Um espaço de discussão sobre Filosofia, Psicanálise, Arte, Política, Crítica cultural e Atualidades.

sábado, 19 de janeiro de 2013

Poéticas do amor

Hoje quero comentar um pequeno texto de Fabrício Carpinejar, “O que nos faz decidir a ficar com alguém”, publicado no jornal Zero Hora, em 15/01/2013. Clique na imagem abaixo para ler a coluna tal como publicada originalmente.



Ao se fazer uma leitura crítica deste texto, é necessário reconhecer desde já sua limitação como uma pequena coluna de jornal, sem nenhuma pretensão mais significativa, tanto em termos poéticos, quanto de visão, por assim dizer, objetiva sobre o amor. Considerando já sua pequena extensão, não se pode “carregar” demais uma crítica com exigências desproporcionais. Apesar dessas ressalvas, creio que a proposta delineie com suficiente clareza uma poética do amor romântico que, esta sim, é bastante difundida e encontra ressonância numa grande parte da literatura mundial e também numa mentalidade compartilhada por milhões de pessoas. Minhas observações, então, caminham no sentido de tomar a proposta do texto de Carpinejar como ilustração de algo realmente significativo como objeto de crítica.

O mistério da força de atração amorosa admitiu, no início da civilização ocidental, na Grécia e em Roma, uma leitura através da ação de deuses, que, de forma análoga à da inspiração dos poetas, insufla no coração dos amantes um calor e uma chama arrebatadores, capazes de nos mover, interna e intimamente, a um outro ser de tal forma que o sentido de nossa atitude e sentimento permanece por demais opaco, e é exatamente esta opacidade que se traduz na transcendência divina. Trata-se do desejo de traduzir o incompreensível no desejo, transpondo para uma metafísica do afeto o quanto se mostram indizíveis a força e as formas com que nos deixamos arrastar por uma torrente de movimentos de alma, de corpo e de consciência. Que tal movimento produtivo admita sua elevação por assim dizer definitivamente sublime com a doutrina cristã, isso nos levaria para outros caminhos, que não podemos minimamente percorrer agora, mas, de qualquer forma, indica uma via possível de refratar as cores tempestuosas da paixão em um plano cristalino de universalidade transparente a si mesma.

Mais 2000 anos após esta experiência fundadora da tradução do amor pela influência de Eros e mais tarde do Cupido, a psicanálise forneceu uma outra espécie de transcendência, mas agora em sentido inverso, como algo que ultrapassa a percepção da experiência cotidiana pelo fato de ser, não mais transcendente, mas sim profundamente incrustado no subterrâneo de nosso próprio ser. A força mágica que antes se atribuiu aos seres sobrenaturais agora é concebida uma espécie de “magia branca” de nosso próprio inconsciente, com seus segredos tão inconfessos quanto indizíveis eram as potências divinas. Em vez da comunicação misteriosa com os poderes celestiais, temos agora a emanação de uma força atrativa, gravitacionalmente imperiosa, dominadora de nós mesmos, cujas razões humilham a nossa própria. Nesse sentido, é característico o uso da ideia de quebranto no texto que comentamos, pois se trata, realmente, de plasmar uma poética de um encantamento a partir das profundezas de nosso inconsciente, tão ou mais misterioso — e por isso mesmo sedutor — que o jogo de forças sobrenaturais.

Nuclear nesta poética da transcendência íntima dos afetos inconscientes é a força do símbolo. Tal como a etimologia desta palavra já indica, trata-se da conjunção (sýn-), da conexão de duas partes que se jogam (-bolo = bállein = lançar), que se movimentam em acordo recíproco, de tal forma que sua unificação desvela produzindo uma força tão enigmática quanto fascinante. Seu poder provém, dentre outros aspectos, do modo com que atualiza um significado ao fazer comunicar planos de realidade, em princípio, desligados, incomunicáveis ou simplesmente alheios um ao outro. É como se o símbolo tornasse possível o escoamento tenso e intenso de forças opacas, que somente são reconhecidas e vivenciadas como tais pelo modo com que sua gravitação recíproca enconta seu fulcro definitivo ao se acoplarem nesta unidade benfazeja que habita os subterrâneos de nosso ser.

Será a partir precisamente desse enlace poderoso que se verá a chama do amor nesta poética, que quer derivar o prolongamento vital do sentimento a partir de um evento originário. O exemplo de colar o brinco se associando, devido a uma magia íntima, a outra colagem, não por acaso situada na infância, produz uma outra, entre dois seres, que desdobram esta conjunção mágica como em uma fileira infinita de espelhos, reproduzindo esta linha inercial de conexões simbolicamente viçosas.

Nesta “pintura”, neste quadro poético de um sopro enigmático inicial, cabe menos perguntar por aquilo que conserva esta chama enigmática acesa, mas sim explicitar, ao contrário, que “pouco adianta” lutar contra sua força ou querer entender sua ação, que impele à atratividade com o outro. A pergunta pela manutenção deste calor inicial seria, naturalmente, índice de uma racionalização anti-poética, que poderia até fazer perder a graça daquilo que, outrora, foi vivido como uma graça divina.

De meu ponto de vista, embora tal perspectiva tenha todo o seu valor no âmbito da autonomia do poético, não deve ser confundida com uma outra possibilidade de construção, igualmente capaz de poeticidade, de nossa ideia de amor, baseada propriamente na ideia de construção. A partir da mesma psicanálise que nutre este romantismo do ímpeto misterioso, podemos dizer de uma dilaceração demoníaca, cindida, contraditória, da sexualidade nos seus extratos mais arcaicos e por isso mesmo profundos. Este aprofundamento contém, na verdade, tanta atração quanto repulsa, traduzindo-se no fato de o desejo ser inapelavelmente acompanhado pelo não desejo, pelas orquestrações contraditórias do eu e de seu universo narcisista, capaz de fazer orbitar ao seu redor forças defensivas tão ou mais fortes do que aquelas que atraem para o núcleo sanguíneo da paixão. — Se assim é, e tudo isso necessitaria de vários outros textos para seu delineamento minimamente satisfatório, então a perseverança do amor, sua continuidade e mesmo seu reforço ao longo do tempo não seriam mais traduzidos por uma inércia causada por um evento primordial, como também não pela tentativa de renovação ou cuidado de proteção de uma chama como se dentro de uma lamparina, mas, bastante ao contrário, pelo modo com que cotidianamente as contradições intra- e inter-subjetivas se articulem de forma criativa, inusitada, insuspeita, ácida, instigante — e uma série de outros aspectos que, eles sim, pontuam a passagem do tempo na cumplicidade mútua de alimentar um sentimento através das diferenças e identidades de dois mundos inapelavelmente contraditórios.

Se você gostou dessa postagem, 
compartilhe em seu mural no Facebook.

Compartilhar

Nenhum comentário: