Um espaço de discussão sobre Filosofia, Psicanálise, Arte, Política, Crítica cultural e Atualidades.

sexta-feira, 24 de maio de 2013

Impasse ideológico


Diante do sucesso incontestável das políticas de distribuição de renda no Brasil atualmente, que na verdade foram implantadas no governo Fernando Henrique Cardoso, mas desenvolvidas e consolidadas a partir do primeiro mandato de Lula na presidência da república, e levando em conta a relativa estabilidade econômica e política dos três mandatos sucessivos dos governantes petistas, com o acesso de dezenas de milhões de pessoas a patamares sócio-econômicos superiores, tem sido especialmente difícil para os partidos de oposição encetarem um discurso bem articulado no plano nacional para se mostrarem uma alternativa viável do ponto de vista eleitoral. Apesar das vitórias oposicionistas expressivas nas eleições municipais e estaduais, o mesmo parece muito distante de ocorrer no plano federal.

Durante algum tempo, os porta-vozes da política de oposição gostaram de usar como mote a ideia de que o sucesso do governo Lula se devia muito mais a um ciclo de estabilidade na economia internacional do que a um mérito próprio. (Gostava-se de dizer — e se lia frequentemente em colunas jornalísticas — que Lula “surfava” na onda de crescimento das economias dos países industrializados.) Nesse sentido, foi especialmente fácil — e útil — indicar as concordâncias e similitudes do governo FHC e de Lula, tentando mostrar que este último não teria acrescentado nada substantivo, nem em relação ao governo anterior, nem perante o cenário internacional.

Com a crise financeira que se abateu sobre os Estados Unidos em 2008 e depois se estendeu e ganhou feições próprias na Europa, o primeiro argumento não mais pôde se manter, tendo em vista que, em contraste com diversos períodos anteriores, a condição econômica nacional não se abalou significativamente com as turbulências externas. Isso foi muito relevante na mentalidade das classes médias, tendo em vista a memória recente do quanto o país se afetava instantaneamente com qualquer desequilíbrio no âmbito financeiro internacional, como foi o caso quando das crises ao redor das bolsas de valores asiáticas em 1998.

O argumento do parentesco com o governo FHC começou a perder força na medida em que o gerenciamento petista dos programas de distribuição de renda se mostraram especialmente importantes na avaliação geral do governo Lula (e depois Dilma). A crítica de que se tratava de política populista de cunho  assistencialista necessariamente foi refeita, mas ainda hoje, em 2013, é uma questão distante de ser resolvida, pelo fato de que levanta duas alternativas aparentemente inviáveis: como um conjunto de partidos que tende para um ideário neoliberal pode assumir — como plataforma política no âmbito macro — a validade de um programa nitidamente ligado a um Estado forte e intervencionista? — Por outro lado, como criticar este programa sem que isto implique abdicar dos votos de dezenas de milhões de pessoas que vivenciam mensalmente o quanto tal política de distribuição de renda tem um valor real? (Abstenho-me aqui de analisar o quanto essa percepção é ou não equivocada em termos de legitimidade do compromisso de política pública com a extensão tanto de abrangência social quanto de tempo, pois me interessa mais a questão da viabilidade eleitoral do projeto das oposições neoliberais.)

Trata-se de um impasse, que se revela com especial agudeza se levarmos em conta que a direita no Brasil é marcada essencialmente pela presença intervencionista do Estado, ou seja, pelo golpe militar de 64. Além disso, a consolidação da política neoliberal pós-ditadura no país se deu sob a égide bastante clara de uma intervenção estatal meticulosamente planejada, gerida nos laboratórios políticos ligados ao consenso de Washington, ou seja, o Plano Real — e essa articulação concedeu passagem e crédito político precisamente ao grupo que hoje ainda tenta se contrapor ao governo federal petista. A estabilização econômica que se seguiu a 1994, entretanto, continuou a reafirmar e confirmar, na mentalidade coletiva predominante, a necessidade de um pacto de sustentação da vida econômica através de uma ação consistente por parte do governo federal. Ocorre que o modus operandi dos partidos então hegemônicos contrariou essa expectativa pelo menos em três frentes principais:
1) programa de privatização generalizada das empresas públicas;
2) renúncia ao controle do valor da moeda nacional perante o dólar estadunidense;
3) e ausência de uma política social significativa.

Esse estado de coisas demonstra que o atual cenário político-partidário, que tende a se prolongar pelo menos nos próximos dez anos, rejeita uma perspectiva neoliberal que inclua a negação do Estado como instância interveniente nas vias de passagem mais importantes para o progresso econômico, social e político. Essa negação será sempre precária caso recorra à tentativa de qualificar as atuais políticas sociais de paternalismo ou populismo, considerando que elas não são percebidas como elementos isolados do complexo de atuação mais ampla da política nacional. Como exemplo, basta olhar para a política agressiva de diminuição dos juros, em que os dois principais bancos estatais foram claramente postos a serviço deste programa, que trouxe como consequência impressionante o fato de que, alguns meses depois, bancos privados passaram a propagandear abertamente em campanhas milionárias de televisão um novo produto (!): a queda dos juros cobrados ao consumidor.

Diante de todos esses aspectos, a direita no Brasil precisa, de fato, se reinventar, caso realmente queira se legitimar como uma alternativa política de forma positiva, e não apenas através da explicitação de fracassos da política econômica (aumento da inflação, crescimento fraco do PIB etc.), ou através da crítica de princípios que lhe restou: a acusação de inconsistência ética do Partido dos Trabalhadores. Não se constrói uma percepção de legitimidade de projeto político apenas (ou majoritariamente) com a negação sistemática de um outro partido, tomando o caso do assim chamado mensalão como um emblema. Além do fato de este modelo de cooptação parlamentar ter sido introduzido por políticos do PSDB, a percepção do brasileiro em relação aos políticos em geral não deixa muita margem para um ganho positivo a partir de uma repetição maciça dessas críticas ao PT.

Sou bastante cético em relação à possibilidade desta re-construção programática. A percepção do embate econômico e político no Brasil que me parece francamente dominante é a de uma disparidade assustadora de forças, em que os pequenos (em qualquer aspecto que seja considerado) estão sistematicamente expostos à ameaça de serem engolidos e trucidados pelos grandes (ou violentos, ou opressores). Essa disparidade é vivida a todo momento, desde a insegurança de pisar fora de casa à noite nas grandes metrópoles, até a impunidade de grandes empresários e políticos sempre e de novo pegos em acusações escabrosas e mais uma vez libertados através de estratégias protelatórias e outros mecanismos jurídicos menos nobres. Diante desse cenário, a figura de um Estado interveniente nas relações díspares e excruciantes de poder deverá fazer parte dos projetos políticos no âmbito nacional, sejam eles de direita ou de esquerda. Em um universo social, econômico e político marcado por uma das mais fortes desigualdades de distribuição de renda no mundo e por suas consequências sócio-culturais, a perspectiva programática neoliberal do Estado mínimo é extremamente problemática em termos de sua viabilidade eleitoral e também, segundo penso, de sua validade como veículo de fomento do progresso econômico, político e sócio-cultural no Brasil de hoje. Isto, porém, não é especialmente relevante ou decisivo no âmbito das políticas municipais e estaduais, marcadas por compromissos bem menos carregados ideologicamente, podendo se produzir e reproduzir indefinidamente através de programas técnico-gerenciais, como obras públicas, melhora do sistema prisional, construção de hospitais, ampliação de vagas no sistema de ensino etc.

A pergunta, caso toda argumentação precedente seja válida, é a seguinte: como seria possível um programa neoliberal que acolha, de alguma forma, o princípio programático de um estado interveniente? — Atente-se para o fato de que não é todo dia que se encontra um Plano Real como tíquete de entrada do palácio do planalto.

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sexta-feira, 17 de maio de 2013

Isolamento catártico

Um dos mecanismos de defesa do eu apontado por Sigmund Freud e estudado por sua filha, Anna Freud, consiste no isolamento de um determinado conteúdo psíquico, uma representação inconsciente, perante todo o âmbito do psiquismo, de forma que tal representação (que pode consistir em uma cena, fantasia ou imagem) não seja posta em circulação com as demais formas de prazer, de realização de desejo. Nesse sentido, tal conteúdo ficaria de certa forma neutralizado pelo modo com que deixe de, por assim dizer, frequentar espaços da subjetividade em que não seria bem-vindo, causando um mal-estar por ser percebido e/ou vivenciado como um intruso, alguém ou algo incompatível com um plano de racionalidade, de concepção moral ou religiosa etc. Essa ideia é muito interessante, não apenas por apontar para uma dinâmica com alto poder explicativo das estratégias inconscientes de articulação defensiva do eu, como também por admitir aplicações em esferas culturais abrangentes, para além desse circuito psíquico individual. — Gostaria, aqui, de fazer esse tipo de aplicação em um âmbito de atuação política: a concepção do meio ambiente no pensamento ambientalista/ecológico.

A luta política e cultural em torno do ambientalismo pode ser minada em seus propósitos não apenas devido à resistência da lógica de exploração capitalista em relação ao desejo de se construir uma outra forma de aproveitamento dos recursos ambientais. Ela pode ser esvaziada em grande parte de sua intenção crítica pelo modo com que concebe seu objeto de ação mais próprio: o meio ambiente. É bastante fácil concebê-lo como um objeto específico, positivamente localizável como sendo o conjunto de recursos naturais, as matas e florestas em geral, as condições de espaço de circulação urbana etc. Mesmo que esta lista seja bastante abrangente, o que por si só já é significativo, ela sempre pode tomar cada um desses aspectos como se não tivessem ressonância com a nossa concepção geral do que significa respeitar tudo aquilo que é um outro em relação a nós mesmos. Isso significa que podemos facilmente tomar uma reserva ambiental ou as condições de saneamento como uma finalidade desconectada de nossa compreensão mais ampla do sentido de convivência, de vida em conjunto. De forma diferente, a consideração da qualidade pública do espaço deveria ser vista como um princípio de tal forma a ser reforçado, que esses aspectos específicos sejam percebidos como uma consequência desta mesma lógica. Assim, é necessário conceber espaços e processos positivamente localizáveis como um elo de uma corrente bastante mais disseminada, evitando que muito dos esforços possa desviar-se para preocupações distantes de uma reflexão crítica sobre a exploração indiscriminada do âmbito social e natural.

Não se trata de dizer, através essa perspectiva, que o ambientalismo necessariamente precisa se fundar, em cada uma de suas estratégias de ação política, em um discurso filosófico ou teóricos macro, como se toda iniciativa específica devesse mobilizar uma visão de mundo abrangente e torná-la explícita. Trata-se, na verdade, de um princípio geral de concepção pedagógica ambientalista, que pretende reenviá-la para uma reflexão crítica do conjunto de nossos valores em diversos planos, como as relações de gênero, o respeito pelas diferenças étnicas, religiosas, culturais etc. Se desconsideramos essa necessidade de reflexão sobre seus princípios mais amplos de cidadania, as estratégias e iniciativas específicas em cada caso corremos o risco de realizar algo análogo ao princípio de defesa psíquica de que falamos acima, ou seja, podemos investir muito de nossa preocupação e até mesmo indignação com questões ecológicas, mas sermos coniventes com formas de exploração do outro, de desrespeito e uma série de outros atos e práticas continuadas que revelam ter como mola propulsora algo muito próximo do que se critica. Este isolamento e separação do meio ambiente em relação ao complexo mais geral da vida acaba por transformá-lo em um objeto específico, “a natureza lá fora”, sendo então protegido de nosso próprio olhar crítico para a lógica perversa que resulta em sua destruição, e que também produz prejuízos muitas vezes bastante próximos de nossa própria vida cotidiana.

Não é difícil perceber que se trata de uma espécie de reificação, ou seja, de transformar o meio ambiente em uma coisa, em um objeto que parece adensar todo o nosso investimento afetivo, que se traduz pelo empreendimento político e social, gerando o que se conhece como uma catarse. Nesse sentido, questões ambientais específicas podem ser resolvidas pontualmente ao longo de muitas décadas, de modo que, mesmo consistindo em um nível de progresso nada desprezível, podem satisfazer tão “isoladamente” o desejo de preservação do meio ambiente, que deixam fora de nosso olhar crítico concepções de mundo que estão na base desses efeitos externos.

A pergunta é: que outras realidades tratamos como "coisas", isoladas do complexo mais geral de nossa existência?

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sexta-feira, 10 de maio de 2013

Ofuscação pela verdade


Uma concepção geralmente colocada em jogo — com a qual eu concordo — para falar do surgimento do pensamento teórico-filosófico é o de considerar que a reflexão surge no momento em que o âmbito da prática não é mais suficiente para legitimar a si mesmo e/ou fornecer elementos para uma visão prospectiva, de futuro, sobre a vida. Nesse sentido, ao se refletir, pretende-se resgatar uma espécie de certeza e de princípio prático que o âmbito da ação em si não é mais capaz de fornecer.

Ocorre, entretanto, que temos aí duas ordens de verdade que não são totalmente equiparáveis, uma vez que as certezas que norteiam as ações no cotidiano em vários níveis, desde a intimidade afetivo-sexual até os compromissos políticos amplos, são marcadas por um alto grau de intuitividade, ou seja, de conexão direta com o objeto. Normalmente, trata-se de um certo senso, tato ou tino não completamente traduzível por regras conceituais, elas mesmas carentes de tais habilidades para serem empregadas nas circunstâncias específicas. No outro extremo, as certezas obtidas pela mediação reflexiva podem se distanciar em grande medida daquilo que é necessário para o próprio agir em sua urgência mais característica, peculiar. Nesse sentido, é fácil se instaurar um hiato, um fosso, entre essas duas ordens de verdade, de forma que sua relação de influência recíproca se torna especialmente problemática em vários momentos.

Dos vários descompassos entre estes dois planos cognitivos, quero focar hoje no que se caracteriza por certa “absorção” do âmbito prático pela certeza adquirida pela reflexão ou pela contemplação de uma verdade supostamente muito mais substancial, consistente, profunda e ao mesmo tempo elevada em relação às certezas práticas, marcadas pela tarefa repetidamente posta em jogo através da instauração de compromissos políticos, sociais.

Ao analisar o surgimento da tragédia grega, Nietzsche diz que a verdade profunda dos mistérios da natureza e do que subjaz à cultura contém um elemento paralisante, “letárgico”, pois nos faz considerar todo o mundo da ação em sociedade mesquinho, pequeno, quando comparado à sublimidade do conhecimento das raízes dionisíacas do real. É como se a revelação de certos segredos e a resolução de enigmas através de uma disposição mística nos conectasse com uma verdade com tal vigor e plenitude de espírito, que todas as tarefas e objetivos de nossa realidade empírica se mostram por demais “falsos” devido à sua insuficiência e parcialidade.

Quando vemos o fundamentalismo religioso contrariar avanços significativos da ciência, tal como a experiência com as células-tronco, e também combater os progressos no reconhecimento de valores universais, como o direito dos homossexuais para se casarem, creio que esteja em jogo algo análogo a essa experiência de negação do espaço por assim dizer “mesquinho” da política da cultura. Essa diminuição e desconsideração para com o progresso cultural e ético adviria não apenas de uma questão de conteúdo específico em cada caso, mas dessa contraposição geral, de princípio, entre o valor sublime dado a uma verdade percebida como universal — e até cósmica — e o esforço constante de progresso lento, parcial e continuado pela melhoria da vida. Em contraste com esta tarefa político-social de acréscimos particulares e dependentes de uma reflexão continuamente recolocada em jogo, a verdade religiosa sublime paira acima de tudo e de todos com sua potência de esclarecimento ofuscante em relação às outras verdades construídas sucessivamente, que aparecem, por contraste, como tendo uma luminosidade fraca, e, portanto, pouco legítima.

Trata-se, de fato, de uma ofuscação (a metáfora também é empregada por Nietzsche no mesmo contexto da sua obra O nascimento da tragédia). Nesse tipo de experiência ótica, temos uma contraposição instrutiva entre o excesso de luminosidade e a cegueira, ou seja, de uma luz que nos impede de enxergar. Na exata medida em que uma verdade se mostra por demais luminosa, robusta e de tal forma consistente que tende a se expandir, não é de forma alguma difícil que ela tenha como contrapartida um obscurecimento para as franjas de claro-escuro que se situam no mesmo campo de visão, como também para a luminosidade precária dos objetos iluminados por tais certezas. Assim, diante de uma verdade profunda e sublime relativa à dignidade sagrada da vida em si, a argumentação a favor da descriminalização do aborto que se apoia nas condições sócio-econômicas concretas — em que as mulheres, tendo um determinado posicionamento relativo ao seu próprio corpo, praticam milhares de abortamentos clandestinos que convergem na morte de centenas de jovens — aparece como falsa, ideológica, precária, pois usa como suporte uma questão a ser resolvida no plano de determinadas articulações políticas — desde o âmbito da ação policial repressora até os mecanismos estatais para facilitar a adoção de crianças que as mulheres seriam "obrigadas" a gerar: tudo isto tendo em vista o valor universal e cósmico do fenômeno da vida "em si mesma". Todas as questões relativas a uma sociedade patriarcal, ao direito da mulher sobre seu próprio corpo, à falsa naturalização das relações de gênero, aos problemas de saúde pública tal como desses abortos clandestinos — tudo isso é sistematicamente rebatido com essa verdade ofuscante: "É uma vida que está em jogo".

Em contraste com isso, é necessário insistir no imperativo de sempre e mais uma vez fazer retornar o movimento reflexivo, por mais profundo e consistente que seja, à tarefa política (em sentido amplo) de construção de valores que pautem nossa consciência historicamente constituída. É preciso conceber a realidade como projeto e processo de instauração de valores colocados sob uma nova chave de compreensão, que questione a si mesma sistematicamente em virtude dos percalços, obstáculos e cisões pelos quais passamos ao construir um mundo mais humano, justo e racionalmente justificado.

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sábado, 4 de maio de 2013

Transfusão de realidades


Quando vemos várias pessoas em um ambiente público não apenas concentradas, mas fixadas em seus aparelhos móveis, como celulares, laptops e tablets, a primeira ideia que nos vem, essencialmente crítica, é que se trata de uma fuga da realidade, de uma espécie de alienação consumida na devoção quase mística ou mítica a um objeto hiper-colorido, hiper-brilhante e por isso mesmo continuamente fonte de fascínio. Para além da já clássica mobilização subjetiva de status e distinção social por acesso a um objeto cobiçado por muitos, gostaria de abordar aqui a correlação de interdependência de planos de realidade e que são atualizados em suas respectivas trocas e mutações, na reafirmação contínua do desejo de não apenas vivenciar, mas intervir numa nova realidade condensada na palma da mão.

Um dos motivos que explicam o sucesso de filmes como Matrix e Avatar é a plasmação de uma realidade articulada segundo uma lógica que não apenas é diferente, mas se institui com um sentido de direito próprio, na qual se pode usufruir uma simulação e um simulacro de nossa realidade empírica, para usar dois conceitos importantes para Jean Baudrillard. Não se trata apenas da mobilização do que é ficcional, do que estabelece um círculo em que vigoram leis próprias, tal como o espaço do jogo, pois há que se acrescentar ainda o “sabor” adicional de um senso de invalidação de outra realidade — a vida cotidiana —, de tal forma que esta pode ser figurada como momentaneamente falsa, mesquinha. O princípio do paralelismo de graus e formas de real acentua a percepção do quanto nos arrogamos a vivência de uma atuação constante nos limites da realidade, e isso no triplo sentido do verbo atuar, como agir, intervir e representar. No primeiro caso, temos uma dimensão imediata e concreta da ação; no segundo, temos a percepção de causalidade (efeito) em um outro registro; e no terceiro, o elemento essencial de duplicidade, necessária para marcar o esforço e o regozijo da transitividade entre os mundos que se tornam duplamente possíveis em sua maleabilidade de referências cruzadas.

A miniaturização de mundo no espaço vivo, excitante e multicolorido dos aparelhos tecno-fílicos vende a reiteração constante da vivacidade da troca, da interferência mútua entre planos de realidade. No eterno produzir que se instaura pelo modo como reproduz a sensação e sentimento de criar, consome-se a duplicação de si mesmo no espaço circunscrito dessa ficção e criatividade. Trata-se de uma simulação generalizada do princípio produtivo, uma vez que o próprio sujeito também usufrui da interferência constante do aparelho em seu cotidiano, na medida em que a todo instante sua atenção pode ser quebrada, rompida, re-atualizada pelos avisos, sons e mensagens, que funcionam como uma torrente pulverizada em boa parte da extensão do dia. Se os aparelhos tecnológicos plasmam uma realidade em uma tela micro em que se pode o tempo todo interferir digitando, tecendo comentários minúsculos e extensos, clicando em cada um de seus pontos numa tela sensível ao toque, a própria distensão temporal do dia se torna também uma enorme tela, que também é clicada, carregada por esses toques provenientes do próprio aparelho. Somente quando a própria vida é percebida como simulação subjugada à realidade da tela eletrônica que esta última passa a ser assumida com sua vivacidade de real com direito próprio.

A partir disso se pode dizer que o enclausuramento no redemoinho dos aparelhos técnicos não é índice apenas de uma fuga de nossa realidade empobrecida, mas a inoculação constante de um olhar tecnológico na vida, povoando este “deserto do real” com uma alma estrangeira. De forma análoga a como os primitivos concebiam todos os seres e processos naturais como povoados de espíritos — percepção a que se deu o nome de animismo —, a vivificação tecnológica do real se dá por essa transfusão de interferência mútua do que confere vida aos planos habitáveis. Um passo além na direção da psicanálise nos permite interpretar esse estado de coisas como interpenetração sexualizada dos espaços oculares. Tal como a vida simulada na tela é exposta em toda sua extensão pornográfica, a intimidade dos momentos de descanso e de concentração ao longo do dia é invadida por apelos de atenção, compartilhamento, resposta etc. Dar e cobrar, entrar no campo virtualizado da vivência alheia e dele se afastar sem prestar contas, exibir-se e observar a exibição alheia — todo este espaço de pornografia light, usufruída em pequenas doses ao longo dos dias, que na verdade se estendem por semanas e meses, simula uma sexualidade traduzida em uma visualidade gerativa incessante.

Por fim, cabe perguntar pelo que haveria de progressista na atitude de atualização contínua de trocas táteis e visuais. Creio que, na medida em que a simulação inclui um exercício de senso de realidade, ela pode permitir também um descolamento perante certas formas altamente inerciais de constituição simbólica do real. Ela pode fomentar o gosto pelo distanciamento minimamente necessário para instaurar atitudes e modos de vida oblíquos, desviantes, que se robustecem precisamente em sua recolocação de planos de realidade possíveis, cuja visualização em perspectivas distintas, diferenciadas precisamente pela troca contínua, dificilmente seria possível quando a realidade primeira de nosso cotidiano é marcada por exigências econômicas e de sociabilidade que demandam uma espécie de realismo tacanho, tornado tão medíocre quanto nos parece urgente e, portanto, inevitável.

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