Quando vemos várias pessoas em um ambiente público não
apenas concentradas, mas fixadas em seus aparelhos móveis, como
celulares, laptops e tablets, a primeira ideia que nos vem,
essencialmente crítica, é que se trata de uma fuga da realidade, de uma espécie de alienação consumida na devoção
quase mística ou mítica a um objeto hiper-colorido, hiper-brilhante e por isso
mesmo continuamente fonte de fascínio. Para além da já clássica mobilização
subjetiva de status e distinção social por acesso a um objeto cobiçado
por muitos, gostaria de abordar aqui a correlação de interdependência de planos
de realidade e que são atualizados em suas respectivas trocas e mutações, na
reafirmação contínua do desejo de não apenas vivenciar, mas intervir numa
nova realidade condensada na palma da mão.
Um dos motivos que explicam o sucesso de filmes como Matrix
e Avatar é a plasmação de uma
realidade articulada segundo uma lógica que não apenas é diferente, mas se
institui com um sentido de direito próprio, na qual se pode usufruir uma simulação
e um simulacro de nossa realidade empírica, para usar dois conceitos
importantes para Jean Baudrillard. Não se trata apenas da mobilização do que é
ficcional, do que estabelece um círculo em que vigoram leis próprias, tal como
o espaço do jogo, pois há que se acrescentar ainda o “sabor” adicional de um
senso de invalidação de outra realidade — a vida cotidiana —, de tal
forma que esta pode ser figurada como momentaneamente falsa, mesquinha. O
princípio do paralelismo de graus e formas de real acentua a percepção do
quanto nos arrogamos a vivência de uma atuação constante nos limites da
realidade, e isso no triplo sentido do verbo atuar, como agir, intervir
e representar. No primeiro caso, temos uma dimensão imediata e
concreta da ação; no segundo, temos a percepção de causalidade (efeito) em um
outro registro; e no terceiro, o elemento essencial de duplicidade, necessária
para marcar o esforço e o regozijo da transitividade entre os mundos que se
tornam duplamente possíveis em sua maleabilidade de referências cruzadas.
A miniaturização de mundo no espaço vivo, excitante e
multicolorido dos aparelhos tecno-fílicos vende a reiteração constante da
vivacidade da troca, da interferência mútua entre planos de realidade. No eterno
produzir que se instaura pelo modo como reproduz a sensação e
sentimento de criar, consome-se a duplicação de si mesmo no espaço circunscrito
dessa ficção e criatividade. Trata-se de uma simulação generalizada do
princípio produtivo, uma vez que o próprio sujeito também usufrui da
interferência constante do aparelho em seu cotidiano, na medida em que a todo
instante sua atenção pode ser quebrada, rompida, re-atualizada pelos avisos,
sons e mensagens, que funcionam como uma torrente pulverizada em boa parte da
extensão do dia. Se os aparelhos tecnológicos plasmam uma realidade em uma tela
micro em que se pode o tempo todo interferir digitando, tecendo comentários
minúsculos e extensos, clicando em cada um de seus pontos numa tela sensível ao
toque, a própria distensão temporal do dia se torna também uma enorme tela, que
também é clicada, carregada por esses toques provenientes do próprio aparelho.
Somente quando a própria vida é percebida como simulação subjugada à realidade
da tela eletrônica que esta última passa a ser assumida com sua vivacidade de
real com direito próprio.
A partir disso se pode dizer que o enclausuramento no
redemoinho dos aparelhos técnicos não é índice apenas de uma fuga de nossa
realidade empobrecida, mas a inoculação constante de um olhar tecnológico na
vida, povoando este “deserto do real” com uma alma estrangeira. De forma
análoga a como os primitivos concebiam todos os seres e processos naturais como
povoados de espíritos — percepção a que se deu o nome de animismo —, a vivificação tecnológica do real se dá por essa
transfusão de interferência mútua do que confere vida aos planos habitáveis. Um
passo além na direção da psicanálise nos permite interpretar esse estado de
coisas como interpenetração sexualizada dos espaços oculares. Tal como a vida
simulada na tela é exposta em toda sua extensão pornográfica, a intimidade dos
momentos de descanso e de concentração ao longo do dia é invadida por apelos de
atenção, compartilhamento, resposta etc. Dar e cobrar, entrar no campo
virtualizado da vivência alheia e dele se afastar sem prestar contas, exibir-se
e observar a exibição alheia — todo este espaço de pornografia light,
usufruída em pequenas doses ao longo dos dias, que na verdade se estendem
por semanas e meses, simula uma sexualidade traduzida em uma visualidade
gerativa incessante.
Por fim, cabe perguntar pelo que haveria de progressista na
atitude de atualização contínua de trocas táteis e visuais. Creio que, na
medida em que a simulação inclui um exercício de senso de realidade, ela
pode permitir também um descolamento perante certas formas altamente inerciais
de constituição simbólica do real. Ela pode fomentar o gosto pelo
distanciamento minimamente necessário para instaurar atitudes e modos de vida oblíquos,
desviantes, que se robustecem precisamente em sua recolocação de planos de
realidade possíveis, cuja visualização em perspectivas distintas, diferenciadas
precisamente pela troca contínua, dificilmente seria possível quando a
realidade primeira de nosso cotidiano é marcada por exigências econômicas e de
sociabilidade que demandam uma espécie de realismo tacanho, tornado tão
medíocre quanto nos parece urgente e, portanto, inevitável.
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