Um espaço de discussão sobre Filosofia, Psicanálise, Arte, Política, Crítica cultural e Atualidades.

sábado, 6 de julho de 2013

O estigma da alegria


Continuando nossas reflexões sobre os protestos que eclodiram no Brasil no mês de junho, quero focalizar hoje a questão do valor simbólico e de senso de individualidade colocada em jogo tanto na apropriação imagética e discursiva desses movimentos pelos meios de comunicação, quanto também por análises independentes feitas por acadêmicos. Considerando o enorme poder de fogo de uma rede de televisão como a Globo, é extremamente importante, ao analisarmos o significado político de tais manifestações, compreendermos o melhor possível suas opções de articulação imagética para plasmar não apenas eventos específicos, mas também de inseri-los em uma narrativa constante, que se afirma reiteradamente ao longo de décadas de movimentos sociais contestatórios. Para além da evidente manipulação das imagens, que produz distorções objetivamente verificáveis em relação aos fatos no sentido mais evidente, importa considerar a dimensão por assim dizer “pedagógica” política, ao se produzir, reproduzir e enrijecer certa mentalidade nos públicos das classes baixas e médias.

Comecemos pela perspectiva geral de que toda a cultura de massa se pauta integralmente pelo princípio da venda, só que não no sentido restrito, comercial, do termo, pois abrange a significação mais ampla de aquisição de modos de percepção de mundo, de configuração simbólica de modos de agir, de absorção de modelos de sexualidade, de aceitação de paradigmas de afeição familiar, de delineamento da finalidade da vida em termos de felicidade, de aprendizado de modelos linguísticos de veiculação de ideias — e uma infinidade de outras coisas que são apresentadas como espetáculo e “consumidas” como um bem, uma preciosidade, algo que facilita a condução da existência etc. No que concerne mais especificamente às questões políticas, vende-se um modo de conceber a própria vida, no sentido de uma opção para fazer a si mesmo como indivíduo, no horizonte inercial do que significa ser feliz. Uma vez que consideramos que este último significado é lido essencialmente pela capacidade aquisitiva, de acúmulo de bens e serviços capazes de conferir status e posicionamento cultural distintivo, a figura do manifestante, do grevista e de quem, em geral, protesta contra uma situação social e política estabelecida deverá ser explicitada, inicialmente, como contrariando a percepção de ser feliz. Indo direto ao ponto, pode-se dizer que a “mensagem” a ser assimilada é de que quem protesta está com raiva, sofre, é um prejudicado, passa por necessidade etc. No primeiro discurso de Arnaldo Jabor no Jornal Nacional, que teve uma péssima repercussão, tendo sido rejeitado pelo próprio autor 48h depois, esse aspecto ficou claro, quando uma das afirmações depreciativas dos manifestantes foi de que eles não seriam de classe baixa, mas sim “filhinhos de papai”, como se só se justificasse protestar quando a própria pessoa tenha uma condição miserável, necessitada etc.

Não se trata, nesse relato ideológico, apenas de estigmatizar quem protesta como “um infeliz”, mas também como aquele que contraria o princípio de que a felicidade consiste na absorção dos frutos que a sociedade atual já é capaz de gerar, a saber, os bens de consumo. Nesse sentido, a felicidade fica sempre reafirmada como se situando no lado da aceitação passiva do status quo, de modo que ser feliz significa já estar contente com o grau de progresso rumo ao bem-estar que as mercadorias podem produzir e oferecer. Creio que seja em virtude disso que começa a existir uma leitura por assim dizer moralista dos protestos, que, mesmo de forma sutil, tendem a desacreditá-los quando percebem neles algo da ordem de um entusiasmo e alegria de afirmação de si neste espaço de construção de cidadania. Em cerca de três a cinco textos que li sobre este contexto atual, um dos argumentos de descrédito das manifestações passou pela caracterização delas como carnavalescas, de encontro juvenil alegre, contrariando, portanto, algum paradigma prévio de que um protesto contra injustiças políticas, econômicas e sociais deve ser sóbrio, responsável e/ou sério, circunspecto, de modo a se demonstrar alguma espécie de maturidade política. Mais uma vez, a alegria é tomada como um ingrediente estranho, comprometedor deste posicionamento ativo de contrariedade das mazelas do sistema.

A referência ao carnaval é, de fato, importante. Como todos aqueles que participam de blocos independentes e das festas de rua sabem muito bem, não se celebra apenas um momento de transgressão, mas também de afronta a certa mentalidade do que seja normal, saudável e, portanto, legítimo socialmente. Em virtude disso, pode-se dizer da existência de um sentido de protesto neste gozo da transgressão, como se esta quisesse afirmar sua legitimidade para além deste momento específico. No entanto, de forma análoga a como o manifestante é estigmatizado como infeliz e raivoso, o carnavalesco irreverente será tomado como alguém que não quer fazer progredir, mas apenas transgredir. — Em ambos os casos, a dimensão construtiva da alegria transgressora é recalcada, é feita passar por um filtro que a isola do contexto cotidiano, de modo a não abalar a percepção de mundo de que ser feliz não passa por experimentar a alegria de afirmar a própria vida para além da absorção passiva do que a sociedade nos vende como ícones de sua realização suprema.

Uma consequência imediata dessa construção ideológica é a concepção de que não faz muito sentido protestar quando a vida é boa. Afinal, a violência do protesto somente parece fazer sentido quando experimentamos um grau significativo de violência praticado pelo próprio sistema, o que apenas poderia ser aferido nos momentos mais críticos de infelicidade, de pobreza, de precariedade de vida etc. Ora, bastante ao contrário, faz todo sentido protestar estando em uma condição boa, em virtude do fato de que esta poderia ser bem melhor, mas não o é pelo fato de os frutos do progresso serem distribuídos de forma por demais desigual. A voz de protesto nesses momentos tem um sentido de filosofia da história e de crítica geral ao capitalismo de suma importância: este sistema se nutre em larga medida da estratégia onipresente de distribuir homeopaticamente migalhas de progresso econômico e social, de modo a conseguir manter relações de poder e de disparidades econômicas avassaladoras. Por mais que os programas de distribuição de renda direta sejam necessários e contribuam para um nível mínimo de justiça social, eles não podem se converter em uma cooptação financista das consciências para manutenção do status quo, do mesmo modo que o progresso sócio-econômico das classes médias não deve ser um quietismo para sua consciência de que a distribuição de renda ainda é absurdamente injusta. — Assim, a melhora das condições sócio-econômicas deve ser um fator que impulsione a consciência de que o enfrentamento da inércia do sistema se nutre de uma alegria e de um desejo de tornar a vida não apenas boa, mas proporcionalmente boa à massa de valores gerados pelo trabalho de todos.

Se você gostou dessa postagem,
compartilhe em seu mural no Facebook.

Compartilhar

Nenhum comentário: