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sexta-feira, 4 de janeiro de 2013

Progresso enrijecido

O debate sobre o caráter científico das ciências humanas sempre foi dificultado pelo fato de tal conceito ter-se originado no âmbito dos conhecimentos ligados à natureza, como na física, na biologia e na química. Toda vez que se coloca a questão sobre a cientificidade de uma teoria como a psicanálise ou mesmo de um saber mais estabelecido, como a sociologia, a discussão se mostra em larga medida viciada pela concepção das ciências experimentais e matemáticas.

Por outro lado, nem toda comparação dos procedimentos de ambas as esferas é ocioso, uma vez que há vários pontos de contato entre elas, e não apenas disparidades. Tanto o princípio geral de que toda teoria deve se basear em conceitos que ultrapassam a mera descrição factual, quanto também a necessidade de uma sistematização das hipóteses e das conclusões obtidas no enfrentamento com o material empírico, mostram uma proximidade entre os dois tipos de ciência que convida ao estabelecimento de relações analógicas que podem ser úteis para ambos os lados.

Uma pesquisa empírica de biologia, por exemplo, consistindo no levantamento de uma hipótese a ser verificada em um material de teste, pode ser perfeitamente considerada bastante valiosa, mesmo que sua ideia inicial se mostre equivocada. Se se investiga uma suposta associação entre raios ultravioletas e a propagação de um determinado vírus, pode-se concluir que tal vínculo não existe em diversas circunstâncias em que se esperava sua ocorrência. Mesmo que tal resultado signifique o abandono de uma determinada linha de trabalho baseada no uso de tais raios luminosos para o combate a algumas viroses, trata-se de uma conquista do conhecimento, na medida em que trabalhos científicos posteriores já podem tomar tal resultado como indicando um esforço de pesquisa que não precisa ser despendido.

Parece-me representativo, não apenas do aspecto operacional da ciências humanas, mas também de seu “espírito”, de sua mentalidade, que o aproveitamento de resultados negativos da pesquisa seja muito pouco presente. Uma vez que tais saberes, usando-se a clássica distinção de Dilthey, dedicam-se bem mais a interpretar do que propriamente explicar seu objeto, as hipóteses de trabalho parecem inapelavelmente ligadas a algum projeto construtivo, propositivo, de acréscimo de possibilidades de leitura sobre a realidade. Isso não me parece necessariamente um vício, desde que não inclua uma excessiva rigidez da predisposição de apenas produzir um aperfeiçoamento do conhecimento teórico sobre a realidade, deixando de lado ou em segundo plano um trabalho propriamente negativo, de crítica de um conhecimento já estabelecido, de práticas já sedimentadas etc.

Permitam-me usar minha produção acadêmica mais recente como exemplo do que quero argumentar. Já há algum tempo, minha pesquisa tem consistido fundamentalmente em mostrar discordâncias em relação aos princípios mais fundamentais da filosofia de Theodor Adorno, que foi meu objeto de estudo durante vários anos. Tendo assimilado e aceito deste autor diversas perspectivas, temas e conceitos, comecei a considerá-los inadequados à luz de outros estudos de teoria psicanalítica, passando então a produzir artigos e fazer apresentações em congressos que ressaltam tal posicionamento crítico. (Um desses trabalhos pode ser acessado neste link, em que faço um apanhado geral de meu projeto de pesquisa sobre a presença da psicanálise no livro Dialética do esclarecimento, escrito em conjunto por Adorno e Horkheimer) Foi com alguma surpresa, mas nem tanta assim, que ouvi de algumas pessoas observações com certo teor de ironia — sem que isso signifique qualquer forma de agressividade —, no sentido de que minha pesquisa consiste em criticar Adorno, em ser contra ele. Independente de tais trabalhos apresentarem ou não uma linha teórica propositiva mais específica a partir do viés psicanalítico lhe serve de base, eu diria, de um ponto de vista geral, que qualquer pesquisa de filosofia e ciências humanas deve ser tomada como válida, proveitosa e enriquecedora, mesmo que seu resultado seja essencialmente negativo, no sentido de colocação em dúvida, de quebra de paradigmas estabelecidos etc., desde que, obviamente, seja bem realizada, baseando-se em argumentos sólidos, apresente coerência e uma série de outras características típicas de um saber sistematizado.

Que se tenha predileção somente por pesquisas propositivas, digo mais uma vez, não me parece um mal em si mesmo, mas me parece índice de uma pré-concepção, de um preconceito que, como quase todos eles, tende a gerar frutos indesejáveis. Vejo como um certo “mal-estar” da pesquisa em filosofia e ciências humanas a tendência de um estudioso da obra de um autor clássico apresentar tal teoria sem se dedicar a não apenas mostrar, mas também realçar e tirar consequências de suas lacunas, suas tensões, suas impropriedades etc. Em vários momentos pode-se ver que um determinado aspecto negativo é até referido, mas justificado com base no contexto histórico, limitação do conhecimento de sua época etc. Se alguém, por exemplo, estuda a obra de Heidegger, pode perfeitamente demorar-se décadas em uma pesquisa sempre ignorando, deixando de lado e desconsiderando a relação daquele pensador com o nazismo, como se já se “soubesse”, de antemão, que esse engajamento político não tem nada a ver com suas teorias sobre o ser. Um plantonista pode também, ao estudar o livro A república, absorver totalmente a crítica às artes como integrando o projeto platônico de uma cidade ideal, sem questionar em nenhum momento o quanto se trata — ou não — de uma atitude equivocada, regressiva, perante a arte.

Diante de abstrações tão evidentes de aspectos francamente criticáveis, ou que pelo menos demandam um enfrentamento crítico aprofundado e sério, parece realmente claro que a atitude de focar apenas a dimensão positiva do objeto de estudo estabelece uma regra seguida tacitamente em uma esmagadora maioria das vezes. Se mesmo aquilo que salta aos olhos como um absurdo, falso, politicamente regressivo, é retirado do campo de visão, logo se pode fazer uma espécie de “regra de 3” e se perguntar: e aquilo que é sutil, difícil de ser percebido como um equívoco, podendo ser colocado em dúvida, mas não simplesmente rejeitado? Não tenho dúvida que todos esses elementos são tragados por essa pré-disposição de considerar a validade da pesquisa como dada essencialmente pelo modo como ela produz resultados positivos, construtivos.

Se, na velha querela da comparação entre ciências exatas e humanas, as primeiras parecem aos olhos das últimas como excessivamente “duras”, por demais fixadas em paradigmas de assimilação do real a fórmulas matemáticas, as ciências humanas, pelo visto, também sofrem de um tipo de rigidez, só que disfarçada sob a capa de uma atitude progressista.

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