O
debate sobre o caráter científico das ciências humanas sempre foi dificultado
pelo fato de tal conceito ter-se originado no âmbito dos conhecimentos ligados
à natureza, como na física, na biologia e na química. Toda vez que se coloca a
questão sobre a cientificidade de uma teoria como a psicanálise ou mesmo de um
saber mais estabelecido, como a sociologia, a discussão se mostra em larga
medida viciada pela concepção das ciências experimentais e matemáticas.
Por
outro lado, nem toda comparação dos procedimentos de ambas as esferas é ocioso,
uma vez que há vários pontos de contato entre elas, e não apenas disparidades.
Tanto o princípio geral de que toda teoria deve se basear em conceitos que
ultrapassam a mera descrição factual, quanto também a necessidade de uma
sistematização das hipóteses e das conclusões obtidas no enfrentamento com o
material empírico, mostram uma proximidade entre os dois tipos de ciência que
convida ao estabelecimento de relações analógicas que podem ser úteis para
ambos os lados.
Uma
pesquisa empírica de biologia, por exemplo, consistindo no levantamento de uma
hipótese a ser verificada em um material de teste, pode ser perfeitamente
considerada bastante valiosa, mesmo que sua ideia inicial se mostre
equivocada. Se se investiga uma suposta associação entre raios ultravioletas
e a propagação de um determinado vírus, pode-se concluir que tal vínculo não
existe em diversas circunstâncias em que se esperava sua ocorrência. Mesmo que
tal resultado signifique o abandono de uma determinada linha de trabalho
baseada no uso de tais raios luminosos para o combate a algumas viroses,
trata-se de uma conquista do conhecimento, na medida em que trabalhos científicos
posteriores já podem tomar tal resultado como indicando um esforço de pesquisa
que não precisa ser despendido.
Parece-me
representativo, não apenas do aspecto operacional da ciências humanas, mas
também de seu “espírito”, de sua mentalidade, que o aproveitamento de
resultados negativos da pesquisa seja muito pouco presente. Uma vez que tais
saberes, usando-se a clássica distinção de Dilthey, dedicam-se bem mais a interpretar
do que propriamente explicar seu objeto, as hipóteses de trabalho
parecem inapelavelmente ligadas a algum projeto construtivo, propositivo, de
acréscimo de possibilidades de leitura sobre a realidade. Isso não me parece
necessariamente um vício, desde que não inclua uma excessiva rigidez da
predisposição de apenas produzir um aperfeiçoamento do conhecimento teórico
sobre a realidade, deixando de lado ou em segundo plano um trabalho
propriamente negativo, de crítica de um conhecimento já estabelecido, de
práticas já sedimentadas etc.
Permitam-me
usar minha produção acadêmica mais recente como exemplo do que quero
argumentar. Já há algum tempo, minha pesquisa tem consistido
fundamentalmente em mostrar discordâncias em relação aos princípios mais
fundamentais da filosofia de Theodor Adorno, que foi meu objeto de estudo durante
vários anos. Tendo assimilado e aceito deste autor diversas perspectivas, temas
e conceitos, comecei a considerá-los inadequados à luz de outros estudos de
teoria psicanalítica, passando então a produzir artigos e fazer apresentações
em congressos que ressaltam tal posicionamento crítico. (Um desses trabalhos
pode ser acessado neste link, em que faço um apanhado geral de meu projeto de
pesquisa sobre a presença da psicanálise no livro Dialética do
esclarecimento, escrito em conjunto por Adorno e Horkheimer) Foi com alguma surpresa, mas nem tanta assim, que ouvi de algumas pessoas observações com
certo teor de ironia — sem que isso signifique qualquer forma de agressividade —,
no sentido de que minha pesquisa consiste em criticar Adorno, em ser contra
ele. Independente de tais trabalhos apresentarem ou não uma linha teórica
propositiva mais específica a partir do viés psicanalítico lhe serve de base,
eu diria, de um ponto de vista geral, que qualquer pesquisa de filosofia e
ciências humanas deve ser tomada como válida, proveitosa e enriquecedora, mesmo
que seu resultado seja essencialmente negativo, no sentido de colocação em
dúvida, de quebra de paradigmas estabelecidos etc., desde que, obviamente, seja
bem realizada, baseando-se em argumentos sólidos, apresente coerência e uma
série de outras características típicas de um saber sistematizado.
Que se
tenha predileção somente por pesquisas propositivas, digo mais uma vez, não me
parece um mal em si mesmo, mas me parece índice de uma pré-concepção, de um
preconceito que, como quase todos eles, tende a gerar frutos indesejáveis. Vejo
como um certo “mal-estar” da pesquisa em filosofia e ciências humanas a
tendência de um estudioso da obra de um autor clássico apresentar tal teoria
sem se dedicar a não apenas mostrar, mas também realçar e tirar consequências
de suas lacunas, suas tensões, suas impropriedades etc. Em vários momentos
pode-se ver que um determinado aspecto negativo é até referido, mas justificado
com base no contexto histórico, limitação do conhecimento de sua época etc.
Se alguém, por exemplo, estuda a obra de Heidegger, pode perfeitamente
demorar-se décadas em uma pesquisa sempre ignorando, deixando de lado e
desconsiderando a relação daquele pensador com o nazismo, como se já se “soubesse”,
de antemão, que esse engajamento político não tem nada a ver com suas teorias
sobre o ser. Um plantonista pode também, ao estudar o livro A república,
absorver totalmente a crítica às artes como integrando o projeto platônico de
uma cidade ideal, sem questionar em nenhum momento o quanto se trata — ou não —
de uma atitude equivocada, regressiva, perante a arte.
Diante
de abstrações tão evidentes de aspectos francamente criticáveis, ou que pelo
menos demandam um enfrentamento crítico aprofundado e sério, parece realmente
claro que a atitude de focar apenas a dimensão positiva do objeto de estudo
estabelece uma regra seguida tacitamente em uma esmagadora maioria das vezes.
Se mesmo aquilo que salta aos olhos como um absurdo, falso, politicamente
regressivo, é retirado do campo de visão, logo se pode fazer uma espécie de “regra
de 3” e se perguntar: e aquilo que é sutil, difícil de ser percebido como um
equívoco, podendo ser colocado em dúvida, mas não simplesmente rejeitado? Não
tenho dúvida que todos esses elementos são tragados por essa
pré-disposição de considerar a validade da pesquisa como dada essencialmente
pelo modo como ela produz resultados positivos, construtivos.
Se, na
velha querela da comparação entre ciências exatas e humanas, as primeiras
parecem aos olhos das últimas como excessivamente “duras”, por demais fixadas
em paradigmas de assimilação do real a fórmulas matemáticas, as ciências
humanas, pelo visto, também sofrem de um tipo de rigidez, só que disfarçada sob
a capa de uma atitude progressista.
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