Continuando nossas reflexões sobre os protestos que
eclodiram no Brasil no mês de junho, quero focalizar hoje a questão do valor
simbólico e de senso de individualidade colocada em jogo tanto na apropriação
imagética e discursiva desses movimentos pelos meios de comunicação, quanto
também por análises independentes feitas por acadêmicos. Considerando o enorme
poder de fogo de uma rede de televisão como a Globo, é extremamente importante,
ao analisarmos o significado político de tais manifestações, compreendermos o
melhor possível suas opções de articulação imagética para plasmar não apenas
eventos específicos, mas também de inseri-los em uma narrativa constante, que
se afirma reiteradamente ao longo de décadas de movimentos sociais
contestatórios. Para além da evidente manipulação das imagens, que produz
distorções objetivamente verificáveis em relação aos fatos no sentido mais
evidente, importa considerar a dimensão por assim dizer “pedagógica” política,
ao se produzir, reproduzir e enrijecer certa mentalidade nos públicos das
classes baixas e médias.
Comecemos pela perspectiva geral de que toda a cultura de
massa se pauta integralmente pelo princípio da venda, só que não no
sentido restrito, comercial, do termo, pois abrange a significação mais ampla
de aquisição de modos de percepção de mundo, de configuração simbólica de modos
de agir, de absorção de modelos de sexualidade, de aceitação de paradigmas de
afeição familiar, de delineamento da finalidade da vida em termos de
felicidade, de aprendizado de modelos linguísticos de veiculação de ideias — e
uma infinidade de outras coisas que são apresentadas como espetáculo e “consumidas”
como um bem, uma preciosidade, algo que facilita a condução da existência etc.
No que concerne mais especificamente às questões políticas, vende-se um modo de
conceber a própria vida, no sentido de uma opção para fazer a si mesmo como
indivíduo, no horizonte inercial do que significa ser feliz. Uma vez que
consideramos que este último significado é lido essencialmente pela capacidade
aquisitiva, de acúmulo de bens e serviços capazes de conferir status e
posicionamento cultural distintivo, a figura do manifestante, do grevista e de
quem, em geral, protesta contra uma situação social e política estabelecida
deverá ser explicitada, inicialmente, como contrariando a percepção de ser
feliz. Indo direto ao ponto, pode-se dizer que a “mensagem” a ser assimilada é
de que quem protesta está com raiva, sofre, é um prejudicado, passa por
necessidade etc. No primeiro discurso de Arnaldo Jabor no Jornal Nacional, que
teve uma péssima repercussão, tendo sido rejeitado pelo próprio autor 48h
depois, esse aspecto ficou claro, quando uma das afirmações depreciativas dos
manifestantes foi de que eles não seriam de classe baixa, mas sim “filhinhos de
papai”, como se só se justificasse protestar quando a própria pessoa tenha uma
condição miserável, necessitada etc.
Não se trata, nesse relato ideológico, apenas de
estigmatizar quem protesta como “um infeliz”, mas também como aquele que
contraria o princípio de que a felicidade consiste na absorção dos
frutos que a sociedade atual já é capaz de gerar, a saber, os bens de consumo.
Nesse sentido, a felicidade fica sempre reafirmada como se situando no lado da
aceitação passiva do status quo, de modo que ser feliz significa já
estar contente com o grau de progresso rumo ao bem-estar que as mercadorias
podem produzir e oferecer. Creio que seja em virtude disso que começa a existir
uma leitura por assim dizer moralista dos protestos, que, mesmo de forma sutil,
tendem a desacreditá-los quando percebem neles algo da ordem de um entusiasmo e
alegria de afirmação de si neste espaço de construção de cidadania. Em cerca de
três a cinco textos que li sobre este contexto atual, um dos argumentos de
descrédito das manifestações passou pela caracterização delas como carnavalescas,
de encontro juvenil alegre, contrariando, portanto, algum paradigma prévio de
que um protesto contra injustiças políticas, econômicas e sociais deve ser
sóbrio, responsável e/ou sério, circunspecto, de modo a se demonstrar alguma
espécie de maturidade política. Mais uma vez, a alegria é tomada como um
ingrediente estranho, comprometedor deste posicionamento ativo de contrariedade
das mazelas do sistema.
A referência ao carnaval é, de fato, importante. Como todos
aqueles que participam de blocos independentes e das festas de rua sabem muito
bem, não se celebra apenas um momento de transgressão, mas também de afronta
a certa mentalidade do que seja normal, saudável e, portanto, legítimo
socialmente. Em virtude disso, pode-se dizer da existência de um sentido de
protesto neste gozo da transgressão, como se esta quisesse afirmar sua
legitimidade para além deste momento específico. No entanto, de forma análoga a
como o manifestante é estigmatizado como infeliz e raivoso, o carnavalesco
irreverente será tomado como alguém que não quer fazer progredir, mas
apenas transgredir. — Em ambos os casos, a dimensão construtiva da
alegria transgressora é recalcada, é feita passar por um filtro que a isola do
contexto cotidiano, de modo a não abalar a percepção de mundo de que ser feliz não
passa por experimentar a alegria de afirmar a própria vida para além da
absorção passiva do que a sociedade nos vende como ícones de sua realização
suprema.
Uma consequência imediata dessa construção ideológica é a
concepção de que não faz muito sentido protestar quando a vida é boa. Afinal, a
violência do protesto somente parece fazer sentido quando experimentamos um
grau significativo de violência praticado pelo próprio sistema, o que apenas
poderia ser aferido nos momentos mais críticos de infelicidade, de pobreza, de
precariedade de vida etc. Ora, bastante ao contrário, faz todo sentido
protestar estando em uma condição boa, em virtude do fato de que esta poderia
ser bem melhor, mas não o é pelo fato de os frutos do progresso serem
distribuídos de forma por demais desigual. A voz de protesto nesses momentos
tem um sentido de filosofia da história e de crítica geral ao capitalismo de
suma importância: este sistema se nutre em larga medida da estratégia
onipresente de distribuir homeopaticamente migalhas de progresso econômico e
social, de modo a conseguir manter relações de poder e de disparidades
econômicas avassaladoras. Por mais que os programas de distribuição de renda
direta sejam necessários e contribuam para um nível mínimo de justiça social,
eles não podem se converter em uma cooptação financista das consciências para
manutenção do status quo, do mesmo modo que o progresso sócio-econômico
das classes médias não deve ser um quietismo para sua consciência de que a
distribuição de renda ainda é absurdamente injusta. — Assim, a melhora das
condições sócio-econômicas deve ser um fator que impulsione a consciência de
que o enfrentamento da inércia do sistema se nutre de uma alegria e de um
desejo de tornar a vida não apenas boa, mas proporcionalmente boa à massa de
valores gerados pelo trabalho de todos.
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