretamente impossível. Os fatos começam a inflar uma realidade pelo modo com que sedimentam quaisquer formas de falsidade, torturas e despropósitos. Exemplo claro é a questão dos refugiados palestinos, expulsos de suas terras devido à expansão territorial judaica. Nas negociações das últimas décadas, sempre se questionou: e como ficam esses refugiados diante de uma perspectiva de paz? Podem eles voltar para suas terras? — Ocorre que, passadas dezenas de anos, não temos mais apenas refugiados, mas sim seus filhos, e filhos de seus filhos, como também esposas e maridos vindos de alhures. Como reverter uma situação que se cristalizou ao redor de um ato de violência, mas cuja solidez sedimentada ao longo do tempo impede qualquer forma a razoável de negociação?

Nesse último aspecto, pareceu-me bastante significativa a posição do jornalista João Pereira Coutinho, da Folha de São Paulo, que falou em sua coluna do dia 22 de janeiro de 2013 que, devido às circunstâncias atuais de imbricação territorial entre israelenses e palestinos, com as diversas colônias judaicas que povoam — invadindo — sempre e de novo a Cisjordânia, a ideia de dois Estados convivendo lado a lado com seu territórios próprios não faz mais sentido. Em um movimento retórico, o colunista diz que as dezenas de livros na livraria frequentada por ele que falam sobre a possibilidade dos dois Estados poderiam ir para a lata do lixo. — Trata-se exatamente disso: absorver fatos consumados como base para raciocínios futuros, de tal forma que cada avanço dos movimentos expansionistas israelenses paute a discussão devido ao modo como se coloca em sua irreversibilidade. De forma análoga a como não discutimos contra um tanque de guerra, também não argumentamos contra fatos, como aliás já nos ensina a velha sabedoria popular.

Esta realidade nua e crua, entretanto, na sua solidez inquestionável, é comprada por vidas humanas. Pelo que se pode ver como saldo de cada porção da realidade percebida como algo já cristalizado, tem-se sempre mais e mais seres humanos sendo consumidos. — Ao redor das feridas causadas pelos sulcos que o tempo cava na existência, coagulam-se os fatos. Diante da inevitabilidade das então formadas cicatrizes, resta esperar que não simplesmente desapareçam, de modo que a planície habitada pelo silêncio do futuro não sacramente o desatino das injustiças perpetradas no passado.

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sábado, 19 de janeiro de 2013

Poéticas do amor

Hoje quero comentar um pequeno texto de Fabrício Carpinejar, “O que nos faz decidir a ficar com alguém”, publicado no jornal Zero Hora, em 15/01/2013. Clique na imagem abaixo para ler a coluna tal como publicada originalmente.



Ao se fazer uma leitura crítica deste texto, é necessário reconhecer desde já sua limitação como uma pequena coluna de jornal, sem nenhuma pretensão mais significativa, tanto em termos poéticos, quanto de visão, por assim dizer, objetiva sobre o amor. Considerando já sua pequena extensão, não se pode “carregar” demais uma crítica com exigências desproporcionais. Apesar dessas ressalvas, creio que a proposta delineie com suficiente clareza uma poética do amor romântico que, esta sim, é bastante difundida e encontra ressonância numa grande parte da literatura mundial e também numa mentalidade compartilhada por milhões de pessoas. Minhas observações, então, caminham no sentido de tomar a proposta do texto de Carpinejar como ilustração de algo realmente significativo como objeto de crítica.

O mistério da força de atração amorosa admitiu, no início da civilização ocidental, na Grécia e em Roma, uma leitura através da ação de deuses, que, de forma análoga à da inspiração dos poetas, insufla no coração dos amantes um calor e uma chama arrebatadores, capazes de nos mover, interna e intimamente, a um outro ser de tal forma que o sentido de nossa atitude e sentimento permanece por demais opaco, e é exatamente esta opacidade que se traduz na transcendência divina. Trata-se do desejo de traduzir o incompreensível no desejo, transpondo para uma metafísica do afeto o quanto se mostram indizíveis a força e as formas com que nos deixamos arrastar por uma torrente de movimentos de alma, de corpo e de consciência. Que tal movimento produtivo admita sua elevação por assim dizer definitivamente sublime com a doutrina cristã, isso nos levaria para outros caminhos, que não podemos minimamente percorrer agora, mas, de qualquer forma, indica uma via possível de refratar as cores tempestuosas da paixão em um plano cristalino de universalidade transparente a si mesma.

Mais 2000 anos após esta experiência fundadora da tradução do amor pela influência de Eros e mais tarde do Cupido, a psicanálise forneceu uma outra espécie de transcendência, mas agora em sentido inverso, como algo que ultrapassa a percepção da experiência cotidiana pelo fato de ser, não mais transcendente, mas sim profundamente incrustado no subterrâneo de nosso próprio ser. A força mágica que antes se atribuiu aos seres sobrenaturais agora é concebida uma espécie de “magia branca” de nosso próprio inconsciente, com seus segredos tão inconfessos quanto indizíveis eram as potências divinas. Em vez da comunicação misteriosa com os poderes celestiais, temos agora a emanação de uma força atrativa, gravitacionalmente imperiosa, dominadora de nós mesmos, cujas razões humilham a nossa própria. Nesse sentido, é característico o uso da ideia de quebranto no texto que comentamos, pois se trata, realmente, de plasmar uma poética de um encantamento a partir das profundezas de nosso inconsciente, tão ou mais misterioso — e por isso mesmo sedutor — que o jogo de forças sobrenaturais.

Nuclear nesta poética da transcendência íntima dos afetos inconscientes é a força do símbolo. Tal como a etimologia desta palavra já indica, trata-se da conjunção (sýn-), da conexão de duas partes que se jogam (-bolo = bállein = lançar), que se movimentam em acordo recíproco, de tal forma que sua unificação desvela produzindo uma força tão enigmática quanto fascinante. Seu poder provém, dentre outros aspectos, do modo com que atualiza um significado ao fazer comunicar planos de realidade, em princípio, desligados, incomunicáveis ou simplesmente alheios um ao outro. É como se o símbolo tornasse possível o escoamento tenso e intenso de forças opacas, que somente são reconhecidas e vivenciadas como tais pelo modo com que sua gravitação recíproca enconta seu fulcro definitivo ao se acoplarem nesta unidade benfazeja que habita os subterrâneos de nosso ser.

Será a partir precisamente desse enlace poderoso que se verá a chama do amor nesta poética, que quer derivar o prolongamento vital do sentimento a partir de um evento originário. O exemplo de colar o brinco se associando, devido a uma magia íntima, a outra colagem, não por acaso situada na infância, produz uma outra, entre dois seres, que desdobram esta conjunção mágica como em uma fileira infinita de espelhos, reproduzindo esta linha inercial de conexões simbolicamente viçosas.

Nesta “pintura”, neste quadro poético de um sopro enigmático inicial, cabe menos perguntar por aquilo que conserva esta chama enigmática acesa, mas sim explicitar, ao contrário, que “pouco adianta” lutar contra sua força ou querer entender sua ação, que impele à atratividade com o outro. A pergunta pela manutenção deste calor inicial seria, naturalmente, índice de uma racionalização anti-poética, que poderia até fazer perder a graça daquilo que, outrora, foi vivido como uma graça divina.

De meu ponto de vista, embora tal perspectiva tenha todo o seu valor no âmbito da autonomia do poético, não deve ser confundida com uma outra possibilidade de construção, igualmente capaz de poeticidade, de nossa ideia de amor, baseada propriamente na ideia de construção. A partir da mesma psicanálise que nutre este romantismo do ímpeto misterioso, podemos dizer de uma dilaceração demoníaca, cindida, contraditória, da sexualidade nos seus extratos mais arcaicos e por isso mesmo profundos. Este aprofundamento contém, na verdade, tanta atração quanto repulsa, traduzindo-se no fato de o desejo ser inapelavelmente acompanhado pelo não desejo, pelas orquestrações contraditórias do eu e de seu universo narcisista, capaz de fazer orbitar ao seu redor forças defensivas tão ou mais fortes do que aquelas que atraem para o núcleo sanguíneo da paixão. — Se assim é, e tudo isso necessitaria de vários outros textos para seu delineamento minimamente satisfatório, então a perseverança do amor, sua continuidade e mesmo seu reforço ao longo do tempo não seriam mais traduzidos por uma inércia causada por um evento primordial, como também não pela tentativa de renovação ou cuidado de proteção de uma chama como se dentro de uma lamparina, mas, bastante ao contrário, pelo modo com que cotidianamente as contradições intra- e inter-subjetivas se articulem de forma criativa, inusitada, insuspeita, ácida, instigante — e uma série de outros aspectos que, eles sim, pontuam a passagem do tempo na cumplicidade mútua de alimentar um sentimento através das diferenças e identidades de dois mundos inapelavelmente contraditórios.

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sábado, 12 de janeiro de 2013

Arte e vida

Quando comecei a estudar artes plásticas, ficou claro para mim uma regra geral: na criação artística, nenhuma regra objetiva (ou seja, relativa ao objeto, ao artefato artístico) é suficiente, por mais complexa e nuançada que seja. Todas as indicações de um enquadramento dinâmico, da centralidade do tema, da busca de equilíbrio dinâmico, da necessidade de não completar as informações pictóricas (deixando ao espectador essa tarefa), e diversas outras podem ser facilmente rompidas em qualquer obra, sem que isso signifique a diminuição de seu valor artístico. Além disso, mesmo que todas sejam seguidas, ainda se está longe de “garantir” tal qualidade estética. Não se nega, com isso, a utilidade de tais princípios, mas a força artística de qualquer obra parece resultar, na verdade, de se seguir uma regra que por assim dizer é anterior, externa ou alheia a todas as outras, sem que, por outro lado, exista pela necessidade de ignorá-las. Tal regra, que, necessariamente, devia ser seguida em cada passo de constituição do objeto me pareceu sempre ligada a uma disposição subjetiva de abarcar todas as outras, de tal forma que suas exceções e rupturas existam sob a égide dessa perspectiva mais profunda, que traça sua própria linha diretriz, mas cuja característica mais essencial está em não se conformar a nenhuma ligada às propriedades objetivas das coisas. Esse complexo de fatores parece muito bem expresso pela ideia de Kant de que o artista deve seguir uma regra que ele mesmo não é capaz de traduzir verbalmente nem para as outras pessoas, nem para si próprio. Além disso, como o filósofo também diz, o que em um talento médio deve ser evitado como um erro, nas mãos de um grande artista se transforma no que dá vida à obra.

Embora a comparação do âmbito estético com a vida em geral esteja sujeita a diversas impropriedades, uma vez que esse movimento analógico pode carregar consigo muitos vínculos falsificadores da questão, eu diria que a vida cotidiana também está repleta de circunstâncias em que quaisquer regras gerais são insuficientes para dizer o que de melhor deve ser feito. Tal como aquelas indicações de enquadramento e equilíbrio dinâmico, por exemplo, não são simplesmente inúteis, mas também não suficientes, do mesmo modo ideias, conceitos, regras e normas de vida devem ser sistematicamente questionadas à luz do que pode ser percebido como um desvio, um erro e uma impropriedade. Na verdade, eu diria que muito do sabor do mundo reside nas exceções, no que questiona sua pertinência, sua adequação ao que já se esperava dele.

Embora seja óbvio, considerando todo o conhecimento sociológico e filosófico que se acumulou em termos críticos sobre a conformação individual a partir da sociedade, é sempre interessante refletir acerca do modo com que uma quantidade virtualmente infinita de regras fundamentam de forma nuclear e inercial nossos modos de vida. Chamou-se de segunda natureza esta curiosa propriedade que a cultura possui de assumir uma estabilidade e regularidade bastante semelhantes aos fenômenos da natureza tomada em seu caráter primário, estudado pela biologia, química, física etc. Muito da dificuldade de ruptura dessa sedimentação cultural provém do fato de que nossa própria percepção do que seria legítimo nela se origina dela mesma. Grande parte do núcleo de nossa subjetividade ganhou robustez e sua própria capacidade crítica a partir do modo como unificamos a nós mesmos e observamos alguma espécie de ordem nas coisas. Desse modo, para além do imenso valor que a estabilidade de mundo produzida por tais normas possui, a habilidade de perceber quando, como e com que frequência devem ser cumpridas constitui uma habilidade de inestimável valor.

Essa perspectiva, entretanto, pode ser facilmente deturpada pelo fato de ser traduzida como uma regra fixada na transgressão. O excesso e a exceção se transformariam como que em um núcleo ao redor do qual tudo passa a girar e se converter numa espécie de fetichismo da ruptura. Esse posicionamento, entretanto, está sempre sujeito à confluência de infinitos valores, nunca se dando de forma tão cabalmente definível pela pura ruptura, pois sempre se mescla a graus e formas de aceitação de padrões. Entretanto, como uma atitude tipificável de alguma forma, possui muito de seu sentido dado pela insistência em seguir uma regra que vigora na medida em que rompe todas as outras.

Aquele ponto de vista estético do agir quer insistir em que vida e arte convergem em seu grau de excelência pelo fato de terem seu princípio constitutivo mais fundamental nutrido por regras que não se fixam no que pode ser estipulado positivamente, seja em termos de normas específicas a serem seguidas, ou quebradas e negligenciada sistematicamente. Dizer que o fundamento dessa disposição subjetiva mais geral é intuitivo não ajuda muito, pelo fato de que intuição sempre apela para algo imediato, em que não podemos nos tornar conscientes de sua operação. De qualquer forma, trata-se realmente de uma capacidade tão inviável de ser descrita quanto os princípios que norteiam a produção de uma obra de arte realmente significativa. Por outro lado, não se trata de algo simplesmente imediato, em virtude do fato de que se enriquece — ou melhor, pode se enriquecer — pelo modo com que observamos a adequação e inadequação dos elementos particulares do mundo àquilo que já esperávamos deles. A capacidade de valorizar tanto as exceções, desvios e erros, quanto o que deve já ser aproveitado, de modo a construir um conjunto cuja harmonia está para além tanto da norma quanto de sua ruptura, isso é o que eu diria que aproxima de forma íntima a arte e a vida.

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sexta-feira, 4 de janeiro de 2013

Progresso enrijecido

O debate sobre o caráter científico das ciências humanas sempre foi dificultado pelo fato de tal conceito ter-se originado no âmbito dos conhecimentos ligados à natureza, como na física, na biologia e na química. Toda vez que se coloca a questão sobre a cientificidade de uma teoria como a psicanálise ou mesmo de um saber mais estabelecido, como a sociologia, a discussão se mostra em larga medida viciada pela concepção das ciências experimentais e matemáticas.

Por outro lado, nem toda comparação dos procedimentos de ambas as esferas é ocioso, uma vez que há vários pontos de contato entre elas, e não apenas disparidades. Tanto o princípio geral de que toda teoria deve se basear em conceitos que ultrapassam a mera descrição factual, quanto também a necessidade de uma sistematização das hipóteses e das conclusões obtidas no enfrentamento com o material empírico, mostram uma proximidade entre os dois tipos de ciência que convida ao estabelecimento de relações analógicas que podem ser úteis para ambos os lados.

Uma pesquisa empírica de biologia, por exemplo, consistindo no levantamento de uma hipótese a ser verificada em um material de teste, pode ser perfeitamente considerada bastante valiosa, mesmo que sua ideia inicial se mostre equivocada. Se se investiga uma suposta associação entre raios ultravioletas e a propagação de um determinado vírus, pode-se concluir que tal vínculo não existe em diversas circunstâncias em que se esperava sua ocorrência. Mesmo que tal resultado signifique o abandono de uma determinada linha de trabalho baseada no uso de tais raios luminosos para o combate a algumas viroses, trata-se de uma conquista do conhecimento, na medida em que trabalhos científicos posteriores já podem tomar tal resultado como indicando um esforço de pesquisa que não precisa ser despendido.

Parece-me representativo, não apenas do aspecto operacional da ciências humanas, mas também de seu “espírito”, de sua mentalidade, que o aproveitamento de resultados negativos da pesquisa seja muito pouco presente. Uma vez que tais saberes, usando-se a clássica distinção de Dilthey, dedicam-se bem mais a interpretar do que propriamente explicar seu objeto, as hipóteses de trabalho parecem inapelavelmente ligadas a algum projeto construtivo, propositivo, de acréscimo de possibilidades de leitura sobre a realidade. Isso não me parece necessariamente um vício, desde que não inclua uma excessiva rigidez da predisposição de apenas produzir um aperfeiçoamento do conhecimento teórico sobre a realidade, deixando de lado ou em segundo plano um trabalho propriamente negativo, de crítica de um conhecimento já estabelecido, de práticas já sedimentadas etc.

Permitam-me usar minha produção acadêmica mais recente como exemplo do que quero argumentar. Já há algum tempo, minha pesquisa tem consistido fundamentalmente em mostrar discordâncias em relação aos princípios mais fundamentais da filosofia de Theodor Adorno, que foi meu objeto de estudo durante vários anos. Tendo assimilado e aceito deste autor diversas perspectivas, temas e conceitos, comecei a considerá-los inadequados à luz de outros estudos de teoria psicanalítica, passando então a produzir artigos e fazer apresentações em congressos que ressaltam tal posicionamento crítico. (Um desses trabalhos pode ser acessado neste link, em que faço um apanhado geral de meu projeto de pesquisa sobre a presença da psicanálise no livro Dialética do esclarecimento, escrito em conjunto por Adorno e Horkheimer) Foi com alguma surpresa, mas nem tanta assim, que ouvi de algumas pessoas observações com certo teor de ironia — sem que isso signifique qualquer forma de agressividade —, no sentido de que minha pesquisa consiste em criticar Adorno, em ser contra ele. Independente de tais trabalhos apresentarem ou não uma linha teórica propositiva mais específica a partir do viés psicanalítico lhe serve de base, eu diria, de um ponto de vista geral, que qualquer pesquisa de filosofia e ciências humanas deve ser tomada como válida, proveitosa e enriquecedora, mesmo que seu resultado seja essencialmente negativo, no sentido de colocação em dúvida, de quebra de paradigmas estabelecidos etc., desde que, obviamente, seja bem realizada, baseando-se em argumentos sólidos, apresente coerência e uma série de outras características típicas de um saber sistematizado.

Que se tenha predileção somente por pesquisas propositivas, digo mais uma vez, não me parece um mal em si mesmo, mas me parece índice de uma pré-concepção, de um preconceito que, como quase todos eles, tende a gerar frutos indesejáveis. Vejo como um certo “mal-estar” da pesquisa em filosofia e ciências humanas a tendência de um estudioso da obra de um autor clássico apresentar tal teoria sem se dedicar a não apenas mostrar, mas também realçar e tirar consequências de suas lacunas, suas tensões, suas impropriedades etc. Em vários momentos pode-se ver que um determinado aspecto negativo é até referido, mas justificado com base no contexto histórico, limitação do conhecimento de sua época etc. Se alguém, por exemplo, estuda a obra de Heidegger, pode perfeitamente demorar-se décadas em uma pesquisa sempre ignorando, deixando de lado e desconsiderando a relação daquele pensador com o nazismo, como se já se “soubesse”, de antemão, que esse engajamento político não tem nada a ver com suas teorias sobre o ser. Um plantonista pode também, ao estudar o livro A república, absorver totalmente a crítica às artes como integrando o projeto platônico de uma cidade ideal, sem questionar em nenhum momento o quanto se trata — ou não — de uma atitude equivocada, regressiva, perante a arte.

Diante de abstrações tão evidentes de aspectos francamente criticáveis, ou que pelo menos demandam um enfrentamento crítico aprofundado e sério, parece realmente claro que a atitude de focar apenas a dimensão positiva do objeto de estudo estabelece uma regra seguida tacitamente em uma esmagadora maioria das vezes. Se mesmo aquilo que salta aos olhos como um absurdo, falso, politicamente regressivo, é retirado do campo de visão, logo se pode fazer uma espécie de “regra de 3” e se perguntar: e aquilo que é sutil, difícil de ser percebido como um equívoco, podendo ser colocado em dúvida, mas não simplesmente rejeitado? Não tenho dúvida que todos esses elementos são tragados por essa pré-disposição de considerar a validade da pesquisa como dada essencialmente pelo modo como ela produz resultados positivos, construtivos.

Se, na velha querela da comparação entre ciências exatas e humanas, as primeiras parecem aos olhos das últimas como excessivamente “duras”, por demais fixadas em paradigmas de assimilação do real a fórmulas matemáticas, as ciências humanas, pelo visto, também sofrem de um tipo de rigidez, só que disfarçada sob a capa de uma atitude progressista.

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