Quando
comecei a estudar artes plásticas, ficou claro para mim uma regra geral: na
criação artística, nenhuma regra objetiva (ou seja, relativa ao objeto, ao
artefato artístico) é suficiente, por mais complexa e nuançada que seja. Todas
as indicações de um enquadramento dinâmico, da centralidade do tema, da busca
de equilíbrio dinâmico, da necessidade de não completar as informações
pictóricas (deixando ao espectador essa tarefa), e diversas outras podem ser
facilmente rompidas em qualquer obra, sem que isso signifique a
diminuição de seu valor artístico. Além disso, mesmo que todas sejam seguidas,
ainda se está longe de “garantir” tal qualidade estética. Não se nega, com
isso, a utilidade de tais princípios, mas a força artística de qualquer obra
parece resultar, na verdade, de se seguir uma regra que por assim dizer é
anterior, externa ou alheia a todas as outras, sem que, por outro lado, exista
pela necessidade de ignorá-las. Tal regra, que, necessariamente, devia ser seguida
em cada passo de constituição do objeto me pareceu sempre ligada a uma disposição
subjetiva de abarcar todas as outras, de tal forma que suas exceções e
rupturas existam sob a égide dessa perspectiva mais profunda, que traça sua
própria linha diretriz, mas cuja característica mais essencial está em não se
conformar a nenhuma ligada às propriedades objetivas das coisas. Esse complexo
de fatores parece muito bem expresso pela ideia de Kant de que o artista deve
seguir uma regra que ele mesmo não é capaz de traduzir verbalmente nem para as
outras pessoas, nem para si próprio. Além disso, como o filósofo também diz, o
que em um talento médio deve ser evitado como um erro, nas mãos de um grande
artista se transforma no que dá vida à obra.
Embora
a comparação do âmbito estético com a vida em geral esteja sujeita a diversas
impropriedades, uma vez que esse movimento analógico pode carregar consigo
muitos vínculos falsificadores da questão, eu diria que a vida cotidiana também
está repleta de circunstâncias em que quaisquer regras gerais são insuficientes
para dizer o que de melhor deve ser feito. Tal como aquelas indicações de
enquadramento e equilíbrio dinâmico, por exemplo, não são simplesmente inúteis,
mas também não suficientes, do mesmo modo ideias, conceitos, regras e normas de
vida devem ser sistematicamente questionadas à luz do que pode ser percebido
como um desvio, um erro e uma impropriedade. Na verdade, eu diria que muito
do sabor do mundo reside nas exceções, no que questiona sua pertinência,
sua adequação ao que já se esperava dele.
Embora
seja óbvio, considerando todo o conhecimento sociológico e filosófico que se
acumulou em termos críticos sobre a conformação individual a partir da
sociedade, é sempre interessante refletir acerca do modo com que uma quantidade
virtualmente infinita de regras fundamentam de forma nuclear e inercial nossos
modos de vida. Chamou-se de segunda natureza esta curiosa propriedade
que a cultura possui de assumir uma estabilidade e regularidade bastante
semelhantes aos fenômenos da natureza tomada em seu caráter primário, estudado
pela biologia, química, física etc. Muito da dificuldade de ruptura dessa
sedimentação cultural provém do fato de que nossa própria percepção do que
seria legítimo nela se origina dela mesma. Grande parte do núcleo de nossa
subjetividade ganhou robustez e sua própria capacidade crítica a partir do modo
como unificamos a nós mesmos e observamos alguma espécie de ordem nas coisas.
Desse modo, para além do imenso valor que a estabilidade de mundo produzida por
tais normas possui, a habilidade de perceber quando, como e com que
frequência devem ser cumpridas constitui uma habilidade de inestimável
valor.
Essa
perspectiva, entretanto, pode ser facilmente deturpada pelo fato de ser
traduzida como uma regra fixada na transgressão. O excesso e a exceção
se transformariam como que em um núcleo ao redor do qual tudo passa a girar e
se converter numa espécie de fetichismo da ruptura. Esse posicionamento,
entretanto, está sempre sujeito à confluência de infinitos valores, nunca se
dando de forma tão cabalmente definível pela pura ruptura, pois sempre se
mescla a graus e formas de aceitação de padrões. Entretanto, como uma atitude
tipificável de alguma forma, possui muito de seu sentido dado pela insistência
em seguir uma regra que vigora na medida em que rompe todas as outras.
Aquele
ponto de vista estético do agir quer insistir em que vida e arte
convergem em seu grau de excelência pelo fato de terem seu princípio
constitutivo mais fundamental nutrido por regras que não se fixam no que pode
ser estipulado positivamente, seja em termos de normas específicas a serem
seguidas, ou quebradas e negligenciada sistematicamente. Dizer que o fundamento
dessa disposição subjetiva mais geral é intuitivo não ajuda muito, pelo
fato de que intuição sempre apela para algo imediato, em que não podemos nos
tornar conscientes de sua operação. De qualquer forma, trata-se realmente de
uma capacidade tão inviável de ser descrita quanto os princípios que norteiam a
produção de uma obra de arte realmente significativa. Por outro lado, não se
trata de algo simplesmente imediato, em virtude do fato de que se enriquece —
ou melhor, pode se enriquecer — pelo modo com que observamos a adequação
e inadequação dos elementos particulares do mundo àquilo que já esperávamos
deles. A capacidade de valorizar tanto as exceções, desvios e erros, quanto o
que deve já ser aproveitado, de modo a construir um conjunto cuja harmonia está
para além tanto da norma quanto de sua ruptura, isso é o que eu diria que
aproxima de forma íntima a arte e a vida.
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