Um espaço de discussão sobre Filosofia, Psicanálise, Arte, Política, Crítica cultural e Atualidades.

sábado, 8 de junho de 2013

O que nos permite?


“Se Deus não existe e a alma é mortal, tudo é permitido” — esta frase, do personagem Ivan Karamazov, de Dostoievski, suscitou muito debate e muitas formas de interpretação. A questão fundamental que ela mobiliza, segundo penso, é o sentido moral, de foro íntimo, para o desejo de praticar ações boas, eticamente responsáveis, de respeito ao semelhante etc. O “tudo é permitido” não significa mais propriamente o que se vivencia na relação concreta na vida em comum dos seres humanos, uma vez que com ou sem a existência de Deus, a necessidade de ações éticas em um sentido utilitarista e pragmático de preservação das condições mínimas de convivência pode fomentar, em larga medida, o senso de que as ações éticas têm sua razão de ser. A “permissão” invocada, então, seria relativa ao quanto faz sentido a percepção de um prazer de agir moralmente, mesmo que façamos a abstração desse aspecto de coexistência em sociedade, mas também, e esse é o ponto, sem um olhar divino capaz de saber de nossas intenções mais profundas e, assim, de julgar o valor das ações.

A interpretação mais imediata do que significa esse juízo divino sobre as ações caminha na direção de dizer que ele garantiria um sentido para a disposição  íntima de agir moralmente pelo fato de colocar cada decisão na polaridade de recompensa e punição. Pelo fato de sermos amados por Deus, reconhecidos como seus filhos, habitemos o paraíso etc., por um lado, ou o exato contrário disso, por outro, e considerando que ambos os aspectos necessariamente são assumidos através de crença, de uma fé em uma realidade transcendente que não pode ser demonstrada de forma decisiva, a conclusão é que a inexistência tanto de Deus quanto do apelo a uma recompensa ou punição após a vida retiraria o sentido e a razão de ser da adesão absolutamente voluntária a um valor moral.

Um segundo momento de leitura dessa doação de sentido moral através de Deus consiste em perceber que o mundo humano como criação divina está ligado à sua origem como de um ser absolutamente bom. Independente do desejo de recompensa e do medo de punição, a onipresença de Deus nas disposições e ações moralmente relevantes estabelece um solo suficientemente robusto para que todo ser e acontecer já esteja de antemão impregnado de uma perspectiva ético-moral. Diante do caráter absoluto e sem falhas da perspectiva de um Deus que está em todo lugar, tem-se uma garantia prévia que não sofremos por um “vácuo” moral no mundo, que poderia ser preenchido por arbitrariedades, artifícios e diversos sofismas capazes de submeter astuciosamente os juízos morais a uma espécie de “política” dos valores.

Mesmo o religioso mais fanático, entretanto, é capaz de concordar perfeitamente que é possível ser moral sem acreditar em Deus. O grande problema é que é “apenas” possível. Faltaria ao ateu a vinculação prévia a um mundo cuja substância moral já esteja embebida de uma substância de valor. Diante disso, não somente se abre a evidente contingência e casualidade para a decisão de agir moralmente — como se fosse algo fortuito —, quanto também para o próprio valor que se dá à decisão de agir moralmente, uma vez que ela não seria índice deste movimento de aproximação com o plano divino de constituição ética da realidade. Isso significa que a ação moral do ateu seria duplamente esvaziada: seria regida pelo acaso do arbítrio, da decisão em agir ou não moralmente, e seu valor não ultrapassaria o âmbito propriamente humano de sua apreciação. Nesse último caso, é quase como se a ação moral perdesse sua sublimidade divina, decaindo a um plano de apreciação meramente estética. Em vez de ser “boa”, passaria a ser tão-somente “bonita”.

O outro lado da questão é igualmente significativo e se liga ao que a frase não diz, ou melhor, diz por omissão: a crença na existência de Deus também não garante a prática de ações morais. O fato de Deus ser concebido como infinito, perfeito e onipotente faz com que ele se mescle tão radicalmente à consciência moral, que chega a se misturar também às motivações mais íntimas, e, assim, não é em nada impossível que a percepção de que ele será capaz de entender, bem como de perdoar, uma ação que infringe uma lei moral, acompanhe continuamente diversos tipos de atitudes. Se, como bem sabemos a partir de nossos juízos conscientes do valor ético e jurídico das ações, é sempre necessário levar em conta as circunstâncias específicas do ato, as motivações do agente, sua firmeza de determinação ao praticar um crime, os meios que empregou etc., então isso tanto mais é considerado nesse julgamento íntimo em que a consciência individual pode praticamente se fundir ao olhar divino. Desse modo, não é de forma alguma contraditório com a concepção da existência de um Deus moral uma complacência reiteradamente afirmada para com as vicissitudes humanas dos mais variados delitos, dos mais banais aos mais graves.

Por fim, há que se considerar que, embora a crença na existência de um Deus infinitamente bom garanta este plano moral absoluto do mundo, não estabelece com igual certeza os meios para sua consecução na realidade. Olhando em retrospecto, é mais do que evidente que muitas ações más foram realizadas em nome da “bondade” de Deus. Sempre e de novo será uma tarefa propriamente humana conceber e interpretar o que seriam os meios não apenas permitidos, mas exigidos para a realização de um bem que supostamente proviria de Deus.

Assim, a existência ou não de Deus tende a ser pouco relevante para a concepção do que seja ou não “permitido” em uma quantidade indefinida de circunstâncias.

Se você gostou dessa postagem,
Compartilhe em seu mural no Facebook. 

 Compartilhar

Nenhum comentário: