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domingo, 23 de junho de 2013

Vandalismo e "anos rebeldes"


Quero falar hoje, mais uma vez, sobre a onda de protestos que se alastra por todo o país. Dois pontos me interessam especialmente: sua origem, seu princípio motivacional mais específico, em termos de dinâmica política, sócio-econômica e cultural, e os rumos que este movimento pode adquirir a essa altura.

Boa quantidade de comentários que tenho lido coloca que tais protestos ocorrem apesar de o índice de desemprego ser baixíssimo, de a popularidade da presidente ser elevada, de ter havido ascensão sócio-econômica de milhões de pessoas na última década etc. Uma pesquisa feita no dia 19 e 20 de junho e publicada na revista Época expõe este quadro paradoxal de forma gritante: 75% da população apoiam os protestos, ao mesmo tempo em que 71% se dizem satisfeitos ou muito satisfeitos com as condições de vida atuais. De meu ponto de vista, não se tem aí uma contradição, mas sim um paradoxo no sentido próprio do termo, ou seja, uma contradição aparente, que precisa ser deslindada. Essa inclusão social, na medida em que realmente se efetivou, significa também o acesso a veículos formadores de opinião altamente subversivos à imagem incessantemente orquestrada pelo oligopólio dos meios de comunicação de massa. Por mais que esses antigos veículos ainda sejam bastante frequentados, perderam sua exclusividade reconfortante, e ninguém mais se ilude quanto ao poder das informações trocadas na rede mundial de computadores. Os movimentos da assim chamada primavera árabe, hoje está claro, não teriam o impulso e a velocidade de articulação que tiveram sem a facilitação dada pelas redes sociais, que servem não apenas para agendar encontros, debates e manifestações, mas também para trocar posicionamentos críticos sobre as condições políticas, econômicas e sociais.

Ao mesmo tempo em que favoreceu essa inclusão de uma grande massa de pessoas em um novo modelo de articulação de opinião pública, o progresso sócio-econômico desde 2003 também mostrou o quanto é efetivamente possível avançar através da mediação política no confronto entre trabalhadores e capitalistas. Tal como já falei em um texto anterior do blog, os movimentos de direita vivem, em grande medida, de certa taxa elevada de desilusão, de desencantamento por parte da população. Não é difícil perceber que movimentos radicais de direita obtêm votações expressivas em momentos de crise profunda, pois propõem medidas imediatas, de choque econômico, de restrição de direitos, de hostilidade a minorias éticas, a imigrantes etc. Nesse sentido, a eleição de Lula foi impulsionada, segundo penso, pela própria melhora sócio-econômica produzida pelo Plano Real implementado no governo Itamar Franco.

Se juntarmos estes dois elementos, formamos um dos polos essenciais das forças que se conjugaram para fazer eclodir esses protestos. O outro polo é a percepção que se tornou aguda do quanto todas as esferas de mediação da política representativa de gabinete, com seus conchavos, concessões de oportunidade, negligências deliberadas etc., se tornaram dolorosamente descompassadas, anacrônicas, atrasadas em relação a este movimento de progresso cultural e econômico de grande parte da população (produziu o que se chamaria em inglês um “political lag”). É como se tivéssemos colocado um motor de carro de corrida em um veículo barato, que desperdiça de forma dramática o que é gerado como impulsão para o progresso. As repetidas conduções de José Sarney para a presidência do senado, a eleição de Renan Calheiros para o mesmo cargo do qual foi deposto por crime de decoro parlamentar, todo o escândalo do mensalão, as sucessivas notícias relativas à malversação do dinheiro público e infinitas outras notícias eram percebidas sempre como algo muito indigesto, difícil de engolir por uma população que cada vez mais começava a perceber a dimensão arcaica de tudo isso. As várias denúncias de superfaturamento das obras para a Copa do Mundo foram aquele caldo final que estragou completamente o processo de digestão dos fatos políticos. A repressão violenta do Movimento do Passe Livre na cidade de São Paulo foi a gota ácida que fez gerar essa onda de refluxo que se multiplica pelo país afora.

Imagine o que seria, hoje, se o FMI tivesse que ser invocado na concessão de algum empréstimo, impondo diversas medidas recessivas e de cortes de benefícios sociais. Ora, todos os gastos mal aproveitados para viabilizar a Copa do Mundo geraram uma recusa análoga à que receberiam essas imposições do FMI. Ceder às exigências da FIFA funcionou, nesse contexto, como um atestado de super-arcaísmo para a esfera de mediação de política institucional, que não apenas parece não progredir no mesmo ritmo que o desenvolvimento sócio-econômico e cultural, quanto se mostrou um acinte ao desejo de emancipação política. Assim, muito do sentido de toda esta onda de protestos pode ser resumida na ideia de que “a esquerda é o povo”, tal como falado em alguns textos que circulam pela Internet. De fato, pode-se questionar o quanto o PSOL está à esquerda do PT ou se o PV está à direita etc., mas o que estaria mais à esquerda do que os próprios movimentos populares que se alastram sem a verticalidade das instituições políticas? Nesse sentido, é perfeitamente compreensível a hostilidade às bandeiras partidárias, por mais que não se justifique a violência contra seus membros. Se grande parte da população se desiludiu com os caminhos éticos trilhados pelo PT, não é de forma alguma incompreensível que uma grande parte dos manifestantes pense que o PT de hoje é o PSTU amanhã. Tudo isso explica, também, o fato de que é difícil encontrar uma pauta de reivindicações específica. Itens de negociação claros ocorrem, paradigmaticamente, em políticas de gabinete ou na relação entre patrão e empregado, como nas greves por melhores salários. Nesse momento, sente-se a necessidade de explicitação da ojeriza a todo o processo arcaico de mediação política institucionalizada, que engessa o progresso social, econômico e cultural.  

É a partir deste cenário de indistinção política que entra em jogo a questão dos rumos possíveis dos protestos. O que salta aos olhos é o quanto as polícias, tal como coloquei no texto da semana passada, querem produzir violência como meio de desacreditar todos os protestos. Não se trata apenas de repressão violenta, mas de incitação à violência como modo de exclusão das manifestações como sendo não-políticas, na medida em que consideramos, tradicionalmente, a violência como negação da política. Correlato a este aspecto, temos, por parte dos grandes meios de comunicação, uma outra forma de neutralização, a saber, a glamorização erótica e estética dos movimentos. Sintomaticamente, um vídeo produzido pela TV Folha traz diversas imagens belíssimas dos movimentos, com um fundo musical também lindíssimo executado por uma orquestra de cordas. Temos uma dupla anulação do sentido mais próprio que teriam as manifestações, pois estas são reduzidas à negação violenta da política ou à sua sublimação nos emblemas dos “anos rebeldes”, vividos sem lenço e sem documento.

Em relação ao primeiro aspecto, é necessário ter em mente algo específico: as polícias que reprimem os manifestantes são de responsabilidade dos governos estaduais, e tanto em São Paulo quanto em Minas Gerais, onde as ações policiais a atitude dos grupos violentos dentro dos protestos foi especialmente impactante, de verdadeira barbárie, os governadores são do PSDB, partido de oposição ao governo federal. É em função disso que os movimentos devem ser desacreditados e incitados pela truculência policial, pois continuam com seu rosto político desfigurado como tal. Um rosto que nem precisaria de uma pauta de reivindicações específicas para ter força, mas essa pauta se torna sempre mais difícil em virtude do fato de que a energia política dos protestos fica consumida pelo próprio desejo de anular a violência policial com mais ousadia. Outro aspecto bastante concreto é o fato de que, se vários relatos dos manifestantes são verídicos, as provocações à polícia partem de grupos de policiais infiltrados nos protestos.

Não é difícil perceber que quanto mais os governos estaduais “fizerem seu serviço” de desfigurar o aspecto progressivamente político dos movimentos, mais essa face toma uma feição difusa pelo país inteiro, fazendo convergir a ideia de que todos os protestos se dirigem à sede do poder político relativo ao país inteiro, ou seja, o governo federal, do PT. Essa é a dupla face da estratégia de apropriação dos movimentos por parte da direita política mais significativa em termos eleitorais. Tanto no vandalismo, quanto nos “anos rebeldes”, temos a construção de um sentido nacional para os protestos, e a feição nacionalista de vários grupos que fazem parte dos protestos alimenta essa cooptação pelo espectro mais à direita e reacionária no âmbito da política nacional — cooptação largamente favorecida pelo sentido apartidário dos protestos.

Como conclusão, eu diria que se o PT pretende se manter como a força política de esquerda progressista que se mostrou no âmbito sócio-econômico nos últimos dez anos, precisa dar uma resposta consistente ao sentimento generalizado de arcaísmo, descompasso e anacronismo das mediações políticas institucionalizadas. Para bem ou para mal, grande parte da população está exigindo um progresso nas instituições políticas proporcional ao que se verificou em outros planos da vida. A pergunta de para onde nos levarão tais movimentos será respondida pela força persuasiva com que o governo federal responderá a essa demanda.

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