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sábado, 4 de maio de 2013

Transfusão de realidades


Quando vemos várias pessoas em um ambiente público não apenas concentradas, mas fixadas em seus aparelhos móveis, como celulares, laptops e tablets, a primeira ideia que nos vem, essencialmente crítica, é que se trata de uma fuga da realidade, de uma espécie de alienação consumida na devoção quase mística ou mítica a um objeto hiper-colorido, hiper-brilhante e por isso mesmo continuamente fonte de fascínio. Para além da já clássica mobilização subjetiva de status e distinção social por acesso a um objeto cobiçado por muitos, gostaria de abordar aqui a correlação de interdependência de planos de realidade e que são atualizados em suas respectivas trocas e mutações, na reafirmação contínua do desejo de não apenas vivenciar, mas intervir numa nova realidade condensada na palma da mão.

Um dos motivos que explicam o sucesso de filmes como Matrix e Avatar é a plasmação de uma realidade articulada segundo uma lógica que não apenas é diferente, mas se institui com um sentido de direito próprio, na qual se pode usufruir uma simulação e um simulacro de nossa realidade empírica, para usar dois conceitos importantes para Jean Baudrillard. Não se trata apenas da mobilização do que é ficcional, do que estabelece um círculo em que vigoram leis próprias, tal como o espaço do jogo, pois há que se acrescentar ainda o “sabor” adicional de um senso de invalidação de outra realidade — a vida cotidiana —, de tal forma que esta pode ser figurada como momentaneamente falsa, mesquinha. O princípio do paralelismo de graus e formas de real acentua a percepção do quanto nos arrogamos a vivência de uma atuação constante nos limites da realidade, e isso no triplo sentido do verbo atuar, como agir, intervir e representar. No primeiro caso, temos uma dimensão imediata e concreta da ação; no segundo, temos a percepção de causalidade (efeito) em um outro registro; e no terceiro, o elemento essencial de duplicidade, necessária para marcar o esforço e o regozijo da transitividade entre os mundos que se tornam duplamente possíveis em sua maleabilidade de referências cruzadas.

A miniaturização de mundo no espaço vivo, excitante e multicolorido dos aparelhos tecno-fílicos vende a reiteração constante da vivacidade da troca, da interferência mútua entre planos de realidade. No eterno produzir que se instaura pelo modo como reproduz a sensação e sentimento de criar, consome-se a duplicação de si mesmo no espaço circunscrito dessa ficção e criatividade. Trata-se de uma simulação generalizada do princípio produtivo, uma vez que o próprio sujeito também usufrui da interferência constante do aparelho em seu cotidiano, na medida em que a todo instante sua atenção pode ser quebrada, rompida, re-atualizada pelos avisos, sons e mensagens, que funcionam como uma torrente pulverizada em boa parte da extensão do dia. Se os aparelhos tecnológicos plasmam uma realidade em uma tela micro em que se pode o tempo todo interferir digitando, tecendo comentários minúsculos e extensos, clicando em cada um de seus pontos numa tela sensível ao toque, a própria distensão temporal do dia se torna também uma enorme tela, que também é clicada, carregada por esses toques provenientes do próprio aparelho. Somente quando a própria vida é percebida como simulação subjugada à realidade da tela eletrônica que esta última passa a ser assumida com sua vivacidade de real com direito próprio.

A partir disso se pode dizer que o enclausuramento no redemoinho dos aparelhos técnicos não é índice apenas de uma fuga de nossa realidade empobrecida, mas a inoculação constante de um olhar tecnológico na vida, povoando este “deserto do real” com uma alma estrangeira. De forma análoga a como os primitivos concebiam todos os seres e processos naturais como povoados de espíritos — percepção a que se deu o nome de animismo —, a vivificação tecnológica do real se dá por essa transfusão de interferência mútua do que confere vida aos planos habitáveis. Um passo além na direção da psicanálise nos permite interpretar esse estado de coisas como interpenetração sexualizada dos espaços oculares. Tal como a vida simulada na tela é exposta em toda sua extensão pornográfica, a intimidade dos momentos de descanso e de concentração ao longo do dia é invadida por apelos de atenção, compartilhamento, resposta etc. Dar e cobrar, entrar no campo virtualizado da vivência alheia e dele se afastar sem prestar contas, exibir-se e observar a exibição alheia — todo este espaço de pornografia light, usufruída em pequenas doses ao longo dos dias, que na verdade se estendem por semanas e meses, simula uma sexualidade traduzida em uma visualidade gerativa incessante.

Por fim, cabe perguntar pelo que haveria de progressista na atitude de atualização contínua de trocas táteis e visuais. Creio que, na medida em que a simulação inclui um exercício de senso de realidade, ela pode permitir também um descolamento perante certas formas altamente inerciais de constituição simbólica do real. Ela pode fomentar o gosto pelo distanciamento minimamente necessário para instaurar atitudes e modos de vida oblíquos, desviantes, que se robustecem precisamente em sua recolocação de planos de realidade possíveis, cuja visualização em perspectivas distintas, diferenciadas precisamente pela troca contínua, dificilmente seria possível quando a realidade primeira de nosso cotidiano é marcada por exigências econômicas e de sociabilidade que demandam uma espécie de realismo tacanho, tornado tão medíocre quanto nos parece urgente e, portanto, inevitável.

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