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sábado, 12 de janeiro de 2013

Arte e vida

Quando comecei a estudar artes plásticas, ficou claro para mim uma regra geral: na criação artística, nenhuma regra objetiva (ou seja, relativa ao objeto, ao artefato artístico) é suficiente, por mais complexa e nuançada que seja. Todas as indicações de um enquadramento dinâmico, da centralidade do tema, da busca de equilíbrio dinâmico, da necessidade de não completar as informações pictóricas (deixando ao espectador essa tarefa), e diversas outras podem ser facilmente rompidas em qualquer obra, sem que isso signifique a diminuição de seu valor artístico. Além disso, mesmo que todas sejam seguidas, ainda se está longe de “garantir” tal qualidade estética. Não se nega, com isso, a utilidade de tais princípios, mas a força artística de qualquer obra parece resultar, na verdade, de se seguir uma regra que por assim dizer é anterior, externa ou alheia a todas as outras, sem que, por outro lado, exista pela necessidade de ignorá-las. Tal regra, que, necessariamente, devia ser seguida em cada passo de constituição do objeto me pareceu sempre ligada a uma disposição subjetiva de abarcar todas as outras, de tal forma que suas exceções e rupturas existam sob a égide dessa perspectiva mais profunda, que traça sua própria linha diretriz, mas cuja característica mais essencial está em não se conformar a nenhuma ligada às propriedades objetivas das coisas. Esse complexo de fatores parece muito bem expresso pela ideia de Kant de que o artista deve seguir uma regra que ele mesmo não é capaz de traduzir verbalmente nem para as outras pessoas, nem para si próprio. Além disso, como o filósofo também diz, o que em um talento médio deve ser evitado como um erro, nas mãos de um grande artista se transforma no que dá vida à obra.

Embora a comparação do âmbito estético com a vida em geral esteja sujeita a diversas impropriedades, uma vez que esse movimento analógico pode carregar consigo muitos vínculos falsificadores da questão, eu diria que a vida cotidiana também está repleta de circunstâncias em que quaisquer regras gerais são insuficientes para dizer o que de melhor deve ser feito. Tal como aquelas indicações de enquadramento e equilíbrio dinâmico, por exemplo, não são simplesmente inúteis, mas também não suficientes, do mesmo modo ideias, conceitos, regras e normas de vida devem ser sistematicamente questionadas à luz do que pode ser percebido como um desvio, um erro e uma impropriedade. Na verdade, eu diria que muito do sabor do mundo reside nas exceções, no que questiona sua pertinência, sua adequação ao que já se esperava dele.

Embora seja óbvio, considerando todo o conhecimento sociológico e filosófico que se acumulou em termos críticos sobre a conformação individual a partir da sociedade, é sempre interessante refletir acerca do modo com que uma quantidade virtualmente infinita de regras fundamentam de forma nuclear e inercial nossos modos de vida. Chamou-se de segunda natureza esta curiosa propriedade que a cultura possui de assumir uma estabilidade e regularidade bastante semelhantes aos fenômenos da natureza tomada em seu caráter primário, estudado pela biologia, química, física etc. Muito da dificuldade de ruptura dessa sedimentação cultural provém do fato de que nossa própria percepção do que seria legítimo nela se origina dela mesma. Grande parte do núcleo de nossa subjetividade ganhou robustez e sua própria capacidade crítica a partir do modo como unificamos a nós mesmos e observamos alguma espécie de ordem nas coisas. Desse modo, para além do imenso valor que a estabilidade de mundo produzida por tais normas possui, a habilidade de perceber quando, como e com que frequência devem ser cumpridas constitui uma habilidade de inestimável valor.

Essa perspectiva, entretanto, pode ser facilmente deturpada pelo fato de ser traduzida como uma regra fixada na transgressão. O excesso e a exceção se transformariam como que em um núcleo ao redor do qual tudo passa a girar e se converter numa espécie de fetichismo da ruptura. Esse posicionamento, entretanto, está sempre sujeito à confluência de infinitos valores, nunca se dando de forma tão cabalmente definível pela pura ruptura, pois sempre se mescla a graus e formas de aceitação de padrões. Entretanto, como uma atitude tipificável de alguma forma, possui muito de seu sentido dado pela insistência em seguir uma regra que vigora na medida em que rompe todas as outras.

Aquele ponto de vista estético do agir quer insistir em que vida e arte convergem em seu grau de excelência pelo fato de terem seu princípio constitutivo mais fundamental nutrido por regras que não se fixam no que pode ser estipulado positivamente, seja em termos de normas específicas a serem seguidas, ou quebradas e negligenciada sistematicamente. Dizer que o fundamento dessa disposição subjetiva mais geral é intuitivo não ajuda muito, pelo fato de que intuição sempre apela para algo imediato, em que não podemos nos tornar conscientes de sua operação. De qualquer forma, trata-se realmente de uma capacidade tão inviável de ser descrita quanto os princípios que norteiam a produção de uma obra de arte realmente significativa. Por outro lado, não se trata de algo simplesmente imediato, em virtude do fato de que se enriquece — ou melhor, pode se enriquecer — pelo modo com que observamos a adequação e inadequação dos elementos particulares do mundo àquilo que já esperávamos deles. A capacidade de valorizar tanto as exceções, desvios e erros, quanto o que deve já ser aproveitado, de modo a construir um conjunto cuja harmonia está para além tanto da norma quanto de sua ruptura, isso é o que eu diria que aproxima de forma íntima a arte e a vida.

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