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sexta-feira, 8 de março de 2013

Doutrina versus análise


Hoje quero comentar um vídeo de uma palestra bastante bem-humorada do filósofo Mário Sérgio Cortella. Clique no link abaixo para assistir.




A intenção desse discurso é claramente louvável, pois procura combater a presunção, a arrogância, a altivez e o menosprezo em relação a outrem através da conscientização do quanto somos igualmente pequenos diante do universo que habitamos. Trata-se de argumentar com quem se coloca superior aos outros através da ideia de que qualquer diferença que se pense ter, seja por condição profissional, financeira, social ou de parentesco, como também cada ser humano, torna-se tendencialmente ridícula, desprezível, quando nos comparamos com a magnitude do universo. É evidente que o princípio argumentativo é muito mais da ordem da persuasão, enfocando o impacto emocional das ideias e imagens evocadas, do que da ordem do verdadeiro e falso, ou seja, por uma abordagem cognitiva. Tem-se em vista mais uma conscientização moral, de foro íntimo, do que propriamente uma adesão a um argumento válido objetivamente, uma vez que se deixa totalmente a cargo dos ouvintes a tradução da desproporcionalidade do ser humano em relação ao universo para uma concepção vivencial de que, afinal de contas, a diferença entre mim e os outros que apoia minha suposta superioridade é mesquinha, insignificante.

Antes de falar sobre os aspectos críticos, é necessário reconhecer que se trata não apenas de uma parte de uma palestra, quanto também de uma argumentação que deveria ser lida juntamente com outras do mesmo autor, na medida em que se queira fazer justiça à sua concepção de mundo de forma mais abrangente. Meu objetivo, entretanto, é contrapor-me mais especificamente a este argumento da relação entre o infinito ou o incomensuravelmente grande e nossa condição de seres humanos finitos e pequenos. Este princípio comparativo aparece em outros tipos de discurso, como o ecológico e o religioso, e este último parece ser caso da palestra.

É inegável a raiz cristã desse tipo de concepção de mundo. Em vez, porém, de se pensar Deus em sua onipotência e onipresença, fala-se do cosmos infinito. Tem-se uma secularização do vínculo entre o ser humano, pecador, falho e mortal, e um Deus eterno e perfeito, passando-se a uma relação de incomensurabilidade de um ser de um pequeno planeta diante de bilhões de galáxias em meio a infinitos universo possíveis. Nessa transmutação, conserva-se a desejada percepção de si não apenas como pequeno, mas como igualmente pequeno como as demais criaturas.

O sentido mais geral do discurso apresentado no vídeo é o de apresentar um ponto de vista doutrinário, a ser aceito em virtude de sua beleza, de seu apelo estético, em íntima relação com a beleza de nossos próprios sentimentos quando nos dispomos a entrar em sintonia com as correlações metafóricas do discurso. No mesmo passo em que se rebaixa a importância do que fundamenta a postura arrogante, abre-se a via para um engrandecimento de si mesmo, fornecido pela possibilidade de nos situarmos como conhecedores não apenas de um infinito, mas de um “verdadeiro” posicionamento perante ele. Noutras palavras, assumir nossa insignificância no plano cognitivo, material, de nossa dimensão empírica, é o caminho ofertado para um engrandecimento moral, relativo ao juízo que fazemos sobre nós mesmos, mas agora mediado pela assunção de nosso lugar no universo.

O valor ético-social de atitudes e comportamentos fundados pela assimilação desse ponto de vista doutrinário é significativo, uma vez que pode induzir a certa orquestração societária relativamente harmônica. Entretanto, apesar da boa intenção e também de não ser propriamente “falsa”, essa argumentação é propriamente enganosa. A comparação com o infinito não apenas trabalha para diminuir a importância da diferença que serve de apoio para a arrogância, pois opera também no sentido de retirar de cena a magnitude e a qualidade próprias de nossos sentimentos perante essas mesmas diferenças. O descompasso entre nossa dimensão humana e a do infinito desvia nosso olhar, da importância da medida de nossos sentimentos, que é sempre relativa, para uma outra, absoluta, de tal forma que a primeira deixa de ser questionada em sua mobilidade própria, cedendo lugar a um critério de valor extrínseco às suas próprias formas de auto-reflexão.

A partir da perspectiva que advogo, este paradigma doutrinário de um reflexo moral em si de algo da grandeza do infinito deve ser invertido. O esforço maior deve caminhar na direção de um aprofundamento no abismo de nossas motivações inconfessas nas relações de poder e de subjugação na relação com os outros. Em vez do “achatamento” das diferenças interpessoais em favor de uma concepção sublime, trata-se de ampliar essas mesmas diferenças sob o prisma do quanto elas são desejadas por serem estimulantes, provocarem tipos e formas de prazer muito pouco discerníveis através de lentes morais socialmente incrustadas em nós. Em lugar da assunção doutrinária do quão pequenos nós somos, tem-se a pergunta de análise crítica: por que queremos gozar desta forma através da vivência conflitiva de tais diferenças? A resposta, então, caminha mais uma vez no sentido inverso à do ponto de vista que criticamos, agora também pelo fato de o resultado ser uma singularização de nossas motivações para a arrogância. Isso se dá porque aquele ponto de vista doutrinário tende a dissolver as diferenças sob a égide de um princípio universal. Diferentemente, cabe insistir no peso que nossos desejos e motivações individuais têm para nossas atitudes. Uma mesma postura de arrogância, presunção e altivez tem fundamentos afetivos muito distintos para os indivíduos.

Por fim, há um outro lado da questão que transparece de forma enfática na perspectiva que defendo, mas permanece oculto na fala de Cortella: a atitude simétrica à do arrogante, ou seja, a subserviência, a anulação de si, a abdicação de seus próprios direitos perante o outro. Tal como a psicanálise insiste em observar, os posicionamentos contrários, como do sadismo e masoquismo, estão intimamente relacionados, devendo ser esclarecidos a partir de princípios de mobilidade de nossos desejos que realcem seu co-pertencimento, e não sua separação excludente. A partir dessa perspectiva, a arrogância não é, por assim dizer, “tão apressadamente” tratada como um mal que deva ceder lugar a uma atitude ética mais elevada, mas sim uma forma de exprimir um complexo afetivo múltiplo, diversificado e também contraditório, no sentido de ter sua razão de ser na trama psíquica individual pelo modo com que satisfaz as tensões inerentes ao jogo de força e poder entre os seres humanos.

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Um comentário:

Lorena Noronha disse...

Interessante seu ponto de vista prof. Verlaine. Sempre que vejo discussões assim lembro-me de Foucault quando ele diz que o poder não é um objeto que um alguém possui. Poder é um status que é concedido ao sujeito. Só é "poderoso" aquele que os seus semelhantes o consideram assim. O filme Manderley (conhece?) apresenta uma crítica muito interessante neste mesmo sentido, ou seja, aqueles que se subjugam muitas vezes participam de um pacto perverso onde não apenas o dominador goza, mas o dominado também. Claro que não acho que todas as pessoas que estão em situação de dominação o fazem para manter esse gozo perverso, mas sempre existe formas de se rebelar contra a opressão do dominante.