Em março de 2013 houve trotes estudantis na Faculdade de Direito da UFMG, que se diferenciaram dos usualmente praticados devido ao fato de não
apenas empregarem alguma espécie de violência e humilhação simbólicas, mas por
fazerem referências a atitudes e emblemas racistas e nazistas. As duas fotos
abaixo foram largamente divulgadas em jornais, blogs e compartilhadas em redes
sociais na internet. Em ambos os casos o que mais nos constrange não é
propriamente a situação de rebaixamento dos calouros, mas a afronta a valores
que consideramos extremamente significativos em nossa tarefa de construir uma
sociedade verdadeiramente democrática e favorecedora do sentimento de respeito
perante as diferenças. Confrontados com essa crítica, os autores obviamente
apelam para nosso “bom-senso” de que se trata tão-somente de uma brincadeira,
de algo lúdico, não devendo, portanto, ser criticada em seu valor de face, como
se fosse uma apologia literal ao racismo e à ideologia nazista. — Meu objetivo é analisar esses dois lados da questão: tanto a
percepção de afronta ao valores políticos relevantes quanto o argumento da
neutralidade moral do jogo, inserindo-os em uma perspectiva de antropologia
cultural.
O trote é um rito de passagem. Tal como praticado em diversas
culturas, esse tipo de ritualização envolve sempre alguma forma de exclusão,
violência, constrangimento, obrigação de realizar tarefas exóticas ou difíceis
etc. Em vários casos, como se lê em uma farta literatura referente aos ritos de
passagem, o derramamento de sangue é um componente essencial, visível, por
exemplo, no ritual de inserção dos adolescentes homens no universo dos
caçadores adultos, em que o sangue do primeiro animal caçado simboliza a morte
da criança e o nascimento do adulto; o fluxo menstrual é também significativo
para marcar esta mesma duplicidade entre morte e (re)nascimento para as
mulheres. Como dizem Adorno e Horkheimer, o sangue derramado deverá refluir
para a coletividade como seu reforço simbólico, agregando um poder à sua unidade
oriundo da negação da vida.
Salta aos olhos a correlação violenta, ambígua e
contraditória entre pares de opostos, como vida e morte, elevação e
rebaixamento, dignidade e humilhação, todos girando ao redor da percepção
concreta e dramática do embate conflituoso e complementar entre indivíduo e
coletividade. Nesse sentido, os rituais de passagem que são também claramente
de iniciação, de acolhimento em âmbito esotérico, de iniciados que compartilham
segredos e conhecimentos tão profundos quanto perigosos, explicitam sua
característica de purificação de uma estado anterior, tomado como impuro,
precário, grosseiro, contagioso etc. Trata-se de uma forma de excisão, de corte
e poda, que agrega facilmente o sentido de um preço (normalmente doloroso, seja
físico ou moral) para o ingresso em âmbito mais elevado, puro e digno.
Esse delineamento, entretanto, não deve ser moralista, que
condene todo o conjunto de ações como de sadismo de um corpo coletivo sobre uma
individualidade fraca e impotente. É necessário conectar este aspecto, que
indubitavelmente existe, ao caráter profundamente ambíguo de identificação e
sua recusa entre quem pratica e quem sofre o ritual. Considerando a força com
que a unidade e identidade coletivas são vivenciadas intimamente por todos, é
impossível negar o significado e o papel das identificações recíprocas na
violência praticada. É e não é o mesmo corpo que impõe e que
sente o sofrimento, pois o sangue derramado não se distingue qualitativamente
daquele que nutre o corpo coletivo. A submissão de ambos os papéis na lógica do
ritual de passagem como de uma necessidade ancestral, arcaica, impede-nos de
focalizar apenas a dimensão sádica, negligenciando sua contraparte, o
masoquismo, que se dilui sob a égide este fluxo imperioso da manutenção de uma
ordem cósmico-coletiva.
Naturalmente, não se pretende “migrar” todos esses
aspectos dos rituais de sociedades tribais para os trotes universitários, mas
mas eles fornecem elementos nucleares para uma leitura crítica. O fato de que
vivemos em uma sociedade constituída por um processo de racionalização
dialógica, mediada por processos de legitimação discursiva, não implica que
estejamos totalmente além das vicissitudes de um complexo imaginário ao redor
do qual gravita uma carga de afetos explosiva, contraditória e nutrida por ambiguidades
viscerais. O trote configura, ao seu modo, um ritual de passagem e de
iniciação, em que o prazer de penetrar em um corpo coletivo, sentindo-se como
um corpo estranho a se imiscuir em uma identidade macro, se conecta ao senso de
injustiça a ser salva por algum ato de expiação. O direito de sangue adquirido
após iniciação, em que já se comunga com os outros a estabilidade do
pertencimento à instituição, confere o mesmo poder de cobrar dos próximos
iniciantes o preço que foi pago por si mesmo antes. É evidente que essa
circularidade viciosa pode ser rompida e negada a qualquer instante, mas é
afirmada pela mesma lógica de restauração de uma cena em que a polaridade de
papéis deve ser sempre de novo encenada, pois todo gozo sempre viverá da
irresolução das contradições que o fundamentam em seu substrato mais profundo.
De forma análoga a como as vicissitudes da ambiguidade
afetiva nas sociedades tribais eram desde sempre resolvidas pelo modo com que
imergem em uma lógica ancestral e cósmica de construção da unidade coletiva, em
nosso espaço racionalizado contemporâneo essa resolução é feita sob a égide da
consciência (esclarecida) da neutralidade moral do que é reconhecido como
lúdico. Negligenciar a distinção qualitativa entre o literal e a ficcionalidade
lúdica seria índice de uma postura hiper-madura, que em seu excesso senil se
mostraria infantilizada, cobrando um compromisso ético-político em um âmbito
alheio a esse tipo de crítica. Reconhecer essa especificidade da ficção do jogo
demandaria certa maturidade, que o excesso de seriedade não conteria.
Ocorre que a não-literalidade do que é encenado nesses jogos
ritualísticos de passagem são o passaporte empregado pela vivência
literal de fantasias sadomasoquistas. O fato de que se reserva, em tese, sempre
a opção de o calouro não participar dos trotes, ou seja, de que nada é
totalmente forçado, não decide a favor do argumento da neutralidade lúdica do
trote, em virtude do fato de que esse posicionamento masoquista é parte
constituinte esta mesma realidade cíclica, que se reforça periodicamente pela
ambiguidade e contradição dos afetos envolvidos. Não se pode negligenciar a
realidade concreta da troca dessas afetividades, que se realizam precisamente
pelo modo com que transgridem o espaço de formalidade do âmbito universitário.
Pelo fato de se nutrirem tanto desse vínculo com a instituição quanto do
aspecto concreto das cargas afetivas postas em jogo no ritual, a licença lúdica
pretendida se mostra, a um só tempo, desavergonhada perante os afetos e cínica
perante o descompromisso para com a imagem pública da universidade.
Esse trote racista e nazista quer usufruir de um sabor “a
mais” pelo modo com que afronta a “sublimidade” de nossa recusa dessas
realidades históricas como abomináveis. Seus autores querem nos incluir nesse
cerimonial de transgressividade sadomasoquista dos valores, não se contentando
com a restrição ao corpo e à dignidade pessoal dos calouros. Estes passaram a
configurar apenas um exemplar do que deverá ser colocado como ingrediente desta
aventura de profanação de um corpo coletivo macro (a sociedade) a serviço da
dinâmica de um corpo coletivo micro (a universidade). Podemos dizer que os
organizadores desse ritual quiseram traficar símbolos políticos de intolerância
apelando a um relaxamento de nossa alfândega moral. A embalagem dessa
mercadoria veio carimbada com o selo “lúdico”, que supostamente a isenta das
responsabilidades do caráter tóxico de seu conteúdo. Trata-se de um pedido de
passagem para uma licenciosidade pornográfica, que quer nos incluir como
voyeristas, “esclarecidos” pelo senso de distanciamento ficcional/lúdico. A
grande questão é que podemos -- e devemos -- recusar esse posicionamento
contemplativo, denunciando o cinismo ideológico envolvido nesta pretensão
desavergonhada de fazer crer que nossos valores coletivos possam ser usados como
bonecos de Judas na celebração estetizada de rituais de passagem
sadomasoquistas.
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