Hoje
quero comentar um pequeno texto de Fabrício Carpinejar, “O que nos faz decidir
a ficar com alguém”, publicado no jornal Zero Hora, em 15/01/2013. Clique na
imagem abaixo para ler a coluna tal como publicada originalmente.
Ao se
fazer uma leitura crítica deste texto, é necessário reconhecer desde já sua
limitação como uma pequena coluna de jornal, sem nenhuma pretensão mais
significativa, tanto em termos poéticos, quanto de visão, por assim dizer,
objetiva sobre o amor. Considerando já sua pequena extensão, não se pode “carregar”
demais uma crítica com exigências desproporcionais. Apesar dessas ressalvas,
creio que a proposta delineie com suficiente clareza uma poética do amor
romântico que, esta sim, é bastante difundida e encontra ressonância numa
grande parte da literatura mundial e também numa
mentalidade compartilhada por milhões de pessoas. Minhas observações, então,
caminham no sentido de tomar a proposta do texto de Carpinejar como ilustração
de algo realmente significativo como objeto de crítica.
O
mistério da força de atração amorosa admitiu, no início da civilização
ocidental, na Grécia e em Roma, uma leitura através da ação de deuses, que, de
forma análoga à da inspiração dos poetas, insufla no coração dos amantes um
calor e uma chama arrebatadores, capazes de nos mover, interna e intimamente, a
um outro ser de tal forma que o sentido de nossa atitude e sentimento permanece
por demais opaco, e é exatamente esta opacidade que se traduz na transcendência
divina. Trata-se do desejo de traduzir o incompreensível no desejo,
transpondo para uma metafísica do afeto o quanto se mostram indizíveis a força
e as formas com que nos deixamos arrastar por uma torrente de movimentos de
alma, de corpo e de consciência. Que tal movimento produtivo admita sua
elevação por assim dizer definitivamente sublime com a doutrina cristã, isso
nos levaria para outros caminhos, que não podemos minimamente percorrer agora,
mas, de qualquer forma, indica uma via possível de refratar as cores
tempestuosas da paixão em um plano cristalino de universalidade transparente a si
mesma.
Mais
2000 anos após esta experiência fundadora da tradução do amor pela influência
de Eros e mais tarde do Cupido, a psicanálise forneceu uma outra espécie de
transcendência, mas agora em sentido inverso, como algo que ultrapassa a
percepção da experiência cotidiana pelo fato de ser, não mais transcendente,
mas sim profundamente incrustado no subterrâneo de nosso próprio ser. A força
mágica que antes se atribuiu aos seres sobrenaturais agora é concebida uma
espécie de “magia branca” de nosso próprio inconsciente, com seus segredos tão inconfessos
quanto indizíveis eram as potências divinas. Em vez da comunicação
misteriosa com os poderes celestiais, temos agora a emanação de uma força
atrativa, gravitacionalmente imperiosa, dominadora de nós mesmos, cujas razões
humilham a nossa própria. Nesse sentido, é característico o uso da ideia de quebranto
no texto que comentamos, pois se trata, realmente, de plasmar uma poética
de um encantamento a partir das profundezas de nosso inconsciente, tão ou mais
misterioso — e por isso mesmo sedutor — que o jogo de forças sobrenaturais.
Nuclear
nesta poética da transcendência íntima dos afetos inconscientes é a força do
símbolo. Tal como a etimologia desta palavra já indica, trata-se da conjunção
(sýn-), da conexão de duas partes que se jogam (-bolo = bállein = lançar), que
se movimentam em acordo recíproco, de tal forma que sua unificação desvela
produzindo uma força tão enigmática quanto fascinante. Seu poder provém,
dentre outros aspectos, do modo com que atualiza um significado ao fazer
comunicar planos de realidade, em princípio, desligados, incomunicáveis ou
simplesmente alheios um ao outro. É como se o símbolo tornasse possível o
escoamento tenso e intenso de forças opacas, que somente são reconhecidas e
vivenciadas como tais pelo modo com que sua gravitação recíproca enconta seu
fulcro definitivo ao se acoplarem nesta unidade benfazeja que habita os
subterrâneos de nosso ser.
Será a
partir precisamente desse enlace poderoso que se verá a chama do amor nesta poética,
que quer derivar o prolongamento vital do sentimento a partir de um evento
originário. O exemplo de colar o brinco se associando, devido a uma magia
íntima, a outra colagem, não por acaso situada na infância, produz uma outra,
entre dois seres, que desdobram esta conjunção mágica como em uma fileira
infinita de espelhos, reproduzindo esta linha inercial de conexões
simbolicamente viçosas.
Nesta “pintura”,
neste quadro poético de um sopro enigmático inicial, cabe menos perguntar por
aquilo que conserva esta chama enigmática acesa, mas sim explicitar, ao
contrário, que “pouco adianta” lutar contra sua força ou querer entender sua
ação, que impele à atratividade com o outro. A pergunta pela manutenção deste
calor inicial seria, naturalmente, índice de uma racionalização anti-poética,
que poderia até fazer perder a graça daquilo que, outrora, foi vivido como uma
graça divina.
De meu ponto de vista, embora tal perspectiva tenha todo
o seu valor no âmbito da autonomia do poético, não deve ser confundida
com uma outra possibilidade de construção, igualmente capaz de poeticidade, de
nossa ideia de amor, baseada propriamente na ideia de construção. A partir da
mesma psicanálise que nutre este romantismo do ímpeto misterioso, podemos dizer
de uma dilaceração demoníaca, cindida, contraditória, da sexualidade nos seus
extratos mais arcaicos e por isso mesmo profundos. Este aprofundamento contém,
na verdade, tanta atração quanto repulsa, traduzindo-se no fato de o desejo ser
inapelavelmente acompanhado pelo não desejo, pelas orquestrações
contraditórias do eu e de seu universo narcisista, capaz de fazer orbitar ao
seu redor forças defensivas tão ou mais fortes do que aquelas que atraem para o
núcleo sanguíneo da paixão. — Se assim é, e tudo isso necessitaria de vários
outros textos para seu delineamento minimamente satisfatório, então a perseverança
do amor, sua continuidade e mesmo seu reforço ao longo do tempo não seriam mais
traduzidos por uma inércia causada por um evento primordial, como também não
pela tentativa de renovação ou cuidado de proteção de uma chama como se dentro
de uma lamparina, mas, bastante ao contrário, pelo modo com que cotidianamente
as contradições intra- e inter-subjetivas se articulem de forma criativa,
inusitada, insuspeita, ácida, instigante — e uma série de outros aspectos que,
eles sim, pontuam a passagem do tempo na cumplicidade mútua de alimentar um
sentimento através das diferenças e identidades de dois mundos inapelavelmente
contraditórios.
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