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sexta-feira, 25 de janeiro de 2013

Não há argumento contra um tiro de fuzil

Escrever ensaios curtos sobre realidades políticas é sempre muito difícil em virtude do fato de a extensão do texto solicitar um corte sempre muito drástico em relação ao objeto, que sempre conterá uma quantidade infinita de variáveis que precisam ser abstraídas, e muitas delas são de crucial importância, mas que só poderiam ser levadas em conta com uma extensão de argumentos bem maior. Apesar dessa dificuldade, creio que não se deva abdicar do desejo de falar brevemente sobre algum aspecto de determinada realidade histórica. Nesse sentido, gostaria de falar do conflito entre Israel e a Palestina, a partir de um princípio de análise que, a bem dizer, não é novo, mas que enseja reflexões que devem sempre ser retomadas.

Três são as dimensões que quero levar em conta: o caráter religioso do conflito, a franca superioridade militar de Israel e a realidade histórica do aumento sucessivo dos territórios palestinos ocupados desde a fundação do estado judaico. Há algo de comum entre eles que se mostra na dinâmica histórica não apenas do conflito, como também das narrativas sobre ele, na história que é contada e que inclui, também, as opiniões, as tomadas de posição política a favor ou contra um dos lados. Considerando a necessidade imperiosa de sempre, de novo e mais uma vez estabelecer um diálogo, ponderar o que seria de direito e portanto justo para cada um dos lados, todos aqueles três fatores parecem convergir, de uma maneira ou outra para algo que Theodor Adorno identificou como sintoma do capitalismo tardio: a ausência de mediações.

Na concepção adorniana — que na verdade não me parece válida em todos os seus momentos —, a situação do capitalismo de alta concentração de renda teria suprimido vertiginosamente a mediação da livre concorrência, de tal forma que a produção, circulação e o consumo das mercadorias ficariam menos sujeitos à complexa e intrincada área da oferta e da procura, mas sim cada vez mais a um movimento transnacional, balizado pela concentração de capital exorbitante no âmbito planetário. Uma outra aplicação dessa ideia seria a de que nos produtos de indústria cultural o espaço próprio da mediação individual do gosto, do juízo que se faz sobre a qualidade da obra, teria cedido lugar a uma conexão imediata entre o interesse de grandes corporações (como Hollywood, grandes gravadoras, redes de televisão etc.) e a necessidade de cada trabalhador de obter relaxamento e distração o mais mecânicos possíveis, de modo a poder voltar a trabalhar no dia seguinte. Em ambos os casos, uma série de mediações, de conexões, de modos de interpretar, re-conduzir e elaborar caminhos alternativos é sistematicamente reduzida ou mesmo suprimida.

Quero aplicar esta ideia a cada um dos 3 elementos que citei antes, começando pela dimensão religiosa. Para falar dela, uso um conceito da experiência estética que se tornou bastante significativo nas reflexões filosóficas do século XVIII: “sublime é aquilo em relação ao qual tudo mais é incomensuravelmente pequeno”; com essa definição, Kant codificou a sublimidade como algo que ultrapassa infinitamente as dimensões e o poder de resistência humanos. O céu estrelado, com suas inumeráveis estrelas que se desdobram em uma infinidade de galáxias é um exemplo de algo sublime, pois na tentativa de apreendermos esse cosmos como um todo, como uma unidade, nós sempre nos perdemos. A percepção do sublime é prazerosa, dentre outros motivos, exatamente porque faltam elos de conexão suficientes entre nós e este infinito que se descortina num abismo inapreensível. Diante desta enormidade que não podemos captar com nossas dimensões corpóreas, experimentamos uma espécie de estremecimento, um certo desprazer, em virtude da percepção de nossa pequenez. Por outro lado, segundo Kant, esta infinidade que nos escapa acaba sendo percebida como uma espécie de reflexo da infinidade de nossa própria razão, de nossa própria determinação como seres racionais. Este segundo momento é caracterizado por um prazer, mas que Kant chama de negativo, pelo fato de que é antecedido por um desprazer, ligado ao nosso fracasso em nos medirmos com aquilo que escapa a todas as medidas possíveis.

Não é difícil perceber o que essa descrição da experiência do sublime é perfeitamente afim ao espírito religioso. Muito do prazer, do êxtase, do enlevo espiritual consiste precisamente no fato de nos conectarmos com um ser que ultrapassa todas as medidas humanas e está muito além de nós, mas — e isso é de suma importância — não simplesmente é tomado como virando totalmente as costas para nós, permitindo algum tipo de proximidade. Tal conexão possível, entretanto, sempre dependerá de um salto cognitivo, de uma disposição pessoal de engajamento pela fé, pelos rituais de sacrifício, pela obediência a doutrinas etc. — Nesse sentido, o fato de que ambos os lados do conflito entre Israel e Palestina tomarem aquela terra como sagrada faz com que seu mérito, o princípio de justiça que norteia o discurso sobre ela, esteja ancorado fortemente em uma dimensão de mundo transcendente, que nega as mediações construtivas de aproximação em grau em relação a ela. Como pensar a disposição daquelas pessoas de "negociar" diplomaticamente partes de algo que tem seu sentido por sua unidade sagrada?

Em franco contraste com a sublimidade religiosa, temos a realidade nua e crua de que o estado de Israel, com poucos anos de sua existência reconhecida pela ONU em 1948, já pôde congregar um arsenal bélico dezenas de vezes superior ao dos palestinos. A cada nova expansão do território judaico, o que se vê é a afirmação de um poder de fogo incontestável, cuja lei estabelece de forma peremptória sua própria validade. Deve-se enfatizar, por outro lado, que esta última está para além do verdadeiro e do falso. Diante de um tiro de fuzil, qualquer argumento é reduzido à insignificância de um sopro de voz. Para que esta imposição ocorra, basta a mais remota manifestação de sobrevida da agressividade alheia. Tal como já se comentou à exaustão, os movimentos mais extremistas de ambos os lados do conflito se nutrem abundantemente da existência de seu correlato. A cada vez que um membro do Hamas vocifera contra a pura e simples existência do estado de Israel, os membros dos partidos de extrema-direita israelenses soltam um sorriso íntimo que dificilmente precisa ser ocultado. É exatamente disso que a direita israelense precisa: quanto mais evidência houver da negação do diálogo por parte do comando palestino, mais a crueza da força bruta bélica pode ser mobilizada. O espaço para ela é cavado precisamente onde a mediação do bom senso, da interlocução e dos princípios de diplomacia política se ausenta.

Intimamente conectado com esta superioridade bélica está a dinâmica histórica das conquistas territoriais israelenses. Ao longo do tempo, elas se colocam como realidades consumadas, em que a reversão se torna concretamente impossível. Os fatos começam a inflar uma realidade pelo modo com que sedimentam quaisquer formas de falsidade, torturas e despropósitos. Exemplo claro é a questão dos refugiados palestinos, expulsos de suas terras devido à expansão territorial judaica. Nas negociações das últimas décadas, sempre se questionou: e como ficam esses refugiados diante de uma perspectiva de paz? Podem eles voltar para suas terras? — Ocorre que, passadas dezenas de anos, não temos mais apenas refugiados, mas sim seus filhos, e filhos de seus filhos, como também esposas e maridos vindos de alhures. Como reverter uma situação que se cristalizou ao redor de um ato de violência, mas cuja solidez sedimentada ao longo do tempo impede qualquer forma a razoável de negociação?

Nesse último aspecto, pareceu-me bastante significativa a posição do jornalista João Pereira Coutinho, da Folha de São Paulo, que falou em sua coluna do dia 22 de janeiro de 2013 que, devido às circunstâncias atuais de imbricação territorial entre israelenses e palestinos, com as diversas colônias judaicas que povoam — invadindo — sempre e de novo a Cisjordânia, a ideia de dois Estados convivendo lado a lado com seu territórios próprios não faz mais sentido. Em um movimento retórico, o colunista diz que as dezenas de livros na livraria frequentada por ele que falam sobre a possibilidade dos dois Estados poderiam ir para a lata do lixo. — Trata-se exatamente disso: absorver fatos consumados como base para raciocínios futuros, de tal forma que cada avanço dos movimentos expansionistas israelenses paute a discussão devido ao modo como se coloca em sua irreversibilidade. De forma análoga a como não discutimos contra um tanque de guerra, também não argumentamos contra fatos, como aliás já nos ensina a velha sabedoria popular.

Esta realidade nua e crua, entretanto, na sua solidez inquestionável, é comprada por vidas humanas. Pelo que se pode ver como saldo de cada porção da realidade percebida como algo já cristalizado, tem-se sempre mais e mais seres humanos sendo consumidos. — Ao redor das feridas causadas pelos sulcos que o tempo cava na existência, coagulam-se os fatos. Diante da inevitabilidade das então formadas cicatrizes, resta esperar que não simplesmente desapareçam, de modo que a planície habitada pelo silêncio do futuro não sacramente o desatino das injustiças perpetradas no passado.

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