Um espaço de discussão sobre Filosofia, Psicanálise, Arte, Política, Crítica cultural e Atualidades.

sábado, 13 de julho de 2013

Contra nós mesmos


Tal como já se observou algumas vezes, uma das falas mais usuais quando se comentam os protestos pelo Brasil é que tudo é muito confuso, que não se entende o que daria unidade a todas as manifestações, que parecem por demais difusas e excessivas. Por outro lado, a palavra de ordem nos comentários é “crise de representação”, com o que concordo, tal como formulei nas três últimas postagens, sob perspectivas distintas. O que proponho agora é uma reflexão conectando estes dois pontos, isto é, o não-saber, a incerteza, e os dois polos da representação: o que representa e o que é representado.

Tal como a psicanálise nos indica claramente, muitas vezes a incompreensão é o resultado, não de uma incapacidade de conhecer ou da dificuldade inerente ao objeto por ser assimilado, mas de um desejo de recusar o conhecimento. Desde seus primeiros escritos, Freud insistia em que a dimensão patológica da neurose consiste em em larga medida no esforço de manter inconscientes certas representações por demais indigestas e inadmissíveis para a auto-concepção do sujeito. Nesse sentido, a perspectiva de incongruência, do caráter difuso e caótico das manifestações seria índice do esforço de não saber, que se dirige a uma crise de representação não apenas da política institucionalizada — essa é a minha aposta —, mas também daquela que cada um de nós produz no espaço das trocas cotidianas de nossa “micro” política.

Uma das características do conflito psíquico inconsciente, ainda segundo Freud, é que ele produz efeitos de ruptura que desestabilizam, dividem violentamente o complexo geral do psiquismo. Essa clivagem se exprime precisamente na diferença dos significados afetivos de representações mais arcaicas e portanto profundas, e outras mais superficiais e recentes. Na medida em que estes estratos psíquicos ocupam um mesmo espaço representacional, é preciso muito esforço para torná-los compatíveis, e a neurose se define por um certo fracasso nessa tarefa. A força impactante dos protestos atuais, não apenas considerando sua violência literal, mas sua própria intensidade, quando vemos mais de um milhão de pessoas nas ruas do Rio de Janeiro, testemunha a existência de um conflito de representações pouco digerido, demonstrando o caráter inadmissível de uma força de protesto por assim dizer subterrânea.

Minha ideia é que muito do sentido desses protestos consiste em se dirigir à nossa própria inércia compassiva perante os diversos níveis de representação política. Estamos protestando contra nossa própria incapacidade de pensar politicamente de forma consistente e progressiva. Estamos reivindicando ser menos boçais como atores políticos para a construção de um espaço de cidadania minimamente decente. Protestamos contra nossa estupidez de votar em políticos calhordas, contra nosso gozo masoquista de eleger políticos com quilos de processos por corrupção em seu currículo. Estamos dizendo que cansamos de carregar o peso da verdade de que tudo de ruim que vemos na política institucionalizada reflete nossas corrupções cotidianas e, por isso, “normais”.

É necessário muito esforço de negligência para pensar que o eleitor de Paulo Maluf não está querendo sancionar a legitimidade de sua própria corrupção com seu voto. Eleger não apenas este, mas outros políticos já julgados e condenados mais de uma vez em diversas instâncias jurídicas, significa conceder suficiente visibilidade, se não para a desonestidade nua e crua, pelo menos para a suficiente maleabilidade moral que sirva como solo para fazer frutificar a irresponsabilidade política como testemunho de um bom senso de adaptação predatória às agruras da vida capitalista. Como se pode ver, realmente trata-se de uma crise de representação, mas, agora, considerada em termos de uma contradição mais íntima e interna.

Protesta-se, também, contra o fato de que sabemos que este protesto virulento, explícito e fulgurante é por demais impotente por si só. Estamos nos manifestando contra o fato de que esses milhares e milhões de pessoas irão votar de forma absolutamente irresponsável nas próximas eleições. Sim, é algo contraditório, e é por isso mesmo que tais manifestações têm a força que têm, ou seja, porque exprimem afetos muito pouco assimiláveis à lógica consciente. Estamos protestando porque nossa política do dia-a-dia está abandonada e concentrada neste soco errático desferido com os olhos vendados para a racionalidade cotidiana da política. Protestamos contra o fato de que só sabemos, nesse momento, protestar assim.

Ora, mas, tal como muitos sintomas neuróticos produzem um ganho para a vida da pessoa — que Freud chamou a de que ganho secundário, ou seja, como quando alguém que é viciado em trabalhar ganha muito dinheiro com este seu comportamento obsessivo —, esta explosão conflituosa dos protestos gerou seus efeitos positivos. Diversas passagens de ônibus pelo país tiveram seus preços reduzidos, projetos polêmicos foram rejeitados no Congresso Nacional, medidas de melhoria do sistema viário urbano foram tomadas etc. Só que houve, também, um outro tipo de efeito, analisável sob esse registro da auto-representação: as assembleias horizontais populares, bem como as ocupações das câmaras municipais em diversas cidades. É como se não apenas os políticos profissionais, mas as próprias pessoas que gritam estejam ouvindo “a voz das ruas”. — Se, diante de várias medidas progressistas das instituições políticas cabe a pergunta de por quanto tempo os políticos profissionais ouvirão o que os protestos estão dizendo, cabe também a pergunta de por quanto tempo o povo também o fará.

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sábado, 6 de julho de 2013

O estigma da alegria


Continuando nossas reflexões sobre os protestos que eclodiram no Brasil no mês de junho, quero focalizar hoje a questão do valor simbólico e de senso de individualidade colocada em jogo tanto na apropriação imagética e discursiva desses movimentos pelos meios de comunicação, quanto também por análises independentes feitas por acadêmicos. Considerando o enorme poder de fogo de uma rede de televisão como a Globo, é extremamente importante, ao analisarmos o significado político de tais manifestações, compreendermos o melhor possível suas opções de articulação imagética para plasmar não apenas eventos específicos, mas também de inseri-los em uma narrativa constante, que se afirma reiteradamente ao longo de décadas de movimentos sociais contestatórios. Para além da evidente manipulação das imagens, que produz distorções objetivamente verificáveis em relação aos fatos no sentido mais evidente, importa considerar a dimensão por assim dizer “pedagógica” política, ao se produzir, reproduzir e enrijecer certa mentalidade nos públicos das classes baixas e médias.

Comecemos pela perspectiva geral de que toda a cultura de massa se pauta integralmente pelo princípio da venda, só que não no sentido restrito, comercial, do termo, pois abrange a significação mais ampla de aquisição de modos de percepção de mundo, de configuração simbólica de modos de agir, de absorção de modelos de sexualidade, de aceitação de paradigmas de afeição familiar, de delineamento da finalidade da vida em termos de felicidade, de aprendizado de modelos linguísticos de veiculação de ideias — e uma infinidade de outras coisas que são apresentadas como espetáculo e “consumidas” como um bem, uma preciosidade, algo que facilita a condução da existência etc. No que concerne mais especificamente às questões políticas, vende-se um modo de conceber a própria vida, no sentido de uma opção para fazer a si mesmo como indivíduo, no horizonte inercial do que significa ser feliz. Uma vez que consideramos que este último significado é lido essencialmente pela capacidade aquisitiva, de acúmulo de bens e serviços capazes de conferir status e posicionamento cultural distintivo, a figura do manifestante, do grevista e de quem, em geral, protesta contra uma situação social e política estabelecida deverá ser explicitada, inicialmente, como contrariando a percepção de ser feliz. Indo direto ao ponto, pode-se dizer que a “mensagem” a ser assimilada é de que quem protesta está com raiva, sofre, é um prejudicado, passa por necessidade etc. No primeiro discurso de Arnaldo Jabor no Jornal Nacional, que teve uma péssima repercussão, tendo sido rejeitado pelo próprio autor 48h depois, esse aspecto ficou claro, quando uma das afirmações depreciativas dos manifestantes foi de que eles não seriam de classe baixa, mas sim “filhinhos de papai”, como se só se justificasse protestar quando a própria pessoa tenha uma condição miserável, necessitada etc.

Não se trata, nesse relato ideológico, apenas de estigmatizar quem protesta como “um infeliz”, mas também como aquele que contraria o princípio de que a felicidade consiste na absorção dos frutos que a sociedade atual já é capaz de gerar, a saber, os bens de consumo. Nesse sentido, a felicidade fica sempre reafirmada como se situando no lado da aceitação passiva do status quo, de modo que ser feliz significa já estar contente com o grau de progresso rumo ao bem-estar que as mercadorias podem produzir e oferecer. Creio que seja em virtude disso que começa a existir uma leitura por assim dizer moralista dos protestos, que, mesmo de forma sutil, tendem a desacreditá-los quando percebem neles algo da ordem de um entusiasmo e alegria de afirmação de si neste espaço de construção de cidadania. Em cerca de três a cinco textos que li sobre este contexto atual, um dos argumentos de descrédito das manifestações passou pela caracterização delas como carnavalescas, de encontro juvenil alegre, contrariando, portanto, algum paradigma prévio de que um protesto contra injustiças políticas, econômicas e sociais deve ser sóbrio, responsável e/ou sério, circunspecto, de modo a se demonstrar alguma espécie de maturidade política. Mais uma vez, a alegria é tomada como um ingrediente estranho, comprometedor deste posicionamento ativo de contrariedade das mazelas do sistema.

A referência ao carnaval é, de fato, importante. Como todos aqueles que participam de blocos independentes e das festas de rua sabem muito bem, não se celebra apenas um momento de transgressão, mas também de afronta a certa mentalidade do que seja normal, saudável e, portanto, legítimo socialmente. Em virtude disso, pode-se dizer da existência de um sentido de protesto neste gozo da transgressão, como se esta quisesse afirmar sua legitimidade para além deste momento específico. No entanto, de forma análoga a como o manifestante é estigmatizado como infeliz e raivoso, o carnavalesco irreverente será tomado como alguém que não quer fazer progredir, mas apenas transgredir. — Em ambos os casos, a dimensão construtiva da alegria transgressora é recalcada, é feita passar por um filtro que a isola do contexto cotidiano, de modo a não abalar a percepção de mundo de que ser feliz não passa por experimentar a alegria de afirmar a própria vida para além da absorção passiva do que a sociedade nos vende como ícones de sua realização suprema.

Uma consequência imediata dessa construção ideológica é a concepção de que não faz muito sentido protestar quando a vida é boa. Afinal, a violência do protesto somente parece fazer sentido quando experimentamos um grau significativo de violência praticado pelo próprio sistema, o que apenas poderia ser aferido nos momentos mais críticos de infelicidade, de pobreza, de precariedade de vida etc. Ora, bastante ao contrário, faz todo sentido protestar estando em uma condição boa, em virtude do fato de que esta poderia ser bem melhor, mas não o é pelo fato de os frutos do progresso serem distribuídos de forma por demais desigual. A voz de protesto nesses momentos tem um sentido de filosofia da história e de crítica geral ao capitalismo de suma importância: este sistema se nutre em larga medida da estratégia onipresente de distribuir homeopaticamente migalhas de progresso econômico e social, de modo a conseguir manter relações de poder e de disparidades econômicas avassaladoras. Por mais que os programas de distribuição de renda direta sejam necessários e contribuam para um nível mínimo de justiça social, eles não podem se converter em uma cooptação financista das consciências para manutenção do status quo, do mesmo modo que o progresso sócio-econômico das classes médias não deve ser um quietismo para sua consciência de que a distribuição de renda ainda é absurdamente injusta. — Assim, a melhora das condições sócio-econômicas deve ser um fator que impulsione a consciência de que o enfrentamento da inércia do sistema se nutre de uma alegria e de um desejo de tornar a vida não apenas boa, mas proporcionalmente boa à massa de valores gerados pelo trabalho de todos.

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