O papa
Francisco deu demonstrações claras de uma postura diferente de seu antecessor,
ao recusar diversas atitudes de luxo e riqueza, pagando a própria conta no
hotel onde estava hospedado, não usando um manto colorido em sua primeira
aparição pública etc.; tudo isso seguindo seus hábitos quando ainda cardeal em
Buenos Aires, pois usava ônibus e levava uma vida bastante simples. A própria
escolha do nome, como muitos já comentaram, se deu em virtude da figura de São
Francisco de Assis, cuja vida dedicada à abnegação e à ajuda aos mais
necessitados é um dos grandes exemplos de santidade na igreja católica. Por
outro lado, em sua primeira homilia, ele disse: “se nós não professarmos Jesus
Cristo, nos converteremos em uma ONG piedosa, não em uma esposa do Senhor”. A
essa ideia se seguiu também a afirmativa de que “a igreja, embora sendo
certamente também uma instituição humana, histórica, com tudo o que isso
comporta, não tem uma natureza política, mas essencialmente espiritual”. Essa
suposta essência poderia dar margem a interpretações menos ou mais
transcendentes, sagradas, e uma outra de suas colocações nos indica um sentido
mais preciso: “quando não se professa a Jesus Cristo, professa-se o mundanismo
do diabo”. O final de sua fala também é esclarecedor: “Que todos nós, depois
desses dias de graça, tenhamos a coragem de caminhar na presença do Senhor, com
a cruz do Senhor, de edificar a igreja com o sangue que o Senhor derramou sobre
a cruz. Assim, a igreja poderá prosseguir” — É exatamente esta dualidade essencial,
a saber: da doutrina e do exemplo, por um lado, e da necessidade de relação com
a transcendência sagrada, por outro, que quero comentar hoje.
O
quanto as igrejas cristãs, e não apenas a católica, podem enfatizar apenas seu
aspecto doutrinal? Em outras palavras: podem elas se firmar e progredir com
base essencialmente em seu discurso de caridade, de ações humanitárias, de
busca pelo bem, de afirmação do amor como um princípio ético-moral
universalizante etc., sem, ao mesmo tempo, lastrear todas essas atitudes em um
princípio sagrado, transcendente, espiritual em sentido forte? A resposta é “não”,
não podem. A ideia de um caminho progressivo, ou seja, de avanço e
fortalecimento da instituição da igreja no mundo, tal como falado pelo papa,
sempre exigiu que todos os valores ético-morais tenham uma solidez e uma força
persuasiva garantida por algo que está além de todas as vicissitudes das
escolhas pessoais, a saber, a raiz ontológica, de essência última e
transcendente de toda a realidade que percebemos.
Mesmo
que valores morais e éticos nos apareçam como nobres e elevados, são sempre
sujeitos aos condicionamentos de nossas escolhas em cada caso. São sempre “presas”
dos contextos não apenas históricos em sentido social, mas também de cada
pessoa, de sua história particular. Por mais que digamos que a tolerância é um
valor a ser cultivado, podemos levantar a questão: deve-se tolerar também a
quém é claramente intolerante? — Todos os valores correm sempre o risco de
serem restringidos precisamente àqueles que os compartilham, tornando-se por
demais frágeis segundo a ótica evangelista própria a todas as igrejas cristãs,
ou seja, de conquista e manutenção de mais adeptos.
Bastante
diferente é o apelo vivencial da correlação com o que é sagrado, divino e transcendente.
A existência de Deus, sua encarnação como Cristo, a santidade de Maria, a
figura do Espírito Santo, tudo isto pode ser recusado, é verdade, mas não pode
ser relativizado, colocado no mesmo plano dos nossos cálculos
ético-morais, com suas ressalvas e restrições de validade. Todos esses aspectos
de transcendência religiosa possuem, por assim dizer, um poder de gravitação de
nossa percepção de mundo que faz com que se situem em um patamar existencial em
que impera a dualidade do sim e do não, sem a possibilidade de gradações
e nuances de nossa adesão. Isto fica muito claro na ideia citada de que ou se
está com Jesus Cristo ou com o mundanismo do diabo. Qual o espaço para uma vida
mundana rica, culturalmente elevada, ética, permeada de gozos e prazeres
saudáveis, mas... sem nenhuma relação com a existência de Deus, Jesus Cristo
etc.? Tomando de forma literal o que foi exposto pelo papa, este espaço ou não
existe, ou é ilusório.
É muito
claro que se tem aí algo maniqueísta, de uma relação entre alternativas
excludentes por demais drástica, em que o horizonte se abre para duas direções
tão polarmente distintas que os aspectos intermediárias ficam fora de nossa
visão. Isso, entretanto, é próprio de uma perspectiva religiosa que precisa
ancorar, sustentar, sua mensagem doutrinal nesta raiz ontológica, substancial,
de todas as coisas. Esta ancoragem se mostra claramente traduzida na ideia de
pecado original, em que cada ser humano é percebido como culpado antes mesmo de
nascer, devendo passar sua vida sob a égide do princípio da salvação, a qual
não é conseguida apenas com ações e obras, mas fundamentalmente pela relação
com a santidade de Cristo e a própria fé em Deus.
Importa
ressaltar que o vínculo entre os valores e a transcendência sagrada configura
muito mais do que a consideração de uma “ética natural”, pois a bondade, o
amor, a abnegação, a verdade etc. não devem ser cultivados apenas devido a uma
espécie de natureza intrinsecamente boa deles, mas sim por algo anterior até à
própria natureza, que tal forma que aquilo que criou a esta última, também já
determinou a esfera de valores ético-morais. Desse modo, aceitando-se a imagem
da transcendência religiosa, segue-se que não apenas os valores morais são sua
consequência, como também a própria natureza, a realidade materialmente
considerada. Inserindo não apenas cada indivíduo, mas todo o âmbito e seres
naturais, em uma ordem do universo regido por um ser que já contém em si os
princípios mais elevados de todas as ações, a igreja pretende uma solidez que,
de fato, não é sustentável, pelo menos ao longo dos séculos, se se situar no
âmbito de nossos valores mundanos, demasiadamente mundanos.
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