“Se Deus não existe e a alma é mortal, tudo é permitido” —
esta frase, do personagem Ivan Karamazov, de Dostoievski, suscitou muito debate
e muitas formas de interpretação. A questão fundamental que ela mobiliza,
segundo penso, é o sentido moral, de foro íntimo, para o desejo de praticar
ações boas, eticamente responsáveis, de respeito ao semelhante etc. O “tudo é
permitido” não significa mais propriamente o que se vivencia na relação
concreta na vida em comum dos seres humanos, uma vez que com ou sem a existência
de Deus, a necessidade de ações éticas em um sentido utilitarista e pragmático
de preservação das condições mínimas de convivência pode fomentar, em larga
medida, o senso de que as ações éticas têm sua razão de ser. A “permissão”
invocada, então, seria relativa ao quanto faz sentido a percepção de um prazer
de agir moralmente, mesmo que façamos a abstração desse aspecto de
coexistência em sociedade, mas também, e esse é o ponto, sem um olhar divino
capaz de saber de nossas intenções mais profundas e, assim, de julgar o valor
das ações.
A interpretação mais imediata do que significa esse juízo
divino sobre as ações caminha na direção de dizer que ele garantiria um sentido
para a disposição íntima de agir moralmente pelo fato de colocar cada decisão
na polaridade de recompensa e punição. Pelo fato de sermos amados por
Deus, reconhecidos como seus filhos, habitemos o paraíso etc., por um lado, ou
o exato contrário disso, por outro, e considerando que ambos os aspectos
necessariamente são assumidos através de crença, de uma fé em uma realidade
transcendente que não pode ser demonstrada de forma decisiva, a conclusão é que
a inexistência tanto de Deus quanto do apelo a uma recompensa ou punição após a vida
retiraria o sentido e a razão de ser da adesão absolutamente voluntária a um
valor moral.
Um segundo momento de leitura dessa doação de sentido moral
através de Deus consiste em perceber que o mundo humano como criação divina
está ligado à sua origem como de um ser absolutamente bom. Independente do
desejo de recompensa e do medo de punição, a onipresença de Deus nas
disposições e ações moralmente relevantes estabelece um solo suficientemente
robusto para que todo ser e acontecer já esteja de antemão impregnado de
uma perspectiva ético-moral. Diante do caráter absoluto e sem falhas da
perspectiva de um Deus que está em todo lugar, tem-se uma garantia prévia que
não sofremos por um “vácuo” moral no mundo, que poderia ser preenchido por
arbitrariedades, artifícios e diversos sofismas capazes de submeter
astuciosamente os juízos morais a uma espécie de “política” dos valores.
Mesmo o religioso mais fanático, entretanto, é capaz de
concordar perfeitamente que é possível ser moral sem acreditar em Deus. O
grande problema é que é “apenas” possível. Faltaria ao ateu a vinculação prévia
a um mundo cuja substância moral já esteja embebida de uma substância de
valor. Diante disso, não somente se abre a evidente contingência e casualidade
para a decisão de agir moralmente — como se fosse algo fortuito —, quanto
também para o próprio valor que se dá à decisão de agir moralmente, uma vez que
ela não seria índice deste movimento de aproximação com o plano divino de
constituição ética da realidade. Isso significa que a ação moral do ateu seria
duplamente esvaziada: seria regida pelo acaso do arbítrio, da decisão em agir
ou não moralmente, e seu valor não ultrapassaria o âmbito propriamente humano
de sua apreciação. Nesse último caso, é quase como se a ação moral perdesse sua
sublimidade divina, decaindo a um plano de apreciação meramente estética.
Em vez de ser “boa”, passaria a ser tão-somente “bonita”.
O outro lado da questão é igualmente significativo e se liga
ao que a frase não diz, ou melhor, diz por omissão: a crença na existência de
Deus também não garante a prática de ações morais. O fato de Deus ser concebido
como infinito, perfeito e onipotente faz com que ele se mescle tão radicalmente
à consciência moral, que chega a se misturar também às motivações mais íntimas, e,
assim, não é em nada impossível que a percepção de que ele será capaz de
entender, bem como de perdoar, uma ação que infringe uma lei moral, acompanhe
continuamente diversos tipos de atitudes. Se, como bem sabemos a partir de
nossos juízos conscientes do valor ético e jurídico das ações, é sempre
necessário levar em conta as circunstâncias específicas do ato, as motivações
do agente, sua firmeza de determinação ao praticar um crime, os meios que
empregou etc., então isso tanto mais é considerado nesse julgamento íntimo em
que a consciência individual pode praticamente se fundir ao olhar divino. Desse modo,
não é de forma alguma contraditório com a concepção da existência de um Deus
moral uma complacência reiteradamente afirmada para com as vicissitudes humanas dos
mais variados delitos, dos mais banais aos mais graves.
Por fim, há que se considerar que, embora a crença na
existência de um Deus infinitamente bom garanta este plano moral absoluto do
mundo, não estabelece com igual certeza os meios para sua consecução na
realidade. Olhando em retrospecto, é mais do que evidente que muitas ações más
foram realizadas em nome da “bondade” de Deus. Sempre e de novo será uma tarefa
propriamente humana conceber e interpretar o que seriam os meios não
apenas permitidos, mas exigidos para a realização de um bem que supostamente
proviria de Deus.
Assim, a existência ou não de Deus tende a ser pouco
relevante para a concepção do que seja ou não “permitido” em uma quantidade
indefinida de circunstâncias.
Se você gostou dessa postagem,
Compartilhe em seu mural no Facebook. Compartilhar

Nenhum comentário:
Postar um comentário