Hoje
quero comentar um vídeo de uma palestra bastante bem-humorada do filósofo Mário Sérgio Cortella. Clique no link abaixo para assistir.
A intenção
desse discurso é claramente louvável, pois procura combater a presunção, a
arrogância, a altivez e o menosprezo em relação a outrem através da
conscientização do quanto somos igualmente pequenos diante do universo que
habitamos. Trata-se de argumentar com quem se coloca superior aos outros
através da ideia de que qualquer diferença que se pense ter, seja por condição
profissional, financeira, social ou de parentesco, como também cada ser humano,
torna-se tendencialmente ridícula, desprezível, quando nos comparamos com a
magnitude do universo. É evidente que o princípio argumentativo é muito
mais da ordem da persuasão, enfocando o impacto emocional das
ideias e imagens evocadas, do que da ordem do verdadeiro e falso, ou seja, por
uma abordagem cognitiva. Tem-se em vista mais uma conscientização moral, de
foro íntimo, do que propriamente uma adesão a um argumento válido
objetivamente, uma vez que se deixa totalmente a cargo dos ouvintes a
tradução da desproporcionalidade do ser humano em relação ao universo para
uma concepção vivencial de que, afinal de contas, a diferença entre mim e
os outros que apoia minha suposta superioridade é mesquinha, insignificante.
Antes
de falar sobre os aspectos críticos, é necessário reconhecer que se trata não
apenas de uma parte de uma palestra, quanto também de uma argumentação que
deveria ser lida juntamente com outras do mesmo autor, na medida em que se
queira fazer justiça à sua concepção de mundo de forma mais abrangente. Meu
objetivo, entretanto, é contrapor-me mais especificamente a este argumento
da relação entre o infinito ou o incomensuravelmente grande e nossa condição de
seres humanos finitos e pequenos. Este princípio comparativo aparece em outros
tipos de discurso, como o ecológico e o religioso, e este último parece ser
caso da palestra.
É
inegável a raiz cristã desse tipo de concepção de mundo. Em vez, porém, de se
pensar Deus em sua onipotência e onipresença, fala-se do cosmos infinito.
Tem-se uma secularização do vínculo entre o ser humano, pecador, falho e
mortal, e um Deus eterno e perfeito, passando-se a uma relação de
incomensurabilidade de um ser de um pequeno planeta diante de bilhões de
galáxias em meio a infinitos universo possíveis. Nessa transmutação,
conserva-se a desejada percepção de si não apenas como pequeno, mas como igualmente
pequeno como as demais criaturas.
O
sentido mais geral do discurso apresentado no vídeo é o de apresentar um ponto
de vista doutrinário, a ser aceito em virtude de sua beleza, de
seu apelo estético, em íntima relação com a beleza de nossos próprios
sentimentos quando nos dispomos a entrar em sintonia com as correlações
metafóricas do discurso. No mesmo passo em que se rebaixa a importância do que
fundamenta a postura arrogante, abre-se a via para um engrandecimento de si
mesmo, fornecido pela possibilidade de nos situarmos como conhecedores não
apenas de um infinito, mas de um “verdadeiro” posicionamento perante ele.
Noutras palavras, assumir nossa insignificância no plano cognitivo, material,
de nossa dimensão empírica, é o caminho ofertado para um engrandecimento moral,
relativo ao juízo que fazemos sobre nós mesmos, mas agora mediado pela assunção
de nosso lugar no universo.
O valor
ético-social de atitudes e comportamentos fundados pela assimilação desse ponto
de vista doutrinário é significativo, uma vez que pode induzir a certa
orquestração societária relativamente harmônica. Entretanto, apesar da boa
intenção e também de não ser propriamente “falsa”, essa argumentação é
propriamente enganosa. A comparação com o infinito não apenas trabalha
para diminuir a importância da diferença que serve de apoio para a arrogância,
pois opera também no sentido de retirar de cena a magnitude e a qualidade
próprias de nossos sentimentos perante essas mesmas diferenças. O descompasso
entre nossa dimensão humana e a do infinito desvia nosso olhar, da importância
da medida de nossos sentimentos, que é sempre relativa, para uma outra,
absoluta, de tal forma que a primeira deixa de ser questionada em sua
mobilidade própria, cedendo lugar a um critério de valor extrínseco às
suas próprias formas de auto-reflexão.
A
partir da perspectiva que advogo, este paradigma doutrinário de um reflexo
moral em si de algo da grandeza do infinito deve ser invertido. O
esforço maior deve caminhar na direção de um aprofundamento no abismo de nossas
motivações inconfessas nas relações de poder e de subjugação na relação com os
outros. Em vez do “achatamento” das diferenças interpessoais em favor de uma
concepção sublime, trata-se de ampliar essas mesmas diferenças sob o
prisma do quanto elas são desejadas por serem estimulantes, provocarem tipos e formas
de prazer muito pouco discerníveis através de lentes morais socialmente
incrustadas em nós. Em lugar da assunção doutrinária do quão pequenos nós
somos, tem-se a pergunta de análise crítica: por que queremos gozar desta forma
através da vivência conflitiva de tais diferenças? A resposta, então, caminha
mais uma vez no sentido inverso à do ponto de vista que criticamos, agora
também pelo fato de o resultado ser uma singularização de nossas
motivações para a arrogância. Isso se dá porque aquele ponto de vista
doutrinário tende a dissolver as diferenças sob a égide de um princípio
universal. Diferentemente, cabe insistir no peso que nossos desejos e
motivações individuais têm para nossas atitudes. Uma mesma postura de
arrogância, presunção e altivez tem fundamentos afetivos muito distintos para
os indivíduos.
Por
fim, há um outro lado da questão que transparece de forma enfática na
perspectiva que defendo, mas permanece oculto na fala de Cortella: a atitude
simétrica à do arrogante, ou seja, a subserviência, a anulação de si, a
abdicação de seus próprios direitos perante o outro. Tal como a psicanálise
insiste em observar, os posicionamentos contrários, como do sadismo e
masoquismo, estão intimamente relacionados, devendo ser esclarecidos a partir
de princípios de mobilidade de nossos desejos que realcem seu co-pertencimento,
e não sua separação excludente. A partir dessa perspectiva, a arrogância não é,
por assim dizer, “tão apressadamente” tratada como um mal que deva ceder lugar
a uma atitude ética mais elevada, mas sim uma forma de exprimir um complexo
afetivo múltiplo, diversificado e também contraditório, no sentido de ter sua
razão de ser na trama psíquica individual pelo modo com que satisfaz as tensões
inerentes ao jogo de força e poder entre os seres humanos.
Se você
gostou dessa postagem,
compartilhe em seu mural no Facebook.
compartilhe em seu mural no Facebook.

Um comentário:
Interessante seu ponto de vista prof. Verlaine. Sempre que vejo discussões assim lembro-me de Foucault quando ele diz que o poder não é um objeto que um alguém possui. Poder é um status que é concedido ao sujeito. Só é "poderoso" aquele que os seus semelhantes o consideram assim. O filme Manderley (conhece?) apresenta uma crítica muito interessante neste mesmo sentido, ou seja, aqueles que se subjugam muitas vezes participam de um pacto perverso onde não apenas o dominador goza, mas o dominado também. Claro que não acho que todas as pessoas que estão em situação de dominação o fazem para manter esse gozo perverso, mas sempre existe formas de se rebelar contra a opressão do dominante.
Postar um comentário