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sexta-feira, 17 de maio de 2013

Isolamento catártico

Um dos mecanismos de defesa do eu apontado por Sigmund Freud e estudado por sua filha, Anna Freud, consiste no isolamento de um determinado conteúdo psíquico, uma representação inconsciente, perante todo o âmbito do psiquismo, de forma que tal representação (que pode consistir em uma cena, fantasia ou imagem) não seja posta em circulação com as demais formas de prazer, de realização de desejo. Nesse sentido, tal conteúdo ficaria de certa forma neutralizado pelo modo com que deixe de, por assim dizer, frequentar espaços da subjetividade em que não seria bem-vindo, causando um mal-estar por ser percebido e/ou vivenciado como um intruso, alguém ou algo incompatível com um plano de racionalidade, de concepção moral ou religiosa etc. Essa ideia é muito interessante, não apenas por apontar para uma dinâmica com alto poder explicativo das estratégias inconscientes de articulação defensiva do eu, como também por admitir aplicações em esferas culturais abrangentes, para além desse circuito psíquico individual. — Gostaria, aqui, de fazer esse tipo de aplicação em um âmbito de atuação política: a concepção do meio ambiente no pensamento ambientalista/ecológico.

A luta política e cultural em torno do ambientalismo pode ser minada em seus propósitos não apenas devido à resistência da lógica de exploração capitalista em relação ao desejo de se construir uma outra forma de aproveitamento dos recursos ambientais. Ela pode ser esvaziada em grande parte de sua intenção crítica pelo modo com que concebe seu objeto de ação mais próprio: o meio ambiente. É bastante fácil concebê-lo como um objeto específico, positivamente localizável como sendo o conjunto de recursos naturais, as matas e florestas em geral, as condições de espaço de circulação urbana etc. Mesmo que esta lista seja bastante abrangente, o que por si só já é significativo, ela sempre pode tomar cada um desses aspectos como se não tivessem ressonância com a nossa concepção geral do que significa respeitar tudo aquilo que é um outro em relação a nós mesmos. Isso significa que podemos facilmente tomar uma reserva ambiental ou as condições de saneamento como uma finalidade desconectada de nossa compreensão mais ampla do sentido de convivência, de vida em conjunto. De forma diferente, a consideração da qualidade pública do espaço deveria ser vista como um princípio de tal forma a ser reforçado, que esses aspectos específicos sejam percebidos como uma consequência desta mesma lógica. Assim, é necessário conceber espaços e processos positivamente localizáveis como um elo de uma corrente bastante mais disseminada, evitando que muito dos esforços possa desviar-se para preocupações distantes de uma reflexão crítica sobre a exploração indiscriminada do âmbito social e natural.

Não se trata de dizer, através essa perspectiva, que o ambientalismo necessariamente precisa se fundar, em cada uma de suas estratégias de ação política, em um discurso filosófico ou teóricos macro, como se toda iniciativa específica devesse mobilizar uma visão de mundo abrangente e torná-la explícita. Trata-se, na verdade, de um princípio geral de concepção pedagógica ambientalista, que pretende reenviá-la para uma reflexão crítica do conjunto de nossos valores em diversos planos, como as relações de gênero, o respeito pelas diferenças étnicas, religiosas, culturais etc. Se desconsideramos essa necessidade de reflexão sobre seus princípios mais amplos de cidadania, as estratégias e iniciativas específicas em cada caso corremos o risco de realizar algo análogo ao princípio de defesa psíquica de que falamos acima, ou seja, podemos investir muito de nossa preocupação e até mesmo indignação com questões ecológicas, mas sermos coniventes com formas de exploração do outro, de desrespeito e uma série de outros atos e práticas continuadas que revelam ter como mola propulsora algo muito próximo do que se critica. Este isolamento e separação do meio ambiente em relação ao complexo mais geral da vida acaba por transformá-lo em um objeto específico, “a natureza lá fora”, sendo então protegido de nosso próprio olhar crítico para a lógica perversa que resulta em sua destruição, e que também produz prejuízos muitas vezes bastante próximos de nossa própria vida cotidiana.

Não é difícil perceber que se trata de uma espécie de reificação, ou seja, de transformar o meio ambiente em uma coisa, em um objeto que parece adensar todo o nosso investimento afetivo, que se traduz pelo empreendimento político e social, gerando o que se conhece como uma catarse. Nesse sentido, questões ambientais específicas podem ser resolvidas pontualmente ao longo de muitas décadas, de modo que, mesmo consistindo em um nível de progresso nada desprezível, podem satisfazer tão “isoladamente” o desejo de preservação do meio ambiente, que deixam fora de nosso olhar crítico concepções de mundo que estão na base desses efeitos externos.

A pergunta é: que outras realidades tratamos como "coisas", isoladas do complexo mais geral de nossa existência?

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