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sábado, 15 de junho de 2013

Lição de rua

Segundo a crítica de McLuhan e Jean Baudrillard à cultura de massa, o conteúdo de cada meio de comunicação, em sentido mais próprio, não seria a transmissão de determinadas mensagens ou aspectos ideológicos, mas sim o “ensino” da percepção de cada um desses meios. Assim, a televisão ensina a ver televisão, o rádio ensina ouvir rádio etc. Na medida em que esse aprendizado se firma, os diversos outros significados podem trafegar de forma bem mais fluida e desimpedida. Creio que se possa falar algo bastante parecido com a vida política. Na base das trocas das ideias, princípios e posicionamentos, desde os mais gerais aos mais específicos, reside uma espécie de aprendizado constante e generalizado do “fazer política”, “mediar interesses”, “ser democrático” etc. Ao longo de uma indefinida sequência de lances, ataques e defesas, o que parece contar de forma bastante significativa é o próprio aprendizado de jogar esse jogo, assimilar suas regras, fortalecê-las por sua aplicação constante e reiterada, adequar-se aos mecanismos já aprovados em sua eficiência e legitimidade — e uma série de outras prescrições tácitas ou explícitas. — É a partir deste pano de fundo que analiso os últimos movimentos de protestos populares que eclodiram em São Paulo e em outras cidades do Brasil no começo de junho.

Diante da violência nos protestos, tanto por parte de alguns manifestantes quanto da polícia militar, e considerando a reivindicação mais explícita (a recusa do aumento de vinte centavos nas passagens de ônibus), as vozes contrárias a tais manifestações parecem não ter dificuldade em apontar para o excesso das ações, para a desproporcionalidade entre tudo que foi feito e seu objetivo mais aparente. Se não usam a velha expressão “rebeldes sem causa” é porque aprenderam que não se devem usar clichês, mesmo que seja para exprimir uma ideia, ela própria, um clichê. Vândalos, baderneiros e aproveitadores da situação constituem os ingredientes necessários para realçar o sabor de uma transgressão sem sentido, exposta e tachada como tal em editoriais de jornais e falas de programas jornalísticos. Tais veículos, realmente, precisam cumprir sua função de estampar uma nota vermelha para aqueles que, de um modo ou de outro, parecem não querer cumprir seu dever de casa tal como lhes é incessantemente ensinado. Ao longo do tempo, entretanto, eles aprenderam a não gostar do fato de que estão aprendendo bem demais a seguir as regras desta enorme lição de “como fazer política”. Vejamos por que eles estão levando bomba nesse fim de semestre.

A coisa pública — e nem precisamos aceitar muito da filosofia de Thomas Hobbes para acreditar nisso — sempre terá a unidade do corpo social como um de seus princípios fundamentais, pela qual se luta ferrenhamente através do aparato jurídico, policial e militar. Por mais que as esferas econômicas e culturais admitam divergências, guetos, subsistemas, modos de vida alternativos e outros arranjos singulares, as sociedades sempre continuarão fundadas ao redor da exigência de unidade, tal como insistia especialmente os autores da escola de Frankfurt, particularmente Theodor Adorno. Naquela pedagogia política incessantemente afirmada, o apelo democrático gravita ao redor do lema de respeitar as diferenças, mas sempre sob a égide de um bem comum que prima pela paz e pela ordem, sem a qual, como diz um lema positivista conhecido de todos nós, não há progresso. A pergunta é: o quanto de diferença em relação à ordem designada institucionalmente é possível acolher e sustentar dentro deste espaço de bem comum construído como coisa pública? — Aplicando-se essa questão à circunstância concreta desses protestos, tem-se uma outra: diante do fato de que o aumento das passagens em São Paulo foi não apenas adiado, mas também menor do que a inflação desde o último reajuste, é politicamente sensato e/ou legítimo fazer manifestações tão virulentas? 

“O protesto tem viés político”, diz o governador de São Paulo, Geraldo Alkmin. — Sim, mas não apenas um viés: ele é inteiramente político. Tem a ver com toda a pólis (= cidade, em grego), com todos os seus entraves à livre circulação da vida e até mesmo à sua subsistência. Somente uma brutal miopia política pode, sem má-fé, acreditar que o sentido motivacional dos protestos se restringe à recusa do aumento de vinte centavos nas passagens de ônibus. Não que isso, por si, não justificasse levantar a voz em conjunto para dizer “não queremos”, mas porque o desejo de política dessa gente não precisa apresentar uma “credencial” de objetivos racionalmente justificáveis para dizer que a situação de abandono, negligência e apropriação indevida do bem comum, tal como está, é injustificável. É bem sintomático desse estado de coisas que um político profissional use a palavra “política”, em um significado restrito e pejorativo, para desvalorizar um movimento cujo sentido consiste, em termos de sua inserção histórica, em questionar o aprisionamento de nossa visão do que seja fazer política como sendo movimentar sempre as mesmas peças nos mesmos tabuleiros. 

Por outro lado, tal como somos instados a acreditar que essa gente não sabe fazer política, do outro lado teríamos uma polícia que não sabe manter a ordem, que não está preparada para lidar com protestos dessa natureza, agindo com truculência, arbitrariedade e excessos. Será que os policiais também não aprenderam direito seu ofício nessa grande escola? — Não creio. Não se trata de um equívoco, nem de despreparo, nem de incapacidade. A polícia agiu tal como fez dentro de uma lógica estrita: demarcar com violência o espaço do protesto como violento, como anti-ordem, como não-política, como negação bárbara de uma racionalidade que supostamente se incorporaria no plano previamente traçado para um comportamento calmo e apascentado. No registro do comando político a que as ações policiais obedecem, “manter a ordem” não implica conservar um momento de paz nos limites traçados pela manifestação. Significa, acima de tudo, grafar com ferro em brasa na epiderme de todo o corpo político o estigma de que esse adensamento de vozes contrárias ao ordenamento político tradicional é uma insurreição contra nosso próprio desejo de vida em comum, que dependeria substancialmente de coexistência pacífica. Ora, essa repressão violenta quer fazer crer que o Estado é violento apenas nessas horas, como se ele, o tempo todo, não apertasse cada vez mais com um torniquete a circulação dos afetos que impulsionam a uma vida melhor. O furor dos protestos é um termômetro do quanto já sempre se percebe, calado, que o organismo político em que vivemos definha por inércia complacente. 

Tais reflexões, entretanto, não implicam em dizer que todas as ações nos protestos sejam igualmente legítimas. A grande questão reside o fato de que é impossível demarcar o espaço do que é ou não legítimo em um confronto cuja racionalidade consiste em romper a inércia de nossa percepção do que seja racional em política. Não é viável um julgamento de ética política nesses momentos, já pelo simples fato de que jamais se pode ter certeza que entre os manifestantes não haja pessoas designadas pelo poder constituído para incitar os excessos de vandalismo que descredenciam o movimento em sua totalidade. É precisamente nesses casos que a exigência de não subjugar a legitimidade política à moral ou à ética se torna importante. Só que é essa a estratégia preferida dos comentários críticos aos movimentos populares de ruptura. É como se os manifestantes, não tendo aprendido como fazer política, também se esqueceram de seus “conhecimentos” éticos. Ora, essa gente, na verdade, aprendeu uma outra lição de casa: é preciso gritar nas ruas.


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