Uma concepção geralmente colocada em jogo — com a qual eu
concordo — para falar do surgimento do pensamento teórico-filosófico é o de
considerar que a reflexão surge no momento em que o âmbito da prática não é
mais suficiente para legitimar a si mesmo e/ou fornecer elementos para uma
visão prospectiva, de futuro, sobre a vida. Nesse sentido, ao se refletir,
pretende-se resgatar uma espécie de certeza e de princípio prático que o âmbito
da ação em si não é mais capaz de fornecer.
Ocorre, entretanto, que temos aí duas ordens de verdade que
não são totalmente equiparáveis, uma vez que as certezas que norteiam as
ações no cotidiano em vários níveis, desde a intimidade afetivo-sexual até os
compromissos políticos amplos, são marcadas por um alto grau de intuitividade,
ou seja, de conexão direta com o objeto. Normalmente, trata-se de um certo
senso, tato ou tino não completamente traduzível por regras conceituais, elas
mesmas carentes de tais habilidades para serem empregadas nas circunstâncias
específicas. No outro extremo, as certezas obtidas pela mediação reflexiva
podem se distanciar em grande medida daquilo que é necessário para o próprio
agir em sua urgência mais característica, peculiar. Nesse sentido, é fácil se
instaurar um hiato, um fosso, entre essas duas ordens de verdade, de forma que
sua relação de influência recíproca se torna especialmente problemática em
vários momentos.
Dos vários descompassos entre estes dois planos cognitivos,
quero focar hoje no que se caracteriza por certa “absorção” do âmbito prático
pela certeza adquirida pela reflexão ou pela contemplação de uma verdade
supostamente muito mais substancial, consistente, profunda e ao mesmo tempo
elevada em relação às certezas práticas, marcadas pela tarefa repetidamente
posta em jogo através da instauração de compromissos políticos, sociais.
Ao analisar o surgimento da tragédia grega, Nietzsche diz
que a verdade profunda dos mistérios da natureza e do que subjaz à cultura
contém um elemento paralisante, “letárgico”, pois nos faz considerar todo o
mundo da ação em sociedade mesquinho, pequeno, quando comparado à sublimidade
do conhecimento das raízes dionisíacas do real. É como se a revelação de certos
segredos e a resolução de enigmas através de uma disposição mística nos
conectasse com uma verdade com tal vigor e plenitude de espírito, que todas as
tarefas e objetivos de nossa realidade empírica se mostram por demais “falsos”
devido à sua insuficiência e parcialidade.
Quando vemos o fundamentalismo religioso contrariar avanços
significativos da ciência, tal como a experiência com as células-tronco, e
também combater os progressos no reconhecimento de valores universais, como o
direito dos homossexuais para se casarem, creio que esteja em jogo algo análogo
a essa experiência de negação do espaço por assim dizer “mesquinho” da política
da cultura. Essa diminuição e desconsideração para com o progresso cultural e
ético adviria não apenas de uma questão de conteúdo específico em cada caso,
mas dessa contraposição geral, de princípio, entre o valor sublime dado a uma
verdade percebida como universal — e até cósmica — e o esforço constante de
progresso lento, parcial e continuado pela melhoria da vida. Em contraste com
esta tarefa político-social de acréscimos particulares e dependentes de uma
reflexão continuamente recolocada em jogo, a verdade religiosa sublime
paira acima de tudo e de todos com sua potência de esclarecimento ofuscante em
relação às outras verdades construídas sucessivamente, que aparecem, por
contraste, como tendo uma luminosidade fraca, e, portanto, pouco legítima.
Trata-se, de fato, de uma ofuscação (a metáfora também é
empregada por Nietzsche no mesmo contexto da sua obra O nascimento da
tragédia). Nesse tipo de experiência ótica, temos uma contraposição
instrutiva entre o excesso de luminosidade e a cegueira, ou seja, de uma luz
que nos impede de enxergar. Na exata medida em que uma verdade se mostra por
demais luminosa, robusta e de tal forma consistente que tende a se expandir,
não é de forma alguma difícil que ela tenha como contrapartida um
obscurecimento para as franjas de claro-escuro que se situam no mesmo campo de
visão, como também para a luminosidade precária dos objetos iluminados por tais
certezas. Assim, diante de uma verdade profunda e sublime relativa à dignidade
sagrada da vida em si, a argumentação a favor da descriminalização do aborto
que se apoia nas condições sócio-econômicas concretas —
em que as mulheres,
tendo um determinado posicionamento relativo ao seu próprio corpo, praticam
milhares de abortamentos clandestinos que convergem na morte de centenas de
jovens — aparece como falsa, ideológica, precária, pois usa como suporte uma
questão a ser resolvida no plano de determinadas articulações políticas —
desde o âmbito da ação policial repressora até os mecanismos estatais para
facilitar a adoção de crianças que as mulheres seriam "obrigadas" a
gerar: tudo isto tendo em vista o valor universal e cósmico do fenômeno da vida
"em si mesma". Todas as questões relativas a uma sociedade patriarcal,
ao direito da mulher sobre seu próprio corpo, à falsa naturalização das
relações de gênero, aos problemas de saúde pública tal como desses abortos
clandestinos — tudo isso é sistematicamente rebatido com essa verdade
ofuscante: "É uma vida que está em jogo".
Em contraste com isso, é necessário insistir no imperativo
de sempre e mais uma vez fazer retornar o movimento reflexivo, por mais
profundo e consistente que seja, à tarefa política (em sentido amplo) de
construção de valores que pautem nossa consciência historicamente constituída.
É preciso conceber a realidade como projeto e processo de instauração de
valores colocados sob uma nova chave de compreensão, que questione a si mesma
sistematicamente em virtude dos percalços, obstáculos e cisões pelos quais
passamos ao construir um mundo mais humano, justo e racionalmente justificado.
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