Escrever
ensaios curtos sobre realidades políticas é sempre muito difícil em virtude do
fato de a extensão do texto solicitar um corte sempre muito drástico em relação
ao objeto, que sempre conterá uma quantidade infinita de variáveis que precisam
ser abstraídas, e muitas delas são de crucial importância, mas que só poderiam
ser levadas em conta com uma extensão de argumentos bem maior. Apesar dessa
dificuldade, creio que não se deva abdicar do desejo de falar brevemente sobre
algum aspecto de determinada realidade histórica. Nesse sentido, gostaria de
falar do conflito entre Israel e a Palestina, a partir de um princípio de
análise que, a bem dizer, não é novo, mas que enseja reflexões que devem sempre
ser retomadas.
Três
são as dimensões que quero levar em conta: o caráter religioso do conflito, a
franca superioridade militar de Israel e a realidade histórica do aumento
sucessivo dos territórios palestinos ocupados desde a fundação do estado
judaico. Há algo de comum entre eles que se mostra na dinâmica histórica não
apenas do conflito, como também das narrativas sobre ele, na história que é
contada e que inclui, também, as opiniões, as tomadas de posição política a
favor ou contra um dos lados. Considerando a necessidade imperiosa de sempre,
de novo e mais uma vez estabelecer um diálogo, ponderar o que seria de direito
e portanto justo para cada um dos lados, todos aqueles três fatores parecem
convergir, de uma maneira ou outra para algo que Theodor Adorno identificou
como sintoma do capitalismo tardio: a ausência de mediações.
Na
concepção adorniana — que na verdade não me parece válida em todos os seus
momentos —, a situação do capitalismo de alta concentração de renda teria
suprimido vertiginosamente a mediação da livre concorrência, de tal forma que a
produção, circulação e o consumo das mercadorias ficariam menos sujeitos à
complexa e intrincada área da oferta e da procura, mas sim cada vez mais a um
movimento transnacional, balizado pela concentração de capital exorbitante no
âmbito planetário. Uma outra aplicação dessa ideia seria a de que nos produtos
de indústria cultural o espaço próprio da mediação individual do gosto, do
juízo que se faz sobre a qualidade da obra, teria cedido lugar a uma conexão imediata
entre o interesse de grandes corporações (como Hollywood, grandes gravadoras,
redes de televisão etc.) e a necessidade de cada trabalhador de obter
relaxamento e distração o mais mecânicos possíveis, de modo a poder voltar a
trabalhar no dia seguinte. Em ambos os casos, uma série
de mediações, de conexões, de modos de interpretar, re-conduzir e elaborar
caminhos alternativos é sistematicamente reduzida ou mesmo suprimida.
Quero
aplicar esta ideia a cada um dos 3 elementos que citei antes, começando pela
dimensão religiosa. Para falar dela, uso um conceito da experiência
estética que se tornou bastante significativo nas reflexões filosóficas do
século XVIII: “sublime é aquilo em relação ao qual tudo mais é incomensuravelmente
pequeno”; com essa definição, Kant codificou a sublimidade como algo que
ultrapassa infinitamente as dimensões e o poder de resistência humanos. O céu
estrelado, com suas inumeráveis estrelas que se desdobram em uma infinidade de
galáxias é um exemplo de algo sublime, pois na tentativa de apreendermos esse
cosmos como um todo, como uma unidade, nós sempre nos perdemos. A percepção do
sublime é prazerosa, dentre outros motivos, exatamente porque faltam elos de
conexão suficientes entre nós e este infinito que se descortina num abismo inapreensível. Diante desta enormidade que não podemos captar com nossas
dimensões corpóreas, experimentamos uma espécie de estremecimento, um certo
desprazer, em virtude da percepção de nossa pequenez. Por outro lado, segundo
Kant, esta infinidade que nos escapa acaba sendo percebida como uma espécie de reflexo
da infinidade de nossa própria razão, de nossa própria determinação como
seres racionais. Este segundo momento é caracterizado por um prazer, mas que
Kant chama de negativo, pelo fato de que é antecedido por um desprazer, ligado
ao nosso fracasso em nos medirmos com aquilo que escapa a todas as medidas
possíveis.
Não é
difícil perceber o que essa descrição da experiência do sublime é perfeitamente
afim ao espírito religioso. Muito do prazer, do êxtase, do enlevo espiritual
consiste precisamente no fato de nos conectarmos com um ser que ultrapassa
todas as medidas humanas e está muito além de nós, mas — e isso é de suma
importância — não simplesmente é tomado como virando totalmente as
costas para nós, permitindo algum tipo de proximidade. Tal conexão possível, entretanto, sempre dependerá de um salto
cognitivo, de uma disposição pessoal de engajamento pela fé, pelos rituais
de sacrifício, pela obediência a doutrinas etc. — Nesse sentido, o fato de que
ambos os lados do conflito entre Israel e Palestina tomarem aquela terra como
sagrada faz com que seu mérito, o princípio de justiça que norteia o discurso
sobre ela, esteja ancorado fortemente em uma dimensão de mundo transcendente,
que nega as mediações construtivas de aproximação em grau em relação a ela. Como pensar a disposição daquelas pessoas de "negociar" diplomaticamente partes de algo que tem seu sentido por sua unidade sagrada?
Em
franco contraste com a sublimidade religiosa, temos a realidade nua e crua de
que o estado de Israel, com poucos anos de sua existência reconhecida pela
ONU em 1948, já pôde congregar um arsenal bélico dezenas de vezes superior ao
dos palestinos. A cada nova expansão do território judaico, o que se vê é a
afirmação de um poder de fogo incontestável, cuja lei estabelece de forma
peremptória sua própria validade. Deve-se enfatizar, por outro lado, que esta
última está para além do verdadeiro e do falso. Diante de um tiro de fuzil,
qualquer argumento é reduzido à insignificância de um sopro de voz. Para que
esta imposição ocorra, basta a mais remota manifestação de sobrevida da
agressividade alheia. Tal como já se comentou à exaustão, os movimentos mais
extremistas de ambos os lados do conflito se nutrem abundantemente da
existência de seu correlato. A cada vez que um membro do Hamas vocifera contra
a pura e simples existência do estado de Israel, os membros dos partidos de
extrema-direita israelenses soltam um sorriso íntimo que dificilmente precisa
ser ocultado. É exatamente disso que a direita israelense precisa: quanto mais
evidência houver da negação do diálogo por parte do comando palestino, mais a
crueza da força bruta bélica pode ser mobilizada. O espaço para ela é cavado
precisamente onde a mediação do bom senso, da interlocução e dos princípios de
diplomacia política se ausenta.
Intimamente
conectado com esta superioridade bélica está a dinâmica histórica das
conquistas territoriais israelenses. Ao longo do tempo, elas se colocam como
realidades consumadas, em que a reversão se torna concretamente impossível. Os
fatos começam a inflar uma realidade pelo modo com que sedimentam quaisquer
formas de falsidade, torturas e despropósitos. Exemplo claro é a questão dos
refugiados palestinos, expulsos de suas terras devido à expansão territorial
judaica. Nas negociações das últimas décadas, sempre se questionou: e como
ficam esses refugiados diante de uma perspectiva de paz? Podem eles voltar para
suas terras? — Ocorre que, passadas dezenas de anos, não temos mais apenas
refugiados, mas sim seus filhos, e filhos de seus filhos, como também esposas e
maridos vindos de alhures. Como reverter uma situação que se cristalizou ao
redor de um ato de violência, mas cuja solidez sedimentada ao longo do tempo
impede qualquer forma a razoável de negociação?
Nesse
último aspecto, pareceu-me bastante significativa a posição do jornalista João Pereira Coutinho, da Folha de São Paulo, que falou em sua coluna do dia
22 de janeiro de 2013 que, devido às circunstâncias atuais de imbricação
territorial entre israelenses e palestinos, com as diversas colônias judaicas
que povoam — invadindo — sempre e de novo a Cisjordânia, a ideia de dois
Estados convivendo lado a lado com seu territórios próprios não faz mais
sentido. Em um movimento retórico, o colunista diz que as dezenas de livros na
livraria frequentada por ele que falam sobre a possibilidade dos dois Estados
poderiam ir para a lata do lixo. — Trata-se exatamente disso: absorver fatos
consumados como base para raciocínios futuros, de tal forma que cada avanço dos
movimentos expansionistas israelenses paute a discussão devido ao modo como se coloca
em sua irreversibilidade. De forma análoga a como não discutimos contra um
tanque de guerra, também não argumentamos contra fatos, como aliás já nos
ensina a velha sabedoria popular.
Esta
realidade nua e crua, entretanto, na sua solidez inquestionável, é comprada por
vidas humanas. Pelo que se pode ver como saldo de cada porção da realidade
percebida como algo já cristalizado, tem-se sempre mais e mais seres humanos
sendo consumidos. — Ao redor das feridas causadas pelos sulcos que o tempo cava
na existência, coagulam-se os fatos. Diante da inevitabilidade das então
formadas cicatrizes, resta esperar que não simplesmente desapareçam, de modo
que a planície habitada pelo silêncio do futuro não sacramente o desatino das
injustiças perpetradas no passado.
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