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sexta-feira, 10 de maio de 2013

Ofuscação pela verdade


Uma concepção geralmente colocada em jogo — com a qual eu concordo — para falar do surgimento do pensamento teórico-filosófico é o de considerar que a reflexão surge no momento em que o âmbito da prática não é mais suficiente para legitimar a si mesmo e/ou fornecer elementos para uma visão prospectiva, de futuro, sobre a vida. Nesse sentido, ao se refletir, pretende-se resgatar uma espécie de certeza e de princípio prático que o âmbito da ação em si não é mais capaz de fornecer.

Ocorre, entretanto, que temos aí duas ordens de verdade que não são totalmente equiparáveis, uma vez que as certezas que norteiam as ações no cotidiano em vários níveis, desde a intimidade afetivo-sexual até os compromissos políticos amplos, são marcadas por um alto grau de intuitividade, ou seja, de conexão direta com o objeto. Normalmente, trata-se de um certo senso, tato ou tino não completamente traduzível por regras conceituais, elas mesmas carentes de tais habilidades para serem empregadas nas circunstâncias específicas. No outro extremo, as certezas obtidas pela mediação reflexiva podem se distanciar em grande medida daquilo que é necessário para o próprio agir em sua urgência mais característica, peculiar. Nesse sentido, é fácil se instaurar um hiato, um fosso, entre essas duas ordens de verdade, de forma que sua relação de influência recíproca se torna especialmente problemática em vários momentos.

Dos vários descompassos entre estes dois planos cognitivos, quero focar hoje no que se caracteriza por certa “absorção” do âmbito prático pela certeza adquirida pela reflexão ou pela contemplação de uma verdade supostamente muito mais substancial, consistente, profunda e ao mesmo tempo elevada em relação às certezas práticas, marcadas pela tarefa repetidamente posta em jogo através da instauração de compromissos políticos, sociais.

Ao analisar o surgimento da tragédia grega, Nietzsche diz que a verdade profunda dos mistérios da natureza e do que subjaz à cultura contém um elemento paralisante, “letárgico”, pois nos faz considerar todo o mundo da ação em sociedade mesquinho, pequeno, quando comparado à sublimidade do conhecimento das raízes dionisíacas do real. É como se a revelação de certos segredos e a resolução de enigmas através de uma disposição mística nos conectasse com uma verdade com tal vigor e plenitude de espírito, que todas as tarefas e objetivos de nossa realidade empírica se mostram por demais “falsos” devido à sua insuficiência e parcialidade.

Quando vemos o fundamentalismo religioso contrariar avanços significativos da ciência, tal como a experiência com as células-tronco, e também combater os progressos no reconhecimento de valores universais, como o direito dos homossexuais para se casarem, creio que esteja em jogo algo análogo a essa experiência de negação do espaço por assim dizer “mesquinho” da política da cultura. Essa diminuição e desconsideração para com o progresso cultural e ético adviria não apenas de uma questão de conteúdo específico em cada caso, mas dessa contraposição geral, de princípio, entre o valor sublime dado a uma verdade percebida como universal — e até cósmica — e o esforço constante de progresso lento, parcial e continuado pela melhoria da vida. Em contraste com esta tarefa político-social de acréscimos particulares e dependentes de uma reflexão continuamente recolocada em jogo, a verdade religiosa sublime paira acima de tudo e de todos com sua potência de esclarecimento ofuscante em relação às outras verdades construídas sucessivamente, que aparecem, por contraste, como tendo uma luminosidade fraca, e, portanto, pouco legítima.

Trata-se, de fato, de uma ofuscação (a metáfora também é empregada por Nietzsche no mesmo contexto da sua obra O nascimento da tragédia). Nesse tipo de experiência ótica, temos uma contraposição instrutiva entre o excesso de luminosidade e a cegueira, ou seja, de uma luz que nos impede de enxergar. Na exata medida em que uma verdade se mostra por demais luminosa, robusta e de tal forma consistente que tende a se expandir, não é de forma alguma difícil que ela tenha como contrapartida um obscurecimento para as franjas de claro-escuro que se situam no mesmo campo de visão, como também para a luminosidade precária dos objetos iluminados por tais certezas. Assim, diante de uma verdade profunda e sublime relativa à dignidade sagrada da vida em si, a argumentação a favor da descriminalização do aborto que se apoia nas condições sócio-econômicas concretas — em que as mulheres, tendo um determinado posicionamento relativo ao seu próprio corpo, praticam milhares de abortamentos clandestinos que convergem na morte de centenas de jovens — aparece como falsa, ideológica, precária, pois usa como suporte uma questão a ser resolvida no plano de determinadas articulações políticas — desde o âmbito da ação policial repressora até os mecanismos estatais para facilitar a adoção de crianças que as mulheres seriam "obrigadas" a gerar: tudo isto tendo em vista o valor universal e cósmico do fenômeno da vida "em si mesma". Todas as questões relativas a uma sociedade patriarcal, ao direito da mulher sobre seu próprio corpo, à falsa naturalização das relações de gênero, aos problemas de saúde pública tal como desses abortos clandestinos — tudo isso é sistematicamente rebatido com essa verdade ofuscante: "É uma vida que está em jogo".

Em contraste com isso, é necessário insistir no imperativo de sempre e mais uma vez fazer retornar o movimento reflexivo, por mais profundo e consistente que seja, à tarefa política (em sentido amplo) de construção de valores que pautem nossa consciência historicamente constituída. É preciso conceber a realidade como projeto e processo de instauração de valores colocados sob uma nova chave de compreensão, que questione a si mesma sistematicamente em virtude dos percalços, obstáculos e cisões pelos quais passamos ao construir um mundo mais humano, justo e racionalmente justificado.

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